Os movimentos
precisam ser cheios de graça e precisão, mas está difícil para Natália Gaudio
se concentrar em seus treinos. Na cabeça, preocupações com o futuro a desviam de
seu foco: brigar pela vaga do Brasil no individual geral da ginástica rítmica
das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Justamente no ano pré-olímpico, a capixaba
se depara com a barreira da incerteza por conta de atrasos salariais no Coes
(Centro Olímpico do Espírito Santo) e da indefinição de bolsas da Sesport
(Secretaria de Esporte e Lazer do Espírito Santo). Por isso, a ginasta puxa um movimento
de atletas em busca de apoio para reverter a situação no Coes.
- Ficamos muito
tristes com o que estamos passando. Imaginávamos que 2015 seria o melhor ano (em
termos de investimentos), porque é o mais importante, imaginávamos que teríamos
mais retorno, mais apoio. Estamos muito comovidos com isso, tentando mostrar ao
Brasil que o problema não é só no Espírito Santo. Queremos comover o Brasil
inteiro e chamar a atenção. Precisamos de respostas, saber o que vai acontecer
daqui para frente. É um momento de angústia, porque treinamos preocupados com
nosso futuro. É um ano decisivo, cada dia é perdido se não souber aproveitar.
Treinamos preocupados, e isso afeta - disse Natália.
O Coes é um
projeto federal, mas cabe à Sesport fazer os pagamentos dos técnicos e da
equipe multidisciplinar (médicos, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas,
por exemplo). O Ministério do Esporte informa que passou à Sesport os recursos referentes
ao convênio. Ainda assim, 15 técnicos das nove modalidades do Coes
(handebol, ginástica rítmica, ginástica artística, natação, vôlei de praia,
boxe, judô, taekwondo e badminton) estão com salários atrasados desde janeiro.
- Eles nem nos recebem.
É como se não tivesse acontecendo. A Sesport apenas escreveu uma nota dizendo que
precisa esperar. São questões básicas. Tem de pagar pedágio na ponte para ir ao
Coes. Como pagar se não tem renda? Temos contas atrasadas também. Estou me
mantendo com ajuda da minha família, com empréstimo, com ajuda de amigos, porque
não podemos parar de treinar. Os treinos estão sendo prejudicados no ano mais
importante - disse a técnica de Natália, Monika Queiroz.
Natália também
não pode contar com a bolsa-atleta do Espírito Santo, que teve seu edital
lançado no fim de 2014, mas o resultado dos atletas contemplados ainda não foi
divulgado. A ginasta ainda consegue se manter com a ajuda de um patrocinador e
da CBG (Confederação Brasileira de Ginástica). No entanto, os recursos não são
suficientes para garantir o planejamento da preparação para a briga pela vaga
brasileira - Natália disputa o posto principalmente com Angélica Kvieczynski e
Andressa Jardim.
- Até agora os
programas não foram renovados. Já estamos perdendo grandes eventos. Precisamos
viajar para competir. Recebemos o apoio da GBG para o Pan e o Mundial, mas
precisamos participar de mais eventos do calendário para mostrar nosso trabalho
lá fora. O mundo precisa ver que o Brasil está evoluindo. Árbitros precisam nos
conhecer para ver com bons olhos. Não podemos competir sem eles nos conhecerem.
Eu já estou passando por grandes dificuldades. A família que me apoia muito. Não
fosse por eles eu já teria desistido. Estou indo para uma etapa da Copa do Mundo
na Romênia e estou pagando tudo do meu bolso. Ainda não consegui a passagem. Se
não conseguir até semana que vem, já pensamos em fazer vaquinha, financiamento
coletivo de tudo, porque o custo da viagem toda sai de 15 a 20 mil reais -
contou Natália.
O suporte
familiar tem sido decisivo para que a ginasta não desista do sonho olímpico,
não apenas com incentivo como com apoio financeiro, já que o equipamento da
ginástica rítmica é caro e inclui collants de R$ 2 mil. Ela afirma que a paixão
a mantém no tablado mesmo com as dificuldades deste início de ano.
- São
16 anos de carreira. Faço ginástica por amor, faço desde os seis anos, por isso
nunca pensei em desistir. Tomamos esse choque por conta desses problemas, mas
estamos torcendo muito. O Coes é maravilhoso, traz uma estrutura que todo
atleta precisa. Estamos com medo de retroceder, mas temos esperança de chamar
a atenção das empresas e do Governo, que se torne uma corrente para que tenhamos
um retorno - disse Natália.
Por
meio de nota, a Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sesport)
disse, em relação aos atrasos de salários dos treinadores, que a
contratação de funcionários do Centro Olímpico do Espírito Santo (Coes) é
feita por uma Organização de Sociedade Civil de Interesse Público
(Oscip), que foi contratada pelo Governo do Estado em 2013, por meio de
processo licitatório, com meta de realizar a gestão do esporte de alto
rendimento capixaba, via convênio com o Ministério do Esporte. A nota
complementa a informação dizendo que o Governo está atento à situação,
mas que é necessário seguir os trâmites processuais.
- O
convênio está passando por análise técnica, e as medidas para a sua
regularização estão sendo adotadas - explicou a nota, sem dar prazo para
a regularização da situação.
Sobre o fato de o Bolsa Atleta
não estar sendo pago ainda em 2015, a Sesport destacou, na mesma nota,
que que os processos também estão em análise. Já em relação ao Compete,
destinado às despesas de viagens dos atletas para as competições, a
Sesport informou que ainda não há previsão para o lançamento de um novo
edital do programa.
Foto: CBG
Fonte: Globoesporte.com
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