Coluna Surto Mundo Afora #50 - Análise do quadro de medalhas do Pan de Lima


Por Bruno Guedes


Os Jogos Pan-Americanos terminaram, como de praxe com os Estados Unidos no topo do quadro de medalhas, no último domingo e revelando um retrato sobre o quanto o investimento feito por países que receberam eventos esportivos apareceu. Os grandes exemplos ficaram por conta de Brasil e México, duas nações gigantes em população e que tiveram necessidade de buscar resultados para competições em casa. Superaram o Canadá, que há quatro anos recebeu o Pan, e realizaram as melhores campanhas de suas histórias.

Há duas semanas, durante a abertura dos Jogos, fizemos um panorama sobre os possíveis primeiros colocados no quadro de medalhas. Percebe-se uma potência inalcançável, os EUA, mas agora com mais conquistas espalhadas por delegações que chamamos aqui de potências regionais, casos de Brasil, Canadá, Cuba e agora México. Mesmo assim, os americanos não tiveram queda no desempenho. Pelo contrário, aumentaram ainda mais o poderio.

Com fortes investimentos recentes por conta das Olimpíadas, o Brasil colheu os frutos desse apoio na última década em esportes diversos. Casos do Tênis de Mesa, Badminton e principalmente lutas, um arsenal de medalhas. Porém, pessoas com quem conversamos ao longo deste Pan - principalmente treinadores e corpo técnico - temem por uma considerável queda na próxima. Além da diminuição drástica do apoio após a Rio 2016, as renovações em algumas modalidades parecem comprometidas.

México e Canadá, que receberam os dois Pan-Americanos anteriores a este, também conseguiram colher bons resultados. Os mexicanos, em especial, tiveram ótimo desempenho oito anos após Guadalajara com os Jogos. Como veremos a seguir, com diversificação nas conquistas.

Cuba, que adota há alguns anos novas políticas esportivas após sua queda brutal, conseguiu estagnar - temporariamente - a fuga de medalhas. Uma das medidas foi aceitar competidores que saíram da Ilha, casos de esportes coletivos, não deixando assim cair o desempenho como um todo. Mas seu carro chefe segue sendo as competições individuais.

Mas nenhuma surpresa foi tão agradável quanto a Argentina. Recém-saída das Olimpíadas da Juventude, em Buenos Aires ano passado, os 'hermanos' tiveram um grande desempenho. E com a nova geração. Junta-se a isso o fato dos esportes coletivos, força argentina, ter logrado êxito em quase tudo.


Jogos Pan-Americanos devem ser relativizados quanto à questão técnica. Ainda mais quando lembramos que alguns esportes que alavancaram nações não estarão em Tóquio, casos da Pelota Basca e Patinação, por exemplo. Porém as marcas e os nomes que surgem podem sim espelhar uma realidade local e também o quanto cada país pode ter de esperança nas Olimpíadas.


Estados Unidos
Delegação: 642

Média: 2,1 atletas por medalha; 5,3 atletas por medalha de ouro


Os Estados Unidos aumentaram a quantidade total de medalhas e de ouro. Foram 293 em 2019 contra 265 há 4 anos, sendo 120 ouros contra 103. Foi a única potência Top 10 do último quadro de medalhas que disputou o Pan e não teve dificuldades em se impor sobre os demais rivais.


Levou equipes mistas para quase todos as competições, como Ginástica Artística, Atletismo e Natação, mas também completamente reserva em outras, caso de vôlei e basquete. Mas a distribuição de conquistas continua bastante diversificada, o que ajuda a alavancar a delegação desde o primeiro dia. Das 61 disciplinas competidas, medalhou em 39.


A maior quantidade de medalhas veio da Natação, que já havia brilhado duas semanas antes no Mundial da Coreia do Sul. Foram 44 ao todo, sendo 21 de ouro. Depois vieram Atletismo e Tiro Esportivo, com 33 e 20 totais, respectivamente. Somente estes três foram responsáveis por 31% das douradas vitórias americanas. O panorama mostra o quanto os esportes individuais são essenciais para o número geral de conquistas.


E quando falamos delas, sempre temos que citar as lutas. As artes marciais são arsenais de medalhas por conta de tantas categorias e competidores. Os EUA sempre conseguem ter dois atletas potenciais, sendo um para medalhar e outro de chamado "stand by", caso o primeiro não conquista. E pode eventualmente até ambos subirem ao pódio, como vimos aos montes. Foram 45 medalhas no total. 


Fora a esgrima que muitos colocam nesse hall, com mais 11 sendo 10 de ouro!!! É de fato uma potência inatingível até mesmo pelo vizinho também desenvolvido Canadá. 


Brasil
Delegação: 491

Média: 2,8 atletas por medalha; 8,9 atletas por medalha de ouro



A delegação brasileira fez sua melhor participação na História dos Pan-Americanos. Aumentou em 30 o número de medalhas em comparação a Toronto 2015: 171, sendo 55 ouros, 14 a mais que há quatro anos. E isso se deve ao forte investimento que foi feito pelo COB e Governo visando as Olimpíadas de 2016.

Durante este processo que veio desde o começo da década houve críticas por conta de se investir muito em atletas já formados e com possibilidade de conquistas. Mas percebe-se também que leis de incentivo ao esporte fomentaram a base. O Brasil medalhou em 40 disciplinas, sendo em 23 delas com algum ouro. Maior número na História dos Jogos. E com conquistas bastantes relevantes, como a Patinação feminina inédita, Badminton, Canoagem Slalom e Triatlo. 

Nossa modalidade mais forte foi, como em 2015, a Natação. Ao todo 30 medalhas, sendo 10 douradas. E aí entra, também, o incentivo às modalidades individuais que são fundamentais para o quadro geral. Nas artes marciais foram 30 conquistas ao todo, sendo 9 de ouro. Ou seja, 18% de tudo conquistado em Lima. Somando, 36% só com estes citados. 

Entretanto, o Brasil poderia ter ainda melhores resultados nas lutas. Casos de Judô e Caratê, onde os melhores de suas categorias não levaram o ouro. O mais emblemático caso foi do multi-campeão e grande nome da modalidade - já entrevistado pelo Surto Oímpico - o carateca Douglas Brose. 

Outro fator importante foi a inclusão de esportes fortes do país no programa, o que aumenta ainda mais as esperanças para 2020: Surfe. Quatro medalhas vieram dele, sendo duas douradas. Assim como a Ginástica Artística, os desempenhos foram excepcionais, garantindo a consolidação no segundo lugar geral a partir do meio pro fim do Pan.

Com exceção do basquete feminino - e sua autoestima renovada com ouro - e o orgulho nacional que são as meninas do Handebol, os esportes coletivos foram uma coleção de decepções. A começar pelo vôlei, que não fez nenhuma final em Lima. Entre as mulheres, o de quadra nem mesmo medalhou, acendendo o alerta sobre a já questionada renovação e o time alternativo que competiu. No masculino, idem. Um bronze que não foi celebrado e com gosto de que poderia ter jogado muito mais.

Mas ninguém fez pior que a Seleção Masculina de Handebol. Com ar blasé, enfrentou a competição como se fosse mais uma qualquer, foi derrotada pelo Chile nas semifinais e praticamente está fora das Olimpíadas. O que há alguns anos era visto como grande potencial de medalha olímpica, virou uma tremenda decepção. 

Entretanto o país, ainda que por este breve período, mostra que pode um dia se tornar potência esportiva caso haja um investimento sério e duradouro. 


México
Delegação: 550 atletas

Média: 4 atletas por medalha; 14,8 atletas por medalha de ouro



Os mexicanos deram um grande salto na quantidade de medalhas e também no quadro geral. Saiu das 97 em Toronto para 136 agora, Aumentaram os ouros de 22 para 37. Marca impressionante se levarmos em conta a tardia ascensão da geração que tomou espaço para brilhar oito anos antes, em casa.

O México conseguiu medalhas em 35 modalidades, sendo ouro em 17 delas. A maior soma de conquistas veio do Salto Ornamental, com 11 pódios e 4 vezes no alto deles. Quando se preparava para Guadalajara 2011, o Comitê Olímpico local e os representantes governamentais mapearam os esportes em que o país poderia obter mais rapidamente os resultados. E foi assim que aconteceu. Porém um pouco mais tarde.

Há que se ressaltar, porém, a quantidade de medalhas obtidas em modalidades fora do programa olímpico. Casos do Raquetebol com 7 ao todo, sendo 5 de ouro e mais uma de cada um dos metais seguintes. Já na Pelota Basca foram 9, com outras 5 no primeiro lugar.

E junto a isso, fraco desempenho em Natação, com apenas 6 bronzes, e o Atletismo com 10 pódios: apenas 3 douradas conquistas. Desempenho insuficiente para que daqui a um ano, em Tóquio, sonhe com resultados melhores e materializar o investimento feito. 


Canadá
Delegação: 490 atletas

Média: 3,2 atletas por medalha; 14 atletas por medalha de ouro



O Canadá reduziu bastante o número total de conquistas. Em casa foram 217 e vice geral no quadro, para 152. Mas o número de ouros caiu mais que a metade, de 78 para 35. Considerando que ao contrário de Toronto 2015 não teve representantes em todas as categorias, é algo que ameniza o resultado. Mas acende um alerta.

Nas Olimpíadas do Rio, um ano após sediar o Pan, conseguiu 22 medalhas. Apenas 4 delas eram de ouro. Em Lima medalhou em 36 disciplinas, sendo 18 delas em primeiro lugar ao menos uma vez. Os melhores resultados vieram do Atletismo, com 15 ao todo e 5 douradas. A Natação também teve o mesmo número, mas apenas uma vez subiu no topo do pódio.

O resultado está longe de ser ruim. Um quarto lugar no quadro geral pode parecer até decepção porque veio de uma competição anterior em casa, mas elevou o número de medalhas se compararmos com os dois Jogos Pan-Americanos anteriores a Toronto. 

E fica ainda mais interessante se comparamos uma competição após recebê-la em casa, com o mesmo panorama do Brasil (2011) e México (2015). Conseguiu mais medalhas que estes dois países no Pan subsequente. Porém ainda peca bastante em modalidades que distribuem muitas conquistas, como as lutas. Foram apenas 14 e um ouro.


Cuba
Delegação: 420 atletas

Média: 4,2 atletas por medalha; 12,7 atletas por medalha de ouro



Os cubanos se mantiveram estáveis. Foi uma conquista a mais que em relação a 2015, 98, porém com menos 3 medalhas de ouros, 33. É inegável que manteve a média, porém continua muito abaixo dos seus tempos áureos, outrora com mais de 200, casos de Mar del Plata 1995 e Havana 1991.


Mas percebe-se uma tentativa de diminuir cada vez mais esse sucateamento esportivo e sua queda na força. Medalhou em 21 competições e em 9 delas com ouro. Sua grande potência continua sendo as Lutas. Foram 42 no total, quase metade de tudo, sendo 18 douradas. A Luta Olímpica foi quem mais rendeu conquistas, 16, com 5 delas no mais alto lugar do pódio.


Em esportes tradicionais, como vôlei, Cuba vem autorizando a competição de atletas que saíram da ilha e buscaram novos mercados. Durante muito tempo quem saía, estava impedido de vestir a camisa da Seleção. Isso causou um colapso gigante e enfraquecimento destes times. Essa reversão pode causar um intercâmbio necessário e urgente no esporte cubano.


Argentina
Delegação: 535 atletas

Média: 5,2 atletas por medalha; 16,7 atletas por medalha de ouro



Argentina foi uma das que mais aumentaram a quantidade geral. Saltaram de 75 em 2015 para 101 medalhas em 2019, sendo que mais que dobrou em ouros, que foram 32 contra 15 de há quatro anos. Destaque para a volta do domínio no Hóquei na Grama, que foi campeão no masculino e feminino, ao contrário de Toronto.

Isso não aconteceu à toa. O país investiu na base por causa das Olimpíadas da Juventude, realizadas em Buenos Aires há um ano. Com mais jovens, mais renovações. O que reflete no exemplo da nadadora Delfina Pignatiello, de 19 anos. A porta-bandeira na Cerimônia de Encerramento voltou para casa com 3 medalhas de ouro e uma esperança gigante para 2020.

A média de idade nas conquistas individuais da Argentina ficou em 26 anos. Sendo que muitos dos considerados mais experientes vieram de esportes fora do programa olímpico, como Raquetebol, Squash e Pelota Basca. Por outro lado, muitos jovens entre os que estarão em Tóquio, caso de Tênis, Tênis de Mesa, Surfe, Tiro com Arco e Vela. Alguns com 18 anos, como Ivan Nikolajuk, e 19. caso de Horacio Cifuentes. Só para citarmos alguns dos muitos...

Estaria nascendo mais uma nova super força nas Américas? Torcemos, pois Argentina e Brasil são parceiros esportivos há décadas, trocando importantes conhecimentos em diversas modalidades.


FONTES DOS DADOS: Panamsports

foto: Wander Roberto/COB

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