Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira: Atlanta 1996, SBT - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira: Atlanta 1996, SBT

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Narração: Silvio Luiz, Osmar de Oliveira e Téo José

Comentários: Juarez Soares (futebol masculino) e Orlando Duarte (outros esportes)

Reportagens: Luiz Ceará, Antônio Petrin, Hermano Henning, Luiz Carlos Azenha, Tonico Ferreira e Andrea Boni

Apresentação: Osmar de Oliveira e Roberto Cabrini

Participação: Vera Mossa (comentários no vôlei feminino)



A trajetória do SBT nas coberturas olímpicas se iniciara com a incipiência dos trabalhos em Los Angeles-1984 (no pool com a TV Record) e Seul-1988. Dera um passo mais ousado em Barcelona-1992, com a presença de quase 20 enviados do canal paulistano ao IBC (International Broadcasting Center, o Centro Internacional de Transmissões) em Barcelona – entre os quais, o narrador e diretor de esportes Osmar de Oliveira e os repórteres Hermano Henning e Luiz Ceará. No entanto, estava claro para quem conhecesse Silvio Santos: a emissora só se preocupava em transmitir os Jogos Olímpicos para cumprir a exigência da OTI que lhe possibilitaria comprar também os direitos de transmissão das Copas do Mundo de futebol. Pois foi justamente a transmissão da Copa seguinte aos Jogos Olímpicos de 1992 que deu início à fase de mais envolvimento do SBT com o esporte – e aí entraria a cobertura de Atlanta-1996.


O Mundial de futebol de 1994, nos Estados Unidos, deu mais razões do que a esportiva para o canal comemorar. O trio formado por Luiz Alfredo (narrador), Orlando Duarte e Telê Santana (comentaristas) cativara nas transmissões dos jogos da Seleção Brasileira, aliados às interações esporádicas com o “Amarelinho”. Além do tetracampeonato verde-amarelo (celebrado como se devia após Roberto Baggio perder sua cobrança, na decisão por pênaltis da final), o SBT também se alegrou com os bons índices de audiência.


Nada que desafiasse Globo e Bandeirantes, com mais tradição esportiva – e nem era a intenção do canal, que já tirava sarro de si mesmo nas propagandas de sua cobertura para a Copa (“Veja o Brasil ser campeão no vice” – o próprio SBT, segundo lugar nas medições de audiência...). Mas já servia para Silvio Santos ver que o esporte poderia lhe atrair audiência, anunciantes, espectadores. E isso fez com que SS pedisse a Osmar de Oliveira (1943-2014), ainda diretor de esportes do canal, que buscasse mais eventos para a grade de programação. Foi o que “Dr. Osmar” fez.


No automobilismo, trouxe para o SBT a Fórmula Indy, a partir de 1995 – e com ela, dois nomes que já transmitiam a Indy na TV Manchete (Téo José como narrador e Luiz Carlos Azenha como repórter, ambos se somando ao comentarista Dedê Gomez). Mais nomes incrementaram a equipe de esportes da emissora: Juarez Soares (1941-2019) deixou a TV Bandeirantes no fim de 1994, rompendo dez anos de história no canal – e 25 anos de parceria profissional com o amigo pessoal Luciano do Valle – para ser o principal comentarista de futebol do SBT, ao lado de Orlando Duarte.


Por falar em futebol, a emissora decidiu apostar num torneio que ainda não emplacara, televisivamente falando: a Copa do Brasil, cujos direitos foram comprados com exclusividade. Foi mais um tiro certo do SBT, premiado já em 1995: o jogo de volta da decisão da Copa do Brasil daquele ano, com o Corinthians superando o Grêmio em pleno Estádio Olímpico (1 a 0), foi simplesmente a maior audiência da história do canal, até então (picos de 52 pontos em São Paulo). Aí, o interesse súbito de Silvio Santos por eventos esportivos, que já andava grande, virou a “menina-dos-olhos” da vez no SBT.


O departamento dirigido por Osmar de Oliveira ganhava respaldo para comprar eventos e mais eventos naquele 1995, como a Copa Conmebol (futebol) e a luta entre Evander Holyfield e Riddick Bowe, para definir o campeão mundial dos pesos-pesados (boxe). Se não houvesse torneios a transmitir, o SBT ajudava a criar – assim surgiu, com assessoria da empresa de marketing esportivo Sport Promotion, a Copa dos Campeões Mundiais, torneio amistoso entre clubes brasileiros que já houvessem conquistado o Mundial Interclubes no futebol. De quebra, no fim de noite, aos domingos, o SBT Esportes já havia ganho até um lado de mesa-redonda, além de trazer o noticiário esportivo.


Com esse clima receptivo, foi mais do que esperado que a emissora dos Abravanel comprasse de bom grado os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de 1996, junto à OTI. Além de garantir a exibição do que se disputaria em Atlanta, chegavam mais nomes de ampla experiência para a equipe esportiva. Após marcante passagem pela TV Globo, Roberto Cabrini voltou ao SBT ainda em 1995 – mesmo contratado para ser repórter geral e correspondente internacional, Cabrini era nome certo na cobertura dos Jogos Olímpicos, pela ampla experiência com esportes (até como diretor da área no próprio SBT, entre 1989 e 1991). Outra contratação de impacto veio no início de 1996: se Luiz Alfredo deixara o canal para rumar à TV Record, ninguém menos do que Silvio Luiz aterrissava no SBT, vindo da TV Bandeirantes para ser a voz do esporte no canal.


E enfim, em 1996 o SBT fez um investimento considerável na cobertura de uma edição de Jogos Olímpicos. Os números cresciam em relação às transmissões das três edições anteriores: gasto total de R$ 4 milhões, cinco toneladas de equipamentos comprados para uso em Atlanta (ao preço de US$ 2 mi), 65 enviados à cidade-sede olímpica (mais de três vezes o número de enviados da emissora a Barcelona), acordo operacional com a nascente ESPN Brasil para uso de um canal duplo de satélite, possibilitando a exibição de imagens de Atlanta a qualquer hora do dia ou da noite. Tudo isso coordenado por Osmar de Oliveira e pelo diretor de eventos do SBT, Luciano Callegari Júnior.


Não que o SBT fosse deixar de lado seus clássicos da programação. Longe disso, como reconhecia Luciano Callegari Jr. à Folha de S. Paulo, em 7 de julho de 1996: “Os esportes coletivos serão nossa base de transmissão. Temos uma programação forte e estabilizada, não dá para descaracterizar”. Ou seja, a prioridade seguiria para o Domingo Legal de Gugu Liberato, para o Programa Silvio Santos, para o Bom Dia e Cia., infantil que popularizara a apresentadora Eliana. Mas as disputas olímpicas em Atlanta teriam mais espaço: seriam cinco horas diárias com a exibição das competições. Esportes como atletismo, natação e judô teriam suas contendas decisivas exibidas em flashes – era o Flash Olímpico do SBT, que entrava no meio da programação normal, sempre que necessário.


No 19 de julho de 1996 da cerimônia de abertura no Centennial Olympic Stadium de Atlanta, Roberto Cabrini abriu os trabalhos com a apresentação da “pré-festa”, do estúdio do SBT no centro de transmissões, enquanto Silvio Luiz e Osmar de Oliveira foram os locutores do que se viu na festa, com os comentários de Orlando Duarte. Além do roteiro entregue pelo Comitê Organizador, ambos pesquisaram material sobre todos os países, para se valerem dele durante a transmissão. Para dinamizar um pouco mais o ritmo, a dupla combinou: Silvio narraria três delegações, Osmar daria voz à entrada de outras três no estádio, e assim sucessivamente.


Mesmo com essa pesquisa alentada, a longa transmissão teve mais um exemplo da eterna irreverência de Silvio Luiz. Mais metódico no seu ritmo de narração, um dos coordenadores da cobertura, Osmar pediu a Silvio que se contivesse no uso de bordões e brincadeiras durante a cerimônia de abertura, que fosse mais formal. E assim foi. Até a entrada da delegação de Bermudas no Centennial Olympic Stadium. Osmar de Oliveira demorou para encontrar a ficha que montara com informações sobre a ilha de possessão britânica na América Central. Claro, Silvio Luiz aproveitou e tascou: “Foi nesse país que inventaram aquela calça cortada um pouco acima dos joelhos. Não é isso?” Osmar quis se irritar, mas ele mesmo se rendeu à graça de Silvio, riu rapidamente e desconversou: “Acho que não...”.


Encerrada a cerimônia de abertura, cada narrador seguiu um rumo, com preferências às participações brasileiras nos esportes coletivos. Silvio Luiz foi praticamente privativo do torneio olímpico de futebol masculino: ao lado de Juarez Soares, reeditou no SBT a dupla de narrador e comentarista que marcara época na TV Bandeirantes, acompanhando todo o caminho da Seleção Brasileira, iniciado por um vexame (o 1 a 0 para o Japão, na abertura) e encerrado, de certa forma, por dois (a virada da Nigéria na semifinal – 3 a 1 contra para 4 a 3 a favor, no Sanford Stadium de Athens, cidade vizinha, em 31 de julho de 1996 – e a entrega antecipada da medalha de bronze aos brasileiros, após o 5 a 0 em Portugal, fugindo do pódio olímpico).


Inclusive, as transmissões do SBT para os jogos de futebol da Seleção Brasileira masculina “ajudaram” algumas rádios em Atlanta. Era o que informava uma matéria na revista Veja, de 31 de julho de 1996: sem dinheiro para pagarem a presença nas cabines dos estádios, algumas rádios montavam suas transmissões no saguão do hotel Biltmore, em Atlanta, e os locutores irradiavam os jogos tendo as imagens do SBT à frente, num telão, simulando estarem no estádio. Claro, Silvio Luiz aproveitou a oportunidade para ser sarcástico. Durante o Brasil 3x1 Hungria da fase de grupos, o narrador paulistano mencionou, como quem não queria nada: “Meu abraço aos companheiros de imprensa que estão assistindo ao jogo no hotel Biltmore, com imagem e som do SBT”.


(Os gols de Nigéria 4x3 Brasil, semifinal do torneio olímpico de futebol masculino, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, na transmissão do SBT, com a narração de Silvio Luiz e os comentários de Juarez Soares)



Outro símbolo do investimento mais profundo que o SBT destinara à cobertura olímpica em Atlanta-1996 foi a maior presença de repórteres nos Estados Unidos. Luiz Ceará seguia a seleção brasileira masculina de futebol, e Antônio Petrin corria Atlanta (e imediações) afora em busca dos competidores dos demais esportes. Claro, Ceará e Petrin tinham ajuda. Egresso do jornalismo geral mas já experimentado no esporte pelas coberturas da Fórmula Indy, Luiz Carlos Azenha também ouvia os protagonistas das disputas – assim como outro repórter, Arnaldo Duran.



Outro correspondente internacional do SBT, ao qual retornara no fim de 1995, Hermano Henning intercalava reportagens esportivas e gerais sobre o que ocorria em Atlanta – com infeliz destaque à explosão de uma bomba no Centennial Park, em 27 de julho de 1996. Acompanhando Henning na cobertura do ambiente na sede dos Jogos, estavam outros dois repórteres: Andrea Boni e Tonico Ferreira (para o SBT, “Antônio Carlos Ferreira”). O trabalho dos três – e dos repórteres mais ligados aos fatos esportivos – era apresentado principalmente no TJ Brasil, principal noticiário da emissora então, ainda apresentado por Boris Casoy.




(Reportagens de Andrea Boni e Tonico Ferreira sobre o ambiente em Atlanta, durante os Jogos Olímpicos de 1996, para o “TJ Brasil” do SBT, apresentado por Boris Casoy)


Envolvido principalmente com as provas da Fórmula Indy (ocorridas nos Estados Unidos), Téo José entrou na cobertura, como um narrador esporádico. Finalmente, se fosse necessário, o Boletim das Olimpíadas entraria no ar durante a programação, informando fatos importantes nas disputas em Atlanta. E arrematando a cobertura diária, o Jornal Olímpico entrava no ar, no começo da madrugada brasileira, com Osmar de Oliveira apresentando o resumo do dia nos Jogos.


Aliás, junto ao comentarista Orlando Duarte, Osmar formava a dupla de transmissão que era o “pau para toda obra” dentro da cobertura do SBT. Coube a Osmar e Orlando fazerem as transmissões de quase todas as partidas das equipes do Brasil nos torneios olímpicos de esportes coletivos – e em muitos dos flashes para a exibição das finais de atletismo e natação. Pelo menos, sobrava experiência a ambos. Orlando Duarte, então, podia ser considerado um dos únicos comentaristas poliesportivos da televisão brasileira: com várias edições dos Jogos no currículo, o experiente periodista paulista acabara de lançar um livro com a história de várias modalidades (“Todos os Esportes do Mundo”, São Paulo, Makron Books, 1996).


Assim, várias partidas tiveram a transmissão no SBT com as vozes de Oliveira e Duarte. O 3 sets a 0 da seleção feminina de vôlei na Coreia do Sul, nas quartas de final? Lá estavam ambos no Omni Coliseum pela emissora de Silvio Santos. O 98 a 83 das brasileiras, futuras medalhistas de prata, na China, na primeira fase do torneio olímpico de basquete feminino? Pois bem, a narração era de Osmar e os comentários de Orlando.


Finalmente, o locutor e o comentarista paulistas figuraram pelo canal na transmissão do marcante Cuba 3 sets a 2 no Brasil, em 1º de agosto, na semifinal do torneio olímpico de vôlei feminino (contando ainda com a participação de Vera Mossa, também nos comentários). Mais: Osmar de Oliveira e Orlando Duarte expressaram muita irritação, com a provocadora comemoração das vencedoras cubanas que teve a resposta das brasileiras, originando conhecidíssima briga. O “cretinas” com que Orlando ofendeu Mireya Luis, Regla Bell e colegas, logo após o ponto decisivo, deixou claro o lado comprado na briga.





(Na transmissão do SBT, o ponto final e briga entre as jogadoras após Cuba 3 sets a 2 no Brasil, semifinal do torneio de vôlei feminino, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1º de agosto de 1996. Narração de Osmar de Oliveira e comentários de Orlando Duarte)


Assim, o SBT terminava a primeira cobertura de Jogos Olímpicos em que dera substancial espaço às disputas na sua programação. Tudo dentro do “namoro” firme que Silvio Santos tinha com o esporte, sustentado pelos altos índices de audiência. SS pretendia transformar o namoro em casamento ao fazer alta oferta pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol, para o triênio 1997/2000. Mas o Clube dos 13 recusou a oferta, seguiu com os parceiros Globo e Bandeirantes. E Silvio Santos “acabou o namoro” com o esporte.


O SBT até seguiu exibindo a Fórmula Indy (rebatizada “Fórmula Mundial” após o racha de entidades de automobilismo nos Estados Unidos), mostrou a Copa de 1998, a Copa do Brasil, a nascente Copa Mercosul. Mas o trauma com aquela recusa foi grande.


E por muito tempo a emissora quis ouvir falar de outra cobertura esportiva de grande porte. Até a reação em 2020, aproveitando rompimentos da TV Globo e condições financeiras para reinvestir no futebol, com os direitos da Copa Libertadores da América, da Liga dos Campeões da Europa e da Copa América. Virá mais em outras modalidades?

Um comentário:

  1. Esqueceram do Nivaldo Prieto que também narrou as Olimpíadas pelo SBT em 1996, corrijam por favor.

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