Rotina de atleta, vida de criança: um papo com a skatista Rayssa Leal - Surto Olimpico

Anúncio

Anúncio
Se inscreva em nosso canal!

Rotina de atleta, vida de criança: um papo com a skatista Rayssa Leal

Compartilhe

 


Como muita gente envolvida no meio esportivo sabe, vida de atleta não é fácil. Requer esforço enorme e um comprometimento num nível em que muitas vezes é necessário abdicar de momentos de lazer com a própria família e amigos. Junte isso com a fase adulta então. Preocupações com o boleto que vai vencer, documentação que vai vencer, aluguel que vai vencer, mas no fundo você queria só se preocupar em vencer sua corrida ou jogo. 


Mas como superar tudo isso e não tornar a vida adulta dentro do esporte tão massante? Neste 12 de outubro, comemoramos o Dia das Crianças com uma entrevista especial e exclusiva daquela que pode nos ajudar um pouco a entender como é possível deixar a vida mais leve e ainda assim continuar perseguindo nossos sonhos. Falamos com a skatista Rayssa Leal, de 12 anos, atual número 2 do ranking mundial adulto do Skate Street e que tem chances de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021.


Esqueça o papo sério sobre resultados e metas para o futuro. Rayssa, conhecida como a "Fadinha do Skate", quer se divertir em pista, superando os obstáculos que encontra e aprendendo mais manobras. O que chamamos de trabalho é encarado por ela como uma "brincadeira com responsabilidade". Quando perguntada se ainda se considera criança, ela não faz alarde.


"Sim (me considero uma criança). Para mim o skate é uma brincadeira. Só que com responsabilidade. Então, quando estou andando de skate também estou brincando", disse a menina que, caso confirme sua classificação para as Olimpíadas de Tóquio, será a atleta mais jovem a representar o Brasil em toda a história olímpica, com 13 anos e 203 dias. 


Ela poderá superar Talita de Alencar Rodrigues, que aos 13 anos e 347 dias disputou a final do revezamento 4x100 livre em Londres 1948. Mas isso não é algo que assusta ou preocupa Rayssa. "Ir às Olimpíadas seria um sonho. É legal quebrar recordes, mas não me preocupo muito com isso. Eu só penso em andar de skate, aprender manobras novas e me divertir".


Em sua vida normal, sem essa pandemia que transformou a rotina de todos em 2020, Rayssa ainda conseguia estar perto de suas amizades, tanto as da escola como aquelas feitas durante as viagens para torneios. 


"Agora eu tenho amigos em vários lugares que a gente viaja para competir. E algumas pessoas vêm falar comigo. Pedem para tirar foto. E eu fico feliz por isso", ressaltou Rayssa. "Eu gosto muito dos meus amigos da escola também. A gente estuda, brinca. Gosto muito de estar com eles. Tem até algumas meninas 'menores' que eu, que dizem que sou a inspiração delas. E fico muito feliz. Quando estou triste, lembro disso, pois é algo que me alegra", explicou.


Atualmente no sétimo ano do ensino fundamental, a garota carrega seus livros na mochila durante as longas viagens, para poder estudar. Ela divide seu espaço livre entre idas e voltas, com as leituras, os vídeos de manobras e as músicas da banda Charlie Brown Jr e do grupo multicultural Now United, que ela revelou ter começado a escutar há pouco tempo. 


Quando não está em período de competição ou em algum treinamento, Rayssa gosta também de jogar futebol ou videogame. E assim como quase toda criança desta década, ela adora jogar o famoso Free Fire, game em que você pode estar conectado com outros 49 jogadores em um modo de batalha pela sobrevivência. 


Andando de skate desde os 6 anos, Rayssa impressiona até mesmo os familiares. Haroldo Leal, pai da menina, afirmou que foi uma evolução muito rápida. "Ela evoluiu muito rápido mesmo. Ela pega as manobras com facilidade. Realmente, tudo que ela se dispõe a aprender, acontece de forma rápida". 



Haroldo revelou ainda uma virtude de Rayssa, que demonstra seu empenho e amor pelo que faz. "A Rayssa é muito persistente. Ela não sai da pista enquanto não acerta as manobras que está tentando. Acho que esse amor pelo skate e essa dedicação são grandes virtudes dela". 


A garota tornou-se em 2019 a skatista mais jovem a vencer uma etapa da Street League, uma das principais competições da modalidade. Ela ficou na frente de nomes como Pâmela Rosa, Leticia Bufoni e Aori Nishimura no evento disputado em Los Angeles. Como se isso não bastasse, a 'fadinha' ainda foi indicada ao Prêmio Laureus, considerado o 'Oscar do esporte', na categoria melhor atleta de ação. 


E se engana quem pensa que Rayssa já tem um plano definido para a vida, com mil tarefas e trabalhos 'de perder de vista'. Por enquanto ela quer apenas "poder continuar andando de skate, aprender manobras novas, continuar viajando e fazendo novas amizades".


O apoio da família tem sido fundamental nessa curta, mas meteórica carreira. Haroldo conta que se preocupa muito em fazer com que Rayssa tenha tempos livres em sua rotina e afirma que gosta de dar liberdade para que ela possa fazer suas próprias escolhas. 


"A gente procura organizar a rotina dela para conciliar o skate com a escola e também momentos para ela brincar. Essa é uma preocupação muito grande nossa, que ela tenha tempo livre. E os estudos também são uma preocupação. Por isso sempre levamos os livros dela nas viagens e fazemos questão que ela vá à escola quando estamos em casa". 


"Além disso, procuramos deixar a Rayssa muito livre para fazer as escolhas dela. Foi assim com o skate. Como ela mesmo fala, uma brincadeira com responsabilidade. Eu e a mãe dela sempre vamos incentivá-la a fazer o que deixar ela feliz. E claro, estar perto quando ela precisar", disse Haroldo.


O carinho e a felicidade por ser apoiada pelos pais é fundamental para o desenvolvimento de Rayssa. E ela mesma ressaltou essa importância. "Isso representa tudo. Eles sempre me apoiaram. Sempre viajam comigo. E isso é muito importante para mim".


Assim como toda criança (e adultos também), Rayssa tem medos. Mas o maior deles é de, não poder fazer o que mais gosta. "Já tive medo de me machucar e precisar ficar um tempo sem andar de skate. Mas não penso muito nisso. Sei que Deus está me protegendo". 


Skate também é coisa de criança


Rayssa não é a única menina com menos de 15 anos entre as 15 melhores skatistas do mundo na modalidade Street. Outras três jovens garotas estão no seleto grupo, incluindo outra brasileira, Virginia Fortes Águas, de 14 anos, atual número 10 do mundo e que também poderá disputar uma vaga em Tóquio 2021. 


Segundo dados do Datafolha, cedidos pela Confederação Brasileira de Skate (CBSk), das 8,5 milhões de pessoas que andam de skate no Brasil, 29,93% têm entre 11 e 15 anos. Além disso, crianças até 10 anos representam 10,67% do total de praticantes, o que significa que 40,6% da 'tribo' do skate é composta por crianças e adolescentes. 


E para desenvolver mais ainda o futuro deste esporte no país, a CBSk teve uma iniciativa considerada por sua cúpula, "inovadora": a criação da seleção brasileira de skate Sub-15. 


"A criação de uma Seleção Brasileira de Base já era um sonho da CBSk. Pensando na vertente esportiva do skate, o trabalho de formação é fundamental. Isso faz toda a diferença quando pensamos no esporte de alto rendimento. Vínhamos trabalhando esse projeto e recentemente ele recebeu aprovação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB)", disse o presidente da entidade, Eduardo Musa, que pediu licença temporária do cargo um dia após a entrevista com o Surto Olímpico. 


Porém, Musa deixa claro que nada muda para as (os) atletas que já participam das seleções adultas e que pela idade, se encaixam na seleção Sub-15. "A seleção brasileira principal é formada com base no ranking mundial. É um critério objetivo que define seus integrantes. Não apenas a Rayssa Leal, mas outras skatistas seleção principal têm 15 anos ou menos, como a Virginia Fortes Aguas, a Isabelly Ávila, a Victoria Bassi e a Isadora Pacheco. Todas elas integram a seleção principal pelo mérito de suas posições no ranking mundial. A criação da Seleção Sub-15 não muda em nada esse contexto".


"O skate sempre conviveu com essa diferença de idade entre os participantes. Competições como o Circuito Mundial não fazem essa distinção. Essa mistura de idade faz parte da cultura do skate. Nas competições amadoras, até há uma divisão por idades. Mas a pouca idade não impede que um skatista desponte e passe a competir os principais eventos do mundo do skate", reiterou Musa. 


Foto: Julio Detefon

Nenhum comentário:

Postar um comentário