Brasileiro naturalizado japonês vai enfrentar o Brasil no torneio paralímpico de Futebol de 5 - Surto Olímpico

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Brasileiro naturalizado japonês vai enfrentar o Brasil no torneio paralímpico de Futebol de 5

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Jefinho, Nonato e Ricardinho formam o trio mais letal do futebol de 5 mundial. O entrosamento deles será um dos trunfos da Seleção Brasileira nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, que começarão no dia 24. Mas há um conterrâneo que pretende deixar a amizade fora das quadras de lado quando a bola com guizo rolar. O paulista Roberto Sasaki, de 43 anos, é um dos defensores da Seleção Japonesa e estará em ação quando os dois países se enfrentarem pela segunda rodada da fase de grupos.

"Vai ser um jogo pegado, vou ter de correr bastante (risos). É sempre passe para cá, para lá. Tem muito jogador bom", reconhece o fixo do time asiático, que se naturalizou em 2013 após ser convidado pelo treinador do Japão para vestir a camiseta azul da equipe. "Para mim, jogar contra o Brasil é uma satisfação muito grande, sempre aprendo muita coisa. Independentemente do resultado, fora de campo a amizade continua."

No início de junho, Roberto conseguiu ajudar seus companheiros a ficarem com o vice-campeonato do IBSA Grand Prix, primeiro torneio oficial de fut5 disputado desde o início da pandemia e que serviu de evento-teste para a Paralimpíada. Na final, a derrota por 2 a 0 para os argentinos não impediu o atleta de receber um prêmio individual por sua atuação no campeonato. Apesar do bom resultado, ele admite que a modalidade no Japão ainda precisa caminhar muito para sonhar mais alto.

"O Japão vem trabalhando há um tempo, mas é um time amador ainda, os jogadores não recebem salário. Os treinamentos são todos por nossa conta. A gente trabalha e treina. Ninguém vive do futebol aqui. A maioria está na faixa dos 40 anos, então, o condicionamento físico pega bastante", explica.

Será a estreia nipônica no fut5 em Jogos Paralímpicos, que desta vez contará com cinco seleções medalhistas entre as oito classificadas. O torneio será disputado de 28 de agosto e 4 de setembro (já pelo fuso brasileiro). O Brasil, único ganhador das quatro edições realizadas com a modalidade na grade (2016, 2012, 2008 e 2004), está no Grupo A, ao lado de Japão, França e China. Já o Grupo B tem Argentina, Espanha, Marrocos e Tailândia.

Acidente e aprendizado

Roberto fez as malas rumo ao Japão aos 17 anos de idade, por sugestão de um primo que havia morado no país. Foi para trabalhar e não voltou mais. Até então, enxergava perfeitamente. Em novembro de 2006, porém, um gravíssimo acidente de carro lhe tirou a visão e, por muito pouco, não tirou também a vida. O coração sofreu duas perfurações que lhe custaram sete litros de sangue. Ficou em coma induzido por duas semanas. Quando acordou, a notícia de que ficara cego foi dada pela irmã mais nova.

"Ela foi bem direta e falou: 'Você não vai enxergar mais'. Eu perguntei se havia algum tipo de cirurgia, algo que pudesse ser feito. Ela respondeu: 'Não, você não entendeu, você já não tem mais os dois olhos'", relata o brasileiro, que acabou colocando duas próteses no lugar dos globos oculares.

A partir daí, iniciou a batalha para sair do hospital, o que levou dois meses. Depois, para se adaptar às coisas básicas da nova rotina. "Foi um impacto muito grande. Comecei a ter flashes do que já tinha visto até aquele momento, uma série de imagens que passavam. Mas sou cristão, acredito muito em Deus e, a partir dali, pensei que, se Deus havia me deixado vivo, alguma missão ele tinha para mim."

Em uma instituição, passou cinco meses aprendendo a se locomover, ler e escrever em Braille e a desempenhar as tarefas do dia a dia. Lá, também teve início o contato com o paradesporto, mas primeiro no vôlei e no tênis de mesa para deficientes visuais. O futebol de 5 viria mais tarde, quando cursava a faculdade de Ciências da Computação. Hoje pai de dois filhos e casado com uma japonesa, Roberto faz uma reflexão positiva sobre tudo o que passou nos últimos 15 anos.

"A deficiência visual foi um aprendizado muito grande. Ela não me atrapalhou, mas me ensinou muito. Eu aprendi a ver o mundo de outra forma, ser mais humilde, ver que ninguém consegue viver nesse mundo sozinho."

Foto: Divulgação

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