Ouro olímpico de Rogério Sampaio no judô completa 30 anos: 'Orgulho da minha história'


Há exatos 30 anos, no dia 1 de agosto de 1992, o judoca Rogério Sampaio escreveu um dos capítulos mais importantes da história do esporte brasileiro: a conquista da medalha de ouro na categoria meio-leve do judô nos Jogos Olímpicos Barcelona 1992.

Hoje diretor-geral do Comitê Olímpico do Brasil, Rogério fala com orgulho sobre o momento que marcou para sempre sua carreira e sua vida.

"Sentimento de olhar pra trás é de orgulho, alegria por ter alcançado o máximo que um atleta pode querer na carreira. Me sinto valorizado. Todo profissional procura o reconhecimento profissional. Para mim isso veio muito cedo, com todo o reconhecimento de uma medalha olímpica", contou.

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"Não tenho como não ter orgulho e alegria de ver isso tudo. É um incentivo para que eu possa continuar trabalhando no esporte para oferecer às novas gerações algo que na minha época era impensável. Tenho muito orgulho da minha história", disse o ex-judoca.

Para chegar ao ouro, Rogério Sampaio teve que passar por um caminho repleto de obstáculos. Fossem eles impostos pela vida ou em cima dos tatames nas competições, ele precisou superar todos para alcançar o ponto máximo para um atleta olímpico e escrever seu nome na história dos ídolos do Brasil.


PROBLEMAS NO CICLO OLÍMPICO


Diferentemente do que acontece com a maioria dos campeões olímpicos, Rogério Sampaio teve um ciclo até Barcelona extremamente complicado. O principal motivo foi movimento que os principais atletas da seleção brasileira fizeram a partir do fim de 1989, em busca de melhores condições para os judocas.


Dessa forma, a preparação para os Jogos Olímpicos foi muito prejudicada, sobretudo por ele só participar de competições dentro do Brasil no período.


"Foi um ciclo muito complicado pra mim, eu fiquei afastado das competições internacionais por dois anos e meio. Só para dar um exemplo, a gente treinava em tatame de palha, mas competíamos em tatames sintéticos, que eram muito mais rápidos. Isso muda muito, principalmente pro meu estilo de luta, que era de velocidade", explicou.

"Antes de me afastar em 1989, eu estava entre os cinco melhores do mundo. Quando voltei, em janeiro de 92, a grande preocupação era retomar o ritmo de treino e competição internacional, isso não ocorre rapidamente. Foi uma corrida contra o tempo. Aí eu tive ajuda de uma equipe completa, que me atendeu de graça, e isso fez a minha preparação subir muito".

"DESCONHECIDO" DOS ADVERSÁRIOS


A ausência das competições internacionais durante tanto tempo prejudicou a preparação de Rogério Sampaio, mas deixou um ponto positivo - e muito importante - para os Jogos Olímpicos: o desconhecimento dos adversários sobre seu estilo e seu nível de luta naquele momento. Na visão de Rogério, esse fator o ajudou muito para chegar ao ouro.

"No Brasil eu estava em um nível altíssimo, eu ganhava dos atletas na categoria acima da minha. Tive uma corrida contra o tempo para me recuperar. Eu fiquei dois anos e meio afastado, em uma época sem internet, sem rede social, então os atletas não tinham imagens de mim competindo", lembrou.

"Alguns países tinham esse trabalho de análise, mas eu estava só competindo no Brasil, então eles não me conheciam. Meu ataque era muito perigoso, eu conseguia o ippon muitas vezes. Eu era muito rápido. Também fazia muito bem chave de braço e estrangulamento. Eu cheguei voando fisicamente. Os adversários não me conheciam e acabaram se surpreendendo. Mas eu sabia do meu potencial. Sempre mantive um judô agressivo de ir pro ataque".

A MEDALHA DA SUPERAÇÃO


As dificuldades que Rogério Sampaio enfrentou para conquistar a medalha de ouro não se restringiram aos tatames. Fora deles, o judoca teve que superar os problemas financeiros e sobretudo a morte do irmão, Ricardo Sampaio, em 1989, para seguir em busca do sonho olímpico.

Rogério conta que a perda de Ricardo, que havia sido judoca olímpico em Seul 1988, foi uma motivação para se dedicar à preparação cada vez mais.

"Naquele período eu perdi meu irmão, que também era uma referência para mim. Ele era quatro anos mais velho, foi atleta olímpico. Foi um momento de muita dificuldade e muita dor. Meu irmão faleceu em abril de 91 e eu estava muito triste. Pensei que precisava de algo que me fizesse bem. Então voltei a treinar com muito afinco e determinação, mesmo competindo só no Brasil", explicou.

"O processo de desenvolvimento sempre foi difícil. Perdi muito na juventude, tive que superar atletas mais fortes. Fui para os Jogos Olímpicos com dificuldade financeira. Fiz faculdade de engenharia dois anos e tive que parar. Era um outro momento do esporte, tínhamos que superar tudo. Tenho muito orgulho da minha história".


PEDREIRA NA SEMIFINAL


Segundo o próprio Rogério, a luta mais complicada em Barcelona foi na semifinal, contra Udo-Gunter Quellmalz. O alemão já havia sido campeão mundial em 1991. Depois, ainda ganharia mais um Mundial, em 1995, além do ouro olímpico em Atlanta 1996.

Mas em Barcelona quem levou a melhor foi Rogério Sampaio, que conta sobre a dificuldade do embate com o alemão - ele ficou com a medalha de bronze naquela edição dos Jogos.

"Sabia que eu podia lutar de igual para igual. Ele foi campeão mundial em 91 e era o favorito. Mas havíamos lutado duas vezes antes, cada um ganhou uma. Então eu estava entre os melhores do mundo. Ele era alto, canhoto, com estilo de pressionar o tempo todo o adversário, um estilo muito igual ao meu. Foi uma luta duríssima, de alta intensidade o tempo todo", relembrou.

"Eu ganhei nas punições. Pressionei e ele foi para fora. Minha especialidade era a movimentação. Me sentia muito confortável de me movimentar naquela área que chamavam de área de perigo. Com isso eu pressiono ele, ele pisa fora, leva a punição. E eu pensei na hora "faz de conta que está 0 a 0". Tinha que continuar pressionando, não podia deixar ele crescer na luta".

A CONSAGRAÇÃO NA FINAL


Após bater o grande rival na semifinal, Rogério Sampaio enfrentou na final um adversário menos consagrado naquela época, mas ainda assim muito forte: o húngaro Jozsef Csak. E o brasileiro tem o cuidado até hoje de valorizar o judoca medalhista de prata.

"Tenho cuidado de falar que foi mais tranquila, porque o húngaro era muito forte, campeão europeu. Eu tomo cuidado para não ser desrespeitoso. Mas o estilo de luta dele encaixava com o meu. Ele era destro, mais baixo, fazia um judô de movimentação", explicou.

Para ele, a boa condição física naquele momento da competição foi fundamental para dominar a luta e conquistar o tão sonhado ouro.

"Com eu tinha ganhado os três primeiros combates por ippon, cheguei à final mais resguardado. Entrei na luta final sabendo que poderia gastar toda a energia, colocando um ritmo forte, sem me expor muito. Nos últimos dois minutos eu ia pra cima com tudo para pontuar e não deixar na mão dos árbitros. Deu certo. Ele se desgastou muito, eu consegui controlar as ações da luta e errei muito pouco".

Foto: Arquivo Pessoal

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