Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Rio 2016, Globo - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Rio 2016, Globo

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(Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para os Jogos Olímpicos de 2016)



Narração: Galvão Bueno, Cléber Machado, Luís Roberto, Rogério Correa, Alex Escobar e Glenda Kozlowski

Comentários: Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cezar Coelho (futebol masculino), Caio e Juninho Pernambucano (futebol feminino), Fabi (vôlei feminino), Tande e Giba (vôlei masculino), Shelda (vôlei de praia feminino), Emanuel (vôlei de praia masculino), Hortência (basquete feminino), Leandro Guilheiro e Flávio Canto (judô), Gustavo Kuerten (tênis), Thiago Splitter (basquete masculino), Maurren Maggi e Édson Luciano (atletismo), Gustavo Borges (natação), Daiane dos Santos (ginástica artística), Lars Grael (iatismo), Júnior Cigano (boxe), Ana Amorim (handebol) e Fernando Fernandes (canoagem de velocidade)

Reportagens: Marcos Uchôa, Pedro Bassan, Tino Marcos, Mauro Naves, Eric Faria, Renato Ribeiro, Marcelo Courrege, Carol Barcellos, José Roberto Burnier, Guilherme Marques, Isabela Scalabrini e Ernesto Paglia

Apresentação: Fernanda Gentil, Sandra Annenberg, Cristiane Dias, Alex Escobar, Glenda Kozlowski, Luis Ernesto Lacombe, Poliana Abritta, Ivan Moré, Tadeu Schmidt, Renata Vasconcellos, Ana Paula Araújo e William Waack

Participação: Flávio Canto


A derrota na disputa dos direitos de transmissão para o biênio olímpico 2010-2012 machucara a Globo. Era preciso voltar com força total em 2016 – até porque imaginar o canal dos Marinho fora de duas coberturas olímpicas seria, para dizer o mínimo, desastroso. Por isso, buscar a vitória na disputa pelos direitos do biênio 2014-2016, na licitação que o COI faria em agosto de 2009, era algo tratado dentro da sede do Jardim Botânico como item de primeira necessidade. Antes mesmo da oficialização do Rio como sede olímpica, veio o triunfo que trouxe alívio: numa oferta em parceria com a Bandeirantes, a Globo seria a detentora preferencial dos direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Inverno (Sochi-2014) e Verão (2016), para televisão aberta, internet e rádio. Após a lacuna de Londres, tudo voltaria ao normal para o conglomerado carioca nos Jogos Olímpicos de 2016. Ou seja: a Globo poderia voltar a ostentar números gigantes e instalações pomposas em suas coberturas esportivas, como habitualmente fazia. De modo até maior, desta vez – afinal, com Olimpíadas no Rio, era proibitivo fazer feio.


Para tanto, é possível dizer que os preparativos da emissora começaram cedo. Na verdade, começaram antes mesmo de Londres-2012: no dia 26 de outubro de 2010, uma terça-feira, Tande começou a apresentar o Corujão do Esporte, incomum incursão esportiva da Globo pelas madrugadas, com atletas e artistas convidados para interagirem em conversas, num pequeno auditório. Naquela fase inicial, o Corujão do Esporte se dedicava apenas a ser um programa auxiliar na cobertura do Mundial de Vôlei Masculino. Tanto que, no primeiro programa, Tande teve como um dos convidados Carlão, seu antigo companheiro de seleção masculina de vôlei, já então comentarista do SporTV – os outros foram o cantor/compositor/ator/escritor Léo Jaime, mais os atores Rodrigo Lombardi e Thiago Lacerda.


O Corujão do Esporte passaria por algumas mudanças entre seu início e uma maior proximidade do Rio-2016. Em 2011, se tornaria semanal, e passaria das madrugadas de quinta para as madrugadas de sábado. A partir de 10 de fevereiro de 2012, o apresentador mudaria: saía Tande, entrava outro antigo esportista que conheceria mais as câmeras – Flávio Canto, já então comentarista habitual do SporTV em competições de judô. Em 2014, outra mudança: deixando as madrugadas de sexta para sábado, o programa voltava para os fins de noite entre as quartas e as quintas. Além do Corujão já estabelecido, como a cobertura dos Jogos Olímpicos de Inverno que a Record fizera para Vancouver-2010 tinha sido bastante elogiada, nada mais lógico do que a Globo embarcar na onda: nas competições em Sochi, o canal carioca fez boletins diários de meia hora, exibidos no início da madrugada, trazendo os principais momentos das disputas na cidade-sede russa, entre 7 e 23 de fevereiro de 2014. Nada excepcional, mas era uma concessão global para uma audiência que ficara com gosto de “quero mais” após Vancouver-2010.


Finalmente, o Corujão do Esporte adentrou 2015, sempre com Flávio Canto como apresentador. Foi assim até o dia 5 de agosto, exatamente um ano antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. A partir daquela data simbólica, morria o Corujão, para nascer o Balada Olímpica. O horário seria o mesmo: o início da madrugada, por volta da 1h, logo após o Jornal da Globo. Mas a partir dali, ficaria mais clara a vinculação entre aquela faixa horária da programação global com a cobertura pensada para o Rio-2016. Flávio Canto ganhava uma companhia para apresentar o Balada Olímpica: a repórter carioca Carol Barcellos (que não é filha do companheiro de emissora Caco, como diz a lenda urbana por aí). O esquema do programa novo-velho ganhava mais incrementos: seguiam os convidados, entre artistas e esportistas, mas um deles teria a função de decidir a trilha sonora do programa, até para manter o tom de “balada” transcrito até no nome. E muitas vezes, o Balada Olímpica traria ao auditório mais um item que já fazia parte da preparação da Globo para a volta que se pretendia triunfal aos Jogos Olímpicos: o seu “Time de Ouro” de comentaristas.



O "Balada Olímpica" foi o programa que abriu de vez o projeto da Globo para os Jogos Olímpicos de 2016, antes mesmo deles começarem (Divulgação/TV Globo)

Assim como o Balada Olímpica era um irmão siamês do Corujão do Esporte, o “Time de Ouro” nada mais era do que a recuperação de um velho conceito. Assim como, em tempos idos, a TV Manchete tivera sua “Equipe de Ouro” para coberturas olímpicas, a Globo fazia do seu “Time de Ouro” um agrupamento estelar de nomes com experiência indubitável e inquestionável em Jogos Olímpicos, praticamente todos medalhistas, para comentarem as disputas entre 3 e 21 de agosto de 2016. Alguns dos comentaristas eram velhos conhecidos de outras coberturas. Por exemplo, Gustavo Borges: oito anos após estrear nos microfones, em Pequim-2008, o ex-nadador paulista faria novamente os comentários da Globo para a natação olímpica, no Centro Aquático. Ou então, Edson Luciano, de novo um dos comentaristas da emissora, para as provas de atletismo no Engenhão. Ou então, Hortência: carismática por natureza, já com algumas experiências anteriores comentando, ela acompanharia o narrador global da vez nas partidas do basquete feminino – e do masculino também – na Arena Carioca 1.


Outro conhecido da Globo garantido no “Time de Ouro” para os Jogos Olímpicos seria Tande: cada vez mais à vontade na frente das câmeras (não só comentando vôlei, mas também apresentando programas, como o Esporte Espetacular e o citado Corujão do Esporte), o ex-voleibolista carioca faria os comentários para as partidas dos homens e das mulheres, em sua terceira edição de Olimpíadas na Globo. Finalmente, no futebol, as equipes se dividiriam. Para o torneio das mulheres, Caio (desde 2008 na Globo) e Juninho Pernambucano (elogiado pelos comentários na Copa de 2014) ficariam ao lado do narrador; já no masculino, novamente uma das meninas-dos-olhos da cobertura global, nada menos do que três comentaristas para a campanha do Brasil – os mesmos dos jogos da Seleção em 2014: os habituais Casagrande e Arnaldo Cezar Coelho, mais o convidado Ronaldo, trazendo a experiência de Atlanta-1996.


Todavia, também haveria estreantes no “Time de Ouro” que a Globo levaria ao Rio-2016. Para começo de conversa, mesmo que o tênis não fosse o principal chamariz daquela cobertura, ninguém menos do que Gustavo Kuerten seria o convidado do canal para os comentários de partidas no Centro Olímpico de Tênis, se fosse necessário. Já para as provas da ginástica artística na Arena Olímpica, outro nome que dispensava apresentações aos brasileiros: Daiane dos Santos estaria na cabine da Globo para os comentários. No iatismo, um nome íntimo das águas vinha para o “Time de Ouro”: Lars Grael. No vôlei de praia, os comentaristas globais talvez fossem os nomes mais conhecidos que a modalidade tem para o público não especializado no país: Shelda traria sua fama de duas medalhas de prata para o torneio feminino na Praia de Copacabana, enquanto Emanuel comentaria as partidas dos homens. No atletismo, além de Edson Luciano, a Globo teria um valioso reforço trabalhando nas transmissões do Engenhão: Maurren Maggi, outra estreante nas cabines de televisão.


Finalmente, se Tande já era nome certo e habitual na Globo, ganharia dois reforços nos comentários do vôlei. Também já experimentando aparecer mais na frente das câmeras – em 2014, fora um dos participantes da edição da Dança dos Famosos, célebre quadro no Domingão do Faustão -, Giba ganharia a chance em 2016: o ex-jogador seria o segundo comentarista da Globo para o torneio de vôlei masculino no Maracanãzinho. O terceiro nome teria trabalho dobrado na modalidade: Fabi ficaria como “convidada” ao lado do repórter nos jogos dos homens, na quadra do Maracanãzinho, e subiria para a cabine nas partidas das mulheres, sendo a comentarista ao lado de Tande.


Só o judô traria um nome inesperado na cobertura da emissora: Flávio Canto estaria presente, mas teria de se alternar com o SporTV. Então, Leandro Guilheiro teria de ser um segundo comentarista da Globo na modalidade, ao lado de quem fosse o locutor. Finalmente, um nome que já aparecera na Globo, de maneira totalmente diferente, teria uma participação esportiva: ex-participante do Big Brother Brasil, tornado canoísta após o acidente que o deixou paraplégico, Fernando Fernandes foi deixado de sobreaviso para comentar as provas de canoagem de velocidade, caso fosse necessário – e seria, como se saberá. De quebra, tão logo se soube que Tiago Splitter não poderia disputar o torneio olímpico de basquete masculino, lesionado que estava, a Globo o incluiu na barca que trabalharia na cobertura – e Tiago comentou os jogos dos colegas, ao lado de Hortência.



Entre nomes já conhecidos da tela (Gustavo Borges, Giba, Hortência, Tande, Flávio Canto) e novidades que estreavam (Gustavo Kuerten, Maurren Maggi, Fabi, Daiane dos Santos), o "Time de Ouro" foi uma primeira amostra do poderio que a Globo queria levar à Rio-2016 (Divulgação)

2015 terminou com mais alguns itens de preparação pré-olímpica: o Esporte Espetacular trazia a série “Citius, Altius, Fortius”, trazendo a história de modalidades olímpicas pouco acompanhadas pelo grande público, enquanto o Jornal Nacional exibia a série “Terras Olímpicas”, sobre a tradição de alguns países no esporte. 2016 começou, e a Globo seguiu deixando claro que seria a grande representante de mídia dos Jogos Olímpicos, quase como a única “emissora oficial” – como já fizera na Copa de 2014, aliás. Algumas vezes, com medidas que poderiam parecer antipáticas, embora cada vez mais comuns, como colocar regras para exibições públicas de eventos das Olimpíadas: se um bar ou um restaurante quisesse organizar um evento mostrando uma partida de futebol ou vôlei, deveria mostrar o sinal global (ou do SporTV) apenas dez minutos antes da disputa começar, e encerrar a transmissão dez minutos depois do fim da partida. Outras vezes, tentando se adequar à presença tão grande que a internet já tinha em 2016: uma parceria com a rede social Snapchat permitiria mostrar vídeos rápidos de bastidores dos programas e transmissões globais no Rio.

Meses antes das disputas começarem, o material publicitário da Vênus Platinada já andava a todo vapor: os símbolos daquela cobertura, mais integrantes do Time de Ouro, gravaram vinhetas de promoção no Parque Olímpico, em frente ao que seria o estúdio panorâmico do Grupo Globo no local de várias das disputas. Tais vinhetas já traziam o lema daquela cobertura no canal aberto: “Somos todos olímpicos”. E à medida que o dia 5 de agosto de 2016 se aproximava, mais se sabia a respeito da dimensão da cobertura global – como tantas outras vezes, trombeteada como “a maior da história”. A equipe comandada por Carlos Henrique Schroder (diretor de operações) e Renato Ribeiro (não o repórter – mas outro carioca, ex-editor do Jornal Nacional, desde 2013 sucedendo Luiz Fernando Lima na direção de esportes da Globo) teria cerca de duas mil pessoas trabalhando naquela cobertura – e o número certamente aumentaria, com a colaboração de nomes das afiliadas, dependendo do que fosse acontecendo no Rio.

Obviamente, Galvão Bueno seria o grande carro-chefe, indo para suas sétimas Olimpíadas como a principal voz de eventos esportivos na Globo: Galvão narraria os jogos do futebol masculino, os grandes eventos (como a final dos 100m masculinos no atletismo, ou as finais da natação no Centro Aquático, ou mesmo finais da ginástica na Arena Olímpica)... enfim, nada incomum para quem já estava entronizado havia muito tempo na história da televisão brasileira. Mas pelos sinais que o tempo já mostrava em sua voz, Galvão seria mais preservado no Rio-2016. Até porque, num evento esportivo mais amplo, os substitutos imediatos de Galvão teriam mais espaço: Cléber Machado seria o narrador do futebol feminino, de algumas provas de atletismo e até de lutas, como o judô. Assim como Luís Roberto: já muito habituado a narrar participações brasileiras em torneios de vôlei, o paulistano criado em São João da Boa Vista seria o narrador preferencial das campanhas brasileiras, no vôlei masculino e no feminino. Luís também seria o locutor para as partidas de basquete (paixão de Galvão, que seria forçado a deixá-la de lado no Rio) – e até apareceria, vez por outra, no próprio futebol feminino.

Também acostumados a colaborarem em grandes coberturas, os principais narradores das maiores afiliadas da Globo fora de Rio e São Paulo seriam integrados aos trabalhos olímpicos. Rogério Correa viria de Minas para sua terceira participação pela Globo em Jogos, aparecendo bastante nos jogos de vôlei de praia, enquanto o pernambucano Rembrandt Júnior, principal locutor da Globo Nordeste, viria para estar sempre alerta nos estúdios, à espera de algo que precisasse de narração imediata, em flashes no decorrer da programação. Já experimentado como narrador na Copa de 2014 (com resultados controversos), Alex Escobar receberia outra chance na função. Mas a Globo traria entre seus locutores uma novidade: pela primeira vez, uma mulher seria destacada para narrar algumas disputas nos Jogos Olímpicos. Já com experiência larga e comprovada na apresentação dos programas esportivos da casa, Glenda Kozlowski daria voz às provas da ginástica artística, com Daiane dos Santos a seu lado na cabine da Arena Olímpica.

Nas reportagens, a Globo nem traria tantas novidades assim. Nomes com larga experiência olímpica pela emissora estavam obviamente confirmados: casos de Marcos Uchôa, Pedro Bassan e Tino Marcos. Como sempre, o futebol masculino receberia atenção toda especial: dois repórteres acompanhariam o que a Seleção treinada por Rogério Micale (e tendo Weverton, Rodrigo Caio, Renato Augusto, Gabriel Jesus, Neymar, Luan...) faria em campo – Mauro Naves e Eric Faria, ambos também mais do que acostumados com o trabalho nas transmissões da Seleção principal. Havia nomes mais novos no reportariado, mas também com quilometragem invejável: Marcelo Courrege estaria no Parque Olímpico, Guilherme Marques (1988-2016) seria nome certo nas reportagens do vôlei de praia, Carol Barcellos era presença bastante previsível.

De quebra, veteranos de outras editorias também colaborariam naquela cobertura. Como Ernesto Paglia, José Roberto Burnier... e Isabela Scalabrini: 28 anos após sua última cobertura olímpica pelo canal, em Seul, a carioca viria da Globo Minas – onde apresentava o MGTV – para voltar a fazer trabalhos num grande evento esportivo, circulando e cobrindo a repercussão das disputas, ouvindo gente que passasse pelo Parque Olímpico. E mesmo que já começasse a fazer a transição da frente para trás das câmeras, envolvido na logística daquela cobertura, Renato Ribeiro (agora, sim, o repórter esportivo global) seguiria fazendo alguns trabalhos naqueles Jogos.

E os apresentadores simbolizariam a transição do planejamento para a concretização daquela cobertura. Obviamente, o Globo Esporte ganharia edição nacional durante os dias de trabalhos olímpicos: já habituados como os respectivos apresentadores das edições paulista e carioca, Ivan Moré e Fernanda Gentil (esta, já um dos nomes mais badalados da Globo, mesmo que apenas em suas primeiras Olimpíadas) dividiriam o comando do programa da hora do almoço. De manhã, no Bom Dia Brasil, Luís Ernesto Lacombe colaboraria com Ana Paula Araújo no início dos trabalhos, enquanto Chico Pinheiro ancorava as demais notícias do estúdio. No Jornal Hoje, Sandra Annenberg e Alex Escobar formavam a dupla que apresentava o noticioso. No Jornal Nacional, novamente uma cisão: William Bonner no estúdio, Renata Vasconcellos no Parque Olímpico – com Galvão Bueno a seu lado, como na Copa de 2014. O Jornal da Globo teria mais uma dupla de apresentadores trabalhando perto das disputas: no Rio, estariam William Waack e Cristiane Dias. O Balada Olímpica seguiria: em versão diária, a dupla Carol Barcellos-Flávio Canto seguiria comandando o programa em tom de festa, apresentando/celebrando o que se via no Rio de Janeiro e já preparando terreno para o dia seguinte.

Finalmente, o Fantástico teria Poliana Abritta e Tadeu Schmidt no Parque Olímpico. E coube ao tradicional dominical dar o pontapé inicial oficial no retorno da Globo aos Jogos Olímpicos: na edição do domingo, 31 de julho de 2016, apresentou ao público o luxuoso prédio que o Grupo Globo tivera a liberdade de construir, dentro do Parque Olímpico, com o estúdio panorâmico no qual a emissora e o “filho esportivo” SporTV baseariam seus trabalhos diários – que poderiam chegar a ocupar 10 horas, entre flashes e transmissões na íntegra. Alguns integrantes do Time de Ouro reapareceriam mostrando as traquitanas tecnológicas que a Globo sempre estreia em suas coberturas – a “mesa tática” já conhecida das transmissões de futebol da emissora seria estendida à natação (como mostrou Gustavo Borges), ao vôlei (como mostraram Tande e Giba) e ao basquete (como mostrou Hortência). Faltava pouco para começar a primeira grande cobertura do departamento de esportes da Globo como um órgão independente da Central Globo de Jornalismo, aproximado do entretenimento – linha muito criticada por alguns telespectadores (a partir de medidas como levar atores da emissora e cantores para o estúdio no Parque Olímpico).


Narradores e comentaristas da Globo para os Jogos Olímpicos de 2016, em frente ao prédio de base da cobertura, no Parque Olímpico: luxo para marcar o retorno (Divulgação)


No dia 3 de agosto, Luís Roberto narrou os 3 a 0 do Brasil na China, estreia brasileira no futebol feminino. Mais um dia, e o quinteto Galvão Bueno-Casagrande-Ronaldo-Arnaldo-Mauro Naves trabalharia (os quatro do estúdio no Parque Olímpico, Mauro no gramado do Mané Garrincha, em Brasília) na decepcionante estreia do Brasil no futebol masculino: 0 a 0 com a África do Sul.

Decepção que se acabaria no dia seguinte: logo depois do Jornal Nacional, a marcante cerimônia de abertura no Maracanã (aqui, os melhores momentos, na transmissão da Globo). 12 anos após dividirem cabine na abertura para Atenas-2004, Galvão Bueno, Marcos Uchôa e Glória Maria voltariam a ancorar uma festa de início dos Jogos Olímpicos – tendo Renato Ribeiro como o quarto apresentador, daquela vez. E Galvão encerrou os trabalhos, já falando no Jornal da Globo após a cerimônia, com uma exclamação tipicamente sua: “É bom demais ser brasileiro!”.

Por sinal, naquele mesmo Jornal da Globo de 5 de agosto, William Waack teve seu trabalho julgado com peso: muito (até exageradamente) se falou que o apresentador do telejornal global de fim de noite teria sido ríspido demais ao entrevistar Anitta, que cantara na cerimônia junto a Caetano Veloso e Gilberto Gil – e por sua vez, a cantora carioca do bairro de Honório Gurgel teria sido igualmente irônica. Posteriormente, em 18 de agosto, William protagonizaria mais uma saia justa, em ligeiro desentendimento com Cristiane Dias na abertura do Jornal da Globo. Muito se achou que a inimizade passara da frente para atrás das câmeras. Mas o falatório diminuiu tão rápido quanto começou. E a cobertura olímpica da Globo podia seguir.

Coube a Rembrandt Júnior, sempre a postos nos estúdios, narrar pela Globo a primeira medalha brasileira no Rio – a prata de Felipe Wu no tiro, na pistola de ar de 10m, mostrada num flash, enquanto Glenda Kozlowski narrava as eliminatórias da ginástica artística masculina. E Felipe faria naquele sábado o périplo previsível em medalhistas que falassem à Globo: a reportagem no Jornal Nacional, a aparição fugaz no Balada Olímpica, uma última entrevista no Esporte Espetacular de 7 de agosto.

Por sinal, naquele mesmo domingo, Galvão Bueno protagonizou o primeiro momento mais falado da cobertura da Globo. Novamente, ele, Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cezar Coelho estavam no estúdio panorâmico do Parque Olímpico, para transmitirem a segunda partida da Seleção Brasileira no futebol masculino. Mais uma decepção: um 0 a 0 que fazia o Brasil bordejar perigosamente a eliminação já na fase de grupos. E ainda ecoava um grande momento do futebol feminino no dia anterior: na segunda partida das mulheres, uma goleada na Suécia (5 a 1, narrada por Luís Roberto na Globo).

Para a Globo, ver que ninguém parava para ser entrevistado por Eric Faria na zona mista do Mané Garrincha, em Brasília, era pior ainda. Bastou para Galvão abrir o verbo, criticando pesadamente o comportamento dos jogadores brasileiros – em especial, de Neymar, marcando ali a primeira grande crise entre o principal jogador daquela seleção e o canal carioca. Nem mesmo as tentativas de contemporização por parte de Ronaldo aliviaram o tom de Galvão, numa das primeiras vezes que Gustavo Kuerten foi seu coadjuvante de luxo naqueles trabalhos – e em mais uma ocasião na qual o narrador deu material para memes...


O desabafo de Galvão Bueno contra o comportamento do time de futebol masculino, após Brasil 0x0 Iraque, foi motivo para memes imediatos (Reprodução/Torcedores.com)

Porém, Galvão já tinha amplo tempo de carreira para levar numa boa as gozações. Glenda Kozlowski sofreu mais. Como supracitado, a carioca narrara as eliminatórias da ginástica artística masculina, dando voz ao que faziam nomes como Diego Hypólito e Arthur Nory na Arena Carioca 1. Saiu-se normalmente, na sua primeira experiência como narradora. Mas talvez por excesso de empolgação em alguns momentos, talvez por mero preconceito, Glenda foi criticada duramente nas mídias sociais. E sentiu o impacto.

As queixas menos educadas bateram fundo nela, como revelou ao UOL, em entrevista de 2019: “Não só quase pensei em largar [a cobertura], eu falei ‘eu não vou fazer mais’. Tirei minha credencial, coloquei na mesa e fui embora. Pensei: 'Não quero mais passar por isso, não preciso mais passar por isso'. (...) ‘Eu não vou fazer, não preciso passar por isso, eu me dedico muito a tudo o que eu faço, vou virar piada agora? Eu não, eu sou muito séria com as minhas coisas, me deixa apresentando o Esporte Espetacular, eu sou repórter, essa é minha quarta Olimpíada’”. Só depois de muita conversa com Renato Ribeiro (o diretor de esportes da Globo, não o repórter) e Rosane Araújo, editora do Esporte Espetacular na época, Glenda voltou atrás e se manteve nas transmissões da ginástica. Teve a compensação: após dividir a transmissão com Galvão Bueno, nas eliminatórias de 8 de agosto, foi dela a narração para as medalhas brasileiras no solo masculino (bronze para Arthur Nory, prata para Diego Hypólito), em 14 de agosto. E também para a prata de Arthur Zanetti nas argolas, segunda medalha olímpica do paulista, no dia 15. E para as façanhas da norte-americana Simone Biles, com cinco ouros e uma prata (aqui, a apresentação que deu o ouro a Biles no cavalo).

Voltando a Galvão, sua tradicional emoção o colocaria em relativos apuros na natação. Em 10 de agosto, na final dos 200m borboleta femininos, todos estavam em silêncio no Centro Aquático, com as nadadoras nas marcas, prontas para a largada. Todos... menos Galvão, que seguia falando na transmissão da Globo para Brasil 4x0 Dinamarca, no futebol masculino. O áudio vazou na BBC inglesa, o ex-nadador e comentarista Adrian Moorhouse estava em silêncio, e só falou para repreender: “O colega perto de mim [Galvão] precisa calar a boca durante a largada. Desculpem, todo mundo aqui está quieto durante a largada, a árbitra fez a coisa certa”. Largada dada para o ouro da espanhola Mireia Belmonte – e para mais uma onda de gozações, engraçadas ou amargas, contra Galvão. De novo, o locutor levou na boa. Assumiu, em seu perfil nas mídias sociais: “Eu errei. Tinha que estar calado”. Mostrou cordialidade com o colega da BBC, em foto no Instagram. E também teve a sua compensação: narrou algumas das cinco medalhas de ouro de Michael Phelps no Centro Aquático – como a dos 200m borboleta.

Aliás, quase todos os narradores da Globo tinham a sua hora para narrar um momento de glória. Cléber Machado pôde exprimir emoção em dois acontecimentos: comemorou ao lado de Flávio Canto (“Grite junto!”) o ouro de Rafaela Silva no peso leve (57 kg) do judô feminino, em 8 de agosto, e teve elogiável locução junto de Caio e de Juninho Pernambucano, nas quartas de final em que o Brasil superou a Austrália nos pênaltis, no futebol feminino, após 0 a 0 em 120 minutos. Já Rogério Correa teve uma narração de medalha que valeu por muitas: na cabine da Globo no Engenhão, ao lado de Edson Luciano e Maurren Maggi, o locutor mineiro deu voz à palpitante disputa entre o francês Renaud Lavillenie e Thiago Braz, no salto com vara masculino, exclamando um alegre “passou!” (com Maurren e Edson como coadjuvantes, tão alegres quanto) quando Thiago Braz superou os 6,03m para alcançar outro ouro brasileiro no Rio.

Já Fernando Fernandes acabou sendo muito acionado nos comentários da canoagem de velocidade – afinal de contas, veio o brilho das três medalhas que Isaquias Queiroz ganhou na Lagoa Rodrigo de Freitas: o bronze no C1 200m (narrado por Alex Escobar), a prata no C1 1000m (locução de Rogério Correa) e a prata com Erlon Silva no C-2 1000m (com a voz de Cléber Machado). Até mesmo um apresentador acabou virando a voz de mais um ouro brasileiro no Rio: apresentando flashes na programação global, na “tarde olímpica” do dia 18 de agosto, Luís Ernesto Lacombe acabou testemunhando e “narrando” a vitória de Kahena Kunze e Martine Grael na classe 49er FX do iatismo feminino.

Até mesmo os “coadjuvantes” ganhavam espaço generoso na cobertura global. E aqui, é impossível esquecer Gustavo Kuerten. Certo, todos já sabiam do carisma que Guga tinha desde os tempos de jogador. Mais ainda: todos sabiam que o espaço dado ao tênis na cobertura da Globo para o Rio-2016 seria pequeno (afinal, como se arriscar em transmitir partidas que poderiam ir longe no Centro Olímpico?). E nada disso impediu que Guga fosse sempre uma imagem simpática, um verdadeiro “torcedor de luxo” para a Globo no Parque Olímpico. Já nas primeiras aparições, o catarinense despertava tanta empatia nas pessoas que teve o apelido de “labrador humano” popularizado mídias sociais afora.

Vendo o tamanho do chamariz de audiência que tinha em mãos, a Globo começou a levá-lo a tudo que era prova. O ouro de Róbson Conceição no peso leve, no boxe masculino? Estavam lá Galvão Bueno, Júnior Cigano... e Guga, no dia 16 de agosto, transmitindo a final logo após o Jornal Nacional. A prova mais esperada do atletismo – os 100m masculinos? Pois Guga saiu do estúdio panorâmico global dizendo que iria “acompanhar a final com o Galvão”, na cabine do Engenhão, em 14 de agosto. E lá estava o “manezinho da Ilha”, enquanto Usain Bolt ganhava seu tricampeonato olímpico, na prova exibida no intervalo do Fantástico, e Galvão perguntava: “Quem segura o Bolt?”. Mesmo fora das câmeras, até na final do futebol masculino Guga esteve. Sem que sua imagem jamais enjoasse quem assistia às Olimpíadas na Globo.

Outro coadjuvante que ganhou momentos de protagonista foi Tadeu Schmidt. O apresentador do Fantástico tinha o mais especial dos motivos para acompanhar o torneio masculino de vôlei de praia em Copacabana: afinal, lá buscava uma medalha seu sobrinho Bruno, na dupla com Alison “Mamute”. Veio a vitória sobre os americanos Dahlhausser e Lucena, nas quartas de final; a passagem à decisão do ouro, sobre os holandeses Brouwer e Meeuwsen; e finalmente, os consagradores 2 sets a 0 na dupla italiana Nicolai/Lupo, narrados por Luís Roberto e comentados por Emanuel, dando mais uma conquista olímpica ao Brasil no vôlei de praia, já na madrugada do dia 18 para o dia 19 de agosto. Tadeu estava lá, nas arquibancadas. E sua emoção foi obviamente reportada pelo Fantástico que apresentou, em 21 de agosto. Assim como Hortência pode falar de um familiar esportista: comentando a derrota do Brasil para a Croácia no basquete masculino (80 a 76), em 11 de agosto, a ex-jogadora viu da cabine o filho João Victor Oliva competir no hipismo masculino, ao lado de Cléber Machado e Tiago Splitter.

No vôlei feminino, tudo parecia perfeito na fase de grupos: com Tande e Fabi comentando, a campanha da seleção brasileira de José Roberto Guimarães (com Fabiana, Dani Lins, Adenízia, Thaísa, Jaqueline, Sheilla, Fernanda Garay...) parecia promissora. 3 sets a 0 em Camarões, com Cléber Machado narrando; Argentina, com Luís Roberto; Japão, sem transmissão (era hora de futebol masculino); Coreia do Sul, também com flashes narrados por Luís Roberto durante o Brasil x Austrália do futebol feminino; e Rússia, também na voz de Luís. Parecia que viria das mulheres a medalha de ouro – tanto que, em 16 de agosto, Luís Roberto, Tande e Fabi estavam a postos, esperando outra grande vitória nas quartas de final, contra a China. Mas o que veio foi uma grande decepção: carregadas pela atuação estupenda de Zhu Ting, as chinesas viraram para 3 sets a 2, eliminaram o Brasil e entristeceram o Maracanãzinho. Restou a Luís Roberto a sensibilidade para notar uma imagem das câmeras exclusivas da Globo: José Roberto Guimarães, calejado por tantos Jogos Olímpicos, consolava com serenidade o neto choroso pelo inesperado revés que impedira a quarta medalha do avô.

Pelo menos, havia os homens para se apostar no Maracanãzinho. Como sempre, com Tande e Giba na cabine, comentando, enquanto Fabi era a “repórter” na quadra. Mas os resultados inspiravam cuidados: mesmo com triunfos sobre México e Canadá, derrotas para Estados Unidos e Itália fizeram o time de Bernardinho (e Bruno, Lucarelli, Lucão, Serginho...) ficar à beira da eliminação. Para evitá-la, seria preciso vencer a França. Pois o Brasil fez 3 sets a 1, partiu para as quartas de final... e aquilo também motivou a cobertura global para o vôlei dos homens.

Tande e Giba pareciam jogar em quadra, e Luís Roberto viu aberto o caminho para usar bordões cativantes. Cada saque forte de Lucarelli era saudado pelo narrador paulista com um “Luuuuucarelli!”. Cada largada de Lucão para a quadra adversária era recebida com um “Lucão, no chão!”. E ali Luís começou a usar e a popularizar o seu bordão mais conhecido nos dias atuais: as frequentes cortadas de Wallace eram introduzidas com um “Sabe de quem? Wallace!”. Foi com esses bordões que a Globo mostrou a empolgante virada do vôlei masculino para o terceiro ouro da história da seleção, com massacrantes 3 sets a 1 na Argentina, nas quartas de final; eletrizantes 3 sets a 0 na Rússia, na semifinal de 19 de agosto; e os consagradores 3 sets a 0 na Itália, na decisão de 21 de agosto no Maracanãzinho (narrado por Rembrandt Júnior no começo, já que havia problemas técnicos na cabine da Globo, antes de Luís Roberto reassumir). Na reta final da decisão, Fabi resumiu emocionada: “Luís, uma palavra resume esse time: determinação”.

E o futebol? Se o feminino terminou num anticlímax, com Cléber Machado, Caio e Juninho Pernambucano mostrando a dramática eliminação para a Suécia nas semifinais e a derrota para o Canadá na decisão do 3º lugar, o masculino começara a embalar contra a Dinamarca. Galvão Bueno, Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cezar Coelho estiveram no turbulento 2 a 0 sobre a Colômbia, nas quartas de final, e no tranquilo 6 a 0 sobre Honduras, na semifinal. Veio a hora da final, contra a Alemanha, no Maracanã. Era a chance da esperada medalha de ouro na modalidade mais popular entre os brasileiros. Galvão pôde narrar uma defesa de Weverton numa cobrança, como a mãe do goleiro disse desejar, quando o chute de Nils Petersen foi pego. E o seu emocionado “acabou, é ouro, é ouro!”, após o pênalti decisivo convertido por Neymar, eternizou o momento com que a Globo sonhava: a conquista olímpica do ludopédio dos homens.



(Melhores momentos de Brasil 1(5)x1(4) Alemanha, final do torneio de futebol masculino, nos Jogos Olímpicos de 2016, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cezar Coelho)

Veio a cerimônia de encerramento, em 21 de agosto. No final dela, antes da conclusão emocionada de Galvão Bueno, Renato Ribeiro (o repórter, que logo sucederia o homônimo na direção de esportes da Globo) choraria – pelo fim de ciclo e pela conclusão alegre de que a Globo conseguira o que desejava: após o lapso de Londres-2012, tinha provado seu poder. Para o bem e o mal. E isso seria comemorado por parte da equipe na confraternização final dentro do Balada Olímpica, fecho de uma cobertura que mostrava: a emissora da família Marinho havia voltado aos Jogos Olímpicos para ficar.

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