O Outro Lado da Muralha: o relacionamento chinês com o vizinho Japão nos séculos recentes - Surto Olímpico

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O Outro Lado da Muralha: o relacionamento chinês com o vizinho Japão nos séculos recentes

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Quatorze anos após sediar a Olimpíada de Verão, Beijing será responsável por receber a 24ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. O que é histórico, já que a capital chinesa será a primeira cidade do mundo a receber as duas competições.

Dando continuidade à apresentação do território chinês, responsável por sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022, é chegado o momento de falar sobre as relações do país com o Japão. Esse que teve a capital Tóquio como sede dos Jogos de Verão, marcados para 2020 mas que ocorreram no mês passado por conta da Covid-19 e o consequente adiamento no ano anterior.

E a história nos mostra que os países sempre foram muito conectados. A civilização chinesa antiga teve alta influência sobre a nação vizinha em matéria de filosofia, arquitetura e também no aspecto religioso. Porém, o contato forçado dos japoneses com potências ocidentais no Século XIX desencadeou um processo de industrialização do país de acordo com os moldes estrangeiros, priorizando a estrutura que vinha de fora.



O final deste mencionado século e a Restauração Meiji colocaram o Japão como a maior potência bélica da região e com aspirações cada vez mais expansionistas, outra herança do contato com o Ocidente. O tamanho do território chinês e as riquezas contidas nele logicamente era um fator importante para que os nipônicos buscassem conflitos. Ao final de 1895, o país vencia a guerra contra os vizinhos e começava a se impor militarmente na região.

O saldo foi uma península coreana independente da China e a mando oficial por parte do Japão, agora consolidado como potência regional após a relevante vitória também contra o exército russo. Além disso, o triunfo japonês obrigou os chineses a indenizarem o país por conta dos gastos feitos para que houvesse o conflito e também determinou que navios imperiais tivessem trânsito livre em determinados rios dentro do país.

A instauração de uma república dentro da China aconteceu em meio ao domínio japonês. Sun Yat-sen, o fundador da República, seria também nome importante no Kuomintang (o partido nacionalista local). E, com o mundo em ebulição por conta dos levantes que surgiam em todos os cantos e também a expansão do ideal Socialista, um embate entre nacionalistas (liderados por Chiang Kai-shek) e comunistas (liderados por Mao Tsé-tung) se deu nas primeiras décadas do Século XX em solo chinês.



Sem solução à vista, os combatentes seguiam na linha de frente até que uma nova invasão japonesa ao território chinês selou um histórico pacto entre as duas partes: nacionalistas e comunistas combinaram uma trégua nas batalhas pelo poder nacional e se uniram contra aquela força militar que mais uma vez se fazia presente em seu território. Ambos os grupos, em 1937, pararam com o intenso confronto para unir forças e derrotar um inimigo em comum.

Esse era o Japão, que naquela época já era a maior força da região e tinha aspirações expansionistas ainda mais evidentes. A nova invasão nipônica à China iniciou a segunda guerra sino-japonesa e, para muitos estudiosos, iniciou de fato a segunda guerra mundial se deixarmos a visão eurocentrista de lado. Lembremos que já em 1931 os japoneses invadiam a Manchúria, à época território chinês, e aumentavam sua influência em todo o continente.

O exército japonês tomou conta do território vizinho e o comandou de forma violenta durante aquele período. Massacres impiedosos contra habitantes locais e também testes científicos em seres humanos foram algumas das brutais características impostas pelo país invasor durante o período. A permanência das tropas na China durou até 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial e a consequente derrota japonesa no conflito.


Acredita-se que mais de 18 milhões de chineses foram mortos durante os oito anos de domínio japonês em Beijing e Nanjing. Muito por conta deste episódio recente e a brutalidade imposta pelos nipônicos, as relações entre os países possuem momentos bons mas também turbulentos e de alta tensão dependendo de circunstâncias e temas a serem discutidos. Até hoje questões daquela época não foram resolvidas (e é difícil imaginar que serão).

O fato de o Partido Comunista Chinês ter vencido o combate interno após a derrota do Japão na segunda guerra e o subsequente abandono deste no território da China só complicou as coisas na questão diplomática. Isso porque, no contexto da Guerra Fria, Mao Tse-tung permaneceu grande parte do tempo alinhado à União Soviética de Stálin apesar das constantes rusgas. Longe, portanto de uma afinidade ideológica com o capitalista Japão, do parceiro Estados Unidos.

E vale sempre a pena lembrar que o Partido Comunista Chinês está no comando do país até o presente momento. Diferente em determinados aspectos em relação àquele que iniciou reformas mas sempre guiando as decisões tomadas dentro do território. Portanto, questões internas continuam tendo uma importância grande mesmo em um mundo mais globalizado e sem as tensões que acompanhavam uma época de Guerra Fria e conflito iminente entre superpotências.


A questão COVID-19 foi um ponto de discórdia entre os países, já que o Japão acusou formalmente a nação vizinha de omitir questões sanitárias importantes no começo de 2020, quando a transmissão do novo coronavírus estava em seu princípio. Foi o primeiro grande ponto de discórdia e acusações mais fortes após um período que parecia ser de boas relações entre os países, principalmente após acordos realizados três anos atrás.

Mostrando que esporte e política se misturam sim, desencontros estiveram presentes também em um grande evento recente. Dentro dos Jogos Olímpicos do mês passado, dois fatos chamaram a atenção. O primeiro foi o repúdio público do governo chinês à aparição da bandeira imperial japonesa em cerimônias, o que remete a esse passado recente de invasões ao território da China e também atos repugnantes contra a população civil chinesa.

Foi justamente neste período imperial que apareceram com mais força as ditas “mulheres de conforto”, chinesas recrutadas pelo exército invasor para serem distribuídas aos guerreiros japoneses tão somente para o prazer das tropas. Essa questão é muito delicada e até hoje não foi bem resolvida entre nipônicos, chineses e coreanos, que também viram suas mulheres sofrerem nas mãos do inimigo.
 


Outro ponto que chamou a atenção em Tóquio foi a dupla chinesa do ciclismo em velocidade que utilizou um broche de Mao Tse-tung, fundador do Partido Comunista Chinês, durante a entrega de medalhas. As atletas Bao Shanju e Zhong Tianshi venceram o ouro na prova e acabaram sendo alvo de investigação no COI por conta da “homenagem”, que viola as regras dos Jogos por proibir manifestações políticas durante a celebração. Shanju e Tianshi receberam somente uma advertência no final das contas.

Mas o ponto principal aqui é o fato de ambas terem utilizado o broche em solo japonês e em uma data tão especial para o Partido Comunista Chinês, que celebra 100 anos justamente em 2021. Ainda que não se tenha a exata confirmação de que o propósito era de homenagear O Grande Timoneiro e também o centenário do Partido criado por ele, muito provavelmente a intenção era essa. E vale a lembrança do envolvimento que esse teve na defesa do território chinês durante as brutais invasões nipônicas realizadas na década de 1930.

O mundo esteve e estará de olhos mais atentos aos dois países. O Japão sediou as Olimpíadas de Verão; a China, dentro de poucos meses, será a responsável pelas Olimpíadas de Inverno. Ainda que no âmbito esportivo, muitos aspectos e muitas diferenças entre esses países tão próximos estarão evidentes para quem se atentar mais aos detalhes e também à postura para determinadas questões que venham a aparecer com a realização do evento no próximo ano e também à proximidade dele.


Fotos: SCMP Post/Divulgação (1), Autor Desconhecido (2), CGTN/Divulgação (3), Keystone/Getty Images (4), Xinhua News/Divulgação (5), Greg Baker/AFP (6).

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