O vôlei brasileiro tem passado por recentes acontecimentos de violência, o que destoa do universo acolhedor da modalidade. O aumento na cobrança por resultados e a intolerância em nossa sociedade refletem as cenas recentes de hostilidades, ameaças e até agressões a atletas e a profissionais deste esporte, deixando marcas profundas neste 2024.
O cenário do voleibol no nosso país sempre foi marcado pelo respeito a modalidade e às grandes rivalidades que, agora, parecem caminhar na direção de um barril de pólvora, com um curto pavio evitando que algo mais sério possa acontecer.
O caso mais recente aconteceu na partida de ontem, 12 de dezembro, entre Minas Tênis Clube e Suzano Vôlei, na Arena UniBH, em que torcedores das duas torcidas se estranharam e passaram a se provocar em um tom a mais do que o habitual, sendo necessário um reforço na segurança do local no tie-break para evitar maiores problemas.
Assim como nos protocolos de segurança dos jogos de futebol, a torcida visitante precisou esperar a equipe da casa se dispersar para ser liberada e evitar a ocorrência de um confronto entre as duas, mesmo que a torcida da equipe paulista não passasse de vinte pessoas. Me espantou isso acontecer em uma partida de vôlei, algo que não me lembro de ver na modalidade.
No início deste mês, em jogo realizado no Ginásio José Liberatti, após a derrota do Osasco para a equipe feminina do Minas, um torcedor osasquense jogou um canudo de lança-confete na direção de Thaisa e Kisy, não suficiente para uma lesão nas atletas mas para chamar atenção novamente sobre o mau comportamento atual dos torcedores no vôlei.
- É muito triste vir a um clube em que joguei muitos anos, em que conquistei um campeonato mundial e receber uma agressão, tacarem coisa na gente. É a segunda vez que eu estou jogando contra (o Osasco) e acontece esse tipo de coisa. Isso é triste. Já fizeram muita coisa de ofensa com a Adenízia também, que jogou por anos aqui - contou Thaisa ao Sportv.
Em março deste ano, no mesmo ginásio, Adenízia, outra central histórica de Osasco, acabou sendo hostilizada de forma veemente pela torcida local que não se conformou com a troca de clubes pela atleta, que agora defende o Praia Clube, e levou para a partida entre as duas equipes alguns cartazes em formato de notas de três reais, com seu rosto, e outro com ofensa direcionada a atleta.
O caso mais assustador, no entanto, foram as ameaças ao ponteiro Guiga e sua família reveladas pela esposa do jogador em sua conta no Instagram e pelo portal GE, em que torcedores insatisfeitos com o momento de sua equipe, o Sesi-Bauru, ameaçaram de morte o jogador e principalmente a sua filha. (veja mais)
– Tiveram outros atletas que também foram ameaçados. Sim, existem pessoas doentes, mas isso não fica impune. Vamos fazer ter visibilidade, porque isso tem que acabar – desabafou Guiga ao portal GE.
Um caso assustador aconteceu no Rio de Janeiro, quando o técnico André Gava, da equipe feminina infantil do Vasco da Gama, agrediu uma jogadora da própria equipe em quadra. O treinador da equipe sub-15 empurrou a atleta camisa 4 do time quando ela estava voltando para o jogo, durante uma substituição. Ele acabou expulso e demitido. Mais uma página triste do vôlei em 2024.
No meio dessas histórias assustadoras deste ano cabe ainda uma menção ao vôlei de praia, em que tivemos no início do ano o grave caso de homofobia contra o atleta Anderson Melo, durante etapa do Circuito Brasileiro no Recife. Um grupo de torcedores se dedicou ofender ostensivamente o jogador durante toda a partida, atacando principalmente a sua sexualidade.
As provocações entre torcidas e entre jogadores são comuns também no vôlei, fazendo parte do jogo, mas a marca deste 2024 é a escalada de desrespeito e intolerância ao próximo, não somente aos adversários, refletindo algo que não nos acostumamos a acompanhar na modalidade e nem o que prega a prática esportiva.
Sabemos que o nosso “mundinho vôlei” não é uma ilha e reflete como somos em sociedade, nesse caso, o recorte deste ano diz mais sobre o Brasil do que sobre a modalidade em si, mas a reflexão que cabe é se veremos esse esporte ir por este caminho também no próximo ano sem uma reação das entidades responsáveis, que vá além de mensagens antes dos jogos e posts em redes sociais.

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1 Comentários
Infelizmente a violência avançou por várias áreas
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