Surto História: Os oito ouros olímpicos da Índia no hóquei sobre a grama - Surto Olimpico

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Surto História: Os oito ouros olímpicos da Índia no hóquei sobre a grama

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A Índia estreou nas Olimpíadas em 1900, no evento realizado em Paris. Posteriormente, a nação só voltou aos Jogos Olímpicos de verão, na Antuérpia, em 1920, logo após o término da Primeira Guerra Mundial, e desde então participa de forma consecutiva, sem interrupções. 

Mesmo sendo um país que participa dos Jogos Olímpicos há muito tempo, esta experiência nunca foi revertida em grande quantidade no número de medalhas conquistadas. Por exemplo, o que a Índia tem de medalhas ao todo (são 28), o Brasil tem de títulos olímpicos (30).

Dessas 28 medalhas olímpicas da Índia, nove são de ouro, sendo que oito foram conquistadas em uma única modalidade, que é um dos esportes mais tradicionais da nação: o hóquei sobre grama masculino. 

E as oito medalhas de ouro conquistadas pela seleção indiana de hóquei na grama estão distribuídas em um amplo domínio de 52 anos na modalidade, sendo que seis desses títulos ocorreram de maneira consecutiva. 

Mas por que um esporte que tem como desenvolvedores os povos persas, egípcios, etíopes, gregos e romanos, há milhares de anos, foi ter sua grande hegemonia de conquistas com a seleção da Índia? 

A modernização e disseminação do hóquei sobre a grama

De acordo com uma pesquisa de 2016 realizada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em conjunto com o antigo Ministério do Esporte, em 1886 foi criada a primeira Associação de Hóquei Amador, em Londres, na Inglaterra. Com isso o esporte passou a ganhar atenção em âmbito nacional. 

Tal sucesso momentâneo foi perceptível durante a estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos, na edição de Londres em 1908, quando os britânicos competiram com quatro equipes, cada uma representando as nações que compõem a Grã Bretanha (Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales).    

Mas foi em países vizinhos que a modalidade ganhou maior popularidade primeiramente. Depois da década de 20, o hóquei sobre a grama conquistou grande público principalmente em territórios colonizados pelos ingleses, como Índia e Paquistão.

Em 1924 foi fundada a Federação Internacional de Hóquei (FIH), em Paris, na França, que passou a ser a entidade que comanda o esporte. As primeiras filiadas foram Áustria, Bélgica, a antiga Tchecoslováquia, França, Hungria, Espanha e Suíça. Nos anos seguintes, Dinamarca, Turquia, Alemanha, Polônia e Portugal juntaram-se à organização. 

A Índia foi o primeiro país não europeu a integrar a FIH, fato ocorrido em 1928, ano marcado pelo início da hegemonia olímpica da nação, durante as Olimpíadas de Amsterdã, na Holanda. 

Disputa do hóquei sobre a grama em Amsterdã 1928. Foto: Wikipedia Commons
A hegemonia

Logo na primeira participação da seleção indiana masculina de hóquei na grama em uma Olimpíada, a equipe já mostrou um pouco do que seria este domínio. Em quatro partidas na primeira fase, quatro vitórias, com 26 gols marcados e nenhum sofrido, levando o time à final. Na grande decisão, a Índia derrotou a Holanda por 3 a 0, faturando o primeiro ouro olímpico de sua história e dessa hegemonia, encerrando a competição sem sofrer gols. 

Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1932, apenas três seleções participaram do torneio, que foi disputado em regulamento todos contra todos, com a seleção indiana masculina destruindo seus concorrentes com vitória por 11 a 1 contra o Japão e 24 a 1 para cima dos Estados Unidos, capturando o bicampeonato olímpico. 

Em Berlim, 1936, o torneio masculino de hóquei sobre a grama estava mais prestigiado, contando com a participação de 11 seleções, na maioria europeias e asiáticas. A Índia mais uma vez protagonizou uma primeira fase limpa, com 20 gols marcados e nenhum sofrido. A grande campanha rendeu vaga na semifinal contra a França. E com isso, mais uma goleada, dessa vez por 10 a 0. 

Pela primeira vez duas equipes chegavam na final com 100% de vitórias durante o torneio. Os indianos enfrentaram os alemães, donos da casa, que contavam com total apoio da torcida. A boa defesa também era característica dos anfitriões, que sofreram apenas um gol em todo o evento até então. Mas com um ataque alemão não tão potente, a Índia conquistou o tricampeonato, ao vencer por 8 a 1.

Tetra, penta, hexa e um ídolo

Balbir Singh dominou o hóquei na grama durante as décadas de 40, 50 e 60. Foto: Reprodução/Olympic Channel
Consolidando sua hegemonia a cada edição de Olimpíada, a Índia chegou a passar um período de 30 partidas invicta. Mas o grande evento esportivo mundial não ocorreu por oito anos, por causa da Segunda Guerra Mundial, voltando em Londres, no ano de 1948. Esta edição marcaria uma nova era indiana, prolongando seu reinado no hóquei sobre a grama. 

Segundo a pesquisa da UFPR, um grande nome ficou marcado no segundo tricampeonato da Índia: Balbir Singh. Ele é considerado por muitos o melhor jogador da história da modalidade. Nascido em 1924, ano da última edição de Olimpíada sem o hóquei na grama, Singh fez história na seleção masculina de seu país atuando como centroavante. 

Singh foi destaque nos Jogos de Londres 1948, Helsinque 1952 e Melbourne 1956, além de comandar a equipe nos Jogos Asiáticos de 1958 e 1962. Seu nome está presente no Guinness Book, como maior artilheiro da história do hóquei sobre a grama em finais de torneios olímpicos. A idolatria por ele era tanta, que outros quatro jogadores de hóquei que passaram pela seleção indiana, levavam o nome de Balbir Singh.

Singh, infelizmente, faleceu na última segunda-feira (25), aos 95 anos. Ele estava internado desde o dia 8 de maio. Singh deixou sua filha Sushbir e três filhos, Kanwalbir, Karanbir e Gurbir. 

Em Londres 1948, mais uma ampla vantagem para a Índia durante a fase de grupos. Mas na semifinal, o primeiro susto. Vitória por apenas 2 a 1 contra a Holanda, algo que vinha na contramão dos largos placares construídos pela seleção indiana. Na final, uma partida mais tranquila, o 4 a 0 sobre os britânicos e o quatro título olímpico. A Holanda completou o pódio ficando com o bronze.

Nos Jogos de Helsinque 1952, o pódio se repetiu, invertendo apenas o adversário da final contra a Índia, que dessa vez foi a Holanda, que perdeu a chance de destronar os indianos ao ser derrotada por 6 a 1. De longe, quem seguia a seleção indiana masculina era o Paquistão, que pela segunda vez seguida finalizava o evento perdendo a disputa pelo bronze. 

Mas o grande clássico do hóquei sobre a grama finamente aconteceria na final olímpica. O palco foi a Olimpíada de Melbourne, na Austrália, em 1956. Na fase de grupos a Índia marcou 36 gols, não sofreu nenhum, vencendo todos os seus jogos. O Paquistão não parecia tão eficaz, mas venceu duas de três partidas, empatando a última, sofrendo apenas um gol na classificatória. 

Os paquistaneses eliminaram os britânicos na semifinal, chegando em sua primeira final, proporcionando aos indianos sua partida mais difícil até então em sua história olímpica. O placar de 1 a 0 marcou a sexta medalha de ouro seguida da seleção indiana de hóquei na grama. E este seria o último título em sequência. 

O primeiro declínio

Na edição seguinte das Olimpíadas, em Roma 1960, mais uma página da rivalidade, Índia x Paquistão, marcada pela primeira derrota dos indianos em finais olímpicas.

Em Tóquio 1964, os indianos recuperaram o torno, faturando o 7º ouro na modalidade, devolvendo a derrota da edição anterior para os paquistaneses, nesta que foi a terceira final olímpica entre as respectivas seleções. 

Nos anos seguintes a seleção indiana sofreu um declínio, ficando com a medalha de bronze nos Jogos da Cidade do México em 1968. Em 70, veio a aposentadoria de Balbir Singh, que tornou-se técnico da equipe. Durante a Olimpíada de Munique em 1972, na Alemanha, mais um bronze contabilizado. 

Breve recuperação, último título olímpico e declínio total

Mesmo não mantendo a mesma excelência apresentada entre 1928-1956, os indianos buscaram seu único título mundial de hóquei sobre a grama, disputado em Kuala Lumpur, na Malásia, em 1975. Mais um encontro com os paquistaneses na final, e vitória por 2 a 1. 

A Índia foi campeã da terceira Copa do Mundo realizada na história. Foto: Reprodução
Favoritos ao título olímpico de Montreal 1976, os indianos tiveram um desempenho pífio, aquém do que havia sido apresentado no mundial do ano anterior. Não passaram da fase de grupos, encerrando a competição em 7º lugar, marcando a primeira vez desde 1928 em que a Índia não faturava uma medalha na modalidade.

Tentando um último suspiro da hegemonia, a Índia chegou a incrível marca de oito medalhas  de ouro no hóquei sobre a grama nos Jogos Olímpicos, durante a edição de Moscou, em 1980. O torneio foi difícil, e a Índia garantiu sua vaga na final ficando em 2º lugar no grupo. Na final, uma grande partida contra a Espanha, e vitória por 4 a 3. 

E esta foi a última vez que a seleção indiana de hóquei sobre a grama foi ao pódio olímpico. A equipe sequer frequentou o pódio da Copa do Mundo, mesmo sediando o evento por três oportunidades (Bombaim 1982, Nova Délhi 2010 e Bhubaneswar 2018). 

Devido a transição do esporte da grama natural para a grama sintética, países com menor poderio financeiro como Índia e Paquistão sofreram com o declínio de suas seleções, enquanto o esporte passou a ser dominado por países mais ricos e que tinham condições de construir e manter estruturas mais modernas como esses campos de grama artificial.

O esporte ainda é um dos mais populares na Índia, mas agora divide atenções com o críquete e o tênis. Desde a década de 80, o hóquei sobre a grama tornou-se um esporte mais popular entre os países de maiores recursos, com domínio dos europeus e ascensão de países da Oceania e América do Sul, culminando no título olímpico da Argentina, no Rio de Janeiro, em 2016, e seis pódios seguidos da Austrália, de 1992 a 2012. 

Mas fica registrado na história a importância e grandeza desse feito da seleção indiana de hóquei na grama, algo que pode ser comparado com poucos exemplos de domínios tão avassaladores, como os casos do basquete (masculino e feminino) e futebol feminino dos Estados Unidos, multicampeões olímpicos. 

Foto: Wikipedia Commons

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