O Outro Lado da Muralha: A China na primeira metade do Século XX - Surto Olímpico

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O Outro Lado da Muralha: A China na primeira metade do Século XX

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Quatorze anos após sediar a Olimpíada de Verão, Beijing será responsável por receber a 24ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. O que é histórico, já que a capital chinesa será a primeira cidade do mundo a receber as duas competições.

Dando continuidade à apresentação do território chinês, responsável por sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022, continuemos aqui o nosso breve resumo sobre a China. O destaque nesta edição será a Guerra Civil Chinesa, ocorrida no período pós-instauração da república e que culminou com a vitória dos comunistas liderados por Mao Tsé-tung após longos anos de embate.

É possível ler em alguns lugares que os conflitos entre as duas esferas políticas dentro da China começaram em 1927, com expurgos contra as células esquerdistas membros do Kuomintang (Partido Nacionalista). No episódio, os assassinatos foram ordenados por Chiang Kai-shek no que ficou conhecido como O Massacre de Shanghai. O Generalíssimo tinha em mente acabar com a forte influência comunista dentro do partido e o impacto foi grande, impossibilitando a permanência dos demais membros no mesmo comboio.



Porém, é correto dizer que o clima de incertezas e discussões sobre o futuro do país já vinham de pelo menos uma década anterior. Sun Yat-sen foi o responsável maior por dar fim à Dinastia Qing, a última da China no ano de 1911. O fundador do Kuomintang comandou a mudança para o regime republicano e tinha em mente que nacionalistas e comunistas conseguiriam conviver pacificamente após um período da História onde os chineses sofreram demais com o domínio de potências estrangeiras em seu território.

Mas o passar do tempo, a influência que uma revolução vitoriosa na vizinha Rússia em 1917 deu aos comunistas e também o apoio (financeiro e ideológico) de nações ocidentais para os grupos acabaram radicalizando o confronto. Em 1921, foi oficialmente fundado o Partido Comunista Chinês, acirrando ainda mais os ânimos de uma China que fervilhava e sofria com um velho desejo expansionista do Japão. Esse, ainda buscando recuperação após a Primeira Guerra Mundial e a consequente crise financeira que se estabeleceu por lá.

A morte de Sun Yat-sen em 1925 consolidou Chiang como o líder principal do Kuomintang. Sun morreu ainda com o ideal de que nacionalistas e comunistas pudessem vir, juntos, a organizar uma nova e forte China. Tanto que, no ano anterior, o primeiro presidente chinês aceitou ajuda externa dos soviéticos para que comunistas e membros nacionalistas pudessem cooperar. A coisa mudou após a morte dele, já que ambos os líderes (Chiang e Mao) se consideravam os legítimos herdeiros da causa iniciada pelo falecido médico.



O já mencionado Massacre de Shanghai tornou impraticável um diálogo mais profundo entre os lados e oficialmente causou a ruptura entre nacionalistas e comunistas. Esses últimos formavam um contingente menor e acabaram se organizando principalmente na área rural, enquanto o mais forte Kuomintang tinha melhores condições e também estava mais consolidado territorialmente. Houve até mesmo uma forte campanha anticomunista proposta pelos rivais, que contou com batalhas orquestradas nestas zonas agrárias.

Em menor número e mais débil belicamente, só restou ao grupo liderado por Mao Tsé-tung fugir para evitar o total desmantelamento do grupo. Foi assim que tivemos a Longa Marcha, iniciada em 1934 e que duraria mais de um ano. O exército comunista, já composto por aproximadamente 100 mil integrantes, percorreu mais de 12 mil quilômetros ao norte visando despistar os ataques adversários. A trajetória acabou consolidando o Exército Vermelho e também o ideal comunista, propagado aos habitantes no decorrer do caminho.

Mas o clima era de tensão no mundo todo, não só na China. A Primeira Guerra Mundial havia feito muitos estragos mundo afora, acabando com muitas vidas e também destruindo a economia de vários países. Um combate daquela dimensão era inédito no mundo, nos recordemos. E a maneira encontrada por alguns países para que pudessem crescer novamente e impulsionar seus recursos se deu através de novos investimentos bélicos, além de políticas autoritárias e que enfatizavam a superioridade de algumas raças sobre outras.
 


A aparição de regimes fascistas na Europa acabou por se enraizar também no vizinho Japão. Esse que, como já se imaginava, acabou se interessando pela produtividade do solo chinês e também pelas demais riquezas possíveis de se encontrar lá e novamente fez uma investida nos vizinhos, saindo vitorioso. Em 1937, teve início a Segunda Guerra Sino-Japonesa, ainda que os nipônicos já tivessem entrado no país seis anos antes, com a invasão da Manchúria (região do nordeste da China rica em minerais) e chegassem a comandar pedaços da nação vizinha.

É verdade dizer que foi somente após o chamado Incidente de Xi’an (quando dois membros do Kuomintang sequestraram o líder do partido e o forçaram a parar o embate contra os comunistas) que Chiang Kai-shek aceitou o pedido de trégua na guerra civil local para que ambos os grupos combinassem um cessar-fogo e passassem a encarar, em todas as frentes, os japoneses. Que a essa altura já tinham invadido fortemente a então capital Nanjing e matado um alto número de civis chineses em pouco mais de um mês e meio.

A invasão aconteceu via Shanghai e não teve resistência por parte do exército local, já que a estrutura japonesa era muito superior e a China já tinha seu próprio conflito interno. Encontrando poucas dificuldades no trajeto, logo os invasores chegaram até Nanjing, onde promoveram um verdadeiro massacre. Principalmente contra as mulheres, que sofriam abuso para logo depois serem mortas de forma brutal e inumana, com direito à mutilação explícita e penetração de órgãos genitais com diferentes objetos.



Sabe-se que o cessar-fogo nunca aconteceu de fato, já que comunistas e nacionalistas continuavam se gladiando mesmo com o Japão assumindo o controle de partes importantes do país. Neste momento de resistência à agressão japonesa, o país contou com ajuda militar dos Estados Unidos e, principalmente, da vizinha União Soviética. Foi só em 1945, com a rendição japonesa ao final da Segunda Guerra Mundial, que os intrusos deixaram o território chinês e abriram caminho para que os combates lá passassem a ser entre os grupos nacionais.

No ano seguinte, a trégua acabou oficialmente. E foi possível observar o mundo com duas principais potências no controle, já que os americanos passaram a apoiar os nacionalistas com medo de uma expansão comunista na Ásia em um país tão grande como a China; pelo lado contrário, os soviéticos passaram a ajudar o grupo de Mao para que pudessem ter um aliado próximo e poderoso. Em 1948, os comunistas superaram um mais preparado Kuomintang que, apesar de ter mais armas, apoio e contingente, havia sido tombado pela corrupção.

O caos político e econômico da China acabou também com o prestígio que poderia existir do grupo comandando por Chiang Kai-shek. Principalmente levando-se em consideração o apelo popular na camada rural que o grupo Mao havia ganho e também a demonstração heroica que a Longa Marcha teve no imaginário agrário, com os comunistas de fato passando a conviver com a classe menos abastada da sociedade chinesa durante o trajeto. Em 1949, sem necessidade de luta, era instaurada a República Popular da China. Mao seria o líder da nação.

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