Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Londres 2012, Record - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Londres 2012, Record

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(Vinheta de abertura das transmissões da TV Record para os Jogos Olímpicos de 2012)



Narração: Maurício Torres, Lucas Pereira, Eduardo Vaz, Álvaro José, Rafael Ribeiro, Octávio Muniz, Reinaldo Gottino e Marco Túlio Reis

Comentaristas: Virna (vôlei feminino), Maurício (vôlei masculino), Pampa (vôlei de praia), Paula (basquete feminino), Oscar Schmidt (basquete masculino), Robson Caetano (atletismo), Romário (futebol masculino), Renê Simões/José Eduardo Savóia/Eduardo Marini (futebol feminino), Acelino “Popó” Freitas (boxe), Fernando Scherer (natação), Rogério Sampaio (judô) e Luisa Parente (ginástica)

Repórteres: Adriana Araújo, Roberto Thomé, Mauro Tagliaferri, Gudryan Neufert, Adriana Bittar, André Tal, Cleisla Garcia, Cláudia Reis, Jean Brandão, Carlos Dorneles, Heloísa Villela, Vinícius Dônola, Eduardo Ribeiro, Thaís Furlan, Rodrigo Vianna, Alex Machado e Bruno Piccinato

Apresentação: Paulo Henrique Amorim, Ana Paula Padrão, Mylena Ciribelli, Celso Zucatelli, Roberta Piza, Adriana Araújo e Carla Cecato


Quem leu a introdução à cobertura olímpica da televisão brasileira para Londres-2012 já teve uma ideia do impacto que teve a vitória da Record sobre a Globo (e a Bandeirantes, diga-se de passagem) na disputa pelos direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos na capital da Inglaterra. Com o triunfo retumbante, após um período de negociações frustradas, a emissora do bairro paulistano da Barra Funda decidiu: não dividiria os direitos com a Band, muito menos com sua arquirrival carioca. Seria a exibidora exclusiva das disputas em Londres para o Brasil na televisão aberta. E desde a vitória, em 2007, tentou se apresentar ao público brasileiro como uma opção digna e merecedora de toda a audiência na época dos Jogos. Até o telespectador mais desavisado sabia: a meta da Record era fazer um trabalho primoroso nos Jogos Olímpicos de 2012. Mais importante: com exclusividade na televisão aberta.

Na frente das câmeras, um nome já era certo naquele ambicioso projeto olímpico: egresso da TV Globo, contratado em 2005, o narrador e apresentador Maurício Torres (1971-2014) seria uma das principais vozes olímpicas da Record. Também no canal paulista estava, desde 2001, o repórter Roberto Thomé, de longa e indubitável experiência nos seus tempos de Globo. Ganhos os direitos de transmissão, mais gente chegou para turbinar as preparações. Em 2009, outro grande nome foi trazido da principal adversária da Record para simbolizar o que seriam os Jogos Olímpicos de 2012 no canal: Mylena Ciribelli. Mylena era uma das caras globais do esporte, como apresentadora do Esporte Espetacular – e, muitas vezes, das edições do Globo Esporte para o Rio de Janeiro. Já estivera em pelo menos três coberturas de Copas do Mundo de futebol (1998, no país-sede; 2002 e 2006, no Brasil).

Mas Mylena tinha um sonho, que ainda não realizara na emissora dos Marinho, conforme contou ao UOL, numa entrevista em 2019: “(...) Eu tinha um sonho, como os atletas têm, de ir para a Olimpíada representar o pais. O meu sonho era ir para a Olimpíada cobrir como jornalista in loco (...) Quando a Record me convidou para ser âncora, eu pensei: ‘É o meu sonho’. Falaram de dinheiro, mas eu fui atrás do meu sonho”. E em 2009, após o fim do contrato com a Globo, a apresentadora carioca aceitou a proposta para ser mais um rosto da Record a simbolizar a cobertura olímpica em 2012. A começar pelo programa matinal de esportes que passou a apresentar, desde então (e até hoje): o Esporte Fantástico, exibido primeiro aos domingos, depois aos sábados. Além do trabalho televisivo, Ciribelli também ganhou um blog – mantido até hoje – no R7, o então nascente portal da Record na internet.

Com esses nomes, mais alguns contratados temporários, já foi feita a cobertura do primeiro evento do ciclo olímpico da Record: os Jogos Olímpicos de Inverno, em 2010, na cidade canadense de Vancouver. O trabalho foi modesto, mas elogiado: competições como as provas de curling, geralmente narradas por Maurício Torres, ganharam certa popularidade, bem como audiência. Mais um ano, mais nomes chegaram para o projeto (um deles era o narrador fluminense Rafael Ribeiro, surgido no rádio de seu estado, vindo do Esporte Interativo em 2009).

E em 2011, mais um contratado para turbinar a credibilidade do que a Record pretendia fazer nos Jogos Olímpicos: após 28 anos de TV Bandeirantes, Álvaro José chegava à emissora, trazendo sua experiência inquestionável em várias modalidades. Outro nome a ganhar o blog no R7 além das aparições na telinha, Álvaro já chegou para ser uma das vozes de outra cobertura “de preparação”: os Jogos Pan-Americanos daquele ano, em Guadalajara. A Record transmitiu o Pan com exclusividade, na televisão aberta – na “emissora-mãe” e na Record News, emissora de notícias do grupo, acessível a quem tivesse antena UHF na tevê - e na internet, pelo R7, portal do canal. E nos jogos do futebol masculino no Pan, um comentarista chamava a atenção na emissora: Romário, que dispensava apresentações.

Mas foi no começo de 2012 que a Record deflagrou a maioria de suas contratações rumo a Londres. O pequeno departamento esportivo que o canal tinha foi incrementado com vários narradores. O mais badalado, vindo do SporTV: após 15 anos e três edições de Jogos no canal esportivo do Grupo Globo, o carioca Lucas Pereira desembarcou na Record para ser outra das principais vozes esportivas do canal, junto a Maurício Torres e a Álvaro José. Assim como outro nome de trajetória já longa: Eduardo Vaz, contratado junto ao Grupo Bandeirantes - “Dudu” fora narrador tanto na Bandeirantes quanto no Bandsports (neste, até fora o locutor principal na Copa do Mundo de 2010). Também mereciam menção o paulista Reinaldo Gottino, que se concentrou nas narrações pela Record News; o experiente Octávio Muniz, de tantas experiências como repórter na TV Bandeirantes, nos anos 1990, e já tendo sido locutor na Rede TV e pelo NSC (National Sports Channel), canal fundado por ele e exibido por antenas parabólicas; e Marco Túlio Reis, com passagens pela TNT (narrando os jogos da NBA, quando o canal os exibia, nos anos 1990), pela malograda experiência da PSN, pelo Esporte Interativo – na parceria deste com a Rede TV, entre 2003 e 2004 – e pelo SporTV.

Também no ano dos Jogos, foi enfim confirmada a equipe de comentaristas da Record em Londres – alguns deles, também fazendo a dupla jornada de comentar na Record/Record News e blogar no R7. Como era de se esperar, vários nomes reconhecidos junto ao público, pelos feitos no esporte (em especial, nos Jogos Olímpicos). Alguns deles faziam interessante ligação entre coberturas anteriores da Record e aquela que se pretendia histórica. 16 anos depois de ter comentado pelo canal as disputas do judô em Atlanta-1996, Rogério Sampaio comentaria novamente as lutas no tatame pela Record. Presente na emissora durante a transmissão do Pan de 2007, no Rio, Fernando Scherer também seria comentarista – obviamente, “Xuxa” estaria nas provas de natação no Centro Aquático.

Outros estariam entre os enviados da Record trazendo experiência televisiva prévia nos Jogos. Após serem comentaristas da TV Bandeirantes em Pequim-2008, migraram para a Record tanto Virna quanto Luisa Parente. No basquete, Paula comentaria o torneio feminino, enquanto Oscar Schmidt seria o comentarista do retorno do Brasil à competição olímpica masculina na modalidade. Para o atletismo, após experiências no SporTV (Sydney-2000, Atenas-2004) e TV Globo (Pan-2007), Robson Caetano falaria do que se visse no Estádio Olímpico de Londres. Popó comentaria o que ocorresse no boxe, e Renê Simões falaria durante o torneio olímpico de futebol feminino, trazendo sua marcante passagem como treinador do Brasil que fora medalha de prata em Atenas-2004. Por fim, mas nunca menos importante, Romário demorou a confirmar sua participação na cobertura da Record, mas afinal apareceu para comentar o futebol masculino. Até porque fora goleador no torneio de futebol, em Seul-1988.

De resto, tanto entre os repórteres quanto entre os apresentadores, o jornalismo geral fortaleceria a maior parte dos enviados para os trabalhos em Londres. Claro, havia nomes mais ligados ao esporte: além dos já citados Mylena Ciribelli e Roberto Thomé, também estariam nos Jogos pela Record nomes com coberturas olímpicas nos currículos, como os repórteres Mauro Tagliaferri e Adriana Bittar. Porém, os símbolos da Record fora das disputas viriam das editorias gerais.

Em uma de suas últimas experiências unicamente jornalísticas, Ana Paula Padrão ancoraria o Jornal da Record do IBC (Centro Internacional de Transmissões). A mesma coisa faria a dupla Paulo Henrique Amorim (1941-2019) e Adriana Araújo, titulares do Domingo Espetacular, que comandariam direto de Londres. Assim como Roberta Piza, Celso Zucatelli e Carla Cecato, todos eles apresentando da Inglaterra as notícias olímpicas no matinal Fala Brasil. Na Record News, Heródoto Barbeiro seria o âncora dos noticiários principais. Repórteres? A Record teria vários nomes de longo caminho, no esporte ou não: Vinícius Dônola, Heloísa Villela, Carlos Dornelles, Gudryan Neufert, Rodrigo Vianna...

Enfim, os 300 enviados estavam a postos, liderados pelo diretor de jornalismo, Douglas Tavolaro, para trabalho num estúdio de 700 m² no Parque Olímpico de Londres, em três frentes – Record, Record News e R7, que ainda mantém os vídeos no ar. Os destaques da programação do canal ajudavam a tentar atrair a audiência: Marcos Mion (então apresentador d’A Fazenda e do humorístico Legendários), Ana Hickmann (então à frente do programa de auditório Tudo é Possível), os principais atores da novela juvenil Rebeldes. Os principais comentaristas falavam sobre seus esportes, em vinhetas durante a programação: Paula, Oscar, Maurício, Luisa Parente. Nos eventos mais badalados, o canal teria câmeras exclusivas. Havia até um jingle (“Tô na torcida, tô na Record”). Tudo para impulsionar a tarefa autoimposta da Record, tão resumida quanto complicada: fazer uma cobertura que superasse as de Globo e Bandeirantes nas edições anteriores, em qualidade e em audiência. A hora do salto esperado para transformar a emissora chegara.

Veio a abertura dos torneios de futebol, nos dias 25 e 26 de julho. Enquanto os jogos menos atraentes iam para a Record News, Maurício Torres e Renê Simões estiveram nos 5 a 0 das mulheres sobre Camarões (dia 25, em Cardiff, no País de Gales), enquanto Lucas Pereira narrou e Romário comentou os 3 a 2 dos homens no Egito (dia 26, em Cardiff). Mas os olhos se viraram para a Record definitivamente a partir de 27 de julho de 2012, quando Adriana Araújo, Álvaro José, Ana Paula Padrão e Maurício Torres conduziram – com participações de Mylena Ciribelli e Celso Zucatelli - a transmissão da marcante cerimônia de abertura no Estádio Olímpico de Londres, com as participações de Rowan “Mr. Bean” Atkinson, Duran Duran, Paul McCartney etc.




(Momento em que a pira olímpica é acesa, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2012, na transmissão da TV Record, com as locuções de Álvaro José e Maurício Torres)

A partir dali, cada falha da Record seria analisada com lupa – e criticadíssima. Já no dia de abertura, no Jornal da Record após a cerimônia de abertura, Ana Paula Padrão cometeu a gafe de dizer que os espectadores estavam assistindo “ao Jornal da Globo”. Mas é claro que os bons momentos também vieram rapidamente. Já no dia seguinte, na manhã brasileira, Maurício Torres narrou – e Rogério Sampaio comentou – a primeira medalha olímpica feminina da história do judô brasileiro. Logo um ouro, com Sarah Menezes vencendo na categoria até 48kg.




(Final da categoria até 48kg, no judô feminino, nos Jogos Olímpicos de Londres, com a brasileira Sarah Menezes vencendo a romena Alina Dumitru e ganhando a medalha de ouro. Transmissão da TV Record, com a narração de Maurício Torres e os comentários de Rogério Sampaio)

A partir de então, as coisas se estabilizaram na cobertura da TV Record. E houve uma certa hierarquização da cobertura. Os esportes “de nicho”, vistos por menos pessoas, iriam para a transmissão no R7. As modalidades mais atraentes, mas menos “televisivas” (e as participações preliminares dos brasileiros) iriam para a Record News. Foi assim com a derrota de Hugo Hoyama para o sino-polonês Wang Zengyi, na primeira fase do torneio masculino de simples no tênis de mesa. Foi assim com outra derrota de brasileiros: a dupla Pedro Cunha e Ricardo perdendo para os alemães Reckenmann e Brink, nas quartas de final do torneio masculino de vôlei de praia.

Com isso, a emissora noticiosa do Grupo Record acabou exibindo muitos eventos, abrindo janelas olímpicas em sua programação normal com frequência até maior do que a emissora-matriz. Nela, despontaram três nomes. Um deles, trazido especialmente para a cobertura: o narrador Marco Túlio Reis. Outros dois já estavam na equipe esportiva da Record: os comentaristas José Eduardo Savóia e Eduardo Marini. O trio Marco Túlio-Savóia-Marini esteve em uma das competições de Londres-2012 que só ganhou cobertura pesada na Record News: o futebol feminino. Com a eliminação da Seleção Brasileira, foi no canal noticioso da Record que se viu o tricampeonato olímpico dos Estados Unidos, com o 2 a 1 em cima do Japão na final – espécie de revanche da final da Copa de 2011.

Mas quando a competição era decisiva, ou quando envolvia brasileiros, ou as duas coisas juntas, aí sim, a Record abria grande espaço dentro de sua programação – fosse na íntegra ou no Plantão Olímpico, aberto a qualquer hora do dia olímpico para exibir participações verde-amarelas. Nesse esquema, vieram alguns dos grandes momentos da emissora paulista em Londres. Começando pela natação.

No Centro Aquático, um dos raros lugares em que a Record tinha costumeiramente narradores e comentaristas presentes, a emissora acompanhou provas marcantes. Com Fernando “Xuxa” Scherer como comentarista fixo, os narradores variaram. Coube a Rafael Ribeiro dar voz ao grande momento da carreira de Thiago Pereira, quando o nadador carioca enfim alcançou a medalha olímpica que buscava – no caso, a prata nos 400m medley, só perdendo para Ryan Lochte. Por sua vez, outro carioca – Rafael Ribeiro – reconheceu aquela como a narração mais marcante de sua carreira.



(Transmissão da TV Record para a final dos 400m medley na natação masculina, nos Jogos Olímpicos de 2012, com a narração de Rafael Ribeiro e os comentários de Fernando Scherer)

Mas era claro que, se havia expectativa brasileira na natação, era para o que César Cielo poderia fazer, após o desempenho esplendoroso em Pequim-2008. E a Record flagrou bem a frustração com o (e do) nadador paulista em relação ao desempenho. Nos 100m do nado livre, Maurício Torres narrou o sexto lugar de Cielo. Mas a esperança forte ia para os 50m livres, justificada pelo ouro que “Cesão” ganhara havia quatro anos. No dia 3 de agosto de 2012, foi a vez de Lucas Pereira ser o narrador da Record no Centro Aquático. Ao lado de Fernando Scherer, Lucas deu a voz ao bronze de Cielo, com o francês Florent Manaudou ganhando o ouro.



(Transmissão da TV Record para a final dos 50m livres na natação masculina, nos Jogos Olímpicos de 2012, com a narração de Lucas Pereira e os comentários de Fernando Scherer)

Por mais que o bronze fosse um resultado elogiável, Cielo não se contentava: queria o bicampeonato olímpico nos 50m. E reconheceu que amargava a derrota, emocionado, a Adriana Araújo, que deixava seu posto habitual no Jornal da Record, atuando como repórter à beira da piscina no Centro Aquático. Uma entrevista tocante, até.



No judô, a Record se valia do bom desempenho brasileiro para atraí-los a seus programas. É verdade que o esquema para transmissões do que ocorresse nos tatames era mais modesto: em geral, os narradores ficavam no IBC, junto a Rogério Sampaio. E se o bronze de Rafael Silva (mais de 100kg) teve transmissão na Record, com a voz de Rafael Ribeiro, Felipe Kitadai teve o seu bronze (até 60kg) restrito à Record News, com a narração de Reinaldo Gottino. Mas a compensação veio com Mayra Aguiar, outra medalhista (bronze até 78kg), que teve a conquista narrada por Maurício Torres. A judoca gaúcha já falou na zona mista do ginásio; depois, foi à redação da Record no IBC, falando a Mylena Ciribelli para o R7; e na frente das câmeras, enfim, participou do Plantão Olímpico, também com Mylena, vendo em primeira mão como vencera a holandesa Marhinde Verkerk para garantir o bronze, naquele 2 de agosto de 2012.

Houve ainda outros momentos elogiáveis na cobertura da Record, em outros esportes. A coincidência na montagem das escalas de transmissão fez com que a dupla da emissora-mãe presente na cabine da North Greenwich Arena fosse a mais adequada imaginável para o histórico ouro de Arthur Zanetti nas argolas, na ginástica artística. Afinal, era mais uma medalha olímpica que vinha com a voz de Álvaro José na narração. E nos comentários, uma personagem importante naquela história que tinha um de seus auges naquele 6 de agosto de 2012: Luisa Parente.



(Apresentação de Arthur Zanetti nas argolas e confirmação posterior da medalha de ouro do brasileiro, na ginástica artística, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 6 de agosto de 2012, na transmissão da TV Record, com a narração de Álvaro José e os comentários de Luisa Parente)


Entretanto, se houve uma modalidade olímpica na qual a Record fez um trabalho quase perfeito, foi no vôlei – o de quadra. Experiência nele não faltava a Maurício Torres, o narrador do canal para as partidas do Brasil tanto no torneio masculino quanto no feminino, ambas no Centro de Exibições de Earls Court. Afinal de contas, desde os tempos de TV Globo o locutor carioca estava acostumado ao vôlei: foram dele, por exemplo, as narrações para as vitórias da seleção masculina nas Ligas Mundiais de Vôlei, em 2001 e 2003. De quebra, Maurício teria a seu lado comentaristas de experiência inquestionável quando os assuntos eram vôlei e Jogos Olímpicos.

No torneio feminino, Virna Dias trazia como comentarista sua vivência de três Jogos – e neles, duas medalhas de bronze. E a dupla Maurício Torres-Virna acompanhou a par e passo a epopeia que rendeu o segundo ouro olímpico brasileiro no vôlei de mulheres. A Record encampava o destaque, exibindo as partidas no Earls Court, com câmera exclusiva e tudo a que se tinha direito. Torres narrou e Virna comentou a difícil vitória contra a Turquia na estreia; a inesperada derrota para a Coreia do Sul, que deixou a equipe a um passo da eliminação; as vitórias salvadoras contra China e Sérvia, que afinal levaram Jaqueline, Dani Lins, Sheilla, Paula Pequeno, Fabi e cia. às quartas de final.

E aí, a Record merece um parágrafo à parte. Porque a transmissão do histórico 3 sets a 2 na Rússia (incluindo a salvação de seis match points russos, no tie break), em 7 de agosto, foi, talvez, o ponto alto da cobertura olímpica da emissora paulista em Londres. Maurício Torres soltou a emoção no ponto decisivo que levou o Brasil às semifinais, e Virna conteve o choro com muita dificuldade no comentário imediato, após o triunfo que impulsionou o time comandado por José Roberto Guimarães para o bi olímpico.



(Momentos imediatos após Brasil 3 sets a 2 na Rússia, nas quartas de final do torneio olímpico de vôlei feminino, nos Jogos de Londres, em 7 de agosto de 2012, na transmissão da TV Record, com a narração de Maurício Torres e os comentários de Virna)

Daí por diante, a seleção feminina de vôlei embalou, com os imponentes 3 a 0 no Japão, nas semifinais. E no dia 11 de agosto, veio o ouro com que as jogadoras sonhavam, o ouro que fazia de José Roberto Guimarães um técnico tricampeão olímpico, a apoteose que a Record queria para sua cobertura, graças aos 3 sets a 1 nos Estados Unidos.




(O ponto que deu à seleção do Brasil a medalha de ouro no torneio olímpico de vôlei feminino, na final contra os Estados Unidos, nos Jogos de Londres, em 11 de agosto de 2012, na transmissão da TV Record, com a narração de Maurício Torres e os comentários de Virna)

Também era a quimera da Record (e esportivamente, uma grande possibilidade) ver o vôlei masculino brasileiro “unificar” os ouros. Por sinal, um nome presente nas duas medalhas douradas que os homens tiveram na modalidade era o comentarista, ao lado de Maurício Torres: um “xará” ilustre, Maurício Lima. Coube à dupla formada pelo locutor carioca e o ex-levantador paulista acompanhar nas transmissões da Record o time de Bernardinho, que teve campanha muito menos tortuosa do que as mulheres no mesmo Earls Court. Nas quartas de final, contra a Argentina, 3 sets a 0; nas semifinais, outros categóricos 3 sets a 0 dos homens voleibolistas, contra a Itália.

Veio a final, contra a Rússia, no 12 de agosto de 2012 que marcava o encerramento dos Jogos Olímpicos. O ouro estava perto, com o Brasil chegando perto dos 3 sets a 1 contra a Rússia. Mas aí, Dmitri Muserskiy galvanizou os russos, que empataram em 2 sets a 2 e foram para o ouro no tie-break. E a dupla de Maurícios, o Torres e o Lima, mostraram decepção na transmissão da Record.




(Melhores momentos de Rússia 3 sets a 2 no Brasil, decisão do torneio de vôlei masculino, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 12 de agosto de 2012, na transmissão da TV Record, com a narração de Maurício Torres e os comentários de Maurício Lima)

As decepções da Record não viriam somente com a derrota no vôlei masculino. Às vezes, não viriam nem das disputas, mas do próprio canal. A “lupa” com que se analisava cada erro da exibidora exclusiva dos Jogos em tevê aberta era impiedosa. E ela teve em que focar. Por exemplo, alguns problemas de sinal durante as partidas de vôlei. A preferência em transmitir mais eventos do IBC de Londres, ao invés da presença das equipes nos locais de disputa. A excessiva timidez na transmissão dos torneios de basquete, em geral deslocados para a Record News. Nem tanto no torneio masculino, em que a dupla Lucas Pereira-Oscar Schmidt transmitiu para a matriz o 82 a 77 da Argentina no Brasil, nas quartas de final. Mas no feminino, a má campanha brasileira ficou restrita à Record News (aqui, a derrota para a Austrália, futura ganhadora do bronze, ainda na primeira fase), com Marco Túlio Reis narrando e Paula comentando. De mais a mais, o ouro dos Estados Unidos sobre a Espanha no bola-ao-cesto (107 a 100) também ficou para a Record News.

Outros esportes também foram mostrados de maneira lacônica demais pela matriz, o que despertou mais críticas. Um deles, com presença marcante do Brasil: o futebol feminino. Como já dito, ele acabou ficando mais restrito à Record News – somente as partidas brasileiras eram exibidas na emissora-mãe. E mesmo assim, com interrupções: em 3 de agosto de 2012, a transmissão do 2 a 0 do Japão, que eliminou as brasileiras, com a narração de Eduardo Vaz e os comentários de Renê Simões e José Eduardo Savóia, foi cortada para a exibição da final dos 50m livres na natação masculina.

Pior foi com o atletismo: raras foram as vezes em que se viam as competições no Estádio Olímpico de Londres. As eliminatórias ficavam na Record News, com narradores variados no local, tendo sempre Róbson Caetano. Na hora das finais mais atraentes, então, assumia a Record. Mas sem tanta audiência. Assim, Lucas Pereira narrou em 9 de agosto o segundo ouro do jamaicano Usain Bolt nos 200m masculinos. E a final dos 100m masculinos interrompeu o Tudo é Possível, em 5 de agosto, para Maurício Torres poder narrar naquele domingo mais uma apoteose de Usain Bolt, outra vez bicampeão olímpico.




(Transmissão da TV Record para a final dos 100m no atletismo masculino, nos Jogos Olimpícos de 2012, com a narração de Maurício Torres e os comentários de Robson Caetano)

No futebol masculino, a então vigente busca do Brasil pelo ouro olímpico era um dos chamarizes de audiência da Record - tanto que Paulo Henrique Ganso e Neymar apareceram nas vinhetas do canal pré-Jogos. O trio das transmissões das partidas era experiente: Lucas Pereira narrando, ao lado de Romário, com Roberto Thomé como repórter à beira do campo. E a Record deu maciça preferência às exibições da Seleção Brasileira, ao vivo. Na fase de grupos, além da estreia contra o Egito citada no começo deste texto, o 3 a 2 em Belarus e o 3 a 0 na Nova Zelândia. Nas quartas de final, o árduo 3 a 2 em Honduras. O 3 a 0 contra a Coreia do Sul que levou o time com Thiago Silva, Marcelo, Oscar, Neymar, Ganso, Pato e Lucas Moura, todos treinados por Mano Menezes, à decisão do ouro.

A eventual vitória brasileira no futebol, naquele 11 de agosto de 2012, poderia ter sido mais um momento de auge na cobertura olímpica da Record. Horas antes da final em Wembley, numa cabine no estádio londrino, Romário era definitivo em seu comentário, ao lado de Ana Paula Padrão, âncora da transmissão: “Dessa vez, tem que ir”. Mas o gol precoce de Oribe Peralta perturbou a Seleção Brasileira. O México se impôs, fez 2 a 0 e nem a pressão final que levou ao gol de honra de Hulk evitou mais uma decepção brasileira no futebol masculino dentro dos Jogos Olímpicos. Só restou a Romário um comentário irado após o jogo, enquanto os mexicanos festejavam o inédito ouro: “Espero que Mano [Menezes] nunca mais vista a camisa da Seleção [sic], porque ele é fraco. A culpa foi dele”. Roberto Thomé falou rapidamente com Marcelo e Neymar, na zona mista em Wembley. E as transmissões do torneio olímpico acabaram sem cativar tanto a audiência.




(Melhores momentos de México 2x1 Brasil, decisão do torneio olímpico de futebol masculino, nos Jogos de Londres, na transmissão da TV Record, com a narração de Lucas Pereira, os comentários de Romário e as reportagens de Roberto Thomé)

Ao fim e ao cabo dos dias olímpicos na capital da Inglaterra, a Record terminou aquela experiência exclusiva com sensações mistas. Sim, em algumas vezes conseguiu o topo da audiência: como no dia 11 de agosto, com as finais do futebol masculino e do vôlei feminino (ambas tendo o Brasil), mais as medalhas dos irmãos Falcão, no boxe (o bronze de Yamaguchi, no meio-pesado, e a prata de Esquiva, no peso médio – esta, narrada por Octávio Muniz). Segundo o Ibope, naquele dia a média do canal foi de 10 pontos, seguida por 7 da TV Globo e 4 do SBT.

Mas se o objetivo era ter a liderança de audiência de modo perene durante as competições – leia-se superar a Globo -, nisso a Record fracassou: só ficou à frente do canal carioca em cinco vezes, durante os Jogos. Mesmo com o crescimento de audiência de 35% em São Paulo, maior mercado publicitário do país, às vezes a exibidora exclusiva de Londres-2012 em tevê aberta sequer superou a média de seu concorrente mais direto, o SBT. E como a jornalista Cristina Padiglione, especializada em tevê, escreveu n’O Estado de S. Paulo de 12 de agosto, a Record tivera a chance de virar “telhado de vidro”. O telhado, às vezes, saiu avariado, como se notou.

Entre defesas apaixonadas da Record, muitas vezes vindas de opositores do habitual duopólio olímpico na televisão brasileira (Globo e Bandeirantes), e críticas exageradas àquela experiência da Record na cobertura de um grande evento esportivo, o fato é que foi uma cobertura... normal. Com acertos e erros, como outras. Em outro cenário, talvez fosse até elogiável. Mas ser “normal” era pouco, diante da expectativa e da pressão (auto) impostas pela emissora.



(Apresentação do Brasil como país da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, dentro da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2012, na transmissão da TV Record, com a apresentação de Maurício Torres e Adriana Araújo, e a participação de Oscar Schmidt)

A cerimônia de encerramento dos Jogos, no supracitado 12 de agosto de 2012, foi também um encerramento de um sonho. Porque a relativa decepção que tivera ao tentar usar o evento como uma catapulta para superar enfim a TV Globo fizera com que a TV Record deixasse de lado o sonho de ser uma potência na transmissão de esportes. Ela voltou aos Jogos em 2016, mas muito menos luxuosa. Por opção dela. E por golpes do destino.




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