Jogos Olímpicos na Televisão brasileira - Los Angeles 1984, Bandeirantes - Surto Olímpico

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Jogos Olímpicos na Televisão brasileira - Los Angeles 1984, Bandeirantes

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Por Felipe Dos Santos Souza

 

Narração: Luciano do Valle, Osmar de Oliveira, Jota Júnior e Álvaro José

Comentários: Álvaro José (vôlei/atletismo/basquete), Edvar Simões (basquete), Paulo Russo (vôlei), Júlio Mazzei (atletismo) e Juarez Soares (futebol)

Reportagens: Elia Júnior, Roberto Cabrini, José Eduardo Savóia, Gilson Ribeiro e Álvaro José

Apresentações: Juarez Soares


A essas alturas, a TV Bandeirantes já tinha tradição nada desprezível em esportes. No entanto, tal tradição se consolidaria a partir de 1984, graças a um encontro dos mais lembrados da história da televisão brasileira - a novidade mais admirada nas transmissões esportivas brasileiras, durante aquela década de 1980. Para descrever tal novidade, vale voltar alguns anos no tempo. E descrever os caminhos do protagonista indiscutível dela: Luciano do Valle. 


No começo daquela década, ainda como principal narrador da TV Globo, Luciano tinha uma insatisfação e um desejo, ambos de ordem pessoal. A insatisfação vinha das pressões que o narrador paulista sofria, para adotar uma linha mais popular nas transmissões, motivada pelo sucesso de Silvio Luiz na TV Record paulista. O locutor global também penava ao ser acusado de bairrismo (injustificada, a seu ver). Tal acusação teve seu ápice na narração para São Paulo 3×2 Botafogo, semifinal do Campeonato Brasileiro de Futebol em 1981. Naquele jogo no Morumbi, a Globo recebeu telefonemas de ambos os lados. Os torcedores paulistas reclamavam de suposto excesso de Luciano pró-Botafogo; dos torcedores cariocas, as queixas eram no sentido oposto. Só restava um consolo, conforme o narrador citou à revista Placar em 1983: "A história vem se repetindo tantas vezes que cheguei à conclusão de que uma transmissão é imparcial quando você é acusado pelos torcedores das duas equipes de torcer para o adversário".


Já o desejo pessoal era abrir mais espaço para mais modalidades, dentro da televisão. Nem era de se impressionar tal desejo, tendo em vista as aventuras e desventuras de Luciano ao longo de sua carreira, já então longa. Em 1971, ainda começando na TV Globo, o paulista de Campinas chegou até a ser técnico do time de basquete feminino do Tênis Clube de São José dos Campos, em parceria com o colega de Globo Ciro José Gonsales - chegando ao vice-campeonato regional. Nas coberturas grandes, o interesse de Luciano continuou. Falando à revista Placar, em outubro de 1982, ele contava: "No estrangeiro, enquanto o pessoal ia tomar vinho, eu passava a sanduíches para ter tempo de observar as delegações de outros países". 


Essas observações incluíam até cursos livres durante os Jogos Olímpicos de 1976, com Bob Knight, que treinaria a seleção norte-americana de basquete masculino, campeã no Pan-Americano de 1979 e nos Jogos Olímpicos de 1984. Enfim, esse interesse foi sintetizado em duas frases. No depoimento ao projeto "Memória Globo", em 2007, Luciano descrevia: “De futebol eu sempre gostei, mas eu gostava também do esporte em si, eu acho que o futebol não poderia ser sinônimo de esportes”. E na entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, em 2013, o narrador repetiu: "Eu sempre adorei futebol. Só que o futebol se vende sozinho, não precisa do apoio que outras modalidades precisam".


Com essa intenção de mais apoio ao que então era chamado "esporte amador", Luciano abriu em 1981 a PromoAção, empresa para promover e noticiar eventos esportivos de outras modalidades, com os empresários José Francisco Coelho Leal (o “Quico”) e José Cocco. Ainda na Globo, os eventos da PromoAção já tiveram espaço, com a transmissão do Sul-Americano de Vôlei Feminino, em 1981, em Santo André, região do ABC paulista. De quebra, no mesmo ano a emissora carioca deu espaço então incomum a outros esportes: exibiu, por exemplo, a final masculina de simples do Torneio de Wimbledon, e o Mundial de Atletismo, em Roma. 


Todavia, Luciano, Quico e Cocco queriam mais. Como temia o narrador, a emissora em que trabalhava não deu ouvidos às suas propostas de acordo, ciosa tanto dos compromissos comerciais que já tinha quanto da rígida grade de programação que a Globo sempre teve. E Luciano sabia o que queria, como resumiu à revista Placar: "Não aguentava mais continuar apenas como locutor, queria aplicar todo o know-how que reunira. Mas a Globo jamais me daria essa oportunidade, pois tem compromissos comerciais muito fortes". Então, Luciano fez a proposta justamente a Silvio Luiz, seu concorrente e diretor de esportes da Record, com quem tinha relação cordial. Após algumas reuniões com a direção da Record, Silvio aceitou a proposta de Luciano, entre o fim de 1981 e o começo de 1982.


Então, o principal narrador da Globo já iniciou 1982 - ano de Copa do Mundo, na Espanha - dando a impressão de que seria aquele seu último ano na emissora carioca. Enquanto narrava os principais jogos daquele Mundial, também convidava outros colegas para o projeto da PromoAção na Record. Uns recusaram, como Raul Quadros (1942-2016); outros aceitaram na hora, como os jornalistas Paulo Mattiussi e Juarez Soares (1941-2019), colegas de primeira hora de Luciano. Em 11 de julho de 1982, Luciano narrou a vitória da Itália na final da Copa. Menos de um mês após ela, em 8 de agosto de 1982, anunciava a saída da TV Globo e a imediata aliança da PromoAção com a TV Record, na qual transmitiria principalmente outros esportes que não fossem o futebol (este seguiria a cargo de Silvio Luiz, cujas transmissões eram o único êxito da emissora então pertencente aos Machado de Carvalho).

 

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Luciano aprofundava a explicação: “Minha saída da Globo, apesar de ter sido por razões profissionais, tem um caráter pessoal. Há um ano e oito meses tenho uma empresa de promoções esportivas – organizadora, por exemplo, do Campeonato Sul-Americano de Vôlei – e precisava trabalhar numa emissora sem os grandes compromissos comerciais que a Globo tem para cobrir tais eventos. A TV Record topou essa parada: o negócio é compensador do ponto de vista financeiro; e por isso, saio da Globo”. De quebra, teria o trunfo de uma parceria com a Confederação Brasileira de Vôlei, o que dava exclusividade na transmissão dos jogos das seleções da modalidade.


Ainda que a justificativa fosse inquestionável, o choque foi inevitável: afinal, Luciano abria mão de uma posição invejável, principal narrador da Globo que era. Ele reconheceu os riscos, na entrevista supracitada: “A partir de agora, eu terei a noção de qual é exatamente o meu público (…) Pode ser que meu público se resuma só na minha mãe. Se for assim, paciência. Mas cada meio ponto que eu ganhar no Ibope será devidamente comemorado, como uma grande conquista”. 


Com a parceria PromoAção/Record, Luciano viu que sua audiência pessoal era grande. Já estreou na emissora paulista em 28 de agosto de 1982, narrando Brasil x Argentina, pelo Mundialito de Vôlei Feminino, no Ginásio do Ibirapuera, competição vencida pelo Peru. Mais um mês, e em setembro a PromoAção promoveu (e Luciano narrou) o Mundialito de Vôlei Masculino, no Maracanãzinho. O triunfo da equipe brasileira sobre a União Soviética, então campeã olímpica, mostrou: aquela geração - Bernard, William, Montanaro, Xandó e Amauri à frente - estava destinada a coisas grandes. O vôlei no Brasil estava definitivamente popularizado. 


Em outubro, ainda houve a transmissão exclusiva do Mundial de Vôlei Masculino, na Argentina. O Brasil caiu para a União Soviética na final, mas aquela geração promissora de voleibolistas apaixonara o país – e a aposta de Luciano era sucesso, unanimemente apontada como um dos destaques da televisão brasileira em 1982. Tudo graças à dedicação de Luciano naquelas transmissões do vôlei, que contavam com Eli Coimbra e Juarez Soares nas reportagens, mais um convidado especial nos comentários: Paulo Sevciuc – ou melhor, o professor Paulo Russo, técnico da seleção masculina nos torneios olímpicos de 1972 e 1980.


A aliança entre PromoAção e Record dava certo. Ousadias como o “Grande Desafio de Voleibol” no Maracanã, em 26 de julho de 1983, com os times masculinos de Brasil e União Soviética fazendo um clássico no estádio em meio a pesada chuva (vitória brasileira, 3 sets a 1), justificavam o apelido iniciado de “Luciano do Vôlei” e mostravam que o paulista de Campinas havia deixado de ser “só” um dos melhores e mais conhecidos narradores do país para se tornar um empresário esportivo de sucesso. Sem contar que, àquela altura, já se ensaiavam passos maiores - por exemplo, no nome "Show do Esporte", já dado a um misto de noticiário e debate esportivo que a PromoAção produzia para a TV Record, nas noites de domingo. 


Por tudo isso – e por problemas internos do departamento de esportes da TV Record -, Luciano sentiu necessidade de uma estrutura maior para a PromoAção trabalhar. Aí, em meados de 1983, a TV Bandeirantes chegou oferecendo dez horas de programação aos domingos, seis horas aos sábados, duas horas de segunda a sexta e uma rede nacional de emissoras maior do que a Record tinha. Era tentação demais para deixar passar. E Luciano aceitou, encontrando a emissora de cuja história se tornaria o símbolo esportivo. Em 2013, ao supracitado Bola da Vez, lembrava com carinho: “Eu sou ‘membro’ da família Saad. Quando fui contratado, o Johnny [Saad, superintendente do Grupo Bandeirantes] colocou a chave do departamento na minha mão e me disse ‘é sua, faça o que quiser'”.


Durante os Jogos Pan-Americanos de Caracas, ainda em parceria com a Record, Luciano já começou a sondar alguns possíveis reforços para levar rumo à emissora paulista do bairro do Morumbi. Com um deles, já fez um acordo verbal: Osmar de Oliveira, que trabalhava naquele Pan pela TV Globo. Logo após o Pan, a maioria da equipe capitaneada por Luciano na PromoAção já foi para a Bandeirantes. Porém, o chefe teve de cumprir todo o contrato com a Record, até o fim daquele ano. 


Enfim, em 28 de janeiro de 1984, Luciano do Valle estreou na Bandeirantes, reestreando no futebol: foi dele a narração para Flamengo 1×0 Palmeiras, primeira rodada do Campeonato Brasileiro de 1984. Iniciava-se a partir dali a realização da vontade definitiva do narrador/empresário: fazer uma “emissora a cabo, aberta”. Foi isso mesmo que fez, com o início da fase definitiva do “Show do Esporte”, mostrando várias modalidades na Bandeirantes, das 10h às 20h de domingo. 


(Cenas do “Show do Esporte”, programa da TV Bandeirantes, durante o ano de 1984 – incluindo a cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Postado no YouTube por Êgon Bonfim)


Para tanto, Luciano tinha à disposição uma equipe de jornalistas bem formada. Além de comentarista nos jogos de futebol, seu fiel escudeiro Juarez Soares era o apresentador do “Show do Esporte”. Nas reportagens, chegavam nomes já experientes, embora ainda jovens. Elia Júnior já era contratado da Bandeirantes desde 1981; Roberto Cabrini chegava da TV Globo (começara lá como repórter esportivo, e já era correspondente em Nova Iorque), de onde também viera Gilson RibeiroJosé Eduardo Savóia tinha trajetória longa no Jornal da Tarde paulista. Para as narrações, além do citado Osmar de Oliveira, Jota Júnior - ou melhor, José Franciscangelis Júnior, paulista de Americana - era mais um nome que já estava na Bandeirantes e entraria para a turma da PromoAção. Finalmente, mais um nome entraria na aposta de Luciano do Valle: após passar pela TV Globo entre 1981 e 1982, Álvaro José aceitou o retorno à Bandeirantes, a partir de 1983.


Vontade de ampliar o espaço do esporte, não faltava. Vontade de criar eventos dentro do "Show do Esporte", também não. Só que de nada adiantariam essas vontades se as grandes coberturas não fossem concretizadas. Assim, tão logo a parceria se concretizou, a PromoAção se mexeu para pagar a cota da emissora à OTI (Organização de Televisão Iberoamericana) e comprar os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos, o que ajudaria duplamente o projeto: por enfatizar que a Bandeirantes priorizaria outros esportes tanto quanto o futebol, e por possibilitar a presença na Copa de 1986 - lição ensinada pela aposta que permitiu a Globo e emissoras educativas mostrarem sozinhas a Copa de 1982.


Luciano do Valle saiu da Globo, passou rápido pela Record, mas só na Bandeirantes encontrou o espaço desejado para dar mais espaço ao esporte na televisão (Irmo Celso/Abril Imagens)


Assim, com algum esforço, as cotas de publicidade foram vendidas. E a parceria PromoAção/Bandeirantes pôde transmitir os Jogos Olímpicos já em 1984, na primeira cobertura olímpica da história do canal paulista. Era uma equipe pequena enviada a Los Angeles e demais locais de competição: 22 pessoas. Mas para fazer um trabalho grande: sete horas diárias de programação, mais um boletim informativo a cada 30 minutos. Luciano, claro, era o grande nome da cobertura: narraria presenças brasileiras no basquete, no futebol... e consolidaria ali sua imagem de nome ligado ao vôlei: seriam dele, previsivelmente, as narrações do torneio masculino de vôlei, com Paulo Russo e Álvaro José se alternando nos comentários das partidas na Arena de Long Beach. Valendo-se do trabalho feito nos dois anos anteriores com a CBV, as transmissões impulsionaram a audiência da Bandeirantes. 


(Pontos finais de Brasil 3 sets a 0 na Itália, semifinal do torneio olímpico de vôlei masculino, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 8 de agosto de 1984, na Arena de Long Beach, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Luciano do Valle e os comentários de Álvaro José. Postado no YouTube por “pedro nedved”)


Para as transmissões de algumas partidas da Seleção Brasileira no torneio olímpico de futebol, Osmar de Oliveira e Júlio Mazzei (muito experiente como preparador físico - e treinador, mais esporadicamente) formaram a dupla de narração e comentários, com as participações de Juarez Soares, que ficou no Brasil apresentando o “Show do Esporte”. Osmar também figuraria nas provas de natação, sendo a voz para a medalha de prata de Ricardo Prado nos 400m medley. Paralelamente, Roberto Cabrini, Elia Júnior e José Eduardo Savóia corriam Estados Unidos afora acompanhando as competições e fazendo reportagens para os noticiários – esportivos ou não. Para Jota Júnior (e também Luciano), ficavam também as partidas do basquete masculino, com mais um nome reconhecido da modalidade nos comentários: Edvar Simões.


Além das provas, a Bandeirantes também dava jeito de alcançar os atletas pela intimidade. Não raro, durante os Jogos, Juarez Soares (apresentando o Show do Esporte dos estúdios em São Paulo, aos domingos) tinha a seu lado esposas de alguns brasileiros que competiam em Los Angeles. Dava certo, mas motivava alguns constrangimentos, como Gabriel Priolli opinou na Folha de S. Paulo, em 9 de agosto de 1984: “É simpático, mas às vezes, ficam constrangedoras certas ‘intimidades via Embratel’”.


(Juarez Soares comentando sobre a medalha de bronze ganha por Walter Carmona, na categoria até 86kg do judô masculino, nos Jogos Olímpicos de 1984, durante a cobertura da TV Bandeirantes)


Por fim, se houve um nome que aproveitou aquela cobertura ainda incipiente da Bandeirantes, foi Álvaro José. A partir de então, o jornalista colocaria em prática duas lições que o pai Álvaro Paes Leme lhe passara. Ao UOL, em 2016, Álvaro citou tais lições. A primeira, refletida numa frase: “Meu filho, há três profissões que vão estudar até o fim da vida: advogado, professor e jornalista”. A segunda, numa dica: “Muitos jornalistas entendem de futebol e você pode ser mais um deles. Mas poucos entendem de esportes olímpicos. Você adora mitologia e história e isso é a base do esporte!” 


No calor de Los Angeles, sem camisa: assim Álvaro José e Elia Júnior acompanharam o ouro de Joaquim Cruz nos Jogos Olímpicos de 1984 (Arquivo pessoal de Elia Júnior)

E Álvaro começou a provar ali que entendia. Não só nos comentários às partidas de vôlei, nem nas narrações do vôlei feminino (era dele a voz a narrar a derrota brasileira por 3 sets a 0 para a China, estreia de Isabel, Vera Mossa e companhia no torneio olímpico), nem nas reportagens sobre as partidas de basquete. Mas principalmente, nas participações narrando as provas de atletismo no Coliseu de Los Angeles. O que lhe rendeu a sorte grande: foi de Álvaro José, com os comentários de Elia Júnior, a narração do ouro de Joaquim Cruz nos 800m masculinos. Momento lembrado por Elia ao UOL, em 2019, pelo lado pitoresco: “Nós estávamos no Estádio Olímpico sem camisa porque na época não tinha câmera na cabine. Estava um calor danado”.


(A vitória que deu a Joaquim Cruz a medalha de ouro nos 800m do atletismo masculino, nos Jogos Olímpicos de 1984, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Álvaro José)


Tão importante quanto a vitória de Joaquim Cruz era a vitória da Bandeirantes: mesmo que a PromoAção de Luciano do Valle (e José Francisco “Quico” Leal) ainda não tivesse feito uma cobertura tão grande quanto a sua vontade, começava muito bem o caminho que daria à emissora o epíteto pelo qual até hoje ela é conhecida: o “canal do esporte”.

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