Opinião: no Estádio Olímpico, a cerimônia de abertura dos Jogos de Tóquio emocionou - Surto Olímpico

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Opinião: no Estádio Olímpico, a cerimônia de abertura dos Jogos de Tóquio emocionou

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Foto: (AP/Charlie Riedel)

*DO ESTÁDIO OLÍMPICO DE TÓQUIO

A Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio conseguiu nos surpreender, seja positivamente ou negativamente. Desde a escolha de Osaka Naomi até a falta de elementos tecnológicos, o tom escolhido foi o da austeridade. Uma cerimônia feita para o pequeno público presente, de atletas, funcionários, voluntários e jornalistas - a tal Família Olímpica -, passando uma mensagem de simplicidade e moderação para os bilhões de telespectadores.

Segundo a assessoria de imprensa dos Jogos Olímpicos, um total de 10.400 pessoas estiveram no estádio: foram 6.000 atletas, 900 pessoas envolvidas na realização, além de convidados de honra e 3500 membros da imprensa.


Protestos realizados em frente ao Estádio Olímpico na tarde permaneceram audíveis dentro do estádio, mas nada que ameaçasse realmente o poder de resiliência de Thomas Bach e do Comitê Olímpico Internacional (COI) em levar os Jogos a frente contra tudo e todos.

É impossível aqui evitar uma impressão subjetiva, tendo assistido esse momento presencialmente. Alguns momentos causaram frisson no estádio todo, especialmente aquele em que uma série de drones fez o símbolo de Tóquio 2020 em cima do estádio.

Outro destaque ficou coma apresentação dos 50 pictogramas, liderados por Garmarjobat (Hiro-Pon), mímico e diretor teatral, com o dueto Gabez (MASA e hitoshi), além de Minami Daisuke e Matsumoto Ryo. Foi o respingo de criatividade, irreverência e diversão em uma cerimônia sóbria e marcada por escândalos e trocas de rumo. O momento do badminton, quando a interação deu errado, pareceu simbolizar toda a superação em momentos de adversidade dos Jogos que quase não aconteceram.

Muitos aplausos eram ouvidos em momentos específicos, como na chegada do Imperador e após o hino nacional interpretado pela famosa cantora e ativista Misai. Os discursos emocionados de Hashimoto e Bach comoveram os voluntários e funcionários, além dos atletas, que eram maioria absoluta no estádio. "Imagine", música não só de John Lennon, mas também da japonesa Ono Yoko, foi um belo toque do Japão moderno e globalizado, mas ainda assim sensível.

De resto, momentos emocionantes e reflexivos, como na escolha em alguns atletas veteranos e com mobilidades físicas e motoras para conduzir a tocha dentro do estádio. O apontamento de Osaka Naomi para acender a pira localizada num palco que representa o Monte Fuji, havia sido sugerida e talvez seja decepcionante para quem esperava a escolha de alguém que fizesse referência à Covid-19 ou mesmo um atleta de história olímpica.

(Foto: Miriam Jaske/COB)


Osaka tem causado uma revolução na sociedade e comportamento por todo Japão e passou por um ano turbulento. Somente nos últimos meses, ela expôs que é possível expor suas fraquezas e problemas para um país voltado ao comportamento comedido e sereno, e dialogar mesmo que timidamente e de forma desajeitada, em prol de um mundo mais justo. Quer uma reconstrução mais importante e necessária que essa?

Outro momento de quebra de protocolo foi quando Hashimoto Seiko chorou em seu discurso e apresentou tanta emoção em sua voz e rosto escondido por trás da máscara. Apesar de não entendermos o que ela falava, sem a tradução simultânea, era impossível não ver na presidente do Comitê Organizador de Tóquio (TOCOG) a luta de oito anos e muitas barreiras em levar para a frente um evento que parecia - parece - desafiar o bom senso. Chorei junto com ela.

Sem ignorar os problemas, os desafios e o possível surto de covid-19 dentro da pseudo-bolha olímpica, a mensagem de Thomas Bach pedindo solidariedade aparentou emocionar os atletas presentes. Pode não ser a Olimpíada que eles sonhavam ou se preparavam, mas é visível o alívio na maioria. Eles entraram da forma tradicional, ainda que foram fazendo vários grupos no estádio, para montar mosaicos. O gramado coberto do Estádio Olímpico praticamente não contou com artistas, funcionários e voluntários. Ele foi preparado para receber apenas eles, os atletas.

Atletas de 206 comitês olímpicos foram convidados a entrar no estádio, liderados pela Grécia. Um bom toque deste ano foi a entrada da Equipe de Refugiados Olímpicos logo em seguida. Reforçados e estabelecidos, em um mundo cada vez global, a criação do EOR tem tudo para ser o grande legado de Thomas Bach.

 Imperador Naruhito e Thomas Bach, Presidente do COI (Foto: AP/Petr David Josek)

Cada delegação escolheu a forma de se apresentar. Lesoto, por exemplo, não levou atletas, com uma voluntária carregando a bandeira e membro da delegação presentes. O Brasil levou apenas Bruninho, Ketleyn Quadros, o chefe de missão Marco La Porta e Joyce Ardies, funcionária responsável por garantir que os atletas ficassem o mínimo possível.

Alguns trouxeram delegações grandes e de mãos dadas, caso dos EUA, afetos de um mundo pré-Covid 19 e que pode causar estranheza alguns. Outras delegações, caso de Quirguistão e Tajiquistão, chocaram ao mostrar atletas sem máscara, como se não houvesse uma pandemia que impediu os espectadores de estarem presentes na cerimônia.





A igualdade de gênero foi muito bem-vinda, ainda que em alguns casos aparentemente não cumprida, já que em muitos países havia apenas um homem segurando a bandeira. No caso de Zimbábue, mais do que igualdade de gênero, Donata Katai e o remador Peter Purcell-Gilpin carregaram juntos a bandeira do país, que ainda vive sob forte tensão racial. Katai, inclusive, é a primeira nadadora negra a representar o país africano nos Jogos Olímpicos.

Ficou a sensação óbvia que faltou algo mais criativo, em uma cerimônia que teve que se reinventar. Os organizadores se contentaram em fazer algo simples e emocionante, o que é válido. Mas, pensando que é uma cerimônia exclusivamente televisiva, poderíamos ter tido mais momentos de interação virtual.

Na expectativa de algo grandioso e inventivo para os bilhões de espectadores na televisão fomos surpreendidos por uma cerimônia simples e baseada na palavra e movimentos corporais, destinado aos poucos milhares de atletas e trabalhadores presentes no gramado.

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