Surto Entrevista - Felipe Meligeni - Surto Olimpico

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Surto Entrevista - Felipe Meligeni

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Com uma família lotada de amantes do tênis, Felipe Meligeni Rodrigues Alves mostra a cada partida que com ele não podia ser diferente. Não por pressão familiar, como ele mesmo garante. Mas sim por paixão. Desde pequeno ele já arrastava a raquete "pra lá e pra cá", até que finalmente começou a jogar. Praticava basquete e futebol também. Mas uma hora teve que optar.

Então optou viver momentos épicos no tênis, como quando enfrentou o atual número 3 do ranking mundial, o austríaco Dominic Thiem, em uma quadra central lotada durante o Rio Open deste ano. Sem medo, chegou a liderar o placar ao vencer a primeira parcial por 6/2, antes de levar a virada nos sets seguintes. Mas aquilo foi apenas um dos cartões de visita do tenista campineiro de 22 anos. 

Há quatro anos, quando ainda era um juvenil, Felipe faturou o título do US Open Júnior, nas duplas, ao lado do boliviano Juan Carlos Aguilar, que bateram na final um duo canadense. Um dos adversários nesta final foi Felix Auger-Aliassime, que hoje ocupa a 20ª posição no ranking da ATP. 

Mesmo sendo muito jovem, Felipe já acumula várias experiências. Este ano fez sua estreia na Copa Davis, no confronto contra a Austrália, fazendo o único ponto do Brasil no enfrentamento, jogando duplas ao lado de Marcelo Demoliner.

Felipe faz parte da nova geração brasileira no tênis. Atualmente está em 349º no ranking mundial de simples e 135º nas duplas. Mesmo já tendo retomado seus treinos em Santa Catarina, o atleta reservou um tempo e pôde mostrar um pouco de sua personalidade, falando sobre diversos temas nesta entrevista exclusiva ao Surto Olímpico. Confiram mais uma edição do Surto Entrevista.


- No seu primeiro ATP 500 você enfrentou um top 5 e ganhou um set. Como foi aquele jogo com o Thiem e quais as emoções que você sentiu em quadra?


Felipe - O jogo com o Thiem, p***, foi a melhor experiência que tive na minha vida. Jogar contra um cara top 5, que vinha de final do Australian Open, estava numa fase incrível. Foi um jogo muito louco, que ninguém esperava o que aconteceu. Eu estava muito ansioso, quando saiu a chave e falei 'puts, esse cara de primeira'. Mas depois disso eu pensei pelo lado positivo, usei o jogo como um teste pra ver em que nível estou e foi super legal, a torcida esteve comigo o tempo inteiro. E eu joguei muito bem. Infelizmente no terceiro set senti um pouco o nervosismo, um pouco de cãibra. Mas dei o meu melhor em todos os momentos. Vai ficar na minha memória para sempre e só de ter ganho o respeito do cara no fim do jogo, quando ele me parabenizou pelo nível apresentado, foi impressionante.

- A pandemia de coronavírus aconteceu pouco tempo depois do Rio Open, onde você "começou" sua ascensão. O quanto isso te atrapalhou?

Felipe - A pandemia chegou em um momento que eu tava jogando muito bem, com ótimos resultados, semifinal do Challenger de Punta, vitória nas duplas durante a Copa Davis, estava com a confiança muito alta. Mas foi a decisão certa essa precaução (de parar e fazer isolamento social), para que nenhum atleta fosse contaminado. Infelizmente quebrou o meu ritmo, a 'vibe' que eu vinha antes. Mas estou muito contente com o que já fiz e motivado para o futuro. Usei esse tempo para estar mais com minha família e fazer outras coisas, ao invés só do tênis.

Felipe Meligeni e Juan Aguilar venceram a final do US Open Junior de 2016 por 6/3, 7/6. Foto: Mike Lawrence/USTA
- Ganhar um Grand Slam no juvenil te ajudou em alguma coisa na transição para o profissional ou é "só" mais um título do juvenil?


Felipe - Me gerou oportunidades, ganhei convites para vários Futures e Challengers aqui no Brasil. Abriu portas para mim, para ganhar experiência e para me tornar mais completo, me deu muita bagagem. Você acaba ganhando uma fama no circuito querendo ou não. Além disso, deu muita confiança para entrar no circuito profissional. Infelizmente na transição você perde mais jogos do que ganha, mas foi muito bom para mim ter conquistado o US Open juvenil.

- Você já tem um bom ranking de duplas, está perto de romper a barreira do top 100. Em simples está evoluindo e já se encontra entre os 350 melhores. Pretende priorizar alguma das categorias?

Felipe - Sempre tive como prioridade o jogo em simples. A dupla é um complemento. Quando você perde e não se sente muito bem, isso pode te ajudar a treinar, praticar devolução, primeira bola, saque. Eu uso mais como complemento. Me ajuda também na questão de dinheiro. Manter-se vivo no torneio até o fim da semana é uma sensação boa. Mas o foco sempre é simples.


- Qual a maior dificuldade que você já enfrentou como profissional? Pode ser em qualquer aspecto

Felipe - O que pegou pra mim e geralmente pega para a galera da América do Sul foi a questão financeira. Não poder viajar tanto e quando viajar, fazer giras muito cansativas por não ter dinheiro pra ir e voltar. Mas isso me ensinou muita coisa. Aprendi o valor disso e o quanto tenho que me entregar 100%. Isso faz parte do processo.

Foto: Divulgação
- Você acredita que um aumento na premiação dos torneios Future e Challenger fariam bem para o circuito?

Felipe - Sim. A premiação é muito baixa no Future. No Challenger é um pouco melhor. Mas eu acho que é uma fase que o tenista tem que passar, Future e Challenger são torneios que fazem você crescer muito como tenista. Você vê que não é ali que quer ficar e dá o seu melhor a todo momento. É uma fase que temos que encarar depois de sair do juvenil. Deveria sim ter um pouco mais de premiação. Mas não sou contra que seja assim (como é hoje). O tenista tem que enfrentar dificuldades para se tornar uma pessoa mais dura, mais forte, não só de cabeça, mas em todos os sentidos.

- O que você quer do circuito de tênis? Quais são os seus objetivos?

Felipe - Esse ano o objetivo era estar entre os 150 melhores do mundo e colar no top-100, mas infelizmente com a pandemia os planos mudaram. Não sei se o circuito volta ou não. Mas na vida, eu quero muito ser top-20, me manter por bastante tempo entre os melhores. É isso que tenho m minha mente, sei que tenho capacidade. E quem sabe beliscar um top-10 e me meter nos maiores torneios.


- Está acompanhando as primeiras conversas sobre a possibilidade de fusão da ATP e WTA? Qual a sua opinião?

Felipe - Sim, eu acompanhei, recebi emails, fiquei sabendo que eles estão pensando em fazer uma união entre ATP e WTA. Eu sou neutro em relação a isto. Não tenho nada contra e nada a favor. Acho que pode ser uma coisa boa. Mas sou muito neutro para falar.

- Como é a relação com seu tio Fernando? Você o procura com frequência para falar de tênis e da sua carreira ou só em casos extremos?

Felipe - Tenho uma relação muito boa com meu tio. Eu sou um cara que não converso bastante. Mas acho que eu poderia explorar meu tio muito mais, falar muito mais com ele, para ele me contar mais coisas que ele já viveu. Eu poderia melhorar nisso, mas é meu jeito de ser. Sei que sempre que eu precisar ele estará ali por mim, vai me ajudar. É um cara com muita experiência e que posso aproveitar bastante. Sempre que estou jogando em São Paulo ele tenta assistir as partidas. Sou muito grato e muito sortudo de ter um cara desse na minha família e poder conversar com ele.

Foto: Divulgação
- Você acredita que com caras dessa geração, como você, Wild, Marcondes, Matos, Menezes, será possível dar aquele passo a mais dentro da Copa Davis e figurar mais vezes nas fases mais agudas? 

Felipe - A gente vem com uma geração muito boa de tenistas. Wild, Orlando, Menezes, uma galera que está jogando muito bem. Até o Thiago Monteiro que é jovem também e já está mais firme no top-100. Tem tudo para ser uma geração de sucesso. Temos tudo para ir bem na Copa Davis, um exemplo disso foi nossa atuação contra a Austrália, onde jogamos bem e estávamos confiantes, tem tudo para ser uma ótima equipe.

- Existe diferença entre o tênis treinado aqui no Brasil e o trabalho realizado na Europa?

Felipe - Existem diferenças sim. O jeito que eles se movimentam em quadra, a seriedade e dedicação deles. Não tem gracinha lá, são caras muito comprometidos com as coisas e isso faz toda a diferença. O trabalho físico é muito forte, pois eles são muito focados nisso. A força mental também. Aprendi muito sobre essas coisas lá.


- Você acredita que evoluiu quais atributos desde a época que você tornou-se profissional?

Felipe - Evoluí muito o que sempre me custava, desde pequeno, que era o lado emocional, mental. Eu era muito nervoso, era muito chorão, então tive que aprender a controlar minhas emoções da melhor maneira possível. Ainda sou um cara que fica p***, que fica bravo, mas hoje sei controlar de uma forma muito melhor esses momentos de loucura e raiva. Melhorei muito meu preparo físico também e minha técnica. E isso me tornou um jogador melhor e ainda posso melhorar mais ainda com certeza. 

- O que é preciso ser feito para que o tênis brasileiro cresça, torne-se uma potência, colocando mais jogadores no top 100?

Felipe - Infelizmente o Brasil é muito carente de ídolos, de caras no top-100. Aqui é muito difícil, tem muita gente que torce contra, que não apóia 100% ou que apóia só quando tá ganhando e no tênis não é assim, não é sempre que a gente ganha. No Brasil precisamos também compartilhar mais informações, os treinadores precisam ter mais contato, jogadores com treinadores também. É muito válido isso, vi muito disso ‘lá fora’, é muito diferente do Brasil. Os caras estão sempre se ajudando, conversando. Nos torneios ficam todos juntos. Aqui você vê muito tenista torcendo contra o outro, treinadores com ego muito grande que não quer perder atleta então não deixa treinar com outro. Temos muitos tenistas que jogam bem, mas ainda falta coisa pra gente. Ser mais humilde, deixar o ego de lado e todo mundo se ajudar. 

Foto: Fotojump

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