Cegin demite técnicos e ameaça fechar as portas

Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Se em crises financeiras anteriores o clima de incerteza pairava pelo Centro de Excelência em Ginástica (Cegin), desta vez o risco de fechar as portas é real. No ginásio no bairro Capão da Imbuia, em Curitiba, onde treinam ginastas da seleção brasileira, as 220 meninas em fase de desenvolvimento no esporte hoje receberão a notícias de que cinco de seus técnicos foram demitidos e que estão dispensadas a partir de 1.º de novembro, quando não receberão mais aulas.

Para as 27 ginastas do alto rendimento – algumas delas, como a veterana Daniele Hypolito, integrantes da seleção brasileira – um plano de emergência lhes dará sobrevida até o final de novembro. “Depois, o risco de fechar o ginásio é real. Os técnicos estrangeiros têm seu contrato vencendo dia 30 de outubro, mas se comprometeram em trabalhar de graça. Depois, não sei”, diz a presidente da Federação Paranaense de Ginástica, Vicélia Florenzano. Entre os técnicos estão os ucranianos Oleg Ostapenko e sua mulher, Nadiia, e Irina Ilyaschenko, que, a partir do final do mês, estarão desempregados e não descartam o retorno ao Leste Europeu.

A falta de verba é porque a LiveWright, entidade privada sem fins lucrativos formada com a intenção de fomentar o esporte olímpico no Brasil, não renovou seu contrato com o Cegin, retirando o apoio à ginástica artística (no início do ano, a instituição já havia recuado no investimento a uma equipe de ciclismo no Rio de Janeiro). Assim, o Centro fica sem o aporte de R$ 2,4 milhões, recebidos via Lei Federal de Incentivo ao Esporte e gerenciado pela LiveWright.

A responsável pelo projeto da ginástica artística no LiveWright, Karina Blanck, explica que a entidade optou por encerrar a parceria porque o projeto estava dando prejuízo ao grupo de conselheiros que forma a entidade – entre eles estão os empresários João Paulo Diniz (Grupo Pão de Açúcar), Roberto Klabin (Klabin) e o tenista Gustavo Kuerten.

“Nos dois anos que atuamos com a Cegin, levantamos por volta de R$ 6 milhões via lei de incentivo, mas, os conselheiros tiveram de injetar recursos próprios, por razões diversas e o projeto se mostrou insustentável”, explica Karina. A vinda da ex-ginasta bielorrussa Nellie Kim, dona de cinco medalhas olímpicas e contratada como consultora da equipe curitibana, foi um dos custos bancados com recursos próprios dos conselheiros da LiveWright.

O problema, diz Vicélia, é que a época do ano em que o contrato venceu deixa pouca margem para se conseguir outro investidor. “A Cielo [empresa que já fazia a renúncia fiscal em favor da Cegin, via lei de incentivo] informou que segue conosco, mas não é o suficiente. A LiveWright cumpriu todos seus compromissos conosco, mas confirmou a saída em um período em que não existe verba em lugar nenhum. Tenho investidores que afirmam que vão nos patrocinar a partir de dezembro. Mas, via lei de incentivo, esse dinheiro só chegará a partir de fevereiro [de 2014]. O problema é saber como ficar em pé até dezembro”, fala.

Governo promete sobrevida

Para manter o Cegin funcionando entre novembro e fevereiro – quando a Federação de Ginástica calcula que terá verbas via Lei Federal de Incentivo ao Esporte, com novos apoiadores – são necessários R$ 300 mil, usados para o pagamento de técnicos, manutenção de seguro saúde das ginastas e aluguéis das quatro casas para atletas e treinadores.

“Passei por muitas crises, que já esqueci. Esta é pior porque envolve demissões e dispensas”, diz Vicélia Florenzano. A dirigente conta que tem usado a verba do patrocínio firmado com a montadora Renault, no valor de R$ 1 milhão, para pagar rescisões de contrato e na parte de recursos humanos. A valor era para reformas no Cegin.

O secretário estadual do Esporte, Evandro Rogério Roman, afirma que solicitou apoio do Ministério do Esporte para assumir os custos a partir do final deste ano. “Caso não seja possível, envolveremos diretamente o governo estadual. O fechamento da Cegin não vai acontecer”, garantiu. Vicélia, no entanto, é menos otimista: “Tenho procurado ajuda de muita gente e recebido muita solidariedade, mas nenhum retorno. Solidariedade não se transforma em dinheiro, a única coisa que nos falta”, desabafa.

Quando firmou convênio com a LiveWright, em março de 2011, o Cegin saía de outro período ruim: havia perdido o aporte anual de R$ 434 mil da Caixa Econômica Federal.

Adriana Brum/Gazeta do Povo

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