Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira - Sydney 2000, ESPN Brasil - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira - Sydney 2000, ESPN Brasil

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Narração: Milton Leite, João Palomino, Paulo Soares e Marco Antônio Mattos

Comentários: Antero Greco e Paulo Cesar Vasconcellos (futebol masculino), Paulo Calçade (futebol feminino), Pedro Toledo e Adauto Domingues (atletismo), Ana Moser (vôlei feminino), Maurício Jahu (vôlei masculino), Branca (basquete feminino), José Roberto Lux, o “Zé Boquinha” (basquete masculino), Ricardo Prado (natação), Douglas Vieira, Danielle Zangrando e Aurélio Miguel (judô)

Reportagens: André Kfouri, André Plihal, Lia Benthien e Helvídio Mattos

Apresentação: Luís Alberto Volpe, Soninha Francine, Elys Marina, Vivian Mesquita e Adriana Saldanha


Transmissão de vários campeonatos, de várias modalidades (basquete, vôlei, futebol), no Brasil e fora dele. Ênfase dada a esses campeonatos – a emissora chegou até a ganhar prêmios como o da Federação Paulista de Handebol, pelo espaço dado à cobertura do campeonato estadual da modalidade. Exibição até dos Jogos Abertos do Interior, tradicional competição entre cidades do estado de São Paulo. Cada esporte importante tinha o seu programa – Por dentro do Vôlei, Por dentro do Basquete, Limite (sobre automobilismo), Mar Brasil (sobre iatismo), sem contar o Futebol no Mundo e a faixa de esportes radicais EXPN. Se não tinha o dinheiro e as condições técnicas de seu concorrente SporTV, se ainda não tinha influência sobre a então chamada ESPN Internacional (que exibia eventos como NBA e a Liga dos Campeões, mas com equipe trabalhando direto da matriz da ESPN, em Bristol, cidade norte-americana), se não estava acessível a operadoras como NET e SKY, a ESPN Brasil ganhava força entre os espectadores apostando na força de seu departamento de jornalismo, no respeito que amealhava entre os próprios esportistas, na escolha – polêmica - por cobrir o lado “político” do esporte, com denúncias de mau uso de verbas por parte das federações – denúncias vindas principalmente a partir de programas como o Histórias do Esporte, já então coordenado por Roberto Salim e apresentado por Luís Alberto Volpe (1952-2020).


Até por isso, a emissora esportiva do Grupo Disney destinara destaque todo especial à cobertura dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999. E os bons resultados brasileiros na cidade canadense – com medalhas como o ouro de Maurren Maggi no salto em distância, narrado por João Palomino – aumentaram ainda mais o alcance da cobertura da ESPN Brasil, muito elogiada pelo trabalho no Pan. Era preciso fazer trabalho de qualidade igual em Sydney-2000. E antes mesmo que qualquer disputa começasse na Austrália, a equipe da ESPN entrou em regime de preparação nos meses anteriores. Um programa foi exibido para aquecer a preparação rumo a Sydney: era o De olho em Sydney 2000, que continha de tudo um pouco – os candidatos a mais medalhas, a preparação dos atletas brasileiros, momentos históricos dos Jogos Olímpicos etc.. De quebra, os 46 enviados do canal aos Jogos assistiram a palestras sobre esportes olímpicos, e até fizeram uma “clínica do sono” para que fosse analisada a melhor maneira de resistirem à brusca mudança para as 14h de diferença de fuso horário que o país-sede olímpico tinha à frente do horário de Brasília – diferença que motivou um lema engraçado para aquela cobertura da ESPN Brasil em Sydney: “1000 horas sem dormir”.


Diretor de jornalismo do canal, José Trajano continuaria sem ir ao local de disputa dos Jogos, comandando os trabalhos da ESPN Brasil diretamente da redação, no bairro paulistano do Sumaré. Mas os 46 enviados da emissora da Disney/TVA teriam o comando de Júlio Bartolo em Sydney, baseados num estúdio de 80m² no centro de imprensa – e tendo um canal alternativo para exibição de eventos simultâneos ao vivo durante os Jogos. Já destacado como a voz principal do canal, Milton Leite seria o principal narrador da emissora nas Olimpíadas. Tendo deixado o jornalismo geral para ficar de vez no esporte a partir de 1996 (um acidente aéreo em São Paulo, em outubro daquele ano, o deixara desgostoso com matérias fora do esporte), João Palomino também seria outro locutor remanescente dos trabalhos em Atlanta-1996 a figurar de novo em Sydney. Mais dedicado às transmissões dos torneios de futebol, Paulo Soares seria mais um narrador do canal que iria a Sydney. E meses após o fim da marcante passagem na TV Bandeirantes, Marco Antônio Mattos (1939-2004) seria uma boa novidade da ESPN Brasil, como narrador para a cobertura olímpica, dos estúdios no Brasil.


Entre os comentaristas, haveria alguns nomes que também iriam a Sydney pela ESPN Brasil – mas muitos ficariam nos estúdios em São Paulo. Entre os enviados à cidade-sede, Ana Moser começaria uma longa história de identificação com o canal, trazendo a experiência de três Jogos Olímpicos para comentar as partidas do vôlei feminino. Voz habitual nos debates futebolísticos da emissora (e também na cobertura do Campeonato Carioca), Paulo Cesar Vasconcellos seria o comentarista do futebol masculino em Sydney – para o futebol feminino, Paulo Calçade era o nome destacado, tendo deixado as reportagens de campo nos anos anteriores. Finalmente, Douglas Vieira também seria comentarista da emissora esportiva da Disney em Sydney, opinando sobre as lutas do judô – nos estúdios em São Paulo, Danielle Zangrando comentaria o judô feminino, iniciando uma história de colaboração habitual com a ESPN.


Se havia comentaristas de grosso calibre em Sydney, os estúdios paulistanos da ESPN Brasil não deixariam por menos. Além de comentarem as respectivas modalidades, os convidados também fariam parte dos debates que o De Olho em Sydney traria, durante as tardes no horário de Brasília, enquanto as disputas na Austrália estivessem paradas. Para o basquete feminino, Branca seria a comentarista – e “concorrente” involuntária da irmã Paula, comentando o bola-ao-cesto das mulheres em Sydney pelo SporTV. Após fracassar nas seletivas brasileiras, Aurélio Miguel também comentaria o judô para a ESPN brasileira. Nome famoso pelo recorde mundial que chegara a ter e pela prata nos 400m em Los Angeles-1984, Ricardo Prado voltava a comentar a natação olímpica, 12 anos após sua primeira participação numa cobertura televisiva.


Também chegando naqueles Jogos Olímpicos à emissora em que ficaria (até hoje, aliás), o técnico José Roberto Lux, o “Zé Boquinha”, comentaria o torneio de basquete masculino. Já estabilizado na ESPN como comentarista de vôlei e apresentador, Mauricio Jahu teria sua segunda participação olímpica no canal, comentando o vôlei masculino olímpico em Sydney. Finalmente, o paulista Adauto Domingues, bicampeão pan-americano dos 3000m – 1987 e 1991 - e o técnico Pedro de Toledo também comentariam o atletismo para a ESPN Brasil, dos estúdios.


Na apresentação dos programas, uma separação. A gaúcha Adriana Saldanha e a paulista Vivian Mesquita, apresentadora da faixa radical EXPN, ficaram no Brasil, apresentando o Repeteco Brasil (mostrando o evento do dia olímpico em que uma equipe ou atleta brasileiros mais se destacassem, às 14h de Brasília) e comandando os debates do De Olho em Sydney, a partir das 15h30. Diretamente do centro de imprensa na cidade-sede, dois programas balizariam a cobertura da ESPN Brasil. De segunda a sexta, no fim da tarde brasileira (17h), quando a manhã e o dia de competições se iniciavam em Sydney, vinha o Bom Dia Sydney para abrir os trabalhos rumo à madrugada – e quando ela se encerrasse, e com ela as disputas, das 9h às 11h de Brasília, o Boa Noite Sydney encerrava a cobertura diária da ESPN. Como um noticiário às 13h de Brasília, para quem não ficara acordado e queria um resumo da madrugada olímpica, havia o tradicional Sportscenter. Na apresentação desses três programas no IBC de Sydney, dois nomes conhecidos da ESPN brasileira naqueles tempos se alternavam: ora Elys Marina, ora Luís Alberto Volpe.


Entretanto, esses noticiosos traziam uma grande novidade para o canal. No final da década de 1990, Soninha Francine era uma conhecida VJ da MTV brasileira, cujos estúdios eram “vizinhos de parede” dos da ESPN Brasil, no bairro paulistano do Sumaré. Acompanhante próxima de futebol na época, a palmeirense Soninha começou a “pular o muro” de vez em quando, sendo convidada para debater e participar de alguns programas na “vizinha”. Pois deixou a MTV no segundo semestre de 1999. Começou a também apresentar programas, como o noticioso Bate-Bola, apresentado no começo da tarde. E naquelas Olimpíadas, não só Soninha foi a Sydney, como também participou do Bom Dia Sydney e do Boa Noite Sydney. Mais: tinha até quadros especialmente para ela, como o “Soninha em Sydney”, no qual a hoje vereadora paulistana acompanhava como estava o ambiente na cidade-sede, circulando por ela.


Finalmente, João Palomino e Milton Leite se alternaram na transmissão da cerimônia de abertura, em 15 de setembro (Milton ainda narrara as estreias do Brasil no futebol feminino, no dia 13, e no masculino, no dia 14). Estava dado o pontapé inicial numa cobertura duplamente lembrada por quem fez parte dela: pelo ritmo de trabalho intenso para uma equipe pequena, e pelos grandes momentos vividos. De certa forma, os repórteres destacados para correrem Sydney – e cidades vizinhas – afora simbolizaram isso. O primeiro deles, André Pilhal: vindo da Rádio Bandeirantes paulista para a ESPN Brasil no ano anterior, Plihal foi o repórter da campanha malograda do Brasil no futebol masculino, mas também acompanhou algumas medalhas, como o bronze de Torben Grael e Marcello Ferreira na classe Star do iatismo masculino.


Em sua segunda cobertura olímpica pela ESPN Brasil, André Kfouri fez reportagens para grandes momentos da delegação brasileira – como o 68 a 67 do Brasil na Rússia, nas quartas de final do torneio olímpico de basquete feminino, com a cesta de Alessandra a 1,4s do fim narrada com empolgação por Milton Leite na ESPN e motivando um “uhuuu” emocionado de Branca, nos comentários.


Mas segundo seu depoimento especial ao Surto Olímpico para esta série, não foi só por isso que André guarda as memórias de Sydney como algo especial na carreira: “Provavelmente foi a melhor Olimpíada que já houve. Um mundo anterior ao 11 de setembro [de 2001] permitiu uma cobertura com níveis ‘normais’ de preocupação com segurança, o parque olímpico era impecável e reuniu praticamente todas as competições, Sydney é uma cidade espetacular e os australianos estão entre as pessoas mais hospitaleiras que existem. Eu me lembro com muita saudade”. Tanta saudade que, quando participou do Credencial ESPN (série de programas com nomes da emissora rememorando participações em coberturas olímpicas anteriores, exibida antes dos Jogos de 2016), André fez questão que o tema musical de seu programa viesse do Midnight Oil, banda australiana... como Sydney.


(Reportagem de André Kfouri sobre Brasil 68x67 Rússia, nas quartas de final do torneio de basquete feminino, nos Jogos Olímpicos de 2000, exibida no De Olho em Sydney, programa da ESPN Brasil, em 27 de setembro de 2000. Postado no YouTube por HelNascimento)


Naquela campanha, o vôlei teria atenção toda especial da ESPN. Principalmente o feminino: a dupla Milton Leite-Ana Moser estava na cabine, acompanhando todos os jogos da equipe treinada por Bernardinho, com Leila e Virna como grandes destaques. Veio a lamentada eliminação para Cuba, nas semifinais, com os 3 sets a 2 das cubanas, que rumaram para o ouro. Aí, apareceu outro repórter de destaque na cobertura: Lia Benthien, nome frequente daqueles primeiros anos da ESPN Brasil (até por ser egressa da TV Cultura cujo departamento de esportes José Trajano dirigia). Ela mostrou em 29 de setembro a visita da comentarista Ana Moser ao treino da seleção feminina de vôlei, antes da vitória por 3 sets a 0 contra os Estados Unidos, que rendeu o bronze – medalha também reportada por ela.



(Reportagem de Lia Benthien sobre Brasil 3 sets a 0 nos Estados Unidos, decisão da medalha de bronze no torneio de vôlei feminino, nos Jogos Olímpicos de 2000, exibida no De Olho em Sydney, programa da ESPN Brasil, em 30 de setembro de 2000. Postado no YouTube por HelNascimento)


O bronze do vôlei feminino fora narrado por João Palomino, que também daria voz à participação de Daniele Hypólito no solo da ginástica artística feminina e a outro bronze especial do Brasil em Sydney – o revezamento 4x100m da natação masculina. Já Milton Leite deixaria marcado em sua voz a prata de outro revezamento, o 4x100m do atletismo dos homens. Também no atletismo, Milton Leite se empolgaria com o bom começo de Claudinei Quirino na final dos 200m, em 28 de setembro, gritando “É ouro! É ouro!”... só para ver Claudinei terminar em sexto lugar, enquanto o grego Konstantinos Kenteris celebrava o ouro. Sem narrar medalha, mas colocando a voz de sua experiência nas transmissões de jogos de vôlei, Marco Antônio Mattos teve uma honrosa participação derradeira na cobertura de Jogos Olímpicos – o narrador paulista de Barretos faleceria vítima de um acidente automobilístico, em fevereiro de 2004.


Outro que mereceria homenagens naquela marcante cobertura da ESPN Brasil foi Adhemar Ferreira da Silva: acompanhando as provas em Sydney na cabine do Estádio Olímpico, Adhemar foi convidado especial de uma edição do De Olho em Sydney. E encerrou aquele programa de um modo todo especial: amante de música – sua filha, Adyel Santos, é cantora -, pegou o violão e entoou “A saudade mata a gente” (“A saudade mata a gente, morena/A saudade é dor pungente, morena”). Um delicado e belo momento de um dos grandes ícones da história olímpica brasileira, que morreria poucos meses depois de Sydney, em 12 de janeiro de 2001.


Se havia momentos pungentes na cobertura, havia dificuldades, também. Uma delas, até criticada, em edição especial da revista Placar: “Sem estrutura para ficar 24 horas no ar, a emissora passa maus bocados para preencher a programação durante a tarde (madrugada em Sydney). Repete cinco vezes a mesma reportagem, mostra um bizarro debate sobre drag queens com a participação de Elke Maravilha”. De fato, o número pequeno de enviados da ESPN Brasil àqueles Jogos Olímpicos, trabalhando para dois canais, levava o ritmo de trabalho às raias do incrível. Em sua autobiografia, Dizendo a que veio: uma vida contra o preconceito (São Paulo, Tordesilhas, 2018), Soninha Francine se impressionou: “O Milton Leite e o Palomino chegavam a narrar três competições ao mesmo tempo, pulando de um jogo de tênis para uma final de tiro e uma eliminatória de esgrima”. E concluiu, saudosa: “Era maravilhosamente extenuante”.


De fato, se o trabalho para a ESPN Brasil fora ainda mais árduo do que já é numa cobertura olímpica, também é verdade que Sydney-2000 foi uma cobertura que deixou saudades. Em quem a fez e em quem a assistiu. E fortaleceu a imagem do jornalismo da emissora – ainda mais depois do belo fim, no De Olho em Sydney de 1º de outubro, apresentado por Adriana Saldanha horas após a cerimônia de encerramento, homenageando um nome da redação que falecera meses antes dos Jogos: o chefe de reportagem, Ives Tavares (1955-2000). Que deixou marcas até hoje: seu nome batiza a redação da ESPN, que segue no mesmo bairro paulistano do Sumaré que sediou aquelas madrugadas frenéticas entre 13 de setembro e 1º de outubro de 2000.




(Clipe de encerramento da cobertura da ESPN Brasil para os Jogos Olímpicos de 2000, exibido no programa “De Olho em Sydney”, em 1º de outubro de 2000. Postado no Youtube por HelNascimento)

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