Soraia André comenta silêncio de atletas diante temas polêmicos: "Muitos não são chamados nem para falar" - Surto Olimpico

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Soraia André comenta silêncio de atletas diante temas polêmicos: "Muitos não são chamados nem para falar"

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Pioneira no judô, Soraia André foi muito além dos dez títulos nacionais e das três medalhas nos Jogos Pan-americanos. Ela é um ícone da luta contra o preconceito racial e de gênero. Até mesmo um protesto com um quimono pintado na cor preta ela já realizou. No entanto, são poucos os atletas que se sentem seguros em se posicionar e lutar por alguma causa específica, seja por medo de represálias ou até mesmo por vontade própria.

Mas em entrevista exclusiva ao Surto Olímpico, a ex-judoca alertou para outro fator que pode contribuir para o silêncio dos atletas perante questões polêmicas. A falta de oportunidade e incentivo para que eles possam de fato falar.

"Muitos atletas não são chamados nem para falar. Geralmente convidam-se acadêmicos que desenvolveram teses de mestrado e doutorado e esses ganham vozes sobre temas os quais sequer vivenciaram nas quadras, tatames ou piscinas", disparou Soraia, sobre não darem voz aos esportistas.

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Após viver diversos momentos em que sofreu preconceito dentro do esporte, a medalhista de ouro no Pan de Indianápolis 1987 contou como lidava com essas situações inicialmente e como pôde desenvolver um jeito melhor de superá-las.

"Uma das formas que lidei com os preconceitos foi me alienar totalmente. Criei uma redoma em torno dos meus pensamentos e sentimentos. Atualmente lido com esta questão muito bem, pois escuto exatamente de onde parte determinada fala ou ação".

"O racismo é algo estrutural, ou seja, está fundamentado em nossa sociedade. Em minha opinião devem ser criados mais espaços de falas, congressos, seminários conduzidos por especialistas no tema. Acredito que todas as pessoas devem ser convidadas a ouvir, pensar e questionar sobre o tema. Além da criação de mais ações afirmativas", reiterou.

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Com o racismo enraizado dentro da sociedade, pessoas negras não conseguem ter as mesmas oportunidades que outras pessoas. Isso também vale para o esporte, de acordo com Soraia. Poucos negros assumem cargos de grande responsabilidade ou tornam-se mandatários nas federações nacionais.

"Isso acontece exatamente por ser uma estrutura fundamentada no privilégio branco e na crença de que o negro é corpo e o branco cabeça, ou seja, o corpo branco é ser pensante e o corpo negro é lugar das emoções, gingado, etc", declarou.

A importância da educação e do amplo debate

A educação é uma das bases de um país e pode ser instrumento para conscientização de estudantes e seus familiares na luta contra os preconceitos. Segundo a ex-judoca, esse é um trabalho que deve ser feito por etapas e que pode resultar em maior engajamento nesta batalha.

"Tudo começa fazendo um trabalho com todo o corpo docente. Se esses foram conscientizados, vão se engajar na luta contra o racismo. É um trabalho como uma cascata. Começando pelos docentes, passando para os discentes e desta forma toda a comunidade local poderá ser conscientizada", argumentou.

Cansada de ver o racismo ser pautado apenas após momentos trágicos, Soraia alega: "Me incomoda e muito. Este tema deveria ser debatido diariamente. Aliás, todos os dias jovens negros são brutalmente assassinados: a cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil".

De acordo com o informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, divulgado no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram registradas 255 mil mortes de pessoas negras por assassinato entre 2012 e 2017. Foi diagnosticado também que um negro tem 2,7 mais chances de ser morto do que uma pessoa branca.

Além disso, segundo o IBGE, jovens expostos à violência estão mais propensos a sofrer com doenças como depressão, vício de substâncias químicas e problemas de aprendizagem, além de suicídio.

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No entanto, para Soraia, uma política nunca foi desenvolvida no Brasil para que o racismo fosse combatido no país. "Nunca houve. Mesmo porque o racismo é perpetuado pelo Estado, o qual contribui com o genocídio da população negra. O racismo está arraigado no sistema", disse. "Não apenas o esporte, mas todos os setores devem discutir o tema", concluiu.

Soraia também disputou os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Ela ainda esteve presente na primeira edição do Campeonato Mundial de Judô feminino da história, realizado em Nova York, Estados Unidos, em 1980.

Foto: Reprodução/YouTube

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