Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira - Seul 1988: SBT - Surto Olímpico

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Os Jogos Olímpicos na Televisão Brasileira - Seul 1988: SBT

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(Vinheta de abertura das transmissões do SBT para os boletins e competições dos Jogos Olímpicos de 1988. Postado no YouTube por Thiago Rocha)


Narração: Ivo Morganti

Reportagens: Luiz Ceará e Kitty Balieiro

Apresentação: Suzana Rangel, Ivo Morganti e Sérgio Cunha


Em 1984, com sua história ainda na fase inicial e investimento praticamente inexistente no esporte, o SBT transmitiu os Jogos Olímpicos de Los Angeles mais para poder comprar também os direitos de transmissão da Copa de 1986 junto à Organização de Televisão Iberoamericana. Até por isso, nem exibiu as disputas olímpicas em Los Angeles com equipe própria, e sim num pool com a Record, que entrou com sua equipe de esportes enquanto a emissora de Silvio Santos bancava a maior parte dos gastos – até por SS também ter ações do canal de televisão da família Machado de Carvalho. Ao SBT, restou focar na participação feminina em 1984, com o programa A mulher nas Olimpíadas.

Para 1988, não haveria jeito: a Record vivia a crise que marcava o final de sua fase sob o comando dos Machado de Carvalho, sem poder sequer pensar em investimentos vultosos, e o SBT teria de encarar uma cobertura olímpica sozinho. Ainda mais porque seguia valendo a regra da OTI: quem não comprasse os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos e nem os exibisse, ficaria sem os direitos da Copa do Mundo dali a dois anos. Se o canal paulista era desinteressado por outros esportes, pelo menos no futebol havia um interesse incipiente – exemplificado pela transmissão do Campeonato Paulista, em anos anteriores, e pela final do Campeonato Brasileiro no ano anterior, entre Sport e Guarani. Enfim, se o SBT queria a Copa, teria de querer os Jogos Olímpicos.

E a TVS (outro nome pelo qual o SBT era conhecido então – baseado na TVS, a TV Studio do Rio de Janeiro, retransmissora do canal de Silvio Santos no estado fluminense) quis os Jogos Olímpicos. Mas terceirizou o planejamento e o investimento da cobertura, para uma empresa experiente em trabalhos esportivos: a JR Produções (empresa de Jorge Ramos, ex-diretor da Globo), responsável direta pela organização da rede independente de emissoras que exibiu os Jogos Pan-americanos de 1987, como se leu neste Surto Olímpico, no ano passado. A empresa investiu apenas US$ 1 milhão, formando uma equipe de 20 pessoas. A maioria delas, trabalhando dos estúdios em São Paulo. E Jorge Ramos reconheceu que a intenção não era das maiores, ao Jornal do Brasil, em 28 de agosto de 1988: “O público do SBT não está acostumado a ver esportes”.

Já nome fixo da pequeníssima equipe de esportes da TVS – havia narrado a final do Brasileiro de futebol em 1987 -, o jornalista Ivo Morganti entrou de cabeça na cobertura olímpica do canal. E estava otimista com a cobertura, ao falar à revista Istoé/Senhor, em 7 de setembro de 1988: “O Brasil ficará surpreso com a cobertura que faremos”. Ivo começou apresentando o Olimpíadas 88: exibido em três edições diárias (15h30, 18h30 e 19h40) e iniciado semanas antes do início das disputas em Seul, tratava-se de um misto de almanaque olímpico, com a história das modalidades que estariam em Seul, e preparativo para as disputas, com a apresentação dos nomes da delegação brasileira. Nessa fase “pré-Jogos”, o Olimpíadas 88 (também chamado Boletim das Olimpíadas) foi elogiado por Flávio Gomes, num texto na Folha de S. Paulo, em 11 de setembro de 1988: “A emissora de Silvio Santos conseguiu imagens de arquivo muito curiosas, como de mulheres nas competições de arco e flecha no início do século”.



(Edição do “Olimpíadas 88” exibida pelo SBT, antes dos Jogos Olímpicos de 1988, com a apresentação de Ivo Morganti. Postado no YouTube por Êgon Bonfim)

Cobertura iniciada, Ivo Morganti também seria a cara e a voz do SBT na transmissão propriamente dita dos Jogos, entre 17 de setembro e 2 de outubro de 1988. Agora com a companhia de Suzana Rangel na apresentação e os comentários de Sérgio Cunha, Morganti seguiu apresentando os boletins Olimpíadas 88 – a partir dali, em cinco edições diárias, dependendo do dia (15h30, 18h35, 19h40, 21h15 e 0h45). E se as disputas em Seul ocorriam durante a madrugada, no horário brasileiro, o Sistema Brasileiro de Televisão aproveitava para espichar o espaço do Olimpíadas 88: este ganhou um espaço ampliado, para servir de resumo do que ocorrera na madrugada anterior e mostrar o que viria. Só se alterava o horário dele: durante a semana, o Olimpíadas 88 ia ao ar à 0h45, logo após o telejornal Notícias de Primeira Página. Já aos sábados, a versão ampliada do programa olímpico do SBT começava a ser exibida às 16h50.


(Início da edição do programa “Olimpíadas 88”, transmitido pelo SBT no início da madrugada de 28 de setembro de 1988, com a apresentação de Ivo Morganti. Postado no YouTube por Êgon Bonfim)

E em competições propriamente ditas? O SBT exibiu poucas coisas: somente os jogos do Brasil nos torneios olímpicos de basquete (masculino), vôlei (masculino e feminino) e futebol foram transmitidos ao vivo pela emissora na madrugada brasileira, geralmente com a narração de Ivo Morganti. A compensação veio nas entrevistas: a JR Produções acertou contrato com vários atletas brasileiros que estavam em Seul, para que falassem diariamente aos repórteres do SBT, passando suas impressões dos torneios que disputavam – como se fossem “atletas comentaristas”. Já fazia parte das intenções de Jorge Ramos, conforme descreveu ao Jornal do Brasil o diretor da produtora contratada para os Jogos: “Vamos humanizar a cobertura. Vamos valorizar muito os atletas”. Do vôlei, viriam William (masculino) e Vera Mossa (feminino). Do tênis, o entrevistado do SBT em Seul seria Luiz Mattar. E da equipe de basquete, Marcel faria o “diário” ao canal. A intenção foi justificada por Jorge Ramos, novamente ao JB: “Queremos que o atleta dê sua opinião sobre o que aconteceu no seu esporte. Ele é quem vai explicar”.

Aí, sim, a JR Produções cuidou de contratar dois repórteres para serem os únicos enviados do SBT a Seul. Experiência esportiva já havia na carreira dos dois, ambos originados na TV Globo. Luiz Ceará trabalhara na emissora dos Marinho até 1986, e após rápida passagem pela TV Bandeirantes no ano de 1987, começava sua história próxima com o SBT (ficou lá por cerca de dez anos, entre idas e vindas) naquela pequena cobertura olímpica, entrevistando os atletas contratados. A outra repórter foi das primeiras mulheres que a editoria de esportes da Globo teve em São Paulo: Kitty Balieiro (1957-2019), que deixara a emissora no ano anterior, sendo prontamente contratada pela produtora de Jorge Ramos para fazer as entrevistas em Seul. O que não significava que o trabalho dos dois jornalistas paulistas se restringiria a falar com os atletas contratados: tanto Ceará quanto Balieiro eram presenças certas do SBT nas zonas mistas das principais competições, até para falarem com algum brasileiro que houvesse ganho medalha. Ou para noticiarem diretamente de Seul sobre os fatos mais relevantes – como, obviamente, a revelação do doping de Ben Johnson na final dos 100m do atletismo masculino.

Fora as transmissões dos jogos do Brasil nos esportes coletivos e as entrevistas diárias com os atletas, o SBT manteve o espaço apenas obrigatório para os Jogos Olímpicos de 1988. Às vezes, nem isso. Foi o caso na noite brasileira de 16 de setembro de 1988, o dia da cerimônia de abertura. Sabedor do fato de que dificilmente faria frente a Globo, Manchete e Bandeirantes na audiência, caso também exibisse a festa no Estádio Olímpico de Seul, Silvio Santos bateu o martelo: o SBT não transmitiria a abertura ao vivo. No lugar disso, a partir das 21h30 de Brasília, quando as imagens vindas da Coreia do Sul começariam a ser mostradas, a emissora paulista traria um arrasa-quarteirão cinematográfico: a primeira exibição de O Exterminador do Futuro (1984), filme que alçou Arnold Schwarzenegger ao estrelato mundial no cinema de ação. E só depois do filme, viria um compacto da cerimônia de abertura, com a narração de Ivo Morganti. Deu certo: a audiência somada das três emissoras que haviam mostrado o evento em Seul foi de 47 pontos, e o SBT saboreou 31 pontos de audiência. Marca nada desprezível.

Mas foi com aquela cobertura ainda pequena dos Jogos Olímpicos que o SBT teve mais a comemorar. Em primeiro lugar, claro, pôde dar atenção à transmissão da Copa de 1990, cujos direitos também pôde comprar junto à OTI. Em segundo lugar, porque vieram mais espaço e mais estrutura para as coberturas olímpicas seguintes. O telespectador do SBT podia não ser o mais poliesportivo dos seres, mas também gostava dos grandes eventos.

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