Críquete no Brasil: da chegada antes do futebol, ao sonho olímpico, parte 2 - Surto Olímpico

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Críquete no Brasil: da chegada antes do futebol, ao sonho olímpico, parte 2

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Apesar do críquete ter sido jogado pela primeira vez no Brasil há quase 150 anos, antes mesmo do futebol, ele acabou sendo desenvolvido em nosso país como uma brincadeira de rua, chamada taco ou bets, como citamos na primeira parte do especial do Surto Olímpico sobre este esporte. A nação passou a ter um órgão regulamentador só em 2001, quando foi criada a Associação Brasileira de Cricket (ABC), que é filiada ao Conselho Internacional de Cricket (ICC).


A seleção brasileira feminina de Críquete Twenty20 ocupa atualmente a 27º colocação no ranking mundial, sendo a seleção sul-americana com melhor posicionamento na classificação. O Brasil tem quatro títulos do Campeonato Sul-americano, conquistados em 2015, 2016, 2018 e 2019. Nos anos que não ficou com o título, o time terminou com o vice-campeonato (seis vezes).


Já o time masculino é um pouco menos desenvolvido e ocupa a 71ª posição no ranking de Twenty20, ficando atrás de seleções da América do Sul, como Argentina (46º) e Peru (55º). Temos dois vice-campeonatos sul-americanos, um em 1997 e outro em 2015. Além disso, o Brasil conquistou o título da Divisão 3 da ICC America’s Championship, em 2009. 


Para entender um pouco mais sobre a cultura do críquete, a atual situação do Brasil na modalidade, os objetivos para o futuro e a possibilidade de disputar algum dia os Jogos Olímpicos, o Surto Olímpico entrevistou Matt Featherstone, presidente da ABC e Roberta Moretti, capitã da seleção brasileira feminina da modalidade. 


A ABC e o sucesso da seleção feminina


Seleção festeja título sul-americano em 2019. Foto: ABC

Criada em 2001, a ABC tem sede em Poços de Caldas, Minas Gerais. Outros quatro estados são registrados no órgão e contam com times para as competições nacionais (Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal). Mas é na cidade da região Sul de Minas, que treinam a seleção feminina e os times Sub-13 e Sub-17, formando ali o principal centro da modalidade no país. 


E é na seleção brasileira feminina de críquete, que está depositada a maior esperança para que nosso país possa participar de uma Copa do Mundo deste esporte, como revelou Featherstone. 


“A ideia é levar o Brasil ao top-20 do ranking nos próximos 18 meses e conquistar a vaga para a Copa do Mundo. A princípio, em setembro, vamos ter partidas contra Estados Unidos, Canadá e Argentina. Juntos, somos os quatro países mais fortes das Américas e só um continuará lutando pela classificação”, explicou Featherstone.


“Esse campeonato é um marco para nós”, disparou Roberta. “Apesar da seleção ter disputado outras vezes esse evento qualificatório (2009 e 2012), essa é a primeira vez em que de fato a gente entra com chances de seguir em frente em busca da vaga e disputar as outras etapas das eliminatórias”. 


“A vaga na Copa do Mundo provavelmente nos ajudaria num projeto de jogar nas Olimpíadas. E agora parece um sonho possível, não algo inalcançável como era há dez anos”, ressaltou Roberta. 


E o grande responsável por essa evolução da seleção feminina, que agora alimenta o desejo de disputar o Mundial, foi o Projeto de Desenvolvimento de Críquete para Brasileiros. E a capitã do Brasil na modalidade falou um pouco sobre o efeito causado por esse trabalho.


Foto: Reprodução/ABC

“A partir de 2011, quando começamos a ensinar críquete nesse projeto, as seleções passaram a se beneficiar disso. Em 2013 estabelecemos as ligas juvenis e feminina. No ano seguinte, tivemos os primeiros participantes desses projetos, passando a integrar os elencos das seleções nacionais. E a partir disso os clubes cresceram, os técnicos se desenvolveram, foi algo progressivo e com isso ficamos mais estruturados”. 


E a base desse projeto de desenvolvimento são as escolas públicas, municipais e estaduais. Além disso, crianças de escolas particulares têm livre acesso aos treinos dos clubes, garantindo a abrangência do trabalho. 


“Nós vamos nas escolas, com nossos professores, com materiais e as crianças conhecem e aprendem o críquete lá. E há essa abertura nas escolas. O brasileiro sempre é muito incentivado à pratica do futebol, vôlei, basquete e handebol, mas somos mais de 200 milhões de pessoas. Nem todo mundo vai caber em quatro esportes. E tem espaço e talento para ser aproveitado em outras modalidades e o críquete pode ser uma delas”, opinou Roberta.    


A contratação de atletas para a seleção também foi fundamental na busca pelo crescimento da modalidade. Das 16 jogadoras que passaram pelo time feminino do Brasil no ano passado, 14 receberam um contrato para treinarem e jogarem pela seleção, numa estratégia da ABC para que a equipe esteja cada vez mais fortalecida. 


O envolvimento com a modalidade e a chance de crescimento no Brasil


Foto: Reprodução/ABC

Após seu marido ser convidado para ajudar no projeto de desenvolvimento do críquete, em 2012, Roberta passou a se envolver com a modalidade, aprendendo os fundamentos e jogando por hobbie. O ambiente favorável fez com que a atleta praticasse cada vez mais o esporte e logo o interesse em defender a seleção brasileira surgiu. 


“Estou com a seleção brasileira desde 2014. Tem sido um caminho muito intenso, porque naquele tempo eu não imaginava que seria uma jogadora profissional. E nós formos crescendo e trilhando isso juntas. E fazer a transição do amador para o profissional, trouxe uma melhoria impressionante, por mais cansativa que seja a rotina”, disse Roberta. 


“Treinando e jogando por tanto tempo na semana, você realmente evolui o seu jogo. Você começa a pensar de uma forma diferenciada. O críquete vira a maior prioridade na sua vida e isso é a realização de um sonho. Competir em torneios internacionais vai nos render bons frutos, além de inspirar novas jogadoras que estão começando agora”, ressaltou a capitã. 


Surte +Críquete no Brasil: da vinda antes do futebol ao sonho olímpico - Parte 1


E com os anos de experiência no críquete, coisas novas puderam ser vivenciadas por Roberta. Começando pelo processo de aprendizado de familiares e amigos que tinham seu primeiro contato com a modalidade, até pessoas parando suas atividades em parques, para poder acompanhar treinos e perguntar sobre aquele jogo “diferente”. 


“Hoje, após nove anos do início do projeto, as pessoas têm muito mais conhecimento sobre críquete do que antes. Elas nos reconhecem na rua, sabem quando está rolando alguma atividade dos projetos da modalidade e é muito bacana isso”.


Featherstone por sua vez, foi jogador de críquete e chegou a ser capitão da seleção brasileira. Nascido na Inglaterra, ele fez sua estreia com a camiseta verde e amarela em 2002, numa partida contra a Argentina, no Campeonato Sul-americano. Engajado no sonho de desenvolver a modalidade no Brasil, ele afirma: não está inventando nada de novo e sim trabalhando forte. 


“O críquete não é um esporte novo. Eu gastei minha vida toda jogando. Então o que a gente tem que fazer? Oferecer a oportunidade para que mais pessoas possam jogar, experimentar. Se você entrar num projeto e a cada cidade você for acumulando 15, 20 crianças que gostaram e querem seguir treinando e jogando, logo você aumenta a base de praticantes. Não estamos inventando uma cosia nova. Coloca aí na internet, veja quantas pessoas vão ao estádio, quantas pessoas jogam”. 


O presidente da ABC criticou a cultura esportiva brasileira que privilegia o ensinamento de poucos esportes nas escolas. “É ruim falar mal do país que eu estou morando. Mas é um país que oferece muito pouco esportivamente falando. Vai nas escolas, municipais ou particulares e veja quantas modalidades vão te oferecer. Cabe numa mão, se tiver sorte. Se não tiver sorte, cabe em dois dedos. É futebol e queimada. Se não são esses dois, ninguém faz nada de esporte no Brasil”, argumentou. 


“Imagina se as pessoas conhecessem hóquei na grama aqui. Um monte de gente ia jogar. Olha os nossos parceiros do rugby por exemplo, o esporte está crescendo muito. Tudo isso sem milagre. Eles estão ofertando, indo com projetos sociais, dando oportunidades às pessoas de conhecerem aquilo”, completou. 


Foto: Reprodução/ABC

Estádios lotados nos países potência e o sonho olímpico


É muito comum ver estádios de críquete lotados – antes da pandemia, claro. Até mesmo os jogos do Test Cricket, que podem chegar até cinco dias de duração, levam milhares de pessoas às arquibancadas em arenas da Índia, Inglaterra e Austrália por exemplo. 


Featherstone tentou nos explicar como funciona todo esse fanatismo pela modalidade. “É uma cultura. Explicar isso para um brasileiro ou para alguém que não conheça o críquete é difícil e eles vão achar uma loucura. Mas realmente, se você for para Londres e quiser assistir uma partida entre Inglaterra e Índia, dificilmente achará ingresso. Se você não compra a entrada um ano antes, você não consegue assistir no estádio”. 


“Um problema que não temos é com venda de ingressos. Na verdade, falta espaço nos estádios. Um lugar para 50, 60 mil pessoas não é o suficiente. Se pegar a Índia como exemplo, tem jogos para 80 mil pessoas, mas você vai encontrar até 200, 300 mil para fora do estádio, querendo ouvir, chegar perto, sentir aquela atmosfera da partida. É uma realidade completamente diferente”, revelou.


Além de presidente da Associação Brasileira de Críquete, Featherstone trabalha como representante global do ICC e ele contou ao Surto Olímpico como estão os trabalhos relacionados a possibilidade de ter o críquete nos Jogos Olímpicos, algo que só aconteceu em Paris 1900, a segunda edição do evento. 


“É um sonho de muita gente, por muito tempo. Um dos nossos trabalhos e batalhar para tentar colocar o críquete dentro das Olimpíadas. Temos várias barreiras, mas querendo ou não, estamos andando bem mesmo sem fazer parte do evento. Porém, sabemos que nossa modalidade tem mais potencial para crescer e para isso, precisamos ser vistos. E os Jogos Olímpicos podem nos abrir essa porta”, revelou. 


“Estamos cada vez mais perto de alcançar isso. E o ICC está comprando a ideia, eles sabem que 104 membros não é o suficiente. Queremos mais, queremos 200, 300, o que for possível” disse o presidente de forma bem-humorada. “A probabilidade do críquete estar nas Olimpíadas é grande. A chance do Brasil estar lá também é grande. É uma realidade. Mas não pode ficar só no sonho, precisamos trabalhar muito, ter muita dedicação dentro e fora de campo, de cada atleta, para chegar lá”, finalizou Featherstone. 


Foto: Associação Brasileira de Críquete


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