Surto Opina: Mulheres transexuais no esporte: elas são realmente uma 'ameaça' para o esporte feminino?


A BBC fez uma reportagem especial sobre o que muitos chamam de "ameaça" na inclusão de mulheres trans no esporte feminino, algo cada vez mais comum no esporte mundial e que foi alvo de grande debate também no Brasil, com o ótimo desempenho da jogadora de vôlei Tiffany Abreu na Superliga feminina de vôlei, tendo sido cogitada sua convocação para a seleção feminina.

Nos países da comunidade britânica, os olhos se voltaram para Rachel McKinnon, ciclista transgênero canadense, a qual estima ter recebido mais de 100.000 mensagens de ódio no Twitter após a conquista do título da Copa do Mundo de Ciclismo Master, em outubro do ano passado.


A vitória da atleta de 36 anos foi questionada por muitos setores porque ela é uma mulher transgênero que compete no esporte feminino, embora na categoria de 35 a 44 anos de idade.

Jen Wagner-Assali, que terminou em terceiro na mesma competição, intitulou como "injusta" a vitória e solicitou intervenção do órgão internacional de ciclismo, no sentido de que adote mudanças nas regras.

Outras ciclistas disseram que esse tipo de inclusão pode "ameaçar" a participação de mulheres no esporte - uma visão descrita como "sensacionalista" pela piloto de corridas transexual Charlie Martin, e como "transfóbica" pela própria Rachel McKinnon.

É um assunto delicado, que enfrenta algumas questões difíceis e espinhosas, sobre como o transgênero é visto no esporte e, de acordo com a jogadora de handebol transgênero Hannah Mouncey, sobre o direito fundamental desses atletas participarem do esporte.

Onde está o problema?

Apesar das mensagens de ódio, as quais McKinnon afirmou serem imensamente superiores (em quantidade) às positivas, do assédio que ela recebeu e do árduo treinamento antes de conquistar o título mundial, a ciclista diz que tudo "valeu a pena". "Quando você vence um campeonato mundial de ciclismo, você pode usar a camisa do arco-íris para sempre", disse ressaltando o símbolo da luta contra o preconceito da comunidade LGBTQ.

Mas há quem diga que McKinnon nunca deveria ter estado no pódio da competição, que ocorreu nos Estados Unidos (Califórnia).

Críticos defendem que é injusto ter uma mulher trans competindo em esportes femininos com um corpo biologicamente masculino. Como os homens podem contar com vantagens fisiológicas que, em geral, os tornam maiores, mais rápidos e mais fortes, as mulheres trans também se beneficiariam, tornando a concorrência injusta. A campeã canadense discorda dessa visão respaldada por um artigo da carta do Comitê Olímpico Internacional, a qual preleciona: "A prática do esporte é um direito humano".

Alguns também dizem que os hormônios masculinos, como a testosterona, estão presentes nos corpos das mulheres trans desde o nascimento, dando-lhes uma espécie de impulso.

Nicola Williams, da organização "Fair Play for Women" - um grupo criado para representar as vozes das mulheres "na corrida para reformar as leis transgênero", acredita que as mulheres trans não devem participar de esportes apenas para mulheres até que mais evidências sejam coletadas e demonstrem, sem sombra de dúvidas, que não há vantagens para essas atletas.


Como o corpo muda depois da transição?

Mulheres transgêneras tomam o hormônio feminino estrogênio e bloqueadores de testosterona antes de qualquer cirurgia, e continuam a tomar estrogênio após a transição.

McKinnon, que fez a transição quando tinha 20 anos, diz que o processo resulta em "mudanças fisiológicas bastante radicais", como massa muscular, força e velocidade reduzidas. Isso, segundo a atleta canadense, coloca as mulheres trans em um nível similar às mulheres do mesmo tamanho. Ressalva, ainda, que há limites estabelecidos para a quantidade de testosterona que podem ter em seus corpos os atletas trans antes de competirem. Essa é uma questão atualmente em debate no atletismo feminino, por exemplo.

Ela também apontou, depois que ganhou seu título mundial na Califórnia, que Wagner-Assali, uma das ferrenhas críticas, havia vencido em 10 dos 12 eventos anteriores.

E quanto às vantagens de um corpo que se desenvolveu como sendo do gênero masculino?


Não é difícil perceber Hannah Mouncey em uma foto da equipe feminina de handebol da Austrália. Ela é maior e mais alta que o resto das jogadoras. A história da Australiana que recebeu autorização para jogar o mundial da categoria pela equipe feminina da Austrália foi pauta de matéria aqui no Surto Olímpico.

No ano passado, Mouncey - a única mulher transgênero do time - foi proibida de ser indicada para o draft do campeonato australiano, por causa da disparidade de tamanho entre ela e suas oponentes.

Em resposta, a atleta afirmou: "Pense na mensagem que ela (a proibição de participar do draft) envia às mulheres e meninas sobre seus corpos: se você é muito grande, não pode jogar. Isso é incrivelmente perigoso e atrasado. Ser pesado não é necessariamente uma vantagem em um jogo que tem tanta ênfase em resistência e velocidade".

A jogadora de 29 anos já havia falado sobre as demais colegas de handebol: "são mais rápidas do que eu e têm uma melhor capacidade de recuperação".

McKinnon argumenta que "não existe um padrão nivelado e absoluto entre as atletas do sexo feminino". "As pessoas podem dizer que os homens de gênero cis (as pessoas cujo gênero corresponde ao sexo de nascimento) são 8-12% mais fortes que as mulheres de sexo cis, e estou disposto a aceitar esse valor para fins de argumentação. Mas temos que reconhecer que a diferença média entre homens e mulheres é muito menor do que entre a mulher mais fraca e a mais forte, ou a mulher mais baixa e mais alta. Sempre foi permitido que mulheres muito altas competissem contra mulheres pequenas em esportes que preferem a altura, como são os casos do basquete, vôlei ou remo, e consideramos isso justo. Por isso, permitimos vantagens competitivas muito grandes por meio de características naturais".

Finaliza defendendo que "É importante verificar de que esporte estamos falando. Para esportes como o ciclismo, onde se você precisa de velocidade e, para isso, é ideal ser o mais leve possível, alguém com um esqueleto maior carregará mais peso, o que não é uma ajuda".

Em alguns esportes, como boxe, levantamento de peso e judô, também existem categorias de peso separadas, o que significa que os atletas são lançados contra concorrentes de tamanho similar.

A evidência científica mostra que, em média, os homens têm 80% mais massa muscular na parte superior do corpo e 55% mais nas pernas do que as mulheres. São enormes vantagens e explicam o porquê de homens e mulheres não disputarem a mesma categoria em todos os esportes. Não funcionaria. Os homens dominariam todos os esportes em que a velocidade, a força ou o poder importam.

A política do COI, que inclui os níveis de testosterona, a mudança civil do gênero entre outros itens, é uma tentativa de garantir que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar do esporte - ao mesmo tempo em que tentam garantir uma competição justa frente as mulheres cisgênero. É um ato de malabarismo arriscado e que gera desconforto, devido as fortes vozes de ambos os lados.

A grande questão é, claro, quanto a suposta vantagem que atletas trans podem ter quando passam pela transição. A ciência não oferece uma resposta concreta. No entanto, uma pesquisa pioneira, capitaneada por Joanna Harper, uma médica que nasceu homem e depois fez a transição de gênero, mostra que quando os corredores tomam medicamentos que suprimem hormônios, eles acabam tendo padrões de desempenho semelhantes aos das mulheres. Portanto, os temores de que corredores ou ciclistas trans, como é o caso Mc Kinnon, possam ter uma grande vantagem em esportes de resistência seriam infundados.

Entretanto, a questão não é tão simples assim. A própria Harper, que é conselheira do COI, afirmou em entrevista que "as pessoas dizem que as mulheres transgêneras têm vantagens nos esportes e, você sabe, é verdade". E acrescentou: “Mesmo após a transição, em média, as mulheres transexuais são mais altas, maiores e mais fortes que as mulheres cisgêneras. No entanto, as mulheres transexuais também têm desvantagens. Quando fazem a transição, perdem substancialmente a força muscular e a capacidade aeróbica, o que lhes causa problemas de agilidade, rapidez e resistência".

Os atletas em transição “sem dúvida se beneficiam” da memória muscular de anos de treinamento de força - de acordo com Harper - embora sejam necessárias mais pesquisas para descobrir quanto. Isso não é fácil, dada a falta de financiamento e a necessidade de fisiologistas nas universidades para trabalhar com endocrinologistas em clínicas de gênero.

O renomado cientista esportista Ross Tucker explica que a testosterona também oferece aos homens vantagens de desempenho que vão além dos altos níveis do hormônio. "Muitos desses (benefícios) são ganhos na puberdade e adolescência e são irreversíveis mesmo quando um nível de testosterona é alterado", diz o especialista. “Nos esportes de combate e força, os atletas podem ter vantagens mesmo depois de terem transitado”.

Quão comuns são as mulheres transexuais no esporte feminino?


É difícil medir os números com precisão. Porém, segundo dados da revista "The Lancet", estima-se que no Brasil existam entre 750 mil e 2 milhões de transexuais.

Nas palavras da "Pride Sports", os números que participam do esporte serão afetados por ainda haver "barreiras significativas, como a hostilidade às pessoas trans e a falta de políticas trans de órgãos nacionais e internacionais".

A canadense campeã, Rachel McKinnon, defende que: "Não há evidências de que a participação caia entre as mulheres cis quando uma mulher trans está presente, por isso nunca devemos definir nossa política com base em pessoas que têm medo de pessoas trans. Essa é a definição de transfobia. A participação tende a melhorar quando você faz um lugar esportivo mais inclusivo".

Tanto a ciclista quanto a piloto Charlie Martin, citada no início, afirmam que estiveram prestes a desistir do esporte após a transição. "A ninguém deve ser negado o direito de praticar esportes. O esporte tem tantos benefícios para a saúde e une as pessoas e dá a elas uma sensação de bem-estar e conexão de trabalho em equipe. Afastar-se do esporte é comum na comunidade trans, por isso, tentar fazer divisões como essa é triste", conclui Martin.

McKinnon arremata: "As pessoas pensam que este é um assunto recente e novo. Não. As pessoas trans vêm competindo há décadas, contudo poucos de nós chegaram ao mais alto nível e menos ainda ganharam algum destaque no esporte. Estou imensamente orgulhosa do que realizei e não vou parar por aqui. As etapas do campeonato Marters passarão pela Inglaterra e quero defender meu título. E quero mais. Quero tentar chegar nas Olimpíadas".

O caso Tiffany

Tifanny Abreu ganhou notoriedade no país após grandes atuações na Superliga Feminina de Vôlei na temporada 2017/2018. A jogadora do Bauru chegou a anotar 39 pontos em uma só partida, estabelecendo um novo recorde na competição. No Brasil, a atleta se tornou um verdadeiro expoente na luta pela participação de atletas transgêneros em esportes de alto rendimento e na disputa por vagas em grandes competições, como as Olimpíadas. Chegou, inclusive, a ser cotada para compor a seleção feminina de vôlei.

Consequentemente, enquanto se tornava inspiração para muitos, indignava a outros tantos, por considerarem injusta a atuação da oposta juntamente com as atletas cisgênero, sob a alegação já mencionada acima: possível favorecimento genético, por ter tido um desenvolvimento corporal sob influência de hormônios masculinos.

Tifanny nasceu Rodrigo, no dia 29 de outubro de 1984. Devido à altura, tendo atingido 1m94, ingressou no voleibol, profissionalizou-se e foi jogar na Europa. Por lá mesmo, no final de 2012, iniciou a transição de gênero. Entre os procedimentos a que se submeteu, a rehormonização busca diminuir os niveis de testosterona. Nas mulheres, o índice médio equivale a 10 nanogramas por litro de sangue. Em sucessivas medições, ainda no ano de 2017, os índices de Tiffany foram bem abaixo disso: média de 2,5.

Além disso, a participação de Tifanny na Superliga Feminina de Vôlei foi respaldada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) por cumprir os requisitos estabelecidos em novembro de 2015. A entidade pede que mulheres trans se declarem do gênero feminino (reconhecimento civil) e tenham nível de testosterona inferior a 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes da estreia em competições femininas.

Desde 2016, Tifanny começou a jogar ligas femininas, ainda na Itália. Atualmente, continua a defender o Bauru. No fim de 2017, Zé Roberto, técnico da seleção feminina de vôlei do Brasil, deixou em aberto a possibilidade de a atleta ser convocada para defender as cores do país: "Eu acho que se ela foi elegível pelo Comitê Olímpico Internacional, pela Federação Internacional de Vôlei, pela Confederação Brasileira, ela é elegível para jogar em qualquer lugar, até na seleção brasileira. Se ela tiver nível, ela pode jogar sim na seleção".

Em abril de 2018, após convocação da seleção em que não figurou o nome de Tiffany, a Confederação Brasileira de Vôlei creditou a ausência da atleta à falta de um posicionamento da Federação Internacional da modalidade.

Em janeiro de 2018, a FIVB prometeu, junto ao seu Conselho Médico, realizar estudos para entender a participação de mulheres trans em esportes de alto rendimento, visando implementar um sistema próprio de elegibilidade para essas atletas. A entidade, porém, não estabeleceu prazo para divulgar este novo sistema e, até agora, nenhum resultado foi publicado.

Até que as novas regras sejam anunciadas, a FIVB segue as recomendações do COI, perante as quais Tiffany estaria dentro dos padrões exigidos.

Embora o grande sucesso da temporada 2017/2018, quando chamou a atenção do público e deu voz a sua causa, na atual temporada (2018/2019) Tiffany não figura entre as melhores em nenhum das estatísticas publicadas no site da Superliga feminina de vôlei.

Sem estudos específicos e/ou aprofundados sobre o tema, difícil alcançar uma posição confortável acerca das vantagens ou desvantagens de atletas trans perante, principalmente, as mulheres. Entretanto, em um mundo cada vez mais inclusivo e acessível às transformações, situações como a de Tiffany, Hannah Mouncey, Rachel McKinnon e tantas outras serão cada vez mais comuns e corriqueiras e precisam de um veredicto que, até agora, tem sido negligenciado por confederações internacionais. Teremos atletas trans competindo em Tóquio/2020? A discussão continuará.

Fotos: BBC/Divulgação

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