DJ Stari rouba a cena na Liga das Nações e revela ao Surto Olímpico seu processo criativo - Surto Olímpico

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DJ Stari rouba a cena na Liga das Nações e revela ao Surto Olímpico seu processo criativo

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* Com Dora Guerra

Depois de 30 dias de competição, a Liga das Nações chega perto do fim. Um dos principais torneios do voleibol internacional, a VNL é, devido ao alto nível competitivo, um importante torneio no ciclo olímpico. Foi ainda mais decisiva no ano de 2021, por ser o único compromisso internacional do esporte em mais de um ano. 

Ao redor do mundo os fãs assistiram os grandes nomes e as estrelas em ascensão do vôlei darem show dentro de quadra, mas uma figura, fora dela, chamou ainda mais a atenção: Michael Staribacher, o DJ Stari. Como um DJ ganhou tanta notoriedade a ponto de despertar a curiosidade de fãs, narradores e comentaristas durante a competição?

Um dos pontos-chave para isso é a experiência: Michael Staribacher, natural de Vienna, na Áustria, é DJ há 20 anos, tendo um currículo expressivo em eventos esportivos. DJ Stari começou a fundir sua carreira musical com o esporte no vôlei de praia, na FIVB Beach Volleyball World Tour há duas décadas. 

O vôlei jogado nas quadras veio logo depois. Em entrevista exclusiva ao Surto Olímpico, ele contou que trabalhou como DJ em três Olimpíadas: Atenas 2004, Pequim 2008 e Rio 2016. Foi ele quem deu a trilha sonora para três ouros olímpicos do vôlei brasileiro.

Sua relação com o esporte é muito parecida com a minha e provavelmente com a sua. Staribacher é apaixonado por voleibol. “Eu sei quase tudo sobre o jogo e os jogadores. Muitos deles também posso chamar de meus amigos.”, comentou Michael.

Em um primeiro momento, pode parecer banal valorizar a importância do DJ em uma partida de voleibol de alto nível. Porém, não é surpresa para ninguém que a música tem uma relação forte com as nossas emoções: evoca nostalgia, traz fortes lembranças, nos motiva ou nos entristece. Isso pode estar relacionado à intenção da música, claro – uma canção triste tende a trazer algum nível de melancolia para quem quer que a ouça –, mas existe uma parte subjetiva mais difícil de mensurar e igualmente importante. 

Por exemplo, muitos acreditam que poucas músicas terão impacto afetivo tão forte em você quanto as que você ouviu durante a adolescência: são faixas que você associa diretamente a memórias intensas, de um período em que definia a sua própria identidade.

Mais do que isso, desde as primeiras manifestações de som e ritmo, a música interfere inevitavelmente com o nosso corpo. Se há canções que nos fazem dançar, é inegável que existe uma relação não só emocional, como biológica, das pessoas com a música. No caso dos esportes, estudos como este, da UESB, comprovam que a música pode ter efeitos decisivos no rendimento e na motivação: e caso haja uma trilha sonora mal escolhida, inclusive, a seleção pode afetar o atleta de forma negativa.

Ou seja: pode parecer simples a tarefa de um DJ, mas não é. Um bom profissional tem um papel dificílimo, que nem sempre é reconhecido – em festas, em esportes ou em qualquer que seja o cenário, ele é o responsável por entender o contexto. Cabe a ele entender a atmosfera, as pessoas envolvidas, sua relação emocional com a música e o que a música pode causar a elas. O DJ não só deve entender o clima, como em algum momento o dita; quando há um campeonato envolvido, a pressão é imensa.

Esse é o grande diferencial de Michael. O DJ Stari garante que tem mais de 5 mil músicas editadas, prontas para serem tocadas no momento ideal.

"A maior parte do trabalho é feito na minha cabeça. Eu tenho que reagir imediatamente, seja o que for que esteja acontecendo dentro de quadra. Minha abordagem não é apenas tocar uma música boa, mas a música certa na hora certa.”, explica. Disso ele entende, a Liga das Nações é a prova disso.

Para quem assistiu a VNL nas últimas semanas, o poder da música em construir ou aliviar tensão ficou claro. Em um famoso momento no jogo entre Brasil e Alemanha do torneio masculino, em que os árbitros avaliavam (com demora) um possível erro durante um ponto, DJ Stari usou dos seus recursos quase de alívio cômico: tocou Pantera Cor de Rosa, brincando com a tensão emocional como se fosse sexual. O efeito psicológico foi instantâneo: a música aliviou a adrenalina, fez jogadores dançarem, dissipou o climão. Que sacada, né?

DJ Stari também entende a interseção entre música, esporte e identidade. Um dos fatores mais consensualmente considerados vantajosos nos esportes é o ‘fator casa’. Quem joga em casa não só conhece o ginásio como a palma das mãos, mas também tem a torcida como um ‘jogador extra’. Num campeonato em esquema de ‘bolha’ e sem torcida, então, coube ao DJ Stari fazer papel de torcedor, vestindo todas as camisas ao mesmo tempo.

“Eu passo muito tempo pesquisando músicas. Meu conceito para a VNL deste ano é especial: quero que todos os times se sintam como se estivessem jogando em casa. Também quero que os fãs em frente à TV também reconheçam sua própria música ‘nacional’. Isso requer muita preparação, mas acho que funciona muito bem.”

Para além do que ele mesmo esclareceu em entrevista, nota-se que ele pensa não só em nacionalidade, mas em idade: investe não só em músicas de Michel Teló e Pabllo Vittar durante jogos do Brasil, como em faixas como a abertura de Friends, um marco geracional para muitos jogadores do mundo todo. Essencialmente, ele entende quais são os "clássicos" considerando a época que os atletas cresceram, o que assistiram, o que está em seus repertórios culturais – e compreende a potência de uma música com forte apelo emocional.

E se preocupa com a recepção em todos os sentidos: já virou corriqueiro acompanhar em seu Instagram prints de torcedores do mundo inteiro fazendo pedidos musicais. “As reações dos fãs nas redes sociais são fenomenais e avassaladoras, principalmente da Tailândia, Brasil, Irã, Turquia e Holanda.” Antes de acatar um pedido, porém, há uma pesquisa minuciosa. Uma torcedora brasileira, inclusive, solicitou que tocasse um hit de Karol Conká na abertura da seleção, DJ Stari analisou o pedido, mas recusou. Segundo ele, prefere evitar artistas controversos.
DJ Stari com a líbero tailandesa Pannoy Piyanut


Para além dos torcedores, os atletas e as atletas também se engajam muito. Quando perguntamos se as estrelas do esporte pedem para ouvir suas músicas favoritas, DJ Stari afirma que sim:

“Muitos deles fazem. E sempre tento estabelecer uma conexão pessoal com times e jogadores para descobrir o que eles gostam de ouvir. Mas, claro, não se trata apenas dos jogadores, mas também dos fãs. Acho que a música se tornou uma grande parte do nosso esporte, não comparável a qualquer outro esporte.”

De fato, o voleibol é um esporte de detalhes, e além de ser extremamente técnico, também é extremamente bonito. Por isso, nos últimos anos, o fator ‘espetáculo’ vem se misturando com o fator esportivo do vôlei de forma a ficar impossível separar os dois. Os animadores de torcida, a torcida em si e os DJs se unem aos atletas dentro de quadra para construir uma atmosfera eletrizante - e viciante! - para os torcedores.

Neste ano, o papel do DJ mudou significativamente. Se antes era um profissional responsável por animar a torcida, nesta Liga das Nações sem público, o DJ se torna a torcida; o principal animador dos próprios jogadores. Mas como fazer isso de forma eficaz, cuidadosa, sem deixar nenhum time pra trás?

E há de se admitir que um momento, uma bola, um canto da torcida, um acerto em momento crucial pode mudar a história de um jogo de voleibol. Quando pensamos em exemplos claros de jogos em que o moral estava totalmente do lado de um time, é impossível não citar aquela quarta-de-final. Aposto que você pensou na mesma que eu. 

O ano era 2012, o palco, Londres. Mata-mata olímpico. Brasil e Rússia travavam um duelo duríssimo, com a balança tendendo para o lado russo. Após estarem perdendo o jogo por 2 a 1 e ficarem atrás 5 pontos no placar no quarto set, as brasileiras se agigantaram para vencer o quarto set e mudar a história do jogo. A virada deu o ânimo e a balança começou a pesar para o nosso lado. 13 a 13 no placar e seis match points das adversárias impedidos pelas brasileiras no tie-break. Parecia que nada ia tirar aquele jogo da gente. Algumas coisas não podem ser explicadas na lógica dos números. Esporte também é emoção. É coração.

Cada virada de bola, cada grito, cada ‘o campeão voltou’ da torcida colocava o Brasil mais perto do caminho que levou ao bicampeonato olímpico. ‘Pequenos’ detalhes que fazem a diferença em uma história de ouro. Com um jogo desses eternizado na nossa memória esportiva, é impossível não considerar como várias questões, até mesmo fora de quadra, são capazes de influenciar o que acontece lá dentro. É aí que entra a grande novidade no verdadeiro espetáculo em que o voleibol vem se transformando: a importância da trilha sonora.

E será que o grande destaque de Stari se deu, parcialmente, pelas arquibancadas vazias? Um DJ trabalha muito em conjunto com a torcida, e a torcida com ele, em uma verdadeira cooperação. Quando questionado sobre a dificuldade de exercer esse trabalho em um ginásio sem fãs, ele admite que há diferença.

“A diferença é enorme. Não se esqueça que geralmente minha maior prioridade é entreter os torcedores nas arquibancadas, fazendo-os bater palmas, cantar e dançar o máximo possível. Eu realmente sinto falta dos torcedores, mas já ajuda saber que milhões deles estão assistindo e que seus corações estão presentes na arena."

Invisível e onipresente, o DJ da Liga das Nações desempenhou um dos papéis mais difíceis do ano com maestria: o de, repentinamente, ser o principal responsável por animar os jogadores em quadra. E o fez tão bem que chamou a atenção do mundo todo. Para muito além de apenas apertar o play, mostrou com maestria como engajar e encantar pessoas ao redor do mundo, colocando milhões de pessoas em um único ginásio em Rimini, na Itália.

"Cada jogo escreve sua própria história. E eu tento entregar a trilha sonora para essa história".
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Dora Guerra é jornalista musical, criadora da newsletter Semibreve, apresentadora do podcast Queijo Quente e colunista no site Popload. No tempo que sobra, pondera sobre as escolhas musicais em jogos de voleibol e outros contextos.

Débora Elisa é jornalista esportiva, faz parte da equipe do Surto Olímpico e fundou a Coluna Mista, portal voltado para esportes femininos. Se pudesse escolher como passar a maior parte do tempo, escolheria escrever e assistir voleibol.


2 comentários:

  1. Eu tô encabulado demais com esse dj, tocou até músicas cristãs em português e em inglês nos momentos certos rs

    A experiência audível foi um show à parte nessa VNL. Obrigado, Dj Stari.

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