Isadora Cerullo: "Ser mulher não nos impede de praticar rúgbi, e praticar rúgbi não nos faz menos mulher" - Surto Olimpico

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Isadora Cerullo: "Ser mulher não nos impede de praticar rúgbi, e praticar rúgbi não nos faz menos mulher"

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Em mais uma live realizada no perfil de Instagram do site Surto Olímpico, a convidada da última sexta-feira (23), foi a jogadora de rúgbi sevens da seleção brasileira, Isadora Cerullo, que falou muito sobre sua experiência, a preparação para as Olimpíadas de Tóquio e os preconceitos em relação a prática do rúgbi por mulheres, assunto no qual a atleta foi enfática. "Ser mulher não nos impede de praticar rúgbi, e esse esporte maravilhoso não nos faz menos mulher", disse.

O rúgbi, principalmente na modalidade union, com 15 jogadores em campo para cada time, é conhecido predominantemente por causa da Copa do Mundo masculina que é amplamente transmitida no mundo e que gera a maior parte da receita da World Rugby, a federação da modalidade. Mas Cerullo acredita que é importante aproveitar as pequenas oportunidades para desmistificar a ideia de que trata-se de um esporte só voltado para homens. 

"Muitas vezes a questão não é convencer que uma menina pode jogar, o negócio é convencer os pais. Às vezes escuto as pessoas falando que nem sabiam da existência de uma equipe feminina no Brasil, mas daí já é um gancho para divulgar que não é só isso, que já somos tantas vezes campeãs sul-americanas, que já temos medalha de bronze em Jogos Pan-americanos, disputamos Olimpíadas, estamos entre as 12 melhores equipes do mundo. A gente não só existe, como temos representantes do nosso esporte atuando muito bem no cenário internacional", afirmou a atleta.

Ela ainda falou da importância de divulgar o esporte para as mulheres e colocar esse assunto em debate. "Eu, sinceramente, queria ter conhecido o rúgbi antes. Eu conheci quando já tinha 19 anos. Imagina que agora uma menina de 6 anos pode saber da existência dessa modalidade e entender que pode ser um esporte para ela. Então temos que aproveitar essas oportunidades e iniciar uma conversa e tentar desconstruir esses pensamentos de que não é um esporte para meninas. Eu gosto de colocar esses assuntos em discussão, porque aí a pessoa acaba verbalizando um preconceito ou ela pensa, 'puts, eu nunca pensei sobre isso'. E aí é mais um passo para desconstruir", disparou Cerullo.

Aos 29 anos, Isadora Cerullo está perto de completar seis anos jogando pela seleção brasileira. Hoje, ela é uma das atletas mais experientes do grupo nacional, algo que lhe agrada. "É uma das coisas que mais gosto. Penso da seguinte forma. A gente pega a camisa emprestada (da seleção). E faz jogos. Não é nossa, a gente pega emprestada por um tempo. E quando a gente devolve, tenta deixar em um lugar mais alto do que quando recebemos. E um dia vou ver alguém vestindo essa camisa no futuro, alguém que vai ultrapassar tudo que eu consegui fazer na carreira. E são essas coisas que me animam muito".

Ao ser questionada sobre o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, a atleta deu respostas distintas referentes aos impactos esportivos e pessoais. "Muita gente fala que estamos no mesmo barco nessa pandemia. Não estamos no mesmo barco, estamos no mesmo mar. Os barcos são completamente diferentes e vai ser interessante ver isso no nível do esporte olímpico e mundial".

"Nós atletas trabalhamos com objetivos muito claros e o planejamento é feito pensando nesse ponto final. Perdi muita coisa em um momento muito rápido. Não só a previsibilidade do planejamento, mas tive que repensar todo o trabalho que tava sendo feito nos últimos quatro anos. Em pouco tempo, percebi que tava abrindo mão de muitas expectativas, coisas práticas como atleta, tipo, não tenho mais esse ponto final, pra guiar meu planejamento. Mas também expectativas sobre o que eu vou fazer durante esse ano e como vai ser a vida depois. Eu tava pensando também em começar uma transição de carreira. Então (esperar) um ano é bem complicado para muitas coisas", alegou Cerullo. 

Olimpíadas Rio 2016

Foto: Luiz Pires/Fotojump
Isadora Cerullo fez parte da seleção olímpica de rúgbi sevens nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 e disse que o evento foi muito marcante para sua vida. "A primeira impressão é que passa tudo muito rápido. Uma particularidade é que estávamos em casa, então a gente recebia aquele bom dia, um boa tarde caloroso, os abraços. Todo mundo demonstrava muito orgulho de receber uma seleção brasileira na vila. E no dia a dia, tem aquelas coisas de você estar andando e acabar esbarrando com algum campeão olímpico, ou de você estar no refeitório e o Rafael Nadal estar sentado atrás de você". 

O Brasil completou a disputa do rúgbi sevens ficando em 9º lugar, perdendo duas partidas e vencendo três. Um dos grandes destaques foi a recepção da modalidade pelo público, que mesmo não tão habituado com o esporte, fazia o "estádio vibrar" segundo Cerullo. 

"Um momento muito marcante é o de instantes antes de entrar em campo, que a gente ficava no túnel e sentia o estádio vibrar, porque sabiam que a seleção ia entrar para jogar. Eu me arrepiava. A gente lotou o estádio. Todo mundo gritava absurdamente. Gritavam nossos nomes. Essa experiência foi única", disse Cerullo.

A atleta protagonizou um dos momentos mais bonitos da história dos Jogos Olímpicos, ao aceitar o pedido de casamento de sua namorada, Marjorie Enya, realizado dentro do gramado do estádio. 

Foto: Reprodução/Youtube
"Eu não suspeitava de nada. A gente conversava algumas coisas sobre o relacionamento, o futuro, sabíamos das nossas prioridades, o que queríamos. E aí rolou esse momento, essa demonstração de afeto público", relatou. "Demorei para entender a importância de tudo aquilo que aconteceu. Avaliamos se isso significava um passo a frente para levantar uma bandeira. Não no sentindo de ‘ah, agora somos militantes’, mas sim porque pensamos que um ato de afeto entre duas pessoas virou notícia e virou notícia por algum motivo. Porque não era algo normal ainda, não é aceito por todo mundo, ainda tem países que é crime viver o tipo de amor que vivemos", ressaltou Cerullo. 

"Me dei conta que se tivesse visto isso quando era adolescente, teria mudado minha vida. Eu posso hoje ser segura, confiante e feliz, da forma que sou, com quem casei. Tivemos coragem em fazer algo no qual não tínhamos nenhum exemplo na vida. Sei que ter exemplos facilita muita coisa. Se uma menina pôde ver que não tem nada de errado com ela e que ela deve se aceitar e que vai achar amor em algum momento ou se a família dela não aceita, ela vai saber que aquela família não é para sempre e que ela pode escolher sua família, então é importante", completou.

A live do site Surto Olímpico com Isadora Cerullo está disponível em nosso canal no IGTV, o app de vídeos do Instagram. Você pode acessá-lo clicando aqui ou navegando em nosso perfil na rede social.

Foto: Reprodução/Facebook

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