Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Pequim 2008, Globo - Surto Olímpico

Anúncio

Anúncio
Se inscreva em nosso canal!

Pesquisar:

Últimas Notícias

Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira - Pequim 2008, Globo

Compartilhe






(Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para os Jogos Olímpicos de 2008. Postado no YouTube por Thiago Rocha)




Narração: Galvão Bueno, Cléber Machado, Luís Roberto e Rogério Correa

Comentários: Falcão e Arnaldo Cezar Coelho (futebol masculino), Hortência (basquete feminino), Oscar Schmidt (basquete masculino), Gustavo Borges (natação), Tande (vôlei masculino/vôlei feminino), Leila (vôlei de praia), Rogério Sampaio (judô), Andréa João (ginástica artística), Édson Luciano (atletismo) e Sidney dal Rovere (boxe)

Reportagens: Renato Ribeiro, Pedro Bassan, Marcos Uchôa, Régis Rösing, Mauro Naves, Eric Faria, Carlos Gil, Tadeu Schmidt, Glenda Kozlowski, Abel Neto, Eric Faria, Bruno Laurence, Ernesto Paglia, Cesar Tralli e Pedro Bial

Apresentação: Léo Batista, Mylena Ciribelli, Luís Ernesto Lacombe, Rogério Correa e Cristiane Dias


Por um lado, a Globo chegava para Pequim afetada: desde 2007 já se sabia que ela ficaria ausente de Londres-2012, cujos direitos eram de posse da Record (que já antecipava a transmissão exclusiva, em meio à guerra pela audiência com o canal carioca). Por outro lado, a grande derrota da história do canal carioca na transmissão de eventos esportivos só deu a ele mais gana para levar estrutura destacada à China. E isso já ficou claro na transmissão do Pan do Rio, em 2007. Tanto pela transmissão de eventos e modalidades incomuns na Globo (como esquecer a narração de Galvão Bueno para o consagrador ouro da Seleção Brasileira no futebol feminino, com os 5 a 0 no Equador, num Maracanã lotado?), quanto pela imposição habitual da emissora: vários repórteres, comentaristas de experiência no esporte (daqui a pouco eles serão citados), a maior parte da audiência abocanhada... o que pudesse voltar disso em Pequim, voltaria.


E voltaria com uma preocupação além do esporte, como o diretor de esportes Luiz Fernando Lima antecipava ao site “Máquina do Esporte”, em matéria no dia da abertura dos Jogos: “Desde o início, a TV Globo percebeu que a parte não-esportiva tende a ser tão importante quanto a esportiva, devido à importância da China - país mais populoso do mundo, que passa por tantas transformações. Esse será nosso recheio”. Exatamente por essa vontade de ampliar a abordagem das Olimpíadas além do esporte, Pedro Bassan partiria para a China já em 2007: o repórter paulista mostraria as mudanças por que Pequim passaria, na reta final de preparação para os Jogos. Marcos Uchôa também ajudaria nos trabalhos prévios – o carioca faria suas reportagens já focado nos gastos vultosos que o governo chinês fazia para mostrar o país ao mundo (com o “Cubo D’Água”, o “Ninho do Pássaro” etc.).


Além de Bassan e Uchôa, César Tralli também iria para a China. E já durante as disputas olímpicas, iria mais fundo nos temas das reportagens pré-olímpicas para Globo Esporte, Esporte Espetacular e Jornal Nacional: mostraria como a China tentaria aliar a pujança com que se mostraria ao mundo nos Jogos à limitação que faria ao trabalho dos jornalistas. Falando ao Memória Globo, programa de história institucional do grupo de mídia dos Marinho, Tralli reconheceu: “Foi um desafio, pela dificuldade da cobertura. Realmente, era um controle absurdo sobre tudo que você fazia. Você andava um espaço, tinha um guarda do seu lado. Você virava a câmera para o lado, tinha alguém perguntando o que você estava fazendo. Tudo ‘não pode’”.


O que não quer dizer que a Globo se acanharia: seriam 120 enviados do canal para os trabalhos em Pequim, mais 70 pessoas, contratadas na capital chinesa para questões logísticas. Todos liderados por Luiz Fernando Lima e Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo e Esportes, no amplo espaço de 520 m² que a emissora teria à disposição para seus estúdios na China, que sempre teriam o(s) medalhista(s) brasileiro(s) da vez, para ser(em) entrevistado(s) pelo apresentador ou repórter global que lá estivesse. Era outra prova da eterna preferência global por reportar o que os brasileiros fizessem em Pequim, algo escancarado até no slogan daquela cobertura: “Globo: o nosso esporte é torcer pelo Brasil”.


Além dos enviados, 12 pessoas que ficariam nos estúdios no Rio de Janeiro, sempre a postos para participarem das transmissões e coberturas, num estúdio que trazia mais novidades: por exemplo, um telão de 1,5m por 1,3m, sensível ao toque, no qual o apresentador da hora poderia mostrar o quadro de medalhas, algum link ao vivo etc. Além do mais, seria naquelas Olimpíadas que a Globo iniciaria transmissões esportivas em alta definição: pelo menos nos principais eventos olímpicos na China, viriam algumas imagens exclusivas em HD. De quebra, a emissora poderia ostentar um detalhe que nenhum outro concorrente possuía: nos primeiros jogos do vôlei de praia, sempre que possível, Galvão Bueno trombeteava que a Globo auxiliava o COI na geração mundial de imagens da modalidade, para todos os países que assistiam aos Jogos Olímpicos.


Com mais uma edição olímpica tendo o grosso das disputas ocorrendo na madrugada brasileira, a Globo pôde acionar a experiência de Sydney-2000 (mais) e Seul-1988 (menos). Era o esperado: no Jornal da Globo, havia a preparação prévia do que se veria durante todas as primeiras horas do dia. Com as 11 horas de fuso horário entre Brasil e China, o dia de competições terminava quando o Bom Dia Brasil começava – fazendo com que o noticiário matutino trouxesse várias reportagens, e até algumas provas ao vivo. Daí, o Globo Esporte servia como o habitual fecho do dia olímpico, mostrando o que ocorrera a quem não podia aguentar a madrugada. Reportagens mais alentadas sobre as provas iam para o Jornal Hoje e o Jornal Nacional, enquanto Esporte Espetacular e Fantástico arrematavam o que se vira na semana.


Entre os enviados, era facílimo supor quem seria o carro-chefe da Globo à frente das câmeras: claro, Galvão Bueno, que estaria em Pequim para narrar o que de mais importante houvesse, envolvendo brasileiros (principalmente) ou não – na natação, no futebol (masculino, de volta, e feminino), no vôlei. De novo, os locutores restantes ficariam de prontidão no Rio de Janeiro: Cléber Machado, Luís Roberto e Rogério Correa.


Entre os comentaristas da Globo enviados, vários nomes que haviam trabalhado na cobertura do canal para o Pan-2007 voltariam em Pequim, vestindo o uniforme verde-água com que o grupo se identificava à frente das câmeras. Após ser celebrado em Atenas-2004, Tande estava de volta, para comentar o vôlei, masculino ou feminino. No vôlei de praia, Leila também repetiria a dose dos Jogos anteriores, em sua segunda cobertura olímpica para a Globo. Após duas edições comentando o atletismo para o SporTV (2000 e 2004), Róbson Caetano seria “promovido” à emissora-mãe para as provas no “Ninho do Pássaro”. Mesmo com momentos polêmicos trabalhando no Pan-2007 (foi criticado por vaiar e provocar atletas de outros países, nas provas de ginástica artística), Oscar Schmidt seria comentarista olímpico pela primeira vez, sendo o nome global para comentar o basquete. Mas o nome de quem mais se aguardava naqueles trabalhos da Vênus Platinada era Gustavo Borges: já elogiado no Pan, o paulista de Ituverava traria a experiência de três medalhas olímpicas – e a marca de um dos grandes nadadores brasileiros de todos os tempos – para comentar as provas de natação pela Globo no Cubo D’Água.


Porém, se havia narradores nos estúdios da emissora dos Marinho, também havia comentaristas trabalhando do Brasil. Era o caso de Falcão e Arnaldo Cezar Coelho, que acompanhariam Galvão Bueno nas transmissões do futebol. E de Édson Luciano: um dos integrantes do revezamento 4x100m masculino, medalha de prata em Sydney-2000, o paranaense ficaria auxiliando Róbson Caetano nos comentários do atletismo. Assim como Hortência: a paulista de Potirendaba seria a voz a comentar a campanha (ruim) do Brasil no basquete feminino. Também dos estúdios no Jardim Botânico carioca participariam Andréa João, comentando a ginástica artística em Pequim para a Globo; o ex-pugilista Sidney dal Rovere, habitual comentarista global de boxe desde os anos 1990; e Rogério Sampaio, voltando a comentar o judô olímpico, opinando sobre as lutas no ginásio do Centro de Tecnologia e Ciência de Pequim.


Sobre repórteres? Bem, com a Seleção Brasileira voltando ao torneio olímpico de futebol masculino, era de se esperar o destaque habitual da Globo ao time comandado por Dunga (com Hernanes, Ronaldinho Gaúcho, Diego, Jô e Alexandre Pato): uma equipe de 20 pessoas foi mandada só para seguir o que o Brasil faria no ludopédio de homens, com Mauro Naves e Eric Faria como repórteres “privativos” do futebol. De resto, todo mundo se alternaria em Pequim. Os supracitados Marcos Uchoa e Pedro Bassan completariam os trabalhos pré-olímpicos com as reportagens para os noticiários, fossem quais fossem as modalidades. Assim também o fariam Régis Rösing, Abel Neto, Renato Ribeiro e Tadeu Schmidt – e Bruno Laurence: o filho do veterano Michel Laurence (1938-2014) fazia ali sua primeira cobertura grande. Conhecido de outras coberturas de vulto da Globo, Ernesto Paglia voltava às Olimpíadas em Pequim, acumulando o lado esportivo e o lado social – como também fazia outro citado, César Tralli.


Apresentadores? Bem, daquela vez, mais gente ficaria no Brasil do que iria a Pequim. Na cidade-sede, estariam apenas Pedro Bial, o nome olímpico da Globo para o Fantástico – e para algumas reportagens, como na ginástica artística, para o Globo Esporte de 13 de agosto -, e a dupla que era titular da edição carioca/nacional do Globo Esporte então: Tino Marcos e Glenda Kozlowski. Léo Batista, de tantas histórias pela Globo em Jogos Olímpicos, seria o apresentador do GE aos sábados, como habitual. De resto, três nomes se alternariam na parte nacional do GE, no Esporte Espetacular e no bloco olímpico do Bom Dia Brasil. Um dos três já era nome conhecido da Globo em coberturas esportivas: Mylena Ciribelli, em sua última edição de Jogos pelo canal. Outros dois estreavam em Olimpíadas: Cristiane Dias e Luiz Ernesto Lacombe – caberia a Lacombe a apresentação da Central Olímpica que ancorava as transmissões pela madrugada.


Tudo definido, era hora de começar. Em 3 de agosto, cinco dias antes da cerimônia de abertura, Galvão Bueno e Tadeu Schmidt apresentavam no Fantástico como seria a cobertura global em Pequim. No dia 7, Galvão Bueno, Falcão e Arnaldo Cezar Coelho fizeram a transmissão do sofrido 1 a 0 na Bélgica que marcou a estreia brasileira no futebol masculino. Finalmente, em 8 de agosto de 2008 (já que “8” é o número da perfeição para os chineses, nada mais lógico que marcar a abertura num 08.08.08), Galvão teve a seu lado Pedro Bassan, Marcos Uchôa e Sônia Bridi, então correspondente do Fantástico em Pequim, na ancoragem da cerimônia de abertura.


Durante ela, velhos expedientes da Globo. Como em Atlanta-1996 e Sydney-2000, câmeras exclusivas da Globo na Vila Olímpica, interagindo em teleconferência com atletas brasileiros. Como em Atenas-2004, Galvão falando ao celular com membros da delegação brasileira que estavam no gramado do Estádio Olímpico, como Giba, Marcelinho e o porta-bandeira Robert Scheidt. E uma das câmeras exclusivas globais no Ninho do Pássaro até flagrou o “papiro”, horas antes dele ser “enrolado” no ápice da cerimônia, virando a pira olímpica que ficaria acesa.


(A entrada da delegação do Brasil no desfile das nações, no Estádio Olímpico de Pequim, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2008, na transmissão da TV Globo, com a apresentação de Galvão Bueno, Marcos Uchoa e Pedro Bassan)


E é possível dizer: o primeiro grande momento da cobertura da Globo em 2008 viria da natação, cujas provas já começaram a partir de 9 de agosto. No Cubo D’Água, Galvão Bueno e Gustavo Borges eram a dupla preferencial na cabine para as transmissões do canal. Lá eles começaram acompanhando a consagração de Michael Phelps. Já vindo de seis ouros e duas pratas em Atenas, o nadador norte-americano desejava uma coisa tão resumida quanto hercúlea: conquistar oito ouros nas piscinas, batendo o recorde de Mark Spitz, o “Sete de Ouros”, em Munique-1972. Pois Phelps foi ganhando, ganhando... No ouro de Phelps como um dos integrantes da equipe dos Estados Unidos no revezamento 4x100m, Marcos Uchôa estava a postos para reportar a façanha no Jornal Nacional de 11 de agosto de 2008.


Mas seria uma das últimas provas vencidas pelo norte-americano que traria mais um dos momentos pelos quais Galvão é amado e odiado na mesma medida. Na final dos 100m do nado “borboleta” no Cubo D’Água, em 16 de agosto, Phelps disputou o ouro braçada a braçada com o sérvio Milorad Cavic, buscando o que seria o sétimo ouro, para igualar a marca de Spitz. Nos metros finais, Cavic parecia mais perto do ouro. Galvão e Borges se empolgavam, mas parecia que não daria para Phelps. O narrador global já começou: “Perdeu, perdeu, perdeu...” Foi surpreendido pelo esforço final de Phelps, que o fez alcançar o fim primeiro e lhe deu o ouro sonhado. Galvão não se fez de rogado: “Perdeu, perdeu, perdeu... Ganhou! Michael Phelps, na batida de mão!”. E depois, reconheceu o tamanho do feito que o norte-americano conseguia em Pequim: “Só um gênio para ganhar essa prova!”.




(O ouro de Michael Phelps na final dos 100m borboleta, na natação masculina, nos Jogos Olímpicos de 2008, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Gustavo Borges. Exibido em 2011, no programa “É Gol”, do SporTV, homenageando os 30 anos que Galvão Bueno fazia na Globo, e postado no YouTube por Yuri Cézar)


Mas o que era do Brasil nas piscinas do Cubo D’Água, estava guardado. Esperava-se muito de Thiago Pereira, bastante medalhado no Pan-2007, mas o carioca ficou sem conquistas olímpicas em Pequim. Restou se mirar em outra aposta brasileira: Cesar Cielo. Em 14 de agosto, quinta-feira, já no começo da madrugada olímpica, Cielo começou a se converter no grande nome brasileiro daqueles Jogos, ao conquistar o bronze nos 100m livres da natação masculina. Mas o paulista de Santa Bárbara D’Oeste já alertava: buscaria o ouro, mesmo, nos 50m livres, a sua prova de preferência.


Galvão e Gustavo Borges, obviamente, estavam na cabine da Globo no Cubo D’Água, no dia seguinte, 15 de agosto – também no começo da madrugada do dia 16, para os brasileiros. E veio a consagração: a dupla global exclamou com alegria ao ver Cielo cumprir o que prometia e queria, superando os grandes concorrentes para se tornar campeão olímpico dos 50m livres – e deixando as lágrimas correrem na entrevista a Marcos Uchôa, ainda na beira da piscina. Na euforia, Gustavo Borges até cometeu uma pequena gafe: “Vai ter Medalinho na tela, Galvão!”, se referindo ao personagem que saudava as medalhas brasileiras na cobertura da Bandeirantes para Atenas-2004... pelo menos, era compreensível, diante da emoção de Gustavo ao ver o primeiro ouro olímpico da história da natação brasileira. Emoção que Cielo exibiu no pódio – e foi até gozada pelo comentarista da Globo: “Ele está chorando desde os 100m livre”. Para completar a história, já com a medalha de ouro no peito, Cielo recebeu o abraço de Gustavo. E falou a ele e a Marcos Uchôa, no estúdio da Globo em Pequim, no Globo Esporte de 16 de agosto de 2008.




(A final dos 50m livres na natação masculina, nos Jogos Olímpicos de 2008, com o ouro para o brasileiro César Cielo. Transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Gustavo Borges)


A consagração seguinte foi transmitida pela Globo por volta das 7 horas da manhã brasileira de 22 de agosto de 2008, uma sexta-feira, enquanto as provas de atletismo eram disputadas na noite de Pequim, no Ninho do Pássaro. Era o dia de várias finais. Entre elas, a final do salto em distância feminino. Lá estava Maurren Maggi. A princípio, a Globo já entrava na reta final dos trabalhos daquele dia – tanto que os flashes do atletismo naquele dia já traziam as vozes de Cléber Machado, como narrador, e Édson Luciano, como comentarista, ambos nos estúdios do bairro carioca do Jardim Botânico. Mas Maurren foi avançando em suas tentativas. O início do Bom Dia Brasil foi sendo retardado, enquanto se ampliava o espaço da final do salto em distância na programação global. Veio o salto válido de 7,04m para a paulista. Sua grande concorrente, a russa Tatyana Lebedeva, teve o salto decisivo invalidado – e mesmo que valesse, havia sido de 7,03m, um centímetro abaixo da marca de Maurren. Era o primeiro ouro olímpico feminino do atletismo brasileiro. Mesmo nos estúdios, Cléber Machado celebrou a outra heroína olímpica do Brasil em Pequim. O espaço previsível foi dado – horas mais tarde, no Globo Esporte daquela sexta, Maurren passaria pelos estúdios da emissora no centro de imprensa, falando a Glenda Kozlowski sobre a medalha.


Mas o momento mais engraçado da cobertura da Globo à conquista da saltadora, coroando a recuperação após as aflições iniciadas desde o caso polêmico de doping em 2003, foi ainda na pista do Estádio Olímpico. Na zona mista do local, Renato Ribeiro, o repórter da Globo para aquela prova, não só falou com Maurren – ao vivo e para o Jornal Nacional - como trouxe o tradicional link global com imagens da família de Maurren, na cidade paulista de São Carlos. Na festa, junto aos avós, estava a filha de Maurren, Sophia. Eis que a pequena, vendo a beleza das medalhas, ignorou compreensivelmente a conquista que a mãe acabara de obter. Falando com ela, Sophia pediu: “Mamãe, eu quero a de prata!”. Desejo infantil que só trouxe mais risos àquela ocasião alegre por si só.




(Reportagem de Renato Ribeiro para o Jornal Nacional, da TV Globo, sobre o ouro de Maurren Maggi no salto em distância feminino, nos Jogos Olímpicos de 2008, no dia 22 de agosto)


Se Maurren Maggi conseguira sua redenção, a seleção brasileira de vôlei feminino ainda precisava da dela, após a decepção mastodôntica em Atenas. Àquela altura, dia 22, a equipe de José Roberto Guimarães (e Paula Pequeno, e Mari, e Thaísa, e Sheilla, e Fofão, e Jaqueline, e Fabi...) já superara o trauma das semifinais: já sabia que, no dia seguinte, disputaria o ouro sonhado, contra as norte-americanas. Novamente, a atenção da Globo ao vôlei era destacada – mas sem comentaristas femininas: o trio formado por Galvão Bueno, Tande e Bruno Laurence transmitiu os jogos de homens e mulheres para o canal, na cabine dentro do Ginásio da Capital. Lá ambos acompanharam a campanha cada vez mais irretocável das brasileiras – desde a fase de grupos, que incluiu categóricos 3 sets a 0 sobre as rivais russas, até as fases decisivas, com destaque para os 3 sets a 0 no Japão, à meia-noite de 19 de agosto no Brasil.


Enfim, chegou a hora da esperada final contra as norte-americanas, às 8h da manhã brasileira de 23 de agosto, penúltimo dia dos Jogos. Galvão e Tande lá estavam. Como era final, mais repórteres estavam destacados para os trabalhos: Abel Neto e Pedro Bassan fariam matérias para os noticiários da emissora. Lá, Galvão, Tande e Bruno Laurence transmitiram para a Globo outra atuação determinada e potente do Brasil. Os 3 sets a 1 trouxeram, enfim, o ouro sonhado para as mulheres do vôlei desde os anos 1990. No ponto final, visto abaixo, a emoção de Galvão Bueno também mostrou uma das primeiras exibições públicas de que sua voz já sofria os efeitos inevitáveis do tempo.


(O ponto decisivo que deu a medalha de ouro ao Brasil, contra os Estados Unidos, no torneio de vôlei feminino, dentro dos Jogos Olímpicos de 2008. Transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Tande)


Tudo bem: Galvão estava firme para recuperar alguma calma, no pós-jogo imediato, ao lado de Tande. E esteve firme até para pedir atenções especiais, por exemplo, ao link com a família de Mari, lembrando que a ponteira fora uma das mais criticadas, após a derrota em Atenas. E o ouro das mulheres foi trombeteado como a Globo gosta. Já no Globo Esporte, todo o grupo de campeãs olímpicas – mais José Roberto Guimarães – falou a Bruno Laurence, nos estúdios no centro de imprensa. O próprio Bruno seria o repórter da matéria sobre a final olímpica, exibida no Jornal Hoje daquele sábado. E Pedro Bassan reportou a medalha para o Jornal Nacional.




(Entrevista do repórter Bruno Laurence com a equipe brasileira de vôlei feminino, após a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2008, exibida no Globo Esporte, e a matéria de Pedro Bassan sobre a conquista, para o Jornal Nacional, em 22 de agosto de 2008. Postado no YouTube por HelNascimento)


Diante da conquista das mulheres, esperava-se que os homens ampliassem a comemoração pelo vôlei, no dia seguinte, com a decisão do ouro masculino praticamente encerrando a cobertura global em Pequim. Daquela vez, não deu muito certo: os Estados Unidos, que já haviam frustrado a equipe dos homens ao conquistarem a Liga Mundial em pleno Maracanãzinho no ano anterior, voltaram a sobrepujar o Brasil, virando a final para irem ao ouro com os 3 sets a 1. Novamente, Galvão Bueno e Tande estavam lá, com o típico discurso saudando os medalhistas de prata, mesmo com a derrota. E daquela vez, coube a Pedro Bassan ser o repórter da Globo a acompanhar toda a campanha. E também a fazer a “entrevista final” com todo o grupo, mais Bernardinho, exibida no Esporte Espetacular da manhã daquele domingo.


<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/vkxvgfDqbUc" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>


(Entrevista do repórter Pedro Bassan com o grupo do Brasil que fora medalha de prata no torneio de vôlei masculino, nos Jogos Olímpicos de 2008. Entrevista exibida no Esporte Espetacular de 24 de agosto de 2008, e postada no YouTube por HelNascimento)


Para os demais esportes, atenção periférica: só quando algum brasileiro se destacava – ou no caso de uma prova nobre, qualquer que fosse a modalidade -, a Globo abria espaço durante o evento ao vivo, com flashes (como se fez com o ouro de Usain Bolt nos 100m do atletismo, narrados por Galvão). A exibição preferencial vinha nos noticiários. Foi assim com as frustrações da ginástica, com Jade Barbosa (reportada por Pedro Bial no Globo Esporte de 13 de agosto) e Diego Hypólito. Foi assim com os primeiros dois ouros (inicialmente três...) de Usain Bolt no atletismo, relembrados por Marcos Uchôa no Fantástico da retrospectiva olímpica, no 24 de agosto do encerramento. Foi assim com as medalhas do judô – os bronzes de Ketleyn Quadros (peso leve, até 57kg) e Leandro Guilheiro (peso leve, até 73kg) foram reportados por Tino Marcos no Jornal Nacional de 11 de agosto. E com o bronze inesperado e comemorado de Natália Falavigna no peso-pesado (acima de 67kg) do taekwondo feminino, reportado por Ernesto Paglia no Globo Esporte de 23 de agosto.


Mas... e o futebol? Recebeu o destaque e o espaço habituais na cobertura olímpica da Globo em Pequim. Galvão Bueno, dos estádios, e a dupla Falcão/Arnaldo Cezar Coelho, dos estúdios, transmitiam as partidas da Seleção Brasileira, com Mauro Naves e Eric Faria como repórteres. Mas embora viessem as classificações, o estilo de jogo da equipe era criticado. Pouco a pouco, a Globo acabou dando às campanhas do vôlei tanto peso quanto as do futebol. E qualquer esperança de heroísmo vindo dos homens nos gramados acabou com os categóricos 3 a 0 da Argentina, que partia ali para o bicampeonato olímpico que ganharia. O Brasil trouxe mais um bronze do futebol masculino. Era mais uma medalha. Mas também era inegável que, aos poucos, a Globo passou a tratar aquele torneio olímpico como um entre tantos que envolviam a Seleção Brasileira do que algo que realmente importasse.




(Os melhores momentos de Argentina 3x0 Brasil, semifinal do torneio de futebol masculino, dentro dos Jogos Olímpicos de 2008, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Falcão e Arnaldo Cezar Coelho)


O destaque esperado do futebol quase veio, novamente, das mulheres. Daquela vez, com o vice na Copa de 2007 e o título pan-americano, já se sabia: era muito provável que Marta, Cristiane, Formiga etc. trariam uma medalha de Pequim. E a Globo deu um pouco mais de atenção do que dera em Atenas-2004. Nem tanta assim: se não mostrou somente a final, só entrou na campanha brasileira a partir das semifinais. Mesmo narrando “ao vivo do estúdio”, do centro de imprensa na cidade-sede, Galvão Bueno pôde dar a emoção que desejava, nos 4 a 1 pespegados na Alemanha que levaram a Seleção à segunda final olímpica de sua história, buscando a revanche contra os Estados Unidos.


Mas na final, as brasileiras insistiram e insistiram sem marcar, até o gol de Carli Lloyd que deu mais um ouro às norte-americanas, já na prorrogação. Ficou na memória o “meu Deus do céu, o que eu fiz de errado?” que Marta disse, com as câmeras a filmarem-na, após mais uma chance perdida. E Galvão Bueno sempre dirá: poucas vezes viu tanta injustiça no futebol como naquela derrota do Brasil para os Estados Unidos, na final de 21 de agosto de 2008.





(Melhores momentos de Brasil 4x1 Alemanha, semifinal do torneio de futebol feminino, dentro dos Jogos Olímpicos de 2008, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno)


E veio mais uma cerimônia de encerramento. Mas em Pequim, a Globo teve uma abordagem diferente – principalmente por parte de Galvão Bueno, tendo novamente Marcos Uchôa, Pedro Bassan e Sônia Bridi a seu lado na cabine do Ninho do Pássaro. Ao invés de já imaginar o que poderia acontecer nas festas para saudar Londres-2012, Galvão cuidadosamente preferia privilegiar o que poderia acontecer quando o Brasil sediasse um grande evento esportivo, como aconteceria na Copa de 2014 (e, se saberia em 2009, nos Jogos de 2016). Afinal de contas, Londres-2012 seria evento exclusivo da Record, concorrente figadal. E a Globo jamais poderia chamar tanta atenção assim à próxima edição das Olimpíadas, para não fazer com que se lembrassem da grande derrota de sua história no esporte...


Nenhum comentário:

Postar um comentário