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| Foto: Arquivo Pessoal |
Na marcha atlética, a batalha da cada atleta é do corpo contra a mente. Exige concentração por horas, para competir dentro da regra que basicamente determina o contato obrigatório de parte do pé com o solo, por quilômetros, e mais que isso: resistência ao desgaste físico a que o marchador se submete, superando dores e a vontade de desistir.
O paulistano Fernando Elias, que completará 90 anos em 22 de setembro e considerado um fenômeno da prova que disputou por quatro décadas (até 2013), diz que agora “baixou” de 1,84 m para 1,80 m e ganhou "uns cinco ou seis quilos", chegando aos 60 kg. Come seu "arroz com feijão, salada de almeirão e um pedaço de carne cozida", acompanha todas as competições esportivas mostradas pela tevê e segue na expectativa pelo Mundial de Marcha Atlética por Equipes confirmado para 12 de abril do ano que vem, em Brasília.
Se hoje, com todo o aparato científico – que vai de hidratação e tecnologia de calçados esportivos até apoio de patrocinadores –, a marcha atlética ainda é considerada uma prova para poucos, há meio século o número de competidores era bem mais restrito.
Por volta dos anos 1970, um desses marchadores – Fernando Elias –, passaria a ser conhecido como um fenômeno que derrubava recordes atrás de recordes: paulistas, brasileiros, sul-americanos. Mesmo à beira do limite das exigências sobre o corpo e a mente, ele havia se apaixonado pela modalidade. "A marcha é muito dura na parte física, mas 70% da prova dependem mesmo é da preparação mental. A cada prova que eu terminava, era como se um peso saísse de cima de mim", define.
Morando na Mooca, bairro de São Paulo, ele foi incentivado à prática esportiva pelo amigo Félix, goleiro da histórica seleção brasileira de futebol da Copa do México-1970. Fernando começou pelas corridas, como a tradicional São Silvestre. Depois, já morando em Santo André e funcionário-atleta da Pirelli (onde ficou por 21 anos), seguia todo fim de semana para Santos, porque a cidade promovia suas provas de pedestrianismo (como se dizia à época) nos sábados à noite. E ele não gostava. "Perdia tempo de sono", explica, porque só conseguia chegar de volta em casa na madrugada do domingo. Quando assistiu pela primeira vez a uma prova de marcha, diz que não teve dúvida: "Vou fazer isso aí!".
As corridas ficaram para trás. Passaram a ser limitadas no máximo a tiros de 200 m, 400 m, para ganhar velocidade na marcha, explica Fernando, que então decidiu aproveitar parte do terreno de casa para montar a sua pista de treino – com apenas 24 metros de extensão para voltas que somavam dezenas de quilômetros. "Treinava ali. Como o espaço era bem pequeno, era melhor para acertar as passadas. Fui seguindo devagarzinho, sozinho... E subindo na Pirelli, porque incentivava a criançada. Cheguei a montar turmas do mirim ao adulto."
Fernando destaca que estabeleceu uma estratégia própria: "Nunca saía forte, na frente. Nunca puxei prova. Ia desenrolando de outras maneiras, aguardando momentos para aproveitar: 20 km, por exemplo, eu dividia mentalmente em quatro partes e ia tirando a diferença dos outros", observa. "Tinha hora que arriscava um, dois, três metros mais para a frente, pegando os adversários. Procurava sempre ficar muito concentrado para não errar, me superar e terminar. Sem pensar em desistir. E eu ainda era melhor nos 50 km do que nos 20 km. É... Pode ser talento natural, sim... Eu acho que nasci para isso. Para a marcha."
Mesmo sem chegar a uma Olimpíada, como sonhava (vaga que escapou em um Sul-Americano), Fernando Elias ficou conhecido como "O Demolidor de Recordes", pelas dezenas de quebras de marcas paulistas e brasileiras que bateu, com 33 homologadas (apenas em 1973 venceu 30 provas oficiais).
Segundo cálculos que fez em 2005, já havia percorrido mais de 21 mil quilômetros – ou meia volta na Terra –, e ainda seguiu na modalidade por mais oito anos. "Cheguei a competir com o Caio Bonfim. Na mesma prova", conta. "Eu só conseguia competir aqui pelo Brasil, perto. Mas ele já consegue viajar muito. Para o marchador, é importante, assim como o tempo de vida de atleta, porque a gente vai pegando mais e mais experiência para usar na estratégia de prova. Fico feliz pelos resultados do Caio e pela marcha estar ganhando mais visibilidade, por estar ficando mais conhecida."

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