Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Londres 2012, SporTV - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Londres 2012, SporTV

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Narração: Luiz Carlos Júnior, Milton Leite, Roby Porto, Bruno Souza e Sérgio Maurício

Comentaristas: Paulo Cesar Vasconcellos e Maurício Noriega (futebol), Nalbert, Carlão e Marco Freitas (vôlei), Sandra Pires (vôlei de praia), Flávio Canto (judô), Lauter Nogueira e André Domingos (atletismo), Alexandre Pussieldi e Mariana Brochado (natação), Silina Braga (saltos ornamentais) Byra Bello (basquete), Maria Esther Bueno (tênis), Andréia João (ginástica artística)

Repórteres: Marcelo Barreto, Karin Duarte, Alexandre Oliveira, Bruno Côrtes, Fellipe Awi, Tiago Maranhão, Joanna de Assis, Roberta Garcia, Bruna Gosling, Mariana Monteiro, Marcos Peres e Edgar Alencar

Apresentação: Vanessa Riche, Gabriel Moojen, Milton Leite, Luiz Carlos Júnior e Maurício Noriega

Participação: Galvão Bueno, Renato Maurício Prado e Paulo Bonfá



Se na televisão aberta, o Grupo Globo ficaria mesmo de fora das Olimpíadas de Londres, a Record ainda aceitou negociar com a Globosat para ceder os direitos de transmissão. E em 2008, o jornalista Daniel Castro divulgava, em sua coluna na Folha de S. Paulo, em 24 de outubro daquele ano: ambas as partes chegavam a um acordo. Por US$ 22 milhões – mais de sete vezes o que a Globosat pagara pelos direitos de transmissão de Pequim-2008 -, o SporTV poderia exibir os Jogos Olímpicos dali a quatro anos, ao contrário da “emissora-mãe”. Menos mal para o canal esportivo. Porque, assim, ele continuou sua tradição em grandes eventos com modalidades olímpicas: exibiu os Jogos de Inverno em 2010, mostrou com exclusividade os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011... e pôde planejar a cobertura para Londres.


Duas medidas se revelaram certeiras. A primeira, enviar Marcelo Barreto, já então experiente no canal, para ser o correspondente do SporTV em Londres, em 2011. A segunda foi o investimento num projeto da Globosat para atrair e preparar novatos vindos das faculdades ou com a carreira em início: o Passaporte SporTV. Quem passava com sucesso pelo processo seletivo também se tornava correspondente da emissora em outro país, ganhando o que se chamava “kit-correspondente”: microfone para reportar, câmera para filmar, computador para editar. Tudo isso, sozinho, exatamente para ganhar experiência e jogo de cintura na prática jornalística.


Alguns desses revelados no Passaporte SporTV já estariam incluídos nos trabalhos destinados aos jogos: seriam oito correspondentes espalhados por Rússia, Jamaica, Marrocos, Alemanha, Espanha e Austrália. Além desses, dois repórteres um pouco mais experientes também seriam correspondentes olímpicos: Edgar Alencar, falando de Pequim durante os dias olímpicos, e Marcos Peres, já então correspondente do SporTV em Nova York, fazendo reportagens repercutindo os Jogos na cidade norte-americana.


Fora esses, o SporTV ainda teria cerca de 700 pessoas trabalhando nos estúdios no Rio de Janeiro, nos trabalhos de retaguarda. Final e obviamente, a emissora esportiva da Globosat enviaria 120 enviados do canal para os trabalhos no centro de imprensa em Londres – e também em algo que começava a se tornar praxe não só no SporTV, mas nas grandes coberturas esportivas: um estúdio panorâmico. No caso do canal, seria em frente ao Estádio Olímpico de Londres. Tanto no centro de imprensa quanto no estúdio, seriam feitos os trabalhos para os quatro canais que ficariam à disposição de quem desejasse/preferisse acompanhar as Olimpíadas por ali.


Como vinha sendo desde a Copa de 2006, Luiz Carlos Júnior e Milton Leite seriam os rostos que simbolizariam a cobertura do SporTV: ambos se alternariam na locução das principais disputas olímpicas. Também com longa trajetória na emissora, Sérgio Maurício seria mais um narrador entre os enviados a Londres. Já começando a se especializar nas transmissões de vôlei, Bruno Souza faria várias locuções das partidas nas quadras de Earls Court. E um nome experiente, vindo para o SporTV anos antes, seria importante ganho para as transmissões dos torneios olímpicos de basquete: já bem experimentado na modalidade, pelo longo tempo na ESPN Internacional, Roby Porto seria a voz preferencial das partidas nas quadras em Greenwich e Stratford.


Entre os comentaristas, alguns também já eram nomes certos do SporTV havia algumas Olimpíadas. Nos torneios de futebol, uma divisão: Paulo Cesar Vasconcellos e Maurício Noriega se alternariam nos comentários, enquanto Milton Leite seria a voz principal nas transmissões dos jogos nos gramados. Outro parceiro certo de Milton na cobertura era Alexandre Pussieldi: após agradar em Pequim-2008 com seu estilo dinâmico e informativo, o gaúcho seria o comentarista das provas da natação no Centro Aquático. Já no Estádio Olímpico, Lauter Nogueira vinha para sua quarta edição seguida de Jogos no SporTV, comentando o atletismo. Byra Bello, então, daria sequência naqueles Jogos a uma trajetória de cinco Jogos Olímpicos comentando o basquete no canal. Flávio Canto também era figura fácil no canal, comentando o judô. E Marco Freitas, novamente, seria parceiro fixo do narrador das partidas de vôlei – no torneio masculino e no feminino.


Mas haveria alguns nomes novos nos comentários – em termos, já que também não eram inéditos na emissora de esportes do Grupo Globo. Muito menos no esporte. Basta citar os dois comentaristas focados, principalmente, no acompanhamento do que o Brasil faria no vôlei: Carlão e Nalbert, nomes que dispensavam apresentações pelos feitos em quadra com a seleção masculina, já vinham comentando as partidas da Superliga pelo SporTV – e teriam em Londres suas primeiras coberturas de vulto, dividindo a cabine com Marco Freitas e com o locutor da vez (em geral, Luiz Carlos Júnior, nome certo para os jogos brasileiros no vôlei). Sandra Pires também estrearia em comentários num grande evento do esporte, opinando durante os jogos do vôlei de praia na parada de Horse Guards – assim como Mariana Brochado faria, para esportes aquáticos como saltos ornamentais. Estes, por sinal, ganhariam uma voz que se tornaria marcante nos comentários da modalidade, em Jogos Olímpicos ou não: Silina Braga (1952-2021).


E se a cidade-sede olímpica era Londres (não muito longe do All Tennis Club de Wimbledon, onde seriam disputados os torneios olímpicos de tênis), o SporTV lançou mão de uma comentarista que poderia até mandar prender e soltar em Wimbledon, tantas eram suas façanhas naquelas quadras: Maria Esther Bueno (1939-2018), já opinadora habitual no Aberto ali disputado, também viajaria para comentar o tênis olímpico.


Entre o reportariado do SporTV em Londres, se os nomes do Passaporte SporTV e os correspondentes seriam valiosos mundo afora, vários outros trabalhariam bastante. Nomes frequentes no canal estariam nas disputas para as reportagens: os da redação do Rio de Janeiro (Bruno Côrtes, Fellipe Awi, Bruna Gosling) e os da redação em São Paulo (Joanna de Assis, Tiago Maranhão, Alexandre Oliveira). E finalmente, haveria Marcelo Barreto: pelo ano que passava em Londres como correspondente do canal, o jornalista mineiro ganharia quase um status de comentarista, além das reportagens que faria.


E já que se estava em Londres, o SporTV foi outro canal a apostar num ônibus doubledeck tipicamente britânico para mais reportagens. Nele, estaria uma das grandes novidades da cobertura. Já familiarizado com o esporte pelos longos e hilários tempos no comando do Rockgol (o torneio e o simulacro de mesa-redonda), na MTV, Paulo Bonfá teria naqueles Jogos Olímpicos sua primeira aparição “séria” num evento esportivo: o paulistano entrevistaria convidados no sofá vermelho do segundo andar do ônibus do SporTV, a céu aberto, com câmeras que permitiriam até entrevistas com o veículo em movimento.



Parte da equipe do SporTV nas Olimpíadas de Londres, com vários “ônibus” cenográficos – além do ônibus doubledeck que seria usado para valer, com Paulo Bonfá (Divulgação)


Dois programas balizariam a cobertura diária do SporTV principal (sem contar o SporTV 2, o 3 e o 4, todos em alta definição, todos exibindo ininterruptamente competições em Londres e reprises delas na noite/madrugada brasileiras). Exibido a partir das 8h de Brasília, o Bom Dia SporTV seria ancorado por Gabriel Moojen, apresentando o que viria nas próximas horas. No resto da manhã e na tarde, claro, só as disputas. E no fim de noite, às 23h, Vanessa Riche apresentaria o SporTV News do qual já era titular. Antes dele, viria o Conexão SporTV, às 20h30 de Brasília, mesa-redonda no estúdio panorâmico à frente do Estádio Olímpico, debatendo o que se vira nas competições do dia. Aquele debate noturno teria uma novidade tecnológica (os debatedores dos estúdios no Rio de Janeiro poderiam “estar” em Londres via holograma). E também um convidado valioso na cobertura do SporTV, entre o rodízio de apresentadores: ancorariam o debate ora Luiz Carlos Júnior, ora Milton Leite, ora Maurício Noriega, ora... Galvão Bueno.


Certo, Galvão não poderia ser a voz da Globo nas disputas olímpicas de Londres. Mas seu carisma e sua experiência (seria sua sétima cobertura nos Jogos) o fizeram ser convidado especial do SporTV naquela cobertura, para apresentar o Conexão SporTV às terças e aos sábados, além de sempre aparecer para comentar o que quer que necessitasse de sua presença. De quebra, teria como outro debatedor fixo no programa dois parceiros habituais no Bem, Amigos! que comandava: Arnaldo Cezar Coelho... e Renato Maurício Prado, também acrescentando mais um capítulo olímpico em sua carreira. Ninguém sabia ainda, mas ali a longa relação de amizade entre Galvão e Renato, na frente e atrás das câmeras, seria duramente abalada. Logo mais, este texto abordará isso.


Mas, como se disse, ninguém imaginava que isso aconteceria. E Galvão, do estúdio panorâmico do SporTV em Londres, colaborou com o trio Luiz Carlos Júnior - Milton Leite - Marcelo Barreto, comandantes da transmissão da cerimônia de abertura em 27 de julho de 2012. O locutor carioca até deu opinião engraçada durante a festa: num dos grandes momentos dela – quando um vídeo trouxe James Bond, interpretado por Daniel Craig, convidando a rainha Elizabeth para ir ao Estádio Olímpico -, Galvão “resmungou” com bom humor: preferia Sean Connery, o intérprete mais famoso do agente 007.


E a cobertura do SporTV já traria um grande momento no dia seguinte, 28 de agosto: a transmissão de Brasil x Nova Zelândia (futebol feminino) até começara, mas Milton Leite passou o comando para Sérgio Maurício narrar e Flávio Canto comentar o primeiro ouro brasileiro em Londres, com Sarah Menezes vencendo o peso pena no judô. Além do feito esportivo, deixar sua voz no ouro de Sarah Menezes foi um triunfo pessoal de Sérgio Maurício: após quatro anos superando seríssimos problemas de saúde, estar em Londres marcava a recuperação definitiva do narrador carioca.





(A luta decisiva da medalha de ouro no peso pena do judô feminino, nos Jogos Olímpicos de 2012, com a brasileira Sarah Menezes vencendo a romena Alina Dumitru. Transmissão do SporTV, com a narração de Flávio Maurício e os comentários de Flávio Canto. Postado no YouTube por Thiago Rocha)


Luiz Carlos Júnior também seria a voz do SporTV para grandes momentos em Londres. Assim como fizera em Pequim, Luiz narrou o segundo ouro de Usain Bolt nos 100m, em 5 de agosto (que Galvão Bueno acompanhou para o Conexão SporTV, das arquibancadas, como espectador). E o carioca criado em Brasília também repetiu a dupla já tradicional com Marco Freitas para os jogos do vôlei feminino. Acompanhando o dramático Brasil x Rússia das quartas de final, Luiz exultou com a virada para 3 sets a 2, tendo os olhos marejados após ver as brasileiras salvarem sete match points para a vitória no tie break: “O Brasil passou! O Brasil passou!”. Teria prêmio ainda maior, dando voz ao bicampeonato olímpico das mulheres na quadra – embora a dupla Luiz-Marco também tenha narrado a virada russa para cima do Brasil, em 12 de agosto, na decisão do ouro no vôlei masculino. De quebra, ainda deu voz a momentos como o bronze de Cesar Cielo nos 50m, com o francês Florent Manaudou levando o ouro.


Acostumado ao futebol, Milton Leite deu voz à decisão do ouro no futebol masculino – e transmitiu, ao lado de Maurício Noriega, mais uma decepção brasileira, com a derrota para o México. E tais vídeos renderam debates entristecidos no Conexão SporTV de 11 de agosto de 2012, com Galvão Bueno criticando a atuação brasileira naquela final em Wembley, ao lado de Arnaldo Cezar Coelho e Paulo Cesar Vasconcellos.


Entretanto, o pior momento no Conexão SporTV já ocorrera havia alguns dias. Mais precisamente, em 2 de agosto de 2012, uma quinta-feira. Galvão ancorava o debate olímpico do canal, tendo Renato Maurício Prado a seu lado. Fora dia de vôlei, com o torneio masculino na quadra de Earls Court – derrota brasileira, 3 sets a 1 para os Estados Unidos, ainda na fase de grupos. Por isso, além de Carlão e Nalbert, também era convidado do programa o ex-jogador Marcus Vinícius Freire, novamente chefe da delegação brasileira enviada àqueles Jogos Olímpicos – e com uma passagem comentando vôlei pelo SporTV, no início dos anos 2000.


Tudo seguia normalmente, até que, numa volta de intervalo do Conexão, Renato quis brincar com Galvão, pedindo galhofeiramente que o locutor repetisse uma piada dita durante o intervalo: de que o time masculino brasileiro (do qual Marcus Vinícius fizera parte) só conseguira a prata no torneio de vôlei de Los Angeles-1984 pela ausência da União Soviética daqueles Jogos, por causa do boicote dos países do bloco socialista. O pavio foi aceso para uma explosão de raiva de Galvão, se sentindo desrespeitado. E para um constrangedor bate-boca entre Galvão e Renato, ao vivo:




(A discussão entre Galvão Bueno e Renato Maurício Prado, no “Conexão SporTV” de 2 de agosto de 2012)

Obviamente, a repercussão da discussão foi imediata nas mídias sociais. A virada do dia 2 para o dia 3 foi cheia de telefonemas tentando contornar os danos. E em 4 de agosto, conforme comentou ao UOL em 2018, Renato recebeu um telefonema no quarto de hotel em que estava: era Eugene Pierrobon, um dos comandantes do SporTV em Londres. Renato aceitava voltar ao programa, mas colocou uma condição irrevogável: que Galvão abrisse o Conexão SporTV daquele dia pedindo desculpas aos telespectadores. Senão, não iria. Mais dez minutos, e outro telefonema a Renato: era Mário Jorge Guimarães, diretor de operações do SporTV. Trazendo um pedido: uma reunião unindo os dois, Galvão e o gaúcho Raul Costa Júnior, diretor do SporTV e comandante daquela cobertura, para acertarem o que fariam. O jornalista carioca aceitou, mas mantinha sua posição: fazia questão que o Conexão SporTV fosse aberto com um pedido completo de desculpas de Galvão ao público (viera um pedido tímido, no fim do Conexão do dia da briga).

Minutos depois, Renato Maurício Prado recebeu novo telefonema: era Mário Jorge de novo, mas dizendo que, a partir de então, a discussão sobre a resolução do problema seria com Luiz Fernando Lima, diretor de esportes do Grupo Globo. Renato aceitou normalmente, mas ficaria esperando um telefonema de Luiz Fernando. Ele não veio. E Renato ficou de fora do Conexão SporTV. Pior: semanas depois, já após as Olimpíadas, Luiz Fernando telefonou a Renato, a situação desagradável se manteve... e seu contrato de participação no canal não foi renovado. Renato voltou à televisão no FOX Sports, em novembro de 2012. Mas o jornalista carioca lamentou a postura de Galvão: “Só lamento que, amigo meu de 30 anos, não se mostrou disposto, interessado, depois de iniciativa dele, de sentar, conversar e zerar a pedra”.

Houve reencontros fugazes – por exemplo, num restaurante em Fortaleza, durante a Copa de 2014, Galvão pela Globo e Renato pelo FOX Sports. Mas faltou, e ainda falta, a conversa para “zerar a pedra”, como diz Renato. Com o passar dos anos, Galvão reconheceu: “Fui infeliz no tamanho da minha reação”. Gradualmente, se mostra mais disposto a uma reconciliação – falou-se que ambos se reaproximaram levemente em 2018, graças às visitas a Sérgio Noronha (1932-2020), já então sofrendo com os efeitos do Mal de Alzheimer. E talvez, o melhor resumo de toda a situação venha do narrador, em seu livro de memórias, em 2015: “Somos duas mulas velhas, dois idiotas de pavio curto. Quem sabe, um dia, a gente não volta a trabalhar juntos”. Quem sabe...

Mas pelo menos, Galvão Bueno terminou sua participação na cobertura do SporTV com um bonito momento. No Conexão do 12 de agosto da cerimônia de encerramento, ele ancorou o debate que contou com toda a seleção brasileira feminina de vôlei, que conquistara o ouro no dia anterior. Incluindo o técnico José Roberto Guimarães. E Galvão o saudou com uma pergunta criativa: “Como é que é chegar no Olimpo? Falou com Zeus, ele está bem?”. Era a homenagem ao treinador que conseguira o raro feito de ter três ouros olímpicos na carreira...

E o SporTV conseguiu fazer a cobertura típica que sempre fazia em Jogos Olímpicos, ainda que com dificuldades – como as poucas credenciais cedidas pela Record. Em 2016, seria bem diferente: o canal esportivo do Grupo Globo é que ditaria as condições. E as aproveitaria de um modo incrivelmente completo.

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