Surto Entrevista - Sérgio Arenillas


Por Bruno Vieira, Bruno Guedes, Daniel Barbosa, Juvenal Dias, Marcos Antônio e Regys Silva

Sérgio Arenillas é uma grata surpresa da narração esportiva. Narrador desde 2015, Sérgio tem sido a voz do esportes olímpicos no canal SporTV, tendo narrado duas olimpíadas (Rio 2016 e PyeongChang 2018) além de participado de transmissões de mais de 30 esportes olímpicos desde então. Profundo conhecedor dos Jogos olímpicos e fã de grandes narradores polivalentes da televisão brasileira como Luciano do Valle, Álvaro José e Everaldo Marques, Sérgio conta na entrevista como virou narrador, a opção por narrar esportes olímpicos, além de toda sua preparação na hora de narrar um esporte, uma pequena aula para qualquer aspirante a narrador. Confira:


- Quando você optou em ser jornalista e porque escolheu ser narrador?

Na verdade o interesse em narrar veio antes. Cursei jornalismo porque achava ser o caminho natural para ser narrador. Cresci vendo esportes, grandes eventos e queria fazer parte deles. Assistia e gravava eventos, aprendia sobre os esportes, narrava sozinho.. Escolher um curso na faculdade foi uma escolha lógica, objetiva. Também desde pequeno me interessei por história, geografia e era bastante ligado à mídias. Televisão, VHS’s, Jornais. Foi uma escolha bem prática. Uni o útil ao agradável.
   
- Muitos narradores sonham em narrar grandes jogos de futebol (Copa do Mundo, Copa Libertadores, Copa América e Eurocopa), mas você opta por esportes olímpicos. Qual o motivo de tal opção?

Acho que cada um que almeja ser narrador tem seus próprios sonhos e metas. Existem grandes narradores de futebol, ainda que esporadicamente façam outras modalidades. E existem grandes narradores polivalentes, como Álvaro José, Luciano do Valle e mais recentemente o próprio Everaldo Marques. Os três minhas maiores referências na profissão.

Muitos que são malucos por futebol, e da fato são a maioria, tem um envolvimento afetivo com o futebol que eu particularmente não tive. Não me entendam mal, adoro futebol. Acho que o apelo universal que ele tem é inigualável e de fato é o maior esporte do planeta. Mas não é o único nem o exclusivo portador de grandes histórias e emoções. Porém não fui frequentador de estádio desde pequeno, não nasci em uma família de futebolistas doentes. O que aprendi de esporte foi por conta própria na base da observação e insistência. Dai fui construindo meus interesses que não ficaram, ainda bem, só no futebol. Porém adoraria estar em grandes eventos e coberturas, como de uma Copa do Mundo, Eurocopa, Copa América, etc. Com o tempo torço para estar nelas, mas hoje de fato as Olimpíadas são mais próximas da minha realidade.

- Tem algum esporte que goste de narrar? Tem algum esporte que você ainda não narrou e desejaria narrar algum dia?

Todos. Especialmente aqueles além do futebol. Acredito que são os que mais te desafiam na preparação e que mais te enriquecem culturalmente e esportivamente. Gosto dessa amplitude de conhecimento. Acho importante se sentir confortável em esportes “diferentes”, falar com propriedade de modalidades que fogem da realidade cotidiana do grande público. Gosto de pensar que de certa forma numa transmissão dessas educo alguém que se interessa por algo que está vendo pela primeira vez. Que esse pessoa ao entender bem o que está acontecendo de repente coloque um interesse esportivo a mais no seu cesto esportivo. Só se pode gostar de algo que você conhece, certo? Quanto ao desejo, gostaria de narrar todas as olímpicas que ainda não narrei. É uma meta poder narrar todos os esportes e modalidades que integram o programa dos Jogos. Como ele não para de crescer vai ser uma 'caça' interessante para os próximos anos.

- O narrador tem a voz como meio de trabalho. Como faz para cuidar da sua? 

Claro que existem exercícios fonoaudiólogos para ajudar, especialmente na dicção, mas no quesito potência/qualidade prezo pela cautela. Basicamente vai de não gritar e não forçar demais antes das transmissões; beber bastante água antes, durante e especialmente depois delas, sobretudo as mais longas. Por fim apontaria o descanso. Dormir me recupera bem. Em eventos longos, tanto em horas quanto em dias, tem horas que é com ele que sinto uma recuperada legal. Não sou adepto de métodos como mel, gengibre ou maça. Porém evito laticínios antes das transmissões para não espessar a saliva e interferir com a articulação.

Já teve alguma vez que não estava 100% para narrar?

Sim, e me encheu de preocupação e raiva. Foi na transmissão da prova de estrada masculina do Mundial de Ciclismo de Estrada ano passado, em Bergen. No SporTV transmitimos as provas do mundial na íntegra, desde momentos antes da largada até o final da prova. Obviamente a prova que todos querem ver é essa masculina no domingo, mas o mundial começa uma semana antes e temos contra relógios, provas femininas, sub23, por equipes.. Ou seja, ficamos uma semana em média quatro horas ao vivo no ar todo dia. Mesmo tomando todos os cuidados acima ao longo da longa semana e usando uns remédios pontuais acordei no domingo com um pouco de rouquidão. Justo no dia mais esperado? No dia que a prova dura seis horas e algo? Não tinha como dar pra trás. Fui e deu certo. Se estivesse sem voz que não teria jeito. Acho que ninguém notou no ar e no fim a narração ficou bem legal e completa. Mas foi a transmissão que eu estava mais longe de estar 100%.

- Você tem alguma transmissão que tenha sido marcante para você?

Tenho algumas. A primeira é sempre especial, ainda mais no meu caso que estreei em uma Olimpíada e narrando um esporte que sempre sonhava em narrar na TV pois já acompanhava bastante de perto há anos (Ciclismo de Estrada). E a prova também foi bem bacana, reviravoltas no final. Meu primeiro mundial de ciclismo de estrada (esse que citei acima), campeonato que ansiava por fazer desde ser aprovado na seleção de narradores em 2015; a última medalha de PyeongChang também foi bem marcante. Já tinha narrado a primeira medalha e poder narrar também a última, fechando um ciclo intenso de quase três semanas e ainda com a última vitória de Marit Bjorgen. Teve muita emoção do último bom dia até o último adeus. Sensação de dever cumprido.

- Qual modalidade é mais difícil de narrar? Por quê?

Eu diria que o Vôlei, até por nunca ter narrado pra valer e tido a chance de domar o ritmo desse jogo. No geral acho que são as modalidades em que a ação é muito rápida e exigem atenção muito acentuada. Você tem que se programar, se acostumar com outra velocidade. Fora o exercício de descrição e resumo. São esportes que você não pode olhar pra tela, conferir quem é no papel e aí identificar. Nesse intervalo você perdeu a ação. Ou tá memorizado na cabeça ou não está. Tenho narrado bastante atletismo nos últimos anos, por exemplo. Hoje me dou muito bem com uma corrida de 100 metros ou outra prova balizada. É algo que se pega com o tempo. E com ele cada um cria suas táticas pra facilitar e deixar a narração o mais limpa possível.

- Como é o seu método de preparação para transmitir qualquer esporte?

A preparação é sempre muito mais trabalhosa que qualquer transmissão, por mais longa que ela venha a ser. Inclusive quanto mais longa, maior a preparação. Como narrador você que tem que manter o evento na rédea, não pode transparecer estar perdido. Por isso preciso estar munido de conteúdo. Muita coisa inclusive nem chego a utilizar, mas é importante ter na manga.

Quando vou narrar algo, especialmente algo que não fiz antes e não tenho uma relação anterior mais forte, preciso de segurança. Na maior parte dos casos preciso aprender aquilo que vou narrar e ir além em questão de dias, com sorte umas semanas. Ter tido um contato prévio ajuda muito pois te orienta, dá ideias de por onde conduzir as pesquisas.

Ir para uma transmissão apenas com o básico para mim é muito pouco. Me recuso chegar apenas com isso e jogar para o comentarista explicar tudo. Meu papel é saber e elucidar o que está acontecendo. O deles é esmiuçar os detalhes e as nuances específicas. O meu olho é geral e se possível, e às vezes para não ser pedante, específico. O deles tem que ser específico sempre.

Gosto que eles não precisem perder tempo com o básico e possam expor seus conhecimentos mais a fundo. O 'basicão' para o público que nunca ouviu falar e tem que entender é comigo. O nível aprofundado para o seguidor mais fanático gosto que seja conosco. Gosto de estar nessa discussão. Mesmo tendo eventualmente tendo saído do zero dias antes. Na hora da transmissão pode ter certeza que estarei ligado no cenário atual daquilo. Pra mim é valorizar o meu preparo, o tempo de quem está assistindo e o evento que estou comandando. Nunca posso ser maior que o evento que narro, mas tenho que estar a sua altura. Por isso grandes coberturas exigem grandes preparos.

Bem, primeiro tenho que entender o funcionamento básico daquele esporte. São tempos, quartos, entradas? Quantos jogam, qual o objetivo e coisas bem gerais. Isso tem que estar bem claro porque afinal eu vou ter que explicar de forma fácil (e rápida) depois na transmissão.

A partir daí posso focar em outras coisas. Medidas, recordes, o que é uma marca/tempo bom ou ruim, as provas, as origens. Quais são as principais competições e quem tem vencido? Isso me ajuda na questão dos favoritos. Quais países tem uma tradição histórica? Assim posso traçar uma herança ou um pioneirismo esportivo. Quem são os grandes expoentes históricos da modalidade? O que fizeram? Elevaram algum patamar?

E assim vou respondendo várias perguntas, algumas base para todos esses esportes e outras que me surgem para aquele esporte específico. Tem horas que é uma corrente aleatória. Trabalho muito de madrugada pois muita coisa pinta quando gostaria de dormir e aí sigo o embalo.

Vou pensando em ligações para essas informações, ordeno elas em papéis, fichas, faço perfis individuais de grandes atletas para ter informações e curiosidades de vários. Assim você pode “vender” um evento com várias feras e não só um grande conhecido. As grandes histórias estão nesses duelos, não em monólogos de um atleta.

Num grande evento costumo faço apostilas evento a evento de todos os esportes. Assim posso transitar entre extremos no intervalo de algumas páginas. Do Mountain Bike ao Taekwondo ou do Biatlo para a Patinação de Velocidade. Gosto sempre de preparar o meu material pois sei o tipo de informação que tenho e por onde posso conduzir discussões.

E por fim sempre após um evento atualizo com os resultados e mantenho essas pesquisas e apostilas arquivadas. Assim quando for fazer aquele esporte novamente não tenha que sair do zero. Felizmente com duas olimpíadas e 40 esportes/modalidades narradas cada vez saio menos do zero. Fora o extra que vou aprendo ao fazer um esporte repetidas vezes. Isso também é importante. Sempre tento narrar algo mais de uma vez. Te dá a chance de melhorar o que já fez e colocar em prática aprendizados de outras viagens.

- Como você avalia o espaço que os esportes olímpicos tem na grande mídia?

Como fã do esporte acho que sempre cabe mais e quanto mais melhor. Como observador acho até recheado demais para a cultura esportiva que temos e a mania de valorizar apenas (ou mais) os que tem brasileiros competindo e ganhando simplesmente para poder torcer. Algo até natural. Ainda assim sou partidário que qualquer esporte e sua relevância vão muito além de qualquer nacionalidade específica.

Acho que o espaço e os esportes que preenchem ele refletem bem os interesses gerais. E tem um ponto que muita gente esquece. Eventos esportivos custam bastante dinheiro. Tem muito espaço publicitário e cotas comerciais de futebol pagando uma copa do mundo, campeonato mundial de uma modalidade olímpica. Dicotomia, rivalidade com o futebol não agrega em nada. No Brasil qualquer outra coisa além do futebol será, na minha visão infelizmente, um complemento. Aí o trabalho de quem preza por essas outras modalidades é fazer desse complemento algo diverso, com qualidade, acessível, grande. Não olhar como duas bexigas que uma esvazia quando a outra cresce.

Fico muito feliz de no SporTV ter além de grandes eventos uma gama gigante de modalidades, eventos e mundiais ao longo do ano. É um lugar que me sinto estimulado a explorar esse espaço olímpico além do futebol.

- Como foi a experiência de narrar os Jogos Olímpicos de PyeongChang 2018?

Foi excepcional. Narrar a próxima Olimpíada é grande parte da minha motivação diária, digamos assim, então ser escolhido para fazer parte dessas coberturas é sempre um reconhecimento único do seu trabalho. Para o Grupo Globo também foi um evento marcante por ter sido de fato a primeira grande cobertura com o núcleo do Esporte integrado, algo que pessoalmente me proporcionou um alcance maior do que na Rio 2016, por exemplo.

Também foi sensacional pelo tamanho da cobertura. Na Rio 2016 tínhamos, no SporTV, 16 canais, mais de 30 narradores e 1000 profissionais envolvidos. Para PyeongChang era uma equipe mais reduzida em todas as frentes e trabalhando para Globo e SporTV. Estávamos ao todo em 7 narradores. Ser uma de sete pessoas no Brasil inteiro que dividiram todas as emoções e momentos de uma Olimpíada foi extremamente gratificante. Ainda na questão tamanho, por estarmos em menos e todo dia com as mesmas pessoas, trabalhando num fuso horário bem distinto, a união foi diferente e mais evidente.

- Dois anos depois da Rio 2016, como você avalia o legado dos jogos?

Sinceramente acho pouco tempo para julgar resultados práticos. Ainda prefiro falar em tendências. Não construímos de fato memória, é tudo muito fresco. Ao falar em legado quase automaticamente se faz a ligação com obras, elefantes brancos, descumprimentos contratuais, etc. E de fato são fatores, mas legado também vai muito além disso. O legado cultural, esportivo por exemplo é algo que não veremos os efeitos por alguns anos. As crianças que se interessaram por algum esporte durante os Jogos que eventualmente brilharão no futuro. Os “filhos do Rio” ainda vão despontar.

Em termos institucionais acho que os efeitos serão mínimos. Continuaremos tendo confederações com sérios problemas de governança, transparência e atração/manutenção de investimentos. Não acho que tenhamos um 'know-how' maior do que tínhamos antes dos Jogos, infelizmente.

Ano passado no aniversário de um ano da abertura visitei o Parque Olímpico e confesso fiquei surpreso. Esperava um descuido maior, mas vi áreas novas, utilização lúdica e eventos locais. Muita gente acha que as instalações estão largadas, quando na verdade tem abrigado eventos, em sua maioria locais e sociais. Falta planejamento para atrair grandes competições, colocar o Rio dentro do mapa e dos calendários esportivos mundiais.

Falar em legado é debater fatos consolidados. Não tivemos nem um ciclo completo desde a Rio 2016, muita coisa ainda não se assentou. Não temos sequer um balanço orçamentário final, por exemplo. É cedo para debater o legado de Londres e injusto fazer o mesmo com o Rio. Porém essa injustiça não isenta as cobranças. Esse pouco tempo não pode ser visto como passe livre de responsabilidades.

- Qual a sua expectativa para o desempenho do Brasil daqui há dois anos em Tóquio?

Ainda estamos em 2018 e até Tóquio bastante coisa vai acontecer, inclusive grandes competições das modalidades. Os períodos de classificação começam pra valer no fim desse ano, ano que vem, e aí que a disputa deve apertar e o nível crescer. É a hora que veremos de fato quem acompanha, quem deve chegar bem. Temos uma geração jovem que cresceu bastante depois da Rio 2016 e isso é demais. Acho que teremos mais alegrias e destaques individuais do que nos esportes coletivos, onde temos renovações acontecendo.

Claro que o público geral sempre vai cobrar medalhas, mas sinceramente só espero que os nossos atletas correspondam ao seus potenciais e que ouçamos menos “é, não foi meu dia”. Tomara que quebrem suas melhores marcas pessoais, cheguem em finais e se possível conquistem suas medalhas.

- China e Grã Bretanha tiveram ótimos desempenhos na olimpíada seguinte a que sediaram. Acredita que, mesmo com a diminuição de recursos, o Brasil pode superar em Tóquio o número de medalhas de 2016?

Primeiro que China e Grã Bretanha são países com uma inserção esportiva que o Brasil não tem. Enquanto levamos em média 200 e poucos atletas, China e Grã Bretanha levam 300 e algo. Porém no caso do Brasil acho sim algo possível pela nossa média histórica recente não ser tão alta. O Brasil quebrou seu recorde de medalhas nas últimas três Olimpíadas. 16, 17, 19 medalhas. A performance no Rio, ainda que ótima, estatisticamente não foi tão além daquilo que já tínhamos feito antes. Com cada vez mais eventos, os Jogos proporcionam essa chance também. Vale lembrar que daqui dois anos teremos uma Olimpíada com 33 finais a mais, entre elas decisões no Skate e Surf, de onde a expectativa geral é alta.

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fotos: Reprodução Instagram Sergio Arenillas

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