O esporte na luta contra o racismo - Parte 2 - Surto Olimpico

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O esporte na luta contra o racismo - Parte 2

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"O racismo traz um sentimento como se fosse a perda de alguém, você nunca vai esquecer, mas vai aprender a conviver com essa dor. Só que, diferentemente da perda de alguém, seria melhor que não precisássemos ter que lidar com esta dor (a do racismo)". 

Foi assim que a velocista mais rápida da história do Brasil, Rosangela Santos, definiu o sentimento que o racismo lhe causa. Quando criança, ouviu muitas "piadas" ligadas à cor de sua pele. Mas hoje a atleta fica feliz em ver mais pessoas levantando a bandeira do combate ao racismo. 

"Ser racista não está no DNA. Infelizmente você aprende. Mas já que aprendeu, pode desaprender", estabelece Rosangela. 

Medalhista de bronze no revezamento 4x100 nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, Rosangela explicou o que é o racismo diante sua visão e complementou exemplificando como o esporte pode ajudar no combate a este preconceito. 

"O racismo na minha opinião é o preconceito extremo de pessoas de uma raça que se acham superiores a outras raças", considerou. "O esporte pode ajudar na reeducação comportamental popular, principalmente nas arquibancadas. E nós, atletas negros, devemos nos impor. Mas infelizmente fomos 'mal acostumados' a achar normal certos comentários, brincadeiras e acredito que o esporte pode ser uma ferramenta universal para ajudar nessa mudança". 

Rosangela tem três medalhas de ouro em Jogos Pan-americanos, uma nos 100m rasos e duas no revezamento 4x100. Foto: Martin Bernetti/AFP 
Os debates atuais

Duas semanas após a morte de George Floyd, os protestos que exigem o fim do racismo seguem sendo um dos assuntos mais comentados em jornais e redes sociais mundo afora. Muitos atletas permanecem engajados na batalha e conscientizam outras pessoas sobre importância do fim do racismo. Por outro lado, algumas figuras ligadas ao esporte prestam desserviço ao rechaçar movimentos como este, indicando dados carregados de ódio e preconceito. 

Mas até quando a mídia conseguirá continuar pautando seus veículos com este tema? Até quando haverá interesse em tocar no assunto, e pensando de forma mais profunda, como isso pode mudar a sociedade quanto a oportunidade que pessoas negras recebem nas mais diversas áreas?

De acordo com Breiller Pires, jornalista do El País e ESPN, o Brasil perde muitas oportunidades de discutir problemas relacionados a questão racial. Ele aponta que os protestos feitos por atletas ou pessoas ligadas ao esporte pouco reverberam e isso deveria ser o papel da imprensa. 

"Um exemplo disso no ano passado foi o Roger Machado, técnico do Bahia, que proferiu um discurso épico sobre discriminação racial, lá no Maracanã, depois do jogo contra o Fluminense que promoveu o encontro dos dois únicos técnicos negros na época, da Série A do Campeonato Brasileiro. E ao longo da semana aquilo foi muito pouco debatido, se perdeu rapidamente na pauta diária e nos programas de televisão. A própria cobertura esportiva como um todo não aproveitou aquele momento pra jogar luz sobre a questão racial utilizando o esporte como uma plataforma", explanou Breiller.

Um dos atletas 'símbolo' das manifestações contra o racismo é o ex-quarterback do San Francisco 49ers,  Colin Kaepernick. Em uma partida entre 49ers e Green Bay Packers, durante a pré-temporada de 2016, Kaepernick se ajoelhou durante a tradicional execução do hino norte-americano. Tratava-se de um ato de protesto do jogador, que após o final da partida, disse: “Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor”.

Após ter o contrato reincidido com o 49ers, Colin Kaepernick nunca mais conseguiu retornar à NFL por ter liderado protestos durante o hino norte-americano. Foto: Reuters
Diante disso, Breiller Pires avaliou a importância do posicionamento dos atletas neste debate sobre o racismo. "Muitas vezes por meio do esporte, você pode fazer com que um público que não esteja habituado com esse tipo de debate tome consciência do que está acontecendo e tome consciência de que a gente vive numa sociedade racista e que é preciso de alguma forma combater esse problema", argumentou. 

"É fundamental não só cobrar posicionamento de atletas negros mas cobrar principalmente dos brancos. Imagine a importância que teria um posicionamento do Messi ou do Cristiano Ronaldo no futebol por exemplo, contra o racismo. Se eles dissessem que não entrariam em campo caso um companheiro fosse ofendido ou uma torcida que recorrentemente se manifesta de forma racista não fosse punida. Acho que isso teria um peso muito grande", ressaltou Breiller. 

Durante uma era altamente digital, com muitas opções de redes sociais, onde qualquer pessoa encontra facilidades para mandar mensagens para os atletas, Rosangela Santos acredita que não se deve exagerar na cobrança pelo posicionamento desses esportistas. 

"Penso que as vezes as pessoas passam do limite quando o assunto é rede social. As vezes não é porque uma pessoa não posta sobre determinado assunto, que ela não esta lutando por aquela causa. Acho que tudo que é exagerado se torna ruim, e a cobrança só é valida desde que não tentem impor o que querem que você fale", argumentou Rosangela. 

Mas segundo Breiller Pires, o posicionamento de atletas não acontece porque não é incentivado pelo que chamou de "comando branco no esporte mundial". 

"Os dirigentes geralmente são homens privilegiados que não sofrem na pele esse tipo de discriminação racial e logo não têm ou não desenvolvem uma sensibilidade para atacar o problema, não criam formas para que racistas sejam punidos e nem estimulam essa consciência racial nos atletas". 

Breiller utilizou um exemplo para transparecer a falta de sensibilidade das pessoas ligadas ao esporte em relação ao racismo. No final do ano passado, o atacante Taison, do Shakhtar Donetsk, recebeu diversos insultos racistas em partida contra o Dínamo de Kiev, pelo Campeonato Ucraniano. O atleta reagiu às ofensas e foi expulso do campo. 

"Ele se revoltou ao ser chamado de macaco por torcedores do Dínamo de Kiev. É uma revolta sanguínea, justa, porque nenhum atleta merece ofendido com insultos raciais no seu ambiente de trabalho. Ele foi punido com cartão e a torcida não. Não há essa sensibilidade nem mesmo dos árbitros", disparou Breiller. "Justamente por isso, por esse poder branco que toma conta do futebol. E acho que para mudar isso a gente precisa promover políticas de estímulo à diversidade racial no alto escalão do esporte, para que a gente tenha não só mais dirigentes, mas também técnicos negros, pessoas que ajudem a mudar esses regulamentos que também acabam sendo racistas". 

O jornalista menciona o forte posicionamento de LeBron James, e afirma que o Brasil precisa de mais atletas conscientes assim como o jogador do Los Angeles Lakers. 

"Não temos vozes como LeBron James, nos Estados Unidos, o maior atleta de basquete da atualidade. O seu descontentamento com o racismo estrutural do país é muito importante. Nenhuma voz como ele consegue alcançar e mobilizar tanta gente mesmo sem sair às ruas. Ele encabeça os protestos demonstrando seu apoio e tamanho que tem no esporte mundial".

Mas mesmo com dificuldades, o Brasil tem muitos atletas que se posicionam e fazem as cobranças necessárias para o bem da população. "Ainda assim o Brasil também já produziu grandes atletas, grandes figuras que marcaram posição e marcaram época, como Sócrates e Reinaldo durante a ditadura militar. Então a gente precisa rever essas figuras. Fiquei muito feliz quando eu vi a Marta, por exemplo, no ano passado se posicionar pela valorização e pela igualdade entre homens e mulheres no esporte", declarou Breiller.

A estrutura dentro do jornalismo esportivo

Foto: Reprodução/ESPN
Breiller criticou também a falta de diversidade dentro do jornalismo. De acordo com ele, os profissionais da área precisam estimular a presença de outras vozes dentro das redações.

"As redações também são essencialmente brancas, essencialmente masculinas, e no caso do esporte ainda temos poucas mulheres e poucas pessoas LGBT, então eu vejo que o único caminho é esse. Lutar e exigir mais pluralidade de ideias, mais diversidade de opiniões dentro das redações, principalmente em posições de comando, para que o jornalismo também acompanhe esse movimento e passe a ser mais combativo nessas questões". 

O caso de Breiller é exceção dentro do jornalismo esportivo. Mas ele conta que já se sentiu discriminado e foi até mesmo ofendido em algumas ocasiões por opinar sobre futebol. 

"O racismo atravessa a minha minha trajetória. Já sofri sim ou pelo menos senti ser discriminado no jornalismo. Sofri até ofensas racistas por parte de torcedores, do público, que para demonstrar discordância em relação ao meu trabalho, como uma crítica que eu fiz, reage de maneira racista. Mas  assim como eu não me abalo com isso, não fico calado e sempre denuncio", concluiu. 

Foto: Divulgação/CBAt

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