Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira: Perspectivas (Capítulo final) - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira: Perspectivas (Capítulo final)

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Em meio à alegria mostrada na festa de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016, com toda a festa já meio saudosa do que se tinha visto no Rio de Janeiro durante aqueles dias, um anúncio importante foi feito no Maracanã, pelo alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional: estava nascendo ali o Olympic Channel. A iniciativa do COI prometia ser um importante marco televisivo olímpico, com a produção de documentários e a adoção de um canal no YouTube (com vários eventos marcantes da história dos Jogos ali, na íntegra). Poderia ser uma declaração de independência. Pelo menos na televisão brasileira, ainda não foi. Ainda.

Primeiramente, porque o Grupo Globo já anunciara em 2015: tinha garantido junto ao COI os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos, de verão e de inverno, até 2032. Em segundo lugar, porque o Grupo Globo se valeu do acordo para virar parceiro do próprio Olympic Channel: que o diga a Faixa Olímpica exibida pelo SporTV, em algumas noites, com a exibição de documentários. E em terceiro lugar, porque o próprio COI ainda parece preferir ter a televisão como parceira preferencial na disseminação de esportes olímpicos – e dos próprios Jogos -, por mais que hoje a internet seja uma realidade inescapável e inexorável.

Tão inescapável, que se o COI não faz isso com os Jogos Olímpicos, cada modalidade parece cuidar de si e saber o tamanho desse filão e das oportunidades que ele abre. Certo, esportes do programa olímpico (como vôlei, futebol, atletismo, natação, basquete, até surfe) têm lugares cativos nas grades de televisão do mundo todo. Têm audiência garantida. Mas o que fariam modalidades como tênis de mesa ou badminton, apenas lembradas pelo lado pitoresco, mesmo durante os Jogos?

A resposta: cuidam de popularizá-las via internet. É o que faz a BWF (Badminton World Federation), disponibilizando os campeonatos mais prestigiosos em seu perfil no YouTube. A mesma coisa faz a ITTF (International Table Tennis Federation), entidade que comanda o tênis de mesa: dá-lhe torneios no YouTube.

Até mesmo as modalidades mais prestigiosas também despertam para o alcance da internet. Basta citar o basquete – e para nem falar do League Pass que tornou uma miríade de fãs mais próximos da NBA, citar o NBB (Novo Basquete Brasil). Antes, sua exibição era exclusiva de Globo e SporTV, tendo de esperar a benevolência dos canais aberto e fechado da família Marinho para ter espaço e exibição aos acompanhantes do bola-ao-cesto. O que fez a organização? Decidiu apostar em mais plataformas – e mais lugares: agora, o NBB é mostrado em televisão (Band, ESPN, FOX Sports) e internet, via Twitter e Facebook.

Claro que a internet é um filão que tem lá sua atenção do COI. Há o supracitado canal do Olympic Channel no YouTube – que certamente estará à disposição durante as disputas em Tóquio, para as modalidades sem espaço na televisão. E o Grupo Globo também cuidou de garantir os direitos de internet para o Brasil, via globoesporte.com. Entretanto, a preocupação com a internet ainda parece num estágio inicial, sem tanto aprofundamento – como já se vê no futebol, com disputas cada vez mais acirradas pelos direitos de transmissão de torneios.

Há certa razão de ser nisso: com avanços de mídia e tudo, muita gente ainda prefere ver os eventos esportivos na telinha (para nem citar outros veículos ainda cativos na preferência, como o rádio). Entretanto, há muita gente que já prefere a internet para se informar. E aí é que entra o “ainda” do começo deste texto. Porque, se houve um cenário em que a pandemia que mergulhou o mundo em incertezas causou alterações, este foi o dos direitos de transmissão de eventos – tanto em disputas, quanto em valores.

O grande símbolo disso, aqui no Brasil, é o futebol, com a falada Medida Provisória 984, a “MP do Mandante”, que deu ao clube mandante de jogos o direito de fazer o que bem entender com os direitos de transmissão: cedê-lo à plataforma ou à emissora que melhor lhe parecer, nas tevês abertas e fechadas. Foi só o começo de um novo capítulo para a discussão. Um capítulo que durará muito, muito mesmo.

Até pela intensidade das discussões. De um lado, quem vê com otimismo e até inevitabilidade o avanço das novas plataformas, internet e serviços on demand à frente, na transmissão de eventos esportivos; do outro, quem ainda coloca sob altas dúvidas a capacidade dela para superar a influência da televisão, ainda mais em recantos distantes do país. De um lado, quem se alegra com a possibilidade de várias plataformas exibirem o mesmo evento, acabando com o famigerado monopólio; do outro, quem teme que a intenção seja apenas trocar um monopólio por outro, colocando ainda mais dificuldades para o interessado acompanhar a modalidade.

Além do mais, a MP 984 foi mais um aríete a alvejar o Grupo Globo. Nada em relação a falência, tudo em relação às dificuldades inegáveis que o grupo anda tendo para pagar os valores altos dos direitos de transmissão de campeonatos de futebol – e à preferência por só gastar com eventos que tenham audiência garantida. Não foi por outra razão que a organização de mídia da família Marinho solicitou à FIFA um atraso no pagamento de direitos da Copa do Mundo de 2022 (ainda que o contrato siga valendo, pelo menos por enquanto). Nem foi por outro motivo que o grupo abriu mão dos direitos de transmissão da Copa Libertadores da América – abrindo indiretamente o caminho para o SBT voltar às competições esportivas.

E é essa a explicação (dificuldade de pagamento + poupança) para o conglomerado carioca de mídia ter diminuído o espaço dos campeonatos estaduais em seus canais: o Carioca agora é negócio da TV Record, o Catarinense foi (pelo menos, na tevê fechada) para a TV WA, o Baiano teve seus direitos pegos pela TV Educativa... ah, sim: sem contar a desistência de manter os direitos de transmissão da Fórmula 1, após 40 anos, já que a própria Liberty Media (conglomerado dono da categoria) prefere não só turbinar o seu serviço de streaming, o F1 TV PRO, mas também ser ela mesma produtora das próprias transmissões, em parceria com outro grupo de mídia (no caso brasileiro, agora, a Band) – ao contrário da preferência histórica global: querer produzir tudo sozinha.

Até agora, nenhum problema com competições olímpicas. Até porque o COI ainda não despertou definitivamente para isso. Mas é questão de tempo. Assim como é questão de tempo para outros esportes tomarem o mesmo caminho que o futebol parece tomar. Alguns, aliás, até já tomaram esse caminho. Por exemplo, o basquete: afinal, no âmbito nacional, o NBB já tem suas partidas mostradas tanto em televisão (Bandeirantes, Bandsports, Rede TV, ESPN) quanto em internet (o perfil oficial no Twitter), enquanto o “League Pass” da NBA se populariza mais e mais entre quem gosta de acompanhar o torneio norte-americano da bola-ao-cesto.

Todo esse cenário faz lembrar algo que Luciano do Valle falou à revista Placar, em 1984, como um recado em tom de crítica aos dirigentes de esportes olímpicos que ainda faziam acordos com a Globo, por mais que a Bandeirantes se convertesse no “canal do esporte”, exatamente a partir daquele ano: “Antes vocês não tinham opção: agora têm...”.

Pelo visto, cada vez mais dirigentes estão aprendendo isso. Em cada vez mais modalidades. Ainda que por força das circunstâncias.

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