Taekwondo, o cupido da trajetória vitoriosa de Ícaro Miguel e Raiany Fidélis - Surto Olimpico

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Taekwondo, o cupido da trajetória vitoriosa de Ícaro Miguel e Raiany Fidélis

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Os mineiros Ícaro Míguel e Raiany Fidélis fazem parte da brilhante geração do taekwondo brasileiro que vem fazendo história nos últimos anos. Um sentimento a mais permeia a trajetória dos dois. Além de serem companheiros de seleção, são companheiros da vida. Se conheceram, cresceram e namoraram, tudo através do esporte. Hoje noivos, o casal compartilha com o Surto Olímpico suas histórias, experiências pessoais e esportivas e as expectativas para o futuro.

Ícaro e Raiany possuem uma carreira consolidada. Entre inúmeras conquistas, destaque para os Jogos Pan-Americanos de Lima em 2019, competição em que ambos medalharam e que é considerada a mais especial para o casal. Ainda no ano passado, Ícaro foi prata no Campeonato Mundial e Raiany foi bronze nos Jogos Mundiais Militares.

Ícaro, de 25 anos é, ainda, o atual número 1 do ranking mundial na categoria até 87kg, o primeiro brasileiro a atingir tal feito, e tem vaga garantida na Olimpíada de Tóquio, na categoria até 80kg, enquanto Raiany, 26, foi campeã mundial militar em 2018. Todo esse currículo avantajado só foi possível graças ao companheirismo existente no cotidiano esportivo do casal.

"O taekwondo sempre aproximou muito a gente", conta Ícaro. "Se um dos dois tem algum problema pessoal, a gente consegue entender o outro para render mais no esporte, consegue conversar. Até mesmo nos treinos, se um não tá legal, o outro dá um toque".

Ícaro e Raiany possuem uma vasta galeria de conquistas (Reprodução/Instagram)
Mas para chegar até os melhores do mundo, a caminhada foi árdua. Eles se conheceram ainda novos, quando tinham cerca de 14 anos de idade. Durante a adolescência, viajaram pelo Brasil integrando a seleção mineira de taekwondo em competições nacionais, passando a se aproximar e a se conhecer melhor.

Olhares "diferenciados" já existiam em cada um deles, mas a amizade permaneceu por um bom tempo. A cabeça dos jovens estava em outro lugar. O que realmente importava para eles era fazer história no esporte e nem imaginavam que, anos mais tarde, conseguiriam não só isso, mas também o fariam juntos, como um casal.

Para seguir seus sonhos, os mineiros decidiram virar a chave de suas carreiras em 2014 e partiram para São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo, para treinar na academia da Two Brothers Team, um dos centros de referência brasileiros no taekwondo.

Sem parentes por perto, um tornou-se o ombro direito do outro e o companheirismo fortaleceu o relacionamento dos até então amigos. Pouco tempo depois da chegada em terras paulistas, se apaixonaram e deram início a uma jornada que viria a ser duradoura.  "Como a gente foi pra São Caetano juntos, acabou que a gente se uniu e se tornou a nossa família. Isso ajudou bastante", explica Raiany.

"Até hoje, moramos em república. E em república é república, é cada um por si. A gente não tinha pai, não tinha mãe, não tinha família em São Paulo, nem eu e nem ela. E esse fato de não ter ninguém muito próximo aproximou muito a gente. A gente já era muito amigo antes e acabamos nos apaixonando", complementa Ícaro.


Em 9 de maio de 2015, oficializaram o namoro. O início foi um pouco conturbado, como eles contam, e tiveram que manter privacidade por algum tempo, temendo que companheiros de treino ou treinadores pudessem realizar comentários negativos sobre "perder o foco" com a nova situação.

O que aconteceu, no entanto, foi exatamente o inverso. Ícaro e Raiany se desenvolveram e até cresceram no esporte com o relacionamento. "Nós dois sempre fomos muito profissionais, então a gente nunca deixou isso interferir nos treinos. Acabou que chegou um tempo que um foi ajudando o outro e foi bem de boa", destaca Ícaro.

O início da relação coincidiu com um fato terrível para a vida de Ícaro Miguel. Ele lidou grande parte de sua vida com uma deficiência em sua visão direita - quanto tinha seis anos de idade, sua mãe confundiu amônia com água boricada e pingou algumas gotas em seu olho, queimando a córnea, a retina e o nervo óptico. Apesar da boa adaptação ao esporte, ele sofreu uma nova perda drástica em 2015, deixando Ícaro num dilema.

"Eu passei por um período de adaptação quando meu olho piorou. Eu fazia uns treinos meio malucos. Tampava meu olho bom e ficava só com o olho ruim. E depois dos dois treinos que a gente tinha no dia, fazia um treino extra pra poder compensar. Não sabia se era o correto, mas eu pensava que tinha que fazer alguma coisa pra poder superar", conta ele.

Seus médicos apresentaram uma solução "rápida" para o problema: um transplante de córnea, mas para fazê-lo, o atleta teria que encerrar sua carreira esportiva. E o companheirismo tão marcante de toda a história do casal mais uma vez se fez presente nesse momento de adversidade: Raiany foi uma das principais responsáveis por não deixar que o namorado acabasse com seus sonhos e passou a cuidar dele, sendo sua parceira oficial de treinos.

"Eu precisava de alguém para me ajudar a fazer os treinos. Às vezes era um controle de defesa, precisava de alguém pra ficar me chutando, eu chutando alguém. E esse alguém que sempre estava ali me ajudando era a Raiany. Mesmo depois de a gente ter feito os nossos dois treinos do dia, que toda a equipe fazia, ainda assim ela ficava lá no final do dia, até tarde me ajudando a fazer o treino extra", relembra Ícaro.

Após cinco anos, os companheiros decidiram dar um importante passo em suas vidas e noivaram. Apesar de já fazerem planos de construir um futuro em conjunto, os medalhistas pan-americanos nunca haviam falado sobre um noivado e, até por isso, Raiany ficou surpresa quando Ícaro organizou um jantar romântico na chácara onde estão isolados no dia 9 do último mês, sob o pretexto de comemorar os cinco anos de namoro, e pediu sua mão em casamento. Ela, claro, aceitou.



Por conta da pandemia do coronavírus e dos treinos, Ícaro e Raiany ainda não iniciaram os processos de organização do casamento, mas já esboçam alguns planos em suas mentes. A ideia é começar os preparativos após a Olimpíada de Tóquio, que acontecerá no próximo ano. Ícaro está classificado e está trabalhando firme para conseguir uma medalha.

"Até lá, a gente quer ter as nossas coisinhas. Não queremos casar de 'maluco', construir depois de casar. (Queremos) Pelo menos ter a nossa casinha. Depois da Olimpíada, a gente marca uma data e tudo", revela Ícaro.

Raiany brinca que o casamento precisará ser em um sítio, dada a quantidade de pessoas que estarão na celebração, principalmente relacionadas aos parentes do futuro marido.

"Minha família é muito grande. E tem uma equipe muito grande. Nosso casamento, eu acredito que vai ter quinhentos, mil convidados, então tem que ser em um sítio. Nós queremos uma cerimônia, com tudo bonitinho. Eu lá na frente e ela entrando chorando, porque eu tenho certeza que vai estar (chorando)", explica Ícaro, aos risos.

Ainda pensando no futuro, Ícaro e Raiany manifestam o desejo de ter filhos, mas ainda não sabem quantos serão. "Eu sou louco pra ser pai. Eu tenho muita vontade. Acho que, se eu não fosse atleta, eu já teria sido pai", revela Ícaro. "Mas eu sei que isso tem que esperar um pouquinho, não dá pra ser de agora, tanto pela minha carreira quanto pela dela, principalmente. Mas a gente quer ter (filhos) sim. Eu falo que quero dois, ela fala que quer três ou quatro, mas a quantidade a gente discute depois", brinca.

Medalha em Tóquio?

Num contexto geral, o casal destaca inúmeros benefícios trazidos pelo relacionamento e acredita que o sucesso de suas carreiras está atrelado à parceria do casal e à compreensão de cada um sobre a rotina do outro.

"A gente mora na mesma cidade, treina junto e teoricamente os torneios de taekwondo são todos juntos (mas em cidades diferentes). Ano passado, no final do ano, a gente ficou quase dois meses sem se ver. Eu chegava no Brasil, ela viajava. Se fosse uma pessoa que não fosse do esporte, não tivesse a vida que a gente tem, talvez não entenderia uma situação como esta. É mais um ponto positivo", explica Ícaro.


Durante a pandemia, Ícaro e Raiany seguiram ainda mais unidos. Em uma chácara no interior de São Paulo, eles estão isolados e treinando ao lado de seus treinadores, comissão e alguns outros atletas, incluindo Milena Titoneli, também classificada para os Jogos de Tóquio na categoria até 67kg. O casal até acredita que a pandemia tenha seu lado bom para suas vidas como atletas.

"A gente trouxe material pra musculação, os materiais que precisamos pra treinar a parte técnica, então nossa vida continuou igual. Olhando só pelo lado de rendimento, eu acho que foi até bom essa pandemia, porque eu não me lembro, desde quando eu comecei a atuar em alto nível, de um tempo tão grande pra nos preparar. Então acho que foi até positivo", observa Ícaro.

O líder do ranking mundial trabalha com foco total em Tóquio e não se importa com rumores de um possível cancelamento da Olimpíada.  "Se a Olimpíada for daqui um mês, eu vou estar pronto. Se for daqui um ano, eu vou estar pronto. Se for daqui dois anos, eu vou estar pronto. Eu gosto de focar muito no que tá no meu alcance, que é me preparar, dar o meu melhor e o que foge do meu alcance é cancelamento, troca de datas", aponta.


Tamanha é a intensidade dos treinos durante a quarentena que Ícaro acredita que no seu caso e no de Milena Titoneli, em particular, a proposta do Comitê Olímpico do Brasil (COB), de enviar atletas para o exterior para mantê-los ativos, não mudará tanto suas rotinas.

"O taekwondo já tá definido quem vai pras Olimpíadas, enquanto outras modalidades ainda vão definir as vagas. Acho que esses casos são um pouco mais preocupantes. Nem todo mundo conseguiu uma estrutura igual a gente tem", destaca. "É uma avaliação que eu tenho, mas meus treinadores podem ter uma avaliação diferente. Se eles mandarem, a gente vai".

Se Ícaro e Milena focam em Tóquio, por outro lado Raiany já mira em Paris. Competidora na categoria olímpica acima de 67kg, ela não foi convocada pela Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) para as disputas do Pré-Olímpico das Américas, uma vez que o sistema impõe um limite de dois homens e duas mulheres a cada país para a disputa da seletiva.

"Infelizmente eu não consegui alcançar o meu objetivo, mas eu saí com minha consciência limpa, fiz o que pude pra estar lá, mas infelizmente não deu, tiveram outras pessoas na minha frente. Eu não fico triste. As próximas Olimpíadas já estão aí e não pode ficar esperando um ano pra gente começar a treinar. Já tô trabalhando, estou focada na próxima, que vai dar certo", afirma, confiante.

Neste ano, antes da paralisação das atividades em meados de março, Ícaro Miguel conquistou medalha nos quatro eventos que disputou, além de garantir a vaga olímpica: ouros no Fujairah Open, no Helsingborg Open e no Aberto da Costa Rica e bronze na President's Cup, da Suécia. Raiany competiu uma única vez na temporada internacional, no US Open, na Flórida, e conquistou o bronze.

Foto: Reprodução/Instagram

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