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Surto História: Glória e esquecimento na medalha de bronze de Bermudas no Boxe


Bermudas é um território britânico que fica encrustado no Caribe. A língua oficial é o inglês, mas devido ao número de descendentes portugueses, o português é uma das línguas mais faladas no arquipélago. 

A população estimada é de apenas 66.163 habitantes, conforme dados de 2007 e ganhou notoriedade ao levar um atleta ao pódio olímpico, por ser o país de menor população a conseguir tamanho feito. O boxeador Clarence Hill foi o responsável. 

Clarence Hill disputou as olimpíadas de Montreal, em 1976. Ele representou o país acompanhado de outros 19 atletas. Porém, nenhum outro atleta da ilha teve tanto sucesso quanto ele. 

O boxeador iniciou sua jornada já nas oitavas de final. Enfrentou, na ocasião, Parviz Badpa, do Irã, e nocauteou o seu adversário, passando para as quartas. A vitória já garantiria a inédita medalha para Bermudas. O adversário foi Raudy Gauwe, da Bélgica, e Clarence não deu qualquer chance ao seu adversário, vencendo por unanimidade e seguindo para as semifinais. 

Nessa altura, a medalha já era certa. O feito inédito animara toda a pequena população de Bermudas. Diante da oportunidade, o atleta queria alçar voos mais longos. 

A semifinal aconteceu contra o atleta da Romênia, Mircea Simon. Mas o sonho olímpico parou ali mesmo, garantido a inédita e até hoje única medalha olímpica da nação. Mircea venceu por decisão unânime e, mais tarde, ficaria com a medalha de prata, após ser derrotado na final pelo cubano Teófilo Stevenson, lenda do esporte e tricampeão olímpico. 

Clarence ainda afirma que a sua derrota na semifinal foi contestada: "Eu pensei que havia ganho e quando eles anunciaram o meu adversário como o vencedor, as pessoas na plateia vaiaram", disse Hill em entrevista. 

Em que pese o feito, o atleta já declarou que se sente um homem esquecido e que não seria reverenciado pelos compatriotas de forma condizente com o seu feito. 

Quatro anos depois, Hill se tornou profissional e teve uma carreira de destaque, vencendo 17 e empatando 1 de suas 20 lutas antes de se aposentar em 1986. 

Após a aposentadoria, o atleta diz que se sentiu esquecido pela nação que defendeu em Montreal-1976. Passou a se sentir perdido e desiludido, em suas palavras, entregando-se à dependência de drogas e cometendo diversos delitos para alimentar seu vício. Hill foi condenado por vários crimes e passou um bom tempo na prisão. 


Essas circunstâncias fizeram Clarence Hill alimentar um profundo ressentimento em relação ao governo das Bermudas pela falta de apoio, tanto financeira como moral. 

“Quando me aposentei, fiquei deprimido e comecei meu vício em drogas. Eu disse ao Premier John Swan (espécie de governador apontado pela Rainha) 'senhor, eu me encontrei viciado em drogas, você pode me tirar daqui?' Ele me disse que não poderia me ajudar e me senti ainda mais deprimido. Sentia que o governo me devia pelo que fiz para as Bermudas”. 

Ainda hoje o ex-boxeador luta contra a dependência e em 2015 esteve internado no Centro de Bases para Tratamento de Abuso de Substâncias em Dockyard. 

Um mistério envolve o paradeiro da medalha de bronze do boxeador, que se mantém enigmático sobre o assunto, mas insiste que sabe exatamente onde ela está. 

"Ainda tenho minha medalha, mas ninguém jamais a verá. Eu disse à Bermuda, há muitos anos, que eles nunca a veriam por causa da maneira como estavam me tratando”. 

Em 2012, um cabo político utilizou a ideia de valorizar Clarence Hill na ilha, erguendo em sua homenagem uma estátua de bronze. Porém, o atleta sempre deixou claro que preferiria que a nação investisse esse dinheiro em melhorias para o esporte que o consagrou. 

O seu desejo não é a construção de monumentos, mas ser respeitado e, ainda mais importante, lembrado por suas realizações dentro do ringue.

Fotos: Divulgação

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