Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira: Atlanta 1996, Record - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na televisão brasileira: Atlanta 1996, Record

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(Vinheta de propaganda da cobertura da TV Record para os Jogos Olímpicos de 1996. Postado no YouTube por André Luís Alves de Amorim)


Narração: Luiz Alfredo, Carlos Valadares e Paulo Stein


Comentários: Mário Sérgio (futebol), William (vôlei), Rogério Sampaio (judô) e Silvio Lancellotti (demais esportes)


Reportagens: Eli Coimbra, José Luiz Datena e Márcio Moron


Apresentação: Luiz Alfredo




No começo dos anos 1990 (mais precisamente, no próprio ano de 1990), a TV Record tinha um único assunto a lhe perturbar. Mas esse único assunto era fundamental: a venda da emissora, que passava da família Machado de Carvalho para o pastor e empresário Edir Macedo, patrono da Igreja Universal do Reino de Deus. Em meio a mudança tão fundamental nos rumos do canal de São Paulo, pensar em qualquer transmissão esportiva estava em terceiro plano, se tanto. Que dirá pensar numa cobertura esportiva de grande porte. Até porque, durante o processo de compra da Record por Edir Macedo, as dívidas eram tamanhas que a emissora ficou até sem pagar as anuidades à OTI (Organização das Televisões Iberoamericanas), nos anos de 1990 e 1991, totalizando um débito de US$ 50 mil. Se quisesse voltar aos grandes eventos esportivos, a Record teria de resolver isso. Resolveu – e a cobertura olímpica em Atlanta-1996 foi uma volta triunfal, de certa forma.


Mas mesmo durante aquele recomeço, a emissora se mantinha levemente no espaço em que fora tão tradicional: o esporte. Em 1991, graças a uma parceria com a TVN, produtora do narrador Osmar Santos, a Record pôde exibir alguns torneios de futebol (como o Mundial Sub-20), e teve até um programa esportivo de auditório, o Sport Shopping Show, responsável por uma das primeiras aparições da então atriz Sandra Annenberg como apresentadora, ao lado do supracitado Osmar. O ano passou, e em 1992 Osmar voltou à TV Manchete de que viera. A Record voltava a “hibernar” no esporte. Mas não por muito tempo: um vínculo com uma produtora independente possibilitou o envio de três repórteres aos Jogos Olímpicos de Barcelona. Melhor ainda: em 1992, as duas anuidades devidas à OTI foram pagas. A emissora paulistana voltava a estar apta a comprar os direitos de transmissão de grandes eventos esportivos. E em 1993, faria isso: numa parceria com a Rede OM, transmitiria a Copa do Brasil, no futebol.


Em 1994, mais um passo no retorno da Record ao esporte, com o advento da mesa redonda Sete no Pique, apresentada por Wanderley Nogueira (um dos mais conhecidos repórteres do rádio esportivo paulista, já então – e até hoje – na Rádio Jovem Pan). O debate durou pouco. Mas já se sabia: a Record estava pronta para voltar a atacar no esporte, insuflada pela vontade de investimentos na área - preconizada por Eduardo Lafon (1948-2000), o vice-presidente de Programação e Operações do canal. O processo começou com a transmissão do Campeonato Alemão de futebol, em 1995. Mas o objetivo maior era exibir a Copa do Mundo de futebol, em 1998. E a regra dizia: no meio do caminho, havia os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. E a Record teria de estar neles.


Para chegar com tudo aos Jogos, a Record incrementou sua equipe esportiva em 1996. Do SBT, chegava Luiz Alfredo, para ser o principal narrador e diretor de esportes da emissora. Mais nomes de grosso calibre vieram da TV Bandeirantes: o comentarista Mário Sérgio (1950-2016), o repórter – e também comentarista, às vezes - Eli Coimbra (1942-1998) e outro repórter, José Luiz Datena, se somando a Márcio Moron, um raro remanescente prévio esportivo da Record. No Rio de Janeiro, a Record tirou dois símbolos esportivos da TV Manchete: o narrador Paulo Stein (1947-2021) e o comentarista/apresentador Márcio Guedes.


Eventos também não faltariam em 1996. No futebol, a Record exibiria o Campeonato Paulista, o Campeonato Carioca e vários torneios internacionais, da Copa da Liga Inglesa à própria Liga dos Campeões, passando pelo Campeonato Italiano. Paralelamente, haveria uma mesa-redonda futebolística dominical, apresentada por Márcio Guedes (posteriormente, também por Datena): Com a Bola Toda. Mas a cereja do bolo já estava garantida pela emissora desde o ano anterior: a emissora comprara os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos, junto à OTI. E faria uma preparação esmerada rumo a Atlanta, gastando cerca de US$ 1,5 mi.


Na Folha de S. Paulo de 7 de julho de 1996, pouco antes da cobertura olímpica começar, Eduardo Lafon já anunciava: “A programação normal [da Record] vai se adaptar à olímpica”. O que significava, mais precisamente, de nove a 14 horas de transmissões das competições em Atlanta, a serem arrematadas pelo “Record Olímpica”, noticioso diário no fim da noite, resumindo o dia nos Jogos. Era a intenção expressa por Luiz Alfredo – além de narrador, um dos chefes da cobertura -, também à reportagem supracitada da Folha: “Muita gente não tem condição de assistir aos Jogos durante o dia, então a revista [Record Olímpica] funciona como um resumo".


Para fazer todo o trabalho, a Record enviou 34 profissionais aos Jogos Olímpicos. Na equipe dirigida por Guilherme Wisnik (Eduardo Lafon até esteve no IBC de Atlanta por uns dias, mas logo voltou ao Brasil), estavam vários dos contratados no começo do ano: os narradores Luiz Alfredo e Paulo Stein, o comentarista Mário Sérgio (restrito aos comentários das partidas da Seleção Brasileira no torneio olímpico de futebol masculino), os repórteres José Luiz Datena, Eli Coimbra e Márcio Moron. Com grande experiência em coberturas anteriores, o mineiro Carlos Valadares (1946-2012) foi mais um locutor da Record em Atlanta. Para comentar os jogos de vôlei, nos torneios masculino e feminino (com destaque óbvio para a participação brasileira), o canal trouxe um nome de grosso calibre: William Carvalho, credenciado como um dos destaques máximos da Geração de Prata em Los Angeles-1984. A Record fez aposta semelhante no judô: para comentar as lutas, ninguém menos do que Rogério Sampaio, medalha de ouro em Barcelona-1992.


Outro nome notável e experiente da Record em Atlanta estava atrás das câmeras: o chefe da cobertura, Michel Laurence (1938-2014), de longa trajetória na televisão e na imprensa escrita – só na telinha, Michel estivera nas editorias de esporte de Globo, Bandeirantes, SBT e Cultura paulista, fora uma primeira passagem pela Record. Finalmente, um nome foi incluído tardiamente na equipe, e se revelou de grande utilidade na cobertura em Atlanta: Silvio Lancellotti.


Àquela altura, Silvio trabalhava numa obra enciclopédica sobre a história olímpica. O projeto começara em 1994: ao ouvir falar que a Abril Cultural (braço do Grupo Abril que publicava livros) pensava num livro com a trajetória dos Jogos, Lancellotti fez o projeto e o levou a Richard Civita, diretor do Grupo Abril, e Elena Lovisolo, diretora da Abril Cultural. O resultado? O jornalista paulistano contou, em depoimento exclusivo a este Surto Olímpico, para esta série:


“[Richard e Elena] ficaram impactados com o volume que eu propus. E nós topamos repartir os riscos. Eu precisaria abandonar uma série de coisas que fazia pra me dedicar à pesquisa e à redação. E a Abril Cultural topou me pagar, digamos, um salário, durante um prazo de dez meses. Foi insano. Eu fiz tudo praticamente sozinho. Viajei à Europa, fui ao COI, comprei uma tonelada de livros, fui ao COB, à Biblioteca Nacional do Rio, à [Biblioteca] Mário de Andrade aqui de São Paulo, entrevistei uma centena de pessoas, obtive uma grande ajuda do Edgard Alves, [jornalista dedicado a esportes olímpicos] da Folha [de S. Paulo]. E claro que procurei o Major [Sylvio de Magalhães] Padilha que, infelizmente, aos 85 anos de idade, já não se lembrava de tudo. Ele, porém, e a sua filha, a Dona Sônia, me emprestaram o que tinham de material. Então, me enfurnei em casa pra escrever. Só quase no final da loucura a editora designou uma jovem colega, a Mirtes Coscodai, para me pajear na revisão”.


O trabalho longo resultou em “Olimpíada 100 anos – História Completa dos Jogos” (Abril Cultural, 1996), verdadeiro compêndio com todos os dados das disputas até ali, mais textos descrevendo as disputas. Àquela altura, apresentando um programa de gastronomia na TV Manchete – Cozinha do Lancellotti -, o jornalista foi convidado para se transferir à Record. Com o livro pronto, Lancellotti entregou uma cópia a Eduardo Lafon e a Guilherme Wisnik. Foi o bastante, conforme ele se recordou: “Eles se impressionaram com o tamanho do trabalho. E me convidaram pra integrar a equipe que iria a Atlanta”. A emissora de Edir Macedo ganhava um comentarista - e um mestre gastronômico, já que o Cozinha do Lancellotti também foi para a Record.


Com todos os 34 enviados na cidade-sede norte-americana, hospedados em chalés nos arredores, começaram os trabalhos. Em 19 de julho de 1996, veio a cerimônia de abertura, no Centennial Olympic Stadium, narrada por Luiz Alfredo e comentada por Silvio Lancellotti na Record. E o auge daquela festa em Atlanta – a hora de acender a pira olímpica, potencializada pela presença de Muhammad Ali como o escolhido - trouxe fortes emoções a Lancellotti, durante a transmissão: “Havia uma espécie de bolão, no Centro de Mídia, quase duzentas apostas de dez dólares cada sobre quem seria o escolhido para acender a pira no estádio. Eu e mais três havíamos votado na Janet Evans. Mas, quando ela pegou a tocha nos cem metros finais até a pira eu percebi que haveria uma surpresa. Daí, foi na pura intuição que eu identifiquei o Ali a sair de uma espécie de coxia para se aproximar da Janet. Não consegui segurar e gritei: ‘É o Muhammad Ali, o Cassius Clay’. Daí, aconteceu aquele drama todo, o Ali com Mal de Parkinson bem avançado, a Janet nervosa ao esticar a chama para inflamar a tocha do Ali, o Ali a deixar que fagulhas caíssem sobre o seu braço, o medo de que ele não conseguisse acender a pira e assim por diante. Tão emocionante que eu até chorei”.


Emoções terminadas na abertura, vieram as emoções dos dias de competição, em meio aos trabalhos adicionais no estúdio de 120 m² montado no Centro Internacional de Transmissões (Silvio Lancellotti comentou: “(...) A segurança era tão grande que, da rua até o estúdio da Record, passávamos por seis barreiras com detectores de metal”). Com ênfase nas transmissões dos jogos do Brasil no torneio masculino de futebol, a equipe Luiz Alfredo-Mário Sérgio-Eli Coimbra se destacava nas transmissões da Record, que ostentava cinco câmeras exclusivas em sua cobertura. Luiz Alfredo ainda trabalhava na apresentação do Record Olímpica, informando o que ocorrera no dia. Márcio Moron e José Luiz Datena corriam Atlanta e arredores afora, para as reportagens sobre os Jogos. E coube a Datena cobrir o atentado no Centennial Olympic Park, em 27 de julho. Silvio Lancellotti se recordou de como o atual apresentador da TV Bandeirantes se mobilizou às pressas, após a explosão: “O Zé largou o sanduíche na mesa, catou um cinegrafista e imediatamente zarpou no rumo do ponto da explosão pra descobrir o que havia. Foi o único brasileiro a cobrir aquela confusão enorme”.


Já Carlos Valadares monopolizou as lutas no pugilismo: com a experiência ganha nas narrações do “telecatch” junto a Bob Rum na Rede OM (1992), nas lutas de boxe no SBT (1993) e na TV Manchete (1994 e 1995), o locutor mineiro narrava e também comentava os confrontos olímpicos entre os boxeadores. Em dupla com Valadares ou mesmo sozinho, Silvio Lancellotti foi onipresente nas outras modalidades em Atlanta. Brincando, o jornalista se lembrou ao Surto: “Fiz, como dizia o Wisnik, o ‘não tem ninguém, chama o Lancellotti’. No estúdio, em ‘offtube’, eu fiz a ginástica artística, a ginástica rítmica, os saltos, o nado sincronizado, o hipismo. Com presença [no local das disputas] fiz o atletismo, o basquete e a natação”.


Assim, Lancellotti pôde ser a voz que comentou, ou mesmo narrou, várias medalhas brasileiras em Atlanta. O jornalista começou se recordando do bronze de Fernando Scherer nos 50m livres masculinos: “Quando o Xuxa ganhou o bronze nos 50m livres, eu até mostrei a mão dele para uma câmera, apontei as unhas muito mais compridas que o normal e então observei que exatamente aquelas unhas eram as grandes responsáveis pelas frações de segundo que o separaram da quarta colocação”.


Mas para Silvio Lancellotti, nenhuma outra transmissão de medalha brasileira foi tão especial quanto os ouros do iatismo em Atlanta – tanto o de Robert Scheidt, na classe Laser, quanto o da dupla Torben Grael/Marcello Ferreira, na Star. A regata decisiva da Star, no dia 2 de agosto de 1996, em Savannah, mereceu destaque no depoimento de Silvio:


“Ninguém, jamais, antes, havia feito a cobertura, ao vivo, de uma prova de vela, ou iatismo, aqui no Brasil. Eu conhecia bem o esporte, já havia velejado, tinha amigos por lá, inclusive conhecia o Marcellão, já havia cruzado com o Scheidt em Ilhabela. A Record não pretendia fazer nada sobre o iatismo, cujas provas aconteceriam em Savannah, a 400 quilômetros de distância de Atlanta. O Brasil já havia fracassado na disputa do futebol, onde a emissora tinha apostado a maior parte das suas fichas. Eu garanti ao Lafon que ao menos um ouro viria de Savannah. E ele topou colocar, ao vivo, a transmissão da última regata da classe Star, com o Torben e o Marcellão. Por entender bem o regulamento, eu saquei que os dois australianos, o Colin Beashel e o David Giles, queimaram a largada. Sem os dois na prova, os brasileiros automaticamente levariam o ouro. E eu informei, com enorme vibração, que o Star do Torben e do Marcellão havia ganho o primeiro ouro do Brasil naqueles Jogos”.


A aposta de Silvio Lancellotti com Eduardo Lafon fora certeira. E resultou num momento alegre, naquela cobertura de Jogos Olímpicos que serviu para decretar: a TV Record estava de volta aos grandes eventos esportivos. O canal paulista ficaria ativo no esporte até 1998. Depois, se retraiu – até 2001, quando voltou para valer, graças a uma parceria com a Traffic. Mas só voltaria às transmissões olímpicas em 2012. E que volta!

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