Brasil, 100 anos olímpicos - Pequim 2008 - Surto Olimpico

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Brasil, 100 anos olímpicos - Pequim 2008

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Em uma Olimpíada que viu a emergente nação da China gastar rios de dinheiro, elevando todos os patamares de organização e grandiosidade, o Brasil foi aos jogos com a maior delegação da sua história com quase trezentos atletas, fruto do primeiro ciclo completo com os recursos da Lei Piva sendo usados para o esporte. O resultado de medalhas foi bom, mas não foi tão imponente como antecipado. Apesar de ter sido o segundo melhor resultado do Brasil em olimpíadas, esperava-se mais da grandiosa delegação brasileira em Pequim - 277 atletas em 32 modalidades, outro recorde.
As três medalhas de ouro do Brasil em Pequim foram conquistadas por atletas/seleções que não eram consideradas grandes favoritos antes dos jogos. A seleção de vôlei feminino comandada por José Roberto Guimarães é um desses casos. 

Após a fama de ‘amarelonas’ que seguiu a seleção devido à semifinal de Atenas 2004 – além das derrotas para as russas novamente na final do Mundial de 2006 e para as cubanas em casa no Pan de 2007 -, o grupo comandado por Zé Roberto Guimarães fez uma Olimpíada impecável: Fofão, Paula Pequeno, Mari, Sheilla e cia. derrubavam as adversárias uma a uma e levaram o ouro perdendo apenas um set em toda a competição: na final contra os Estados Unidos (15–25, 25–18, 13–25, 21–25).

Foi uma das atuações mais impressionantes do Brasil em Olimpíadas, que foi a primeira medalha de ouro das brasileiras em esportes coletivos. E com dois bronzes e um ouro, Fofão tornou-se a brasileira com mais medalhas olímpicas na história.

(foto: CBAt)

E Pequim ainda reservaria mais grandes momentos para as mulheres, com o primeiro ouro de uma brasileira em esportes individuais. Maurren Maggi foi para Pequim sem ser uma das favoritas no salto em distância, mas na qualificação ela fez a segunda melhor marca com 6,79m. Na final, logo no primeiro salto, Maurren fez 7,04m, marca inatingível, com no máximo Tatyana Lebedeva (RUS) assustando o Brasil inteiro ao fazer 7,03m na última tentativa. Anos depois, a russa teve a medalha cassada em uma reanálise de um exame antidoping de Pequim. Maurren, que ficou de fora dos jogos de Atenas quando era uma das favoritas por conta de uma suspensão por doping, garantiu o inédito ouro do Brasil no salto em distância feminino.

(foto:Site Cesar Cielo)
O terceiro ouro veio com o jovem nadador velocista Cesar Cielo. Sexto lugar no Mundial de Esportes Aquáticos de 2007, o paulista era cotado na briga pelo pódio, mas quebrou o recorde olímpico duas vezes antes de chegar na final e ganhar com o tempo de 21s30, novo recorde olímpico, e em uma vantagem 0s15 para o medalhista de prata Amaury Leveux (FRA), uma eternidade em provas de velocidade. Essa foi a primeira - e única até o momento - medalha de ouro do Brasil na natação e Cielo ainda conseguiria a medalha de bronze nos 100m livre dois dias antes do ouro, ao chegar empatado com Jason Lezak (USA) com o tempo 47s67. Cielo igualou Gustavo Borges, como os dois únicos brasileiros que conquistaram duas medalhas em uma mesma olimpíada até então.

A hegemônica seleção de vôlei masculina vinha em busca do bi olímpico, mesmo com a ausência do genial levantador Ricardinho, que se desentendeu com Bernardinho às vésperas do Pan do Rio de 2007 em um episódio que até hoje nunca foi totalmente esclarecido. Mesmo sem a dominância de Atenas, o time comandado por Bernardinho chegava a mais uma final olímpica contra os Estados Unidos. Mas a sonhada revanche de Los Angeles 1984 não aconteceu, pois os americanos venceram com certa tranquilidade por 3 sets a 1 (20–25, 25–22, 25–21, 25–23) e mostraram que assim como em 84, as armas do Brasil foram muito bem estudadas e anuladas. E que Ricardinho acabou fazendo falta.

No vôlei de praia, as medalhas vieram apenas no masculino. A mítica dupla Ricardo e Emanuel teve um duelo particular com Márcio Araújo e Fábio Luiz na semifinal, que mesmo sem serem favoritos ao ouro fizeram uma grande partida e venceram os campeões olímpicos de Atenas por inapeláveis 2 sets a 0 (22/20 e 21/18).

(Foto: Fabio Barria/AP)

Marcio e Fábio fizeram um confronto duríssimo, mas foram derrotados por Daulhausser e Rodgers (USA) por 2 sets a 1 (20/22, 21/17 e 4/15) e ficaram com a prata. Já Ricardo e Emanuel venceram a dupla Gior e Gia (os brasileiros Renato e Jorge que se naturalizaram georgianos e usaram esses nomes super originais) por 2 sets a 0 (21/15 e 21/10) e ficaram com o bronze, que acabou sendo a despedida de uma das parcerias mais vitoriosas do esporte brasileiro.

A seleção de futebol feminino, com Marta e Cristiane mais experientes e Vice Mundial em 2007, fez uma grande competição em Pequim e chegou a mais uma final olímpica, mais uma vez contra os Estados Unidos, na tão sonhada revanche de Atenas. Em um jogo duríssimo, o Brasil levou o jogo para a prorrogação, mas Carli Lloyd fez o gol que garantiu o tri olímpico dos Estados Unidos e mais uma prata para o Brasil, a última do futebol feminino brasileiro. De consolação, Cristiane novamente foi a artilheira da competição com 5 gols.

(foto:EFE)

O futebol masculino também medalhou em Pequim, na primeira e única vez em que os dois naipes do futebol conquistaram medalhas em uma mesma Olimpíada. Liderados por Ronaldinho Gaúcho no campo e pelo capitão do tetracampeonato mundial e prata em Los Angeles-84 Dunga, no banco de reservas, a seleção brasileira exorcizou o fantasma camaronês de Sydney vencendo os africanos na prorrogação nas quartas de final por 2 a 0, se vingando de Sydney 2000.

Mas nas semifinais, o Brasil não foi páreo para a campeã olímpica de Atenas-2004 Argentina, que com Lionel Messi, Sergio Aguero, Riquelme, Di Maria e cia, atropelou o Brasil por 3 a 0 - dois de Aguero e um de Riquelme. Restou à seleção brasileira derrotar a Bélgica na disputa do Bronze por 3 a 0, gols de Diego Ribas e Jô (2). A imagem de Ronaldinho Gaúcho rindo e atendendo o celular em pleno pódio olímpico foi mais outra gafe cometida pelo futebol brasileiro em um pódio olímpico – a primeira tinha sido em 96, quando a seleção não participou do pódio.

A vela brasileira foi para Pequim sem Torben Grael, não trouxe o ouro, mas manteve sua rotina de medalhas: Robert Scheidt iniciou uma parceria com Bruno Prada e foi para famosa classe star, onde terminou com a medalha de prata, após um início bem irregular da dupla que foi melhorando durante as regatas. Essa foi a quarta medalha olímpica da carreira de Scheidt, que foi o primeiro brasileiro a conquistar medalhas em quatro olimpíadas seguidas.

foto: Wander Roberto/COB

A outra medalha da vela foi inédita: Fernanda Oliveira e Isabel Swan  foram bronze na classe 470, primeira medalha da vela feminina do Brasil em olimpíadas. Medalha que foi muito comemorada já que Fernanda e Isabel não eram cotadas ao pódio e fizeram uma grande atuação nas águas de Quingdao, onde foram disputadas as regatas olímpicas, vencendo a regata da medalha para garantir o bronze.

foto: Ivo Gonzalez/Acervo o Globo

O judô foi outro esporte que manteve a sina de medalhas para o Brasil e dessa vez foram três medalhas de bronze. A judoca Ketleyn Quadros fez história e deu a primeira medalha de uma brasileira em esportes individuais - onze dias antes do ouro de Maurren Maggi - e a primeira do judô feminino brasileiro ao derrotar Maria Peckli (AUS) na categoria até 57kg.


Leandro Guilheiro conquistou o seu segundo bronze na categoria até 73kg derrotando Ali Maloumat (IRI) no confronto decisivo; Tiago Camilo também conquistou sua segunda medalha olímpica: outro bronze vencendo Ricaldo Elmont (NED). Os dois igualaram Aurélio Miguel em quantidade de medalhas olímpicas conquistadas.

Natália Falavigna, após bater na trave em Atenas, conseguiu a sonhada medalha olímpica no Taekwondo na categoria acima de 67kg. Ao contrário de 2004, Natália admitiu em entrevistas que não se deixou abater bastante pela derrota na semifinal para Nina Solheim (NOR) e assim poder vencer Karolina Kedzierska (SWE) por 5 a 2 e ganhar o bronze, a primeira medalha olímpica do taekwondo brasileiro.

(Foto: AP)

As últimas medalhas conquistadas pelo Brasil em Pequim levaram anos para serem conquistadas. Os dois revezamentos (masculino e feminino) 4x100m do atletismo terminaram em quarto lugar em Pequim. Oito anos depois de Pequim, o revezamento da Rússia, que levou ouro no feminino, foi desqualificado por conta do doping de Yulia Chermoshankaya (RUS), descoberto em uma reanálise de amostra de urina guardada, promovendo Lucimar Moura, Thaisa Presti, Rosemar Coelho e Rosângela Santos ao bronze, a primeira de um revezamento feminino brasileiro na história olímpica. A conquista também fez Rosângela se tornar a medalhista olímpica brasileira mais nova da história, com 17 anos e 247 dias.

E dez anos depois dos Jogos de 2008, Nesta Carter (JAM) também foi pego com substâncias proibidas em uma reanálise de urina da época e com isso, os jamaicanos perderam o ouro no revezamento. Os brasileiros Sandro Viana, Bruno Lins, José Carlos ‘Codó’ Moreira e Vicente Lenílson herdaram o bronze e deixando a participação de Pequim como a segunda com mais medalhas na história do Brasil em Olimpíadas - a olimpíada com mais bronzes conquistados na história.

Na trave!

Após atuações apagadas, os boxeadores brasileiros foram bem em Pequim e quase conquistaram medalhas. Paulo  Carvalho, na categoria mosca-ligeiro, foi derrotado por Yampier Hernandéz (CUB) e Washington Silva, no peso pesado, também caiu nas quartas de final pra Kenny Egan (IRL). Os dois ficaram a uma luta da medalha olímpica. O jejum de medalhas no boxe ainda duraria mais quatro anos.

Rodrigo Pessoa estreou nova montaria em Pequim, o cavalo Rufus. No desempate pelo bronze, Rodrigo zerou o percurso, mas por ter feito um tempo maior que os adversários, terminou em quinto lugar. O problema foi que uma semana depois dos jogos, foi anunciado que Rufus foi pego em um exame antidoping com nonivamida, substância proibida pela Agência Mundial Anti-Doping (WADA) e que foi encontrada em mais cinco cavalos em Pequim. Rodrigo Pessoa acabou desqualificado.

foto: Kim Kyung-Hoon / Reuters
A judoca Edinanci Silva foi outra a bater na trave ao chegar a disputa do bronze e ser derrotada por Jeong Gyeong-mi (KOR). Principal nome do judô feminino desde Atlanta 96 – primeira olimpíada da carreira onde teve que passar por um exame de feminilidade, por ter nascido com características dos dois sexos - essa acabou sendo a última participação, onde se tornou a judoca com mais participações olímpicas na história, com quatro.

Thiago Pereira, após brilhar nos Jogos Pan-americanos, vinha com esperança de medalha mesmo tendo que competir com Michael Phelps (USA), que fazia a Olimpíada da sua vida em Pequim, com oito ouros conquistados. Na final dos 200m medley, Thiago viu Phelps, Ryan Lochte (USA) e Lazlo Cseh (HUN) dispararem, restando ao brasileiro ser o melhor do resto, ficando em quarto lugar com 1m58s14.

A dupla Talita e Renata chegou às semifinais e teve que encarar as superfavoritas Walsh e May (USA), onde perderam por 2 sets a 0. Na disputa do bronze, as brasileiras enfrentaram Xue e Zhang (CHN), que com o apoio da torcida venceram e ficaram com a medalha de bronze, deixando as brasileiras em quarto. Foi a primeira vez que uma dupla feminina do Brasil não foi ao pódio no vôlei de praia.

O velejador Ricardo ‘Bimba’ Winicki terminou em quinto lugar na classe RS:X (windsurfe) mas ao contrário de Atenas, ele já chegou na regata da medalha sem chances de pódio.

Estreias

A Maratona Aquática fez sua estreia olímpica em Pequim e o Brasil levou Allan do Carmo, Ana Marcela Cunha (com apenas 16 anos) e Poliana Okimoto. Ana Marcela e Poliana fizeram ótimas provas, com as duas chegando a brigar pelo terceiro lugar perto do fim da prova, mas o fato de uma estar marcando a outra permitiu as adversárias ultrapassarem as duas nadadoras, que terminaram em quinto e sétimo, respectivamente. Allan do Carmo terminou em décimo quarto lugar.

Rosângela Conceição foi a primeira mulher a representar o Brasil no Wrestling. ‘Zanza’ venceu a primeira luta e caiu nas quartas de final. Detalhe que em Sydney 2000, Rosângela lutava judô e era reserva de Edinanci Silva. Zanza também é faixa preta de Jiu-jitsu, esporte que seguiu praticando após a participação olímpica.

Poliana Aparecida de Paula foi a primeira brasileira a disputar uma prova canoagem slalom em olimpíadas.  Ela, que tinha 18 anos na época, terminou em décimo quarto, chegando à semifinal do K-1 (Caiaque).

O sumiço da vara

Fabiana Murer era uma das favoritas a prata no salto com vara – Yelena Isinbayeva (RUS) estava imbatível no momento – e seria presença certa no pódio se não fosse um fato completamente bizarro: Uma de suas varas sumiu do local de onde deveriam estar. As imagens da atleta procurando por todo canto a vara perdida durante a final rodou o mundo. O fato desconcentrou a atleta, que teve que usar uma outra vara que não foi a ideal e terminou apenas em décimo lugar com 4,45m.

Em entrevista à TV Glogo, Murer desabafou: "A revolta é com a organização. Foi muita desorganização. É um absurdo que percam material de um atleta em uma competição desse porte. Eles acabaram com a minha competição. Eu nunca mais volto para a China, nunca mais "

A vara perdida de Murer foi encontrada junto a vara de outras atletas que já haviam sido eliminadas, depois da final, pois foi colocada por engano ali. E sete anos depois, Murer voltou a China para a disputa do Mundial de Atletismo, conquistando a prata.

A queda de Diego Hypólito

Diego Hypólito era uma grata surpresa do Brasil neste ciclo. O irmão de Daniele foi bicampeão mundial no solo em 2005 e 2007 e era um dos favoritos a uma das medalhas no aparelho. E a melhor nota na fase classificatória - 15.970 -  aumentou ainda mais o favoritismo de Diego.

(foto: Ivo Gonzalez/Acervo o Globo)

Repetir a nota lhe daria a prata na final, mas uma queda no último salto o tirou da disputa do ouro, deixando Diego Hypólito em um frustrante sexto lugar com a nota de 15,200. Arrasado, Diego pediu desculpas aos brasileiros em entrevistas para as redes de televisão. O curioso é que na mesma final Marian Dragulescu, grande favorito ao lado de Diego, também caiu e ficou em sétimo lugar.

Ginástica por equipes

Ao menos a ginástica feminina fez uma ótima campanha em Pequim. Foram quatro finais disputadas pelas ginastas brasileiras. Jade Barbosa disputou duas finais: Individual geral - ficando em décimo - e do salto - ficando em sétimo.

Daiane dos Santos disputou novamente a final olímpica do solo – já sem o status de favorita por conta das seguidas contusões sofridas –ficando em sexto lugar e Ana Cláudia Silva também disputou a final do individual geral, ficando em vigésimo segundo. Por equipes, as três ginastas se juntaram a Daniele Hypólito, Laís Souza e Ethiene Franco para ficar em oitavo lugar na final por equipes.

Mais uma vez Jadel Gregório

Assim como em Atenas, Jadel Gregório chegava badalado a uma olimpíada, dessa vez por ter conseguido superar o recorde sul-americano de João do Pulo que durava 32 anos, com 17,90m no troféu Brasil de 2007. Mas do mesmo modo que nem nas Olimpíadas de 2004, Jadel chegou a final, sem conseguir repetir o feito que lhe daria o ouro em Pequim e terminou em sexto lugar com 17,22m, a última vez que o Brasil chegou a uma final do salto triplo em Olimpíadas.

Quadro de medalhas

Com três medalhas de ouro, quatro de prata e dez de bronze, O Brasil terminou na vigésima terceira posição entre as oitenta e sete nações que conquistaram medalhas em Pequim.



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