Críquete no Brasil: da chegada antes do futebol ao sonho olímpico - Parte 1 - Surto Olímpico

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Críquete no Brasil: da chegada antes do futebol ao sonho olímpico - Parte 1

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Imagine um esporte praticado e assistido por bilhões. Estádios lotados, gente do lado de fora escutando o jogo pelo rádio, momentos épicos acontecendo. Pois é, não é do futebol que estamos falando, e sim do críquete. Este esporte ‘não tão peculiar’ chegou ao Brasil antes mesmo do futebol, viveu anos sendo cultivado como um jogo de rua e nunca teve seu devido reconhecimento. 


No entanto, agora um grupo de brasileiros e brasileiras carregam o inimaginável sonho de jogar críquete no maior palco poliesportivo do mundo: os Jogos Olímpicos


Ainda não sabe do que estamos falando? Fique conosco, pois este é mais um especial do Surto Olímpico, que está dividido em duas partes. Hoje (2), vamos juntos desvendar a história e os formatos do críquete e entender mais sobre qual é a relação do brasileiro com esta modalidade que pelo menos por enquanto, não é olímpica. 


Mas por que o brasileiro tem relação com o críquete? 


Quase todo jovem adulto em 2021, provavelmente já ouviu ao longo da vida seus pais falarem sobre como a infância nos anos 70, 80 e 90 era legal, quais eram as brincadeiras e jogos típicos daquele período e como as ruas ficavam lotadas nos finais de tarde ou na época de férias. 


Um dos jogos mais praticados naquelas décadas era o taco, ou bets – a nomenclatura varia de região para região no Brasil. E essa brincadeira nada mais é que um críquete super simplificado. São duas duplas, uma que lançará a bola e outra que tentará rebater com tacos, defendendo a base, que tem ‘uma casinha’ ou alvo. 


Resumindo, se o lançador derrubar a ‘casinha’, o ponto é computado e alternam-se os papéis. Já no caso dos rebatedores o objetivo, além de defender sua base, é jogar a bola o mais longe possível. No período em que os lançadores correm para pegar a bola, os rebatedores alternam de lado no campo, batendo os tacos no meio da quadra para marcar o ponto. 


Pois bem, essa é ‘mais ou menos’ a dinâmica do críquete, que obviamente conta com várias regras e detalhes que serão contados mais para frente. Mas a gente deixa isso para depois, o importante agora é só saber como funciona a coisa. 


E como o críquete chegou aqui? De onde ele veio?


Partida entre Índia e Nova Zelândia. Foto: AP

Popular na Índia (país com mais de 1 bilhão de habitantes, o que explica um pouco do seu elevado número de fãs), Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e na região do Caribe, o críquete tem registros do século XIII, quando os ingleses já praticavam a modalidade. 


As primeiras regras foram fixadas no século XVII e XVIII, e o esporte foi levado aos poucos para as colônias britânicas e ganharam o mundo, chegando no Brasil por volta de 1872, graças aos ingleses que trabalharam nas construções de ferrovias, como contam alguns historiadores. Poucos anos depois surgiram os primeiros clubes de críquete no país, como o Rio Cricket and Athletic Association, fundado em 1897


Para se ter uma ideia, alguns historiadores e pesquisadores têm registros da prática de futebol em 1875, três anos depois da chegada do críquete em nosso país


E como surgiu o sonho olímpico brasileiro, se o críquete não faz parte do megaevento?


Antes de falar do sonho olímpico, é importante relembrar a história do Brasil na modalidade. Apesar de muito famoso como jogo de rua, o críquete acabou ‘não pegando’ no país. Com isso, nossa nação foi ter uma associação que regulamenta o esporte apenas em 2001, mais de 125 anos depois de sua chegada em terras brasileiras. 


Em 2002, a Associação Brasileira de Cricket (ABC) filiou-se ao Conselho Internacional de Cricket (ICC), que é o órgão que regulamenta a modalidade à nível mundial. Desde 2020, os gestores da ABC estão tentando transformar a associação numa Confederação, o que a tornaria credenciada ao Comitê Olímpico Brasileiro. O processo já está nas mãos dos cartórios responsáveis e espera-se que a aprovação saia dentro de alguns meses. 


O ‘sonho’ já vem de alguns anos, quando a ICC retomou conversas com o Comitê Olímpico Internacional (COI) para que a modalidade voltasse aos Jogos Olímpicos. Exatamente, o críquete já fez parte do programa esportivo do megaevento. Mas foi lá em Paris 1900, quando a Olimpíada ainda sofria para tornar-se algo relevante. 


Cartaz sobre o jogo Grã-Bretanha x França nos Jogos Olímpicos de Paris 1900, quando o evento fazia parte da Exposição Mundial. Foto: Reprodução/ESPN

Quatro países - Grã-Bretanha, França, Países Baixos e Bélgica – deveriam ter participado do evento, mas só os dois primeiros disputaram. A partida valendo a medalha de ouro durou dois dias e foi vencida pelos britânicos por 262 a 104. Depois disso, nunca mais a modalidade voltou aos Jogos. 


Com o processo de organização de todas os órgãos regulamentadores filiados ao ICC a caminho, a expectativa entre os praticantes, dirigentes e fãs é que o COI aprove a entrada do críquete no programa olímpico para os Jogos de 2028, que já tem Los Angeles como cidade-sede definida, ou para o evento do ano de 2032, que ainda não tem anfitrião. 


Um dos detalhes que ainda complicam a entrada da modalidade nos Jogos Olímpicos é o tempo de jogo. O críquete tem um formato em que a partida pode durar dias e isso está completamente descartado pelo COI. Há também o Twenty20, mais curto, mas que também incomoda o Comitê, que gostaria de um jogo ainda mais rápido. 


Vamos conhecer um pouco mais sobre esses formatos e alguns detalhes da modalidade. 


Os formatos do críquete


Estádio lotado para um jogo da seleção indiana de críquete. Foto: Outlook India

Atualmente existem três formatos conhecidos no críquete. O Test Cricket, que é uma forma de disputa entre seleções nacionais e que pode chegar até cinco dias de partida, sendo este o formato mais longo de jogo. 


Há também o ODI Cricket, ou One Day International Cricket. Esse formato limita o jogo à 50 overs (turnos) para cada equipe, o que pode representar algo entre 8 e 10 horas de partida


Por fim, entre existe o Twenty20, que já citamos anteriormente como um formato mais curto. Ele é limitado à 20 overs e uma partida pode chegar até três horas de duração. É com este formato que a modalidade tem se popularizado no mundo, entrando em mercados jamais imaginados nos outros formatos do esporte. 


A Indian Premier League de T20 (Liga Indiana) é uma das principais competições do formato e tornou-se a primeira liga do mundo a ter transmissões de partidas ao vivo pelo YouTube, algo que ocorre frequentemente em jogos da NBA ou de futebol nos últimos anos, por exemplo. 


Como se joga e qual o objetivo do críquete?


O críquete é disputado entre dois times com 11 atletas. As ações principais de jogo ocorrem numa faixa de 20,1 metros de comprimento, no centro do campo – que é oval. É ali que a bola, feita de cortiça e couro, é arremessada contra o alvo adversário, chamado de wicket (lembre da casinha do taco), que é formado por três tocos de madeira presos com dois prendedores na parte superior.  


Faixa onde ocorre as principais ações do jogo. Foto: Jooiinn

Os arremessos podem chegar até 150 km/h e deverão ser defendidos pelo rebatedor, que fará tal ação utilizando um taco, que tem um formato que pode lembrar o de um remo. 


Um turno é composto por seis arremessos e o objetivo de quem lança a bola é eliminar cada um dos dez rebatedores do time adversário, até que chegue sua vez de rebater. Quem rebate a bola, precisa manda-la o mais longe possível, para que seja possível anotar corridas, que é o principal objetivo do jogo


Uma corrida consiste em atravessar a faixa de 20,1 metros de um lado para o outro. Quem anotar mais corridas (runs) no número predeterminado de turnos (overs), ganha a partida


Uma rebatida que chega ao perímetro do campo rende automaticamente quatro corridas. Uma bola que ultrapassa o perímetro vale seis corridas, que é a maior pontuação num jogo. 


O campo de críquete. Foto: Wikipedia Commons

Para os arremessadores existem quatro formas de eliminar um rebatedor. Derrubando a casinha no ato do arremesso; pegando a bola rebatida sem deixa-la cair no chão (semelhante ao beisebol); se a bola arremessada for em direção a casinha e acertar a perna do adversário; e por fim, se a bola tocar a casinha antes de uma corrida ser concluída. 


Quando os dez rebatedores forem eliminados, termina a entrada e as funções mudam. Quem arremessava, passa a rebater e quem rebatia, começa a lançar a bola (e consequentemente corre atrás do placar cedido na entrada anterior). Essa troca de funções também pode acontecer se os turnos predeterminados acabarem. 


E essa é a essência do críquete. Na segunda parte do texto, a ser publicada na quarta-feira (3), vamos saber mais sobre a seleção brasileira da modalidade e a Associação Brasileira de Cricket, com os entrevistados Matt Featherstone (presidente do órgão) e Roberta Moretti (capitã da seleção). 


Foto: Cricket Australia

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