Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Rio 2016, ESPN - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Rio 2016, ESPN

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(Vinheta de abertura das transmissões dos canais ESPN para os Jogos Olímpicos de 2016. Postado no YouTube por Thiago Rocha)



Narração: Paulo Andrade, Eduardo Monsanto, Rômulo Mendonça, Everaldo Marques, Rogério Vaughan e Fernando Nardini

Comentários: Zé Elias (futebol masculino), Paulo Calçade/Juliana Cabral/Maravilha (futebol feminino), Márcio Prudêncio (atletismo), Maurício Jahu/Maurício Lima (vôlei masculino), Ana Moser (vôlei feminino), Jacqueline Silva (vôlei de praia feminino), Zé Marco (vôlei de praia masculino), Wlamir Marques, Zé Boquinha e Eduardo Agra (basquete masculino), Paula (basquete feminino), Fernando Meligeni (tênis), Lyanne Kosaka (tênis de mesa), William Lima/Flávia Delaroli (natação), Camila Comin (ginástica artística), Danielle Zangrando/Rogério Sampaio (judô) e Diogo Silva (taekwondo)

Reportagens: Cícero Melo, André Plihal, José Renato Ambrósio, Mendel Bydlowski, Gabriela Moreira, Débora Gares, Rafael Reis e Helvídio Mattos

Apresentação: Rubens Pozzi, Rogério Vaughan, André Kfouri, João Carlos Albuquerque, Paulo Soares, Eduardo Monsanto e Juliana Veiga

Participação: Mariano Zabaleta/Juan Ignacio Chela (tênis), Luciana Aymar/Magdalena Aicega/Mercedes Margalot (hóquei sobre a grama), Fabricio Oberto (basquete masculino), Faustino Asprilla/Jorge Bermúdez (futebol masculino), Felix Sánchez e Dwight Stones (atletismo), entre outros


Se ainda houvera pouco tempo para mudanças na linha editorial dos canais ESPN durante a cobertura em Londres-2012, nas preparações para os Jogos Olímpicos do Rio elas já estavam bastante aprofundadas – tendo a Copa de 2014 como marco inicial disso. Programas de nicho (que tinham audiência cativa, mas minúscula), como Loucos por Futebol, tiveram fim pouco depois do Mundial de futebol. Programas de tom mais investigativo, como o Histórias do Esporte, também foram abandonados naquela época – bem como produções de ritmo mais lento, caso do Pontapé Inicial, do Juca Entrevista que Juca Kfouri comandava e do Duetto, que aproveitava a parceria Paulo Soares-Antero Greco, já celebrizada pelo Sportscenter noturno. Sem contar os espaços para demais modalidades: Limite, Por dentro do Basquete, Por dentro do Vôlei... todos encerrados entre 2012 e 2016.


A prioridade iria para os noticiários e debates: o citado Sportscenter passou a ter três edições (12h, 20h e 0h), assim como o Bate Bola (às 10h, o Bate Bola Bom Dia; às 13h, o Bate Bola Debate; e às 18h, o Bate Bola Na Veia). Ao invés de ficar restrito às segundas-feiras, o Linha de Passe seria acionado a cada fim de jornada futebolística, se valendo dos bons resultados de audiência por sua exibição diária durante a Copa de 2014. Tudo isso, centrado nos estúdios no bairro paulistano do Sumaré: a sucursal no Rio de Janeiro foi desativada logo após a Copa.


E jornalistas que eram responsáveis por programas simbólicos da “velha ESPN” também foram paulatinamente incluídos nos cortes de pessoal da redação dos canais ESPN, no bairro paulistano do Sumaré. Chefe de reportagem ali havia muito tempo, Kitty Balieiro (1957-2019) foi demitida já em 2012, logo após os Jogos de Londres. Mais algum tempo, e em 2015 foram dispensados Lúcio de Castro (o repórter carioca fora responsável pela série premiada Memórias do chumbo: O futebol nos tempos do Condor e por outra sequência de reportagens apurando casos de corrupção na Confederação Brasileira de Vôlei) e Roberto Salim, o nome por trás do Histórias do Esporte. Mesmo os nomes que seguiam faziam papéis cada vez mais periféricos. José Trajano só aparecia semanalmente, para participar do Linha de Passe tradicional das segundas, enquanto Helvídio Mattos apenas fazia reportagens especiais. Sem contar as mudanças naturais, por contingências de mercado – uma delas tirara um símbolo da ESPN: Paulo Vinícius Coelho, a voz dos comentários de futebol nos canais, fora para o FOX Sports no fim de 2014.


Ainda assim, havia Jogos Olímpicos pela frente em 2016, sediados no Rio de Janeiro. E os canais ESPN conseguiram os direitos de transmissão após negociação direta com o COI, concluída em fevereiro de 2015. Assim que isso aconteceu, começou o planejamento e a preparação da cobertura que seria chefiada pelo diretor de jornalismo João Palomino. No primeiro estágio, alguns programas exibiam quadros especiais com fortes candidatos a medalha no Rio, brasileiros ou não. E um achado elogiável no pré-Jogos dos canais esportivos da Disney foi o Credencial ESPN, exibido nos primeiros meses de 2016.


Tendo apenas uma tela atrás, num estúdio preto, nomes célebres do canal se recordavam de coberturas olímpicas anteriores de suas carreiras, respondendo às perguntas do repórter Marcelo Gomes, um dos principais e mais experientes produtores da redação da emissora, via áudio em off. Ali falaram João Palomino, Juca Kfouri, Everaldo Marques, Paulo Andrade, Mendel Bydlowski, Fernando Nardini, Helvídio Mattos, André Kfouri... mereceu destaque o depoimento do apresentador e repórter Rubens Pozzi – por razões particulares, também: o incentivo dado à filha de Pozzi, Maria Eduarda, então com problemas de saúde. A iniciativa de pouco custo foi tão simpática que voltou à grade de programação, antes da Copa do Mundo de 2018 no futebol, com outros nomes mais vinculados à modalidade (Leonardo Bertozzi, Gian Oddi, Arnaldo Ribeiro e Gustavo Hofman, por exemplo).


Finalmente, chegava a hora dos canais definirem os enviados ao Rio, para a cobertura a ser exibida nos três canais (ESPN Brasil, ESPN e ESPN 2 – este último, o novo nome da ESPN+ que tinha toda a programação em HD). Uma equipe vitaminada por 46 convidados latinoamericanos (listados aqui), já que a ESPN também tinha os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos para a América Latina e o Caribe, assim como fora na Copa de 2014. Ou seja: de vez em quando, também apareceriam na tela da ESPN brasileira, com rápidos comentários nos programas, convidados como Luciana Aymar, símbolo de uma geração das “Leoas” da Argentina no hóquei feminino na grama, com duas pratas (Sydney-2000 e Londres-2012) e dois bronzes (Atenas-2004 e Pequim-2008). Ou como Fabrício Oberto, um dos nomes marcantes da Argentina ouro no basquete masculino, em Atenas-2004. Ou como a dupla colombiana Faustino Asprilla e Jorge Bermúdez, dois nomes comuns na grande fase da seleção masculina de futebol do país, nos anos 1990 – e que, ora bolas, estiveram no torneio de Barcelona-1992.


Nos comentaristas dos canais ESPN para o Brasil, novamente, a alternância entre nomes frequentes e novidades – sinalizando a mudança por que se passava ali, mais ex-jogadores do que jornalistas. Já veteranos de coberturas olímpicas anteriores da emissora, Ana Moser (feminino) e Mauricio Jahu (masculino) eram novamente os comentaristas destinados aos torneios de vôlei no Maracanãzinho. Já familiares aos espectadores nas coberturas da NBA, Wlamir Marques, José Roberto “Zé Boquinha” Lux e Eduardo Agra dariam as opiniões sobre os jogos do basquete masculino na Arena Carioca 1 e na Arena da Juventude em Deodoro. Outros velhos conhecidos da ESPN que comentariam as disputas no Rio de Janeiro seriam Servílio de Oliveira (o boxe), Flávia Delaroli (nome frequente na faixa WESPN, sobre a mulher no esporte, a ex-nadadora comentaria a natação no Centro Aquático do Parque Olímpico), a dupla Juliana Cabral e Paulo Calçade (futebol feminino) e Fernando Meligeni (tênis).


Também no bola-ao-cesto, viria um nome inquestionável nos comentários do torneio feminino: no Rio-2016, Paula trabalharia na ESPN pela primeira vez. Assim como Maurício Lima, parceiro de Maurício Jahu nos comentários do vôlei masculino. A exemplo de Paula e Maurício Lima, Rogério Sampaio trabalhara na cobertura da Record em Londres-2012 – e estaria pela ESPN no Rio. Outra novidade era Jacqueline Silva: “Jackie” comentaria o vôlei de praia feminino na praia de Copacabana. Márcio Prudêncio traria para os comentários do atletismo no Engenhão a vivência (formado em Educação Física, técnico de atletismo) e até o histórico familiar, como filho de Nélson Prudêncio (1944-2012), bronze no salto triplo na Cidade do México-1968. E se já trabalhava na emissora desde 2013, Zé Elias seria o comentarista preferencial do torneio de futebol masculino – até pela experiência olímpica que Zé tinha, titular que fora na campanha do bronze em Atlanta-1996.



Entre os comentaristas da ESPN para as Olimpíadas de 2016, os ex-jogadores ganhavam destaque (Divulgação)



Logo que os narradores daquela cobertura foram anunciados, os canais ESPN também informaram de antemão as modalidades às quais dariam voz nos Jogos Olímpicos. Nada fora do esperado. Como principal narrador dos jogos de futebol ali, Paulo Andrade daria voz ao torneio masculino – com ênfase nas partidas do Brasil. Tão parte das transmissões da NBA quanto os comentaristas, Everaldo Marques seria o narrador das partidas nas quadras da Arena Carioca 1 e na Arena de Deodoro. Com histórico positivo no judô, dando voz às transmissões da ESPN para medalhas da modalidade em Pequim e Londres, Eduardo Monsanto seria o locutor preferencial das lutas na Arena Carioca 2. Bastante experimentado no aspecto poliesportivo, Fernando Nardini iria para as segundas Olimpíadas pela emissora narrando as provas da natação no Centro Aquático. Após tantos Jogos narrados dos estúdios pela ESPN, Rogério Vaughan, enfim, estaria in loco numa modalidade: seria do paraense de Santarém a voz para as competições do atletismo no Engenhão. E uma decisão inicialmente discutível se revelaria certeira: Rômulo Mendonça narraria o vôlei no Maracanãzinho, masculino ou feminino.


Entre as reportagens, de novo, o canal esportivo da Disney no Brasil teria nomes veteranos de várias coberturas: Helvídio Mattos e Mendel Bydlowski, por exemplo – Helvídio percorrendo os Jogos e captando como estava o ambiente para reportagens especiais, enquanto Mendel se concentrava nas reportagens do atletismo. Gaúcho radicado havia muito tempo no Rio de Janeiro, habituado à cobertura da Seleção Brasileira, Cícero Melo reportaria o que ocorresse no futebol olímpico. Também acostumado aos Jogos, André Plihal iria para o judô, enquanto Maurício Jahu se alternaria entre os comentários na cabine e as reportagens na quadra, no vôlei.


José Renato Ambrósio era mais um nome das transmissões da NBA que trabalharia no basquete masculino olímpico – claro, “Zé Renato” faria as reportagens nas quadras. Mas duas novidades emendariam seus segundos grandes eventos esportivos na ESPN: as repórteres cariocas Débora Gares e Gabriela Moreira. Débora reportaria as disputas na natação; Gabriela acompanharia o ambiente... e também qualquer irregularidade que ocorresse, acostumada que estava ao chamado “jornalismo investigativo”.


Mesmo com uma ESPN cada vez mais “futebolizada”, resistiam na grade programas como o Segredos do Esporte (Paulo Calçade debatia vários aspectos do esporte, com muitos dos comentaristas do canal que estariam no Rio) e o Caravana do Esporte, ainda ensinando modalidades às crianças carentes (um nome certo entre os professores era Diogo Silva, que comentaria o taekwondo olímpico). E o caráter poliesportivo que o canal ainda tinha foi respeitado no comando da cerimônia de abertura, em 5 de agosto: Everaldo Marques, Eduardo Monsanto e Rogério Vaughan ancoraram a transmissão da ESPN para a festa no Maracanã.


Todavia, aquela cobertura dos canais ESPN para os Jogos Olímpicos teve lá seus momentos e hábitos merecedores de crítica – ainda mais vindos de uma audiência cativa, acostumada aos tempos de José Trajano. Um deles foi abrir mão de dar espaço total aos Jogos Olímpicos na ESPN Brasil, mantendo as três edições do Bate-Bola intactas na grade. Era geralmente comum ver os debates acontecendo – na maioria das vezes, sobre futebol -, com as competições olímpicas relegadas a meros flashes durante os programas. Entristecia quem preferia outros esportes olímpicos.

Pelo menos, se a ESPN Brasil só abria espaço para as principais disputas dos Jogos – ainda mais se envolvessem o Brasil -, ESPN e ESPN 2 traziam as competições no Rio de Janeiro com força total. E a cobertura começou a mostrar bons momentos. Como as reportagens de Helvídio Mattos com Isaquias Queiroz: o canoísta baiano havia sido ouvido por Helvídio ainda no anonimato, e falava com o repórter paulistano no êxtase das três medalhas olímpicas ganhas nas raias da Lagoa Rodrigo de Freitas. Gabriela Moreira fez reportagens elogiadas sobre escorregadas de cartolas do COI – e sobre o ardil aprontado por Ryan Lochte, acusando um assalto inexistente no Rio para esconder uma noite de bebedeira. Bastante entrosada, a equipe do basquete masculino (Everaldo Marques, Eduardo Agra/Paula, José Renato Ambrósio – com “Zé Boquinha” e Wlamir Marques dos estúdios) faziam transmissões que contentavam a audiência.


Os grandes momentos seguiam: a emoção de Fernando Nardini ao narrar a vitória do marfinense Cheick Sallah Cissé na decisão do taekwondo até 80kg, com Cissé golpeando o britânico Lutalo Muhammad para levar o ouro no último segundo da luta na Arena Carioca 3. Eduardo Monsanto, novamente, deu voz a um momento de glória do judô brasileiro: com Danielle Zangrando nos comentários, Monsanto narrou o ouro de Rafaela Silva no peso leve – com André Plihal registrando as lágrimas da carioca da Cidade de Deus na reportagem. Reportando o tri olímpico de Usain Bolt nos 100m do atletismo masculino, Mendel Bydlowski deu sorte de encontrar o jamaicano bem-humorado, em estado de graça – a ponto de até fazer amistosos “chifrinhos” na cabeça de Mendel durante a entrevista no Engenhão. A transmissão de Paulo Andrade e Zé Elias para a final do futebol masculino olímpico teve, obviamente, tremendo espaço – com a tela dos três canais ESPN sendo dividida no momento do pênalti decisivo de Neymar que deu o ouro ao Brasil.


Mas era possível dizer: nenhum momento rendeu tantos elogios à ESPN, na cobertura do Rio-2016, quanto as locuções de Rômulo Mendonça para os torneios de vôlei no Maracanãzinho. Mineiro de Divinópolis, na emissora desde 2013, Rômulo jamais narrara aquele esporte na carreira – por isso mesmo, a decisão de destiná-lo à modalidade nas Olimpíadas era controversa, a princípio. Pois ele fez do limão uma grande limonada. Trouxe com sucesso os bordões que já usava nas transmissões de esportes norte-americanos (beisebol, basquete, futebol americano) para as quadras. Nas partidas do Brasil, cada bloqueio era saudado por Rômulo com um “aqui não, neném” ou um “aqui não, queridinha”, ou até um “minha casa, minhas regras!”; cada cortada forte o levava a dizer “Carreta Furacão!”, antes de emendar com o “siga em frente, olhe para o lado” (de “Vem dançar o mestiço”, canção de Leandro Lehart que popularizou o bailado da Carreta).


A galhofa de Rômulo Mendonça fez muito sucesso nas transmissões dos canais ESPN para o vôlei, nos Jogos Olímpicos de 2016 (Reprodução de tevê)


E o grande bordão: após a cortada, dizer que o(a) jogador(a) estava “possuído(a) pelo ritmo ragatanga” – antes, de, claro, emendar com o refrão do sucesso do Rouge (“Aserehe ra de re” etc.) Antes mesmo dos torneios olímpicos de vôlei terminarem no Maracanãzinho, Rômulo já era sucesso – o site da ESPN trazia seus grandes momentos no Rio-2016, os jogadores brasileiros ouviam a voz do mineiro com bom humor. Era uma cobertura que merecia um grande momento para coroá-la. E ele veio do vôlei masculino: tão logo foi marcado o ponto decisivo do ouro brasileiro, com os 3 sets a 0 na Itália em 21 de agosto de 2016, ao lado dos Maurícios (Jahu e Lima) na cabine, Rômulo exultou: “Nossa casa, nossas regras, nosso ouro!”. Sem dúvida, transmitir o vôlei no Rio-2016 se tornara o grande momento da carreira do “Mensageiro do Caos” até ali.





(Áudio do ponto decisivo em Brasil 3 sets a 0 na Itália, decisão da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016, na transmissão da ESPN, com a narração de Rômulo Mendonça e os comentários de Maurício Lima e Maurício Jahu)


Porém, se havia qualquer dúvida de que os canais ESPN estavam mudando, a cobertura dos Jogos Olímpicos do Rio deu a certeza disso – certeza incômoda, para a audiência cativa que o canal possuía desde os tempos do que se chamou “ESPN do Trajano”. A prova definitiva veio semanas após os Jogos: no fim de setembro de 2016, após 21 anos de serviços prestados ao canal de que se tornara “a cara”, José Trajano foi demitido. Pior: na briga pelos direitos de transmissão, cada vez mais caros, os canais ESPN começaram a ficar em séria desvantagem.


Houve até bons momentos posteriores às Olimpíadas, como a série As Olimpíadas que eu vi, com vários repórteres daquela cobertura falando sobre os momentos mais marcantes dela. Mas o fato é que, desde 2016, a mudança profunda dos canais ESPN se acentuou – ainda mais após a fusão com a FOX Sports. E a crise segue. Mostra disso é o fato de que, após 26 anos, a ESPN não terá os direitos de Tóquio-2021. De se lamentar.

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