O esporte na luta contra o racismo - Parte 3 - Surto Olimpico

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O esporte na luta contra o racismo - Parte 3

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Se procurarmos no dicionário o significado da palavra racismo, este termo estará definido como: conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias;  doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras; atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas. 

Muita gente fala que não existe racismo no Brasil, outros arriscam verbalizar que não existe racismo no mundo e que tudo não passa de vitimismo. Pois bastam 20 minutos de jornal todos os dias para que qualquer argumentação desse tipo caia por terra. 

E quem sabe bastante sobre isso é o ex-atleta Ronald Julião, do arremesso de peso e lançamento de disco. Sufocado com tantos casos de racismo, ele decidiu não se calar mais. Após passar por uma situação degradante em uma loja de conveniência de posto de gasolina, Ronald tentou fazer um boletim de ocorrência. "Mas pra variar, não deu em nada", como o próprio descreveu. Ele revelou detalhes do caso ao Surto Olímpico.

"Eu estava voltando de um treinamento em Jundiaí, mas estava muito cansado, então resolvi parar em um posto para tomar café e descansar um pouco e depois seguir viagem de volta para minha casa. Fiquei parado por uns 30 minutos, até que um cidadão chegou em mim falando que sabia bem o que eu estava fazendo e que ali não era lugar de passar droga e nem de caçar alguma coisa", revelou.

"Ele me falou 'pega as suas coisas e vai embora'. Pedi para ele se identificar e ele respondeu dizendo que não queria confusão, que só era para eu ir embora e nunca mais voltar. Ai eu entrei na loja de conveniência e perguntei quem era. Disseram que tratava-se do segurança da loja. Pedi que tomassem providencias por causa do que ele me disse. Me responderam que não adiantava falar naquele momento pois o gerente não estava presente. Fui para o carro, o cara estava perto da porta da loja e eu falei que iria procurar meus direitos". 

"Entrei no carro e o homem dirigiu-se a lateral, na direção da janela. Levantou a camisa e mostrou que estava armado. Eu fui embora. Muito bravo e frustrado. Mas só no dia seguinte eu fui procurar a polícia. Eu não deveria ter demorado tanto", lamenta Ronald. 

Na sequência dos fatos, Ronald foi 'jogado' de polícia para polícia. Ele passou em diversas unidades, tentou fazer até boletim de ocorrência online, buscou apoio de advogado. Além disso, ele era atleta militar, da aeronáutica, mas mesmo assim nada deu certo. Se deparando com tanto descaso, desistiu de buscar justiça. "É difícil levantar bandeira com todos os recursos que eu tenho. Imagina não tendo esses recursos", falou. 

"Acho que é isso que acontece com a maioria das pessoas. Quando vamos atrás de nossos direitos, levamos um banho de água fria. Ninguém acolhe, escuta ou é apto para atender determinada situação. Fica bem difícil", ressaltou Ronald. "Eles venceram. Falaram para eu nunca mais voltar lá e eu não voltei. Isso porque passo por essas situações de forma menos frequente. Imagina quem passa por isso todos os dias?", indagou. 

"Mesmo assim, não podemos desistir. Disso não existe dúvida", afirmou Ronald. "Uma hora vão nos escutar. Talvez se eu tivesse procurado a mídia na época, isso não passasse impune, eles poderiam ter sido desmascarados". 

Medalhista de prata nos Jogos Pan-americanos de Toronto em 2015, Ronald acredita que levantar a bandeira contra o racismo também significa se livrar que quaisquer tipos de preconceito. "Significa não ter preconceito com outra cultura ou 'tribo', seja negros, asiáticos, LGBTQs, nordestinos, etc. Aceitar as diferenças e respeitar ao próximo, independente de sua posição na sociedade, cargo ou país de origem. Isso é um dever e não uma escolha". 

Foto: Reuters
Aposentado dos arremessos, Ronald relata que foi difícil conquistar um emprego. "Foi uma luta. Não digo que é só pela cor, mas enquanto você é atleta, você é bonitinho, você aparece, disputa Olimpíada, Mundial, Pan-americano, você é medalhista, todo mundo quer te entrevistar. É o 'bam bam bam'. Mas quando acaba, não há oportunidade. Ninguém abre as portas", disparou. 

Entretanto, formado em educação física, hoje Ronald trabalha no Centro Educacional Unificado em Heliópolis, São Paulo, como coordenador de esportes e lazer, graças a uma oportunidade que recebeu da Prefeitura da cidade. "A gente tem que reclamar sim, mas precisamos ser gratos também quando acontece algo bom".

Falta de oportunidades, respeito e aceitação

Talvez a palavra 'meritocracia' seja a mais utilizada para rebater alguma acusação de preconceito, principalmente quando pessoas negras, mulheres ou com renda mais baixa não conseguem alcançar grandes cargos ou bolsas de estudos mais concorridas, por terem menos oportunidades. Mas para Ronald, não há meritocracia. "Para algumas coisas pode até ter, mas se não é geral, não acredito que exista meritocracia". 

"Sabe, a questão não é só pegar uma pessoa negra e mandar 'ah, vai lá falar sobre racismo'. Não é só 'me dê um emprego' ou 'me dê um bolsa de estudo'. É necessário respeitar. Não adianta fazer tudo isso ai e não aprender a respeitar. Saber que as pessoas negras têm as mesmas condições que outro grupo", disse Ronald. 

O ex-atleta revelou ainda que há casos de racismo entre os negros também. "É algo grande e forte. Povo fala 'ah, negro que alisa o cabelo não é negro de verdade'. O que tem a ver uma coisa com a outra", questiona. 

"Neste momento eu tenho aderido ao cabelo afro 'puro'. Mas durante toda a minha vida eu alisei o cabelo e eu nunca deixei de ser negro por isso. O cabelo é meu. E escolha é minha. Isso não existe. Eu não quero parecer branco, eu apenas quero que meu cabelo fique liso. É só isso. As pessoas precisam respeitar quem você é e as suas escolhas", reiterou. 

"É lamentável ver que em pleno 2020 a gente tem que estar lutando contra isso". 

A falta de posicionamento de atletas e a censura no esporte

Ronald afirmou que muitos atletas deixam de se posicionar em temas como o racismo, por exemplo, por causa da censura que sofrem dentro do esporte. "Isso aconteceu comigo e com muita gente. Existe a censura dentro do esporte. Então tem coisas que mesmo que você queira, eles não deixam você falar. Existe uma assessoria para filtrar todas essas informações. E ai fazem aquele treinamento conosco para a gente dar aquela entrevista certinha, bonitinha".

"Não querem que a gente dê opiniões políticas. Dizem que não tem muito a ver conosco, na posição de atleta", disse. 

No entanto, ele afirma que não está totalmente contra o sistema. "Isso que estou dizendo é a verdade. Mas eu entendo também que há hora certa para abordar os assuntos, isso eu concordo. Mas censurar o ponto de vista e prejudicar atletas que falam, já é algo bem diferente". 

"Esse medo de perder patrocínio, perder equipe, perder o dinheiro proveniente da sua luta, seu suor, corrobora para que atletas não deem suas opiniões. Nós temos medo. Então muitas vezes optamos por não entrar nesses tipos de causa exatamente pelas consequências", reiterou. 

"Agora que não sou mais atleta, nem militar, não tenho mais esse 'filtro'. E é por isso que estou falando aqui. As pessoas precisam entender o que é que nós passamos", concluiu. 

Foto: Wagner Carmo/CBAt

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