A crise do coronavírus e a seleção chinesa de futebol feminino na busca por uma vaga olímpica - Surto Olimpico

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A crise do coronavírus e a seleção chinesa de futebol feminino na busca por uma vaga olímpica

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O número de mortos pelo novo coronavírus, que teve início na cidade chinesa de Wuhan, assustou o mundo logo no primeiro mês do ano. A velocidade e a intensidade com que o vírus se espalhou dentro do país e também no exterior chamam a atenção e preocupam as autoridades de diferentes nações mundo afora. Hoje o Tibete, única parte da China até então que se via livre do vírus, teve confirmado seu primeiro caso. Até o momento, já foram mais de 12 mil só na China. Também nesta quinta foi decretada emergência global por conta dos recentes acontecimentos em todo o mundo.

Pré-olímpicos que seriam realizados em solo chinês tiveram sua sede alterada. O asiático feminino de boxe, por exemplo, não vai acontecer mais em Wuhan e sim em Amã (Jordânia) entre os dias 03 e 14 de Fevereiro. O qualificatório asiático de futebol feminino também deixou Wuhan, nesse caso para acontecer em Sydney (Austrália). Tamanho efeito não só no país continental mas na Ásia toda ameaça inclusive os Jogos Olímpicos de Tóquio, a serem realizados no Japão entre os meses de Julho e Agosto. 

A seleção feminina de futebol da China vem passando por muitas dificuldades desde a metade de Janeiro. Após encerrar o 2019 com treinamentos em solo australiano, o elenco retornou para seu país no dia 17 a fim de celebrar o ano novo local, marcado para acontecer oito dias mais tarde. Após as festas, o elenco deveria se reunir em Wuhan, cidade que receberia o Grupo B do pré-olímpico e as delegações de Austrália, Tailândia e Taipé Chinês na primeira parte do qualificatório.

Porém, o surto começou a tomar corpo na cidade justamente nessa época. Com a epidemia piorando dia após dia e casos pipocando a todo momento, a Confederação Asiática de Futebol (AFC) optou por transferir o torneio de Wuhan (província de Hubei) para Nanjing (província de Jiangsu). Durou pouco. Com a divulgação de novos enfermos sendo cada vez maior e em cada vez mais partes dentro da China, a entidade continental decidiu enfim remover o torneio de lá, escolhendo Sydney como local sede.

A indefinição e a demora atrapalharam os planos da seleção, que só conseguiu realizar atividades no campo desde o retorno da Austrália uma vez, ainda na metade do mês de Janeiro e antes do ano novo chinês. Para atrapalhar ainda mais o planejamento, a cidade de Wuhan foi mantida em quarentena pelo número assombroso de casos que ia aumentando drasticamente dia após dia, fazendo com que atletas que ali tivessem celebrado a data festiva não pudessem deixar a cidade para embarcar à Austrália.

Quatro delas estavam na lista prévia de Jia Xiuquan mas não puderam viajar: Lv Yueyun, Wang Shuang, Yao Wei (três meio campistas do Wuhan Jiangda) e a lateral Li Mengwen (defensora do Jiangsu Suning mas que esteve em Zhejiang recentemente). A equipe médica tratou de avisar que nenhuma atleta desse pequeno grupo estava com o vírus, suas ausências na lista se davam apenas pela impossibilidade de elas deixarem o local onde estavam para se juntar à delegação por questão de segurança imposta pela própria cidade.

A ausência de Wang Shuang será muito sentida para essa primeira etapa de qualificatório (caso ela aconteça) já que a meio campista foi eleita a melhor jogadora do país nos últimos três anos e a melhor da Ásia em 2018. Shuang é natural de Wuhan e chamou a atenção durante esse período por ter doado 600 mil yuans para a cidade na ideia de ajudar o território na cura e também na prevenção a novos casos. O Shanghai Shengli, time feminino da primeira divisão, também fez uma doação em dinheiro recentemente buscando apoiar a localidade.

A seleção já se encontra em solo australiano, mais precisamente em Brisbane. Lá, porém, está impossibilitada de realizar treinamentos já que a precaução do governo australiano com pessoas vindas da China é alta. Na última quarta-feira (dia 29), a delegação inteira fora posta em quarentena em um hotel local. As 21 jogadoras mais 11 membros de comissão técnica e staff se encontram até o momento isolados em dois andares do estabelecimento e proibidos de manter contato com outros hóspedes por questões de segurança.

Assim, treinamentos e movimentações a céu aberto são proibidos, com as atletas não podendo utilizar a academia do hotel ou outra estrutura para a realização de atividades físicas muito menos sair para praticar um exercício específico em um gramado das proximidades. O jeito encontrado pela comissão técnica para tentar amenizar as deficiências de tanto tempo sem o preparo ideal é realizar alongamentos no chão dos corredores dos andares liberados pelo hotel.

Vale lembrar que o elenco todo que deixou Wuhan e embarcou à Austrália via Shanghai passou por rigorosos testes feitos por médicos chineses em Suzhou. As máscaras, desde o período na China até mesmo ao tempo de voo, foram materiais indispensáveis. Mesmo assim, durante esse período em Brisbane, as jogadoras recebem atendimento diário por parte de especialistas locais que buscam saber se alguém da delegação apresentou alteração de um dia para o outro, desenvolvendo um sintoma evidente do novo coronavírus. 

O planejamento chinês tinha como ideia deixar Brisbane com destino a Sydney no próximo dia 02 (domingo), mas as autoridades australianas têm outros planos: segurar as Rosas de Aço e comissão técnica no hotel até o próximo dia 05, podendo realizar assim um melhor e mais seguro trabalho clínico sobre o elenco. O grande problema é que o Grupo B já tem rodada marcada para o dia 03, com as chinesas encarando a Tailândia na abertura da chave. Caso a delegação fique mesmo em Brisbane, as rodadas precisariam ser reajustadas.

A Austrália já manifestou a intenção de realizar todos os jogos do grupo com portões fechados, impedindo assim a grande circulação de pessoas e com medo de uma provável epidemia atingir também o país, que já tem sete casos do novo coronavírus confirmados. Com uma população de mais de dois milhões de pessoas, o crescimento recente da seleção a nível internacional e alto interesse da população local em ver as Matildas em ação, esperava-se um ótimo público em Brisbane para todas as rodadas.

As chinesas, enquanto isso, buscam se adequar às novas dificuldades que vêm surgindo dia após dia em um momento dos mais críticos não só para a delegação esportiva, que sofre com a incerteza, mas também com o lado humano contido em cada uma delas. Que veem o esporte como uma forma de virar a chave e esquecer os tantos problemas enfrentados em seu território nas últimas semanas.

Fotos: Xinhua, Ai Tingting (Weibo) e ICPhoto

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