Vice-campeã mundial na patinação artística, Ashley Wagner revela que foi abusada sexualmente por John Coughlin



A norte-americana Ashley Wagner, vice-campeã mundial de Patinação Artística de 2016, três vezes campeã dos EUA e medalha de bronze por equipes nas Olimpíadas de Sochi revelou ter sido alvo de abuso sexual feito pelo patinador de duplas John Coughlin, também dos EUA. Coughlin bicampeão do país na categoria duplas estava sendo investigado pela SafeSport por diversas acusações de condutas impróprias que incluíam estupros e abuso de menores, quando cometeu suicídio em janeiro deste ano.

O caso relatado por Wagner aconteceu em 2008, quando a patinadora tinha 17 anos, durante o período de um acampamento de treinos em Colorado Springs: segundo depoimento ao jornal USA Today, ela teria ficado para dormir na casa de companheiros de treino após uma festa. No meio da noite, Coughlin, então com 22 anos invadiu sua cama e começou a tocá-la sem consentimento e com claras intenções sexuais. Durante o que descreveu como um tempo aproximado de cinco minutos, a patinadora tentou ignorar seus avanços na tentativa de fazê-lo desistir, e por fim conseguiu afastá-lo dizendo "Não". Embora um ato sexual não tenha sido consumado, o assédio seria de natureza criminosa por si só, ainda mais se considerando que a parte agredida era menor de idade e o abusador um homem mais velho, com força física notável e 1m90 de altura.

Wagner afirmou carregar traumas da situação, ter duvidado da própria percepção dos fatos por muito tempo e declarou que não divulgou até agora o que aconteceu por ter temido danos à sua carreira: Coughlin era extremamente bem relacionado, influente e tinha excelente reputação entre os colegas, assim a tendência seria de se considerar mais quaisquer afirmações dele sobre o caso do que as dela: "Eu genuinamente não senti que alguém fosse me ouvir de todo modo. Todo mundo gostava daquele cara. Até eu gostava. Como alguém tão querido poderia fazer algo tão ruim?" Mas completou: "Quando eu penso nisso, essa é a parte mais importante da minha história: boas pessoas também podem machucar você". 

Após sua morte, John Coughlin recebeu diversas homenagens de colegas do mundo da patinação, e muitos puseram em dúvida a legitimidade das acusações de assédio feitas pelas vítimas ouvidas pela SafeSport. Alguns defensores do então ex-patinador e comentarista da emissoras de TV chegaram a ir mais longe com arrecadação de fundos para a realização do funeral e campanhas públicas de solidariedade: a ex-técnica de Coughlin, Dalilah Sappenfield, promoveu o uso de bonés do time de futebol americano Kansas City Chiefs—o favorito do patinador—dentre seus alunos e amigos durante o Campeonato Nacional dos EUA deste ano como solidariedade à família do então recém-falecido bicampeão, atitude que foi considerada arbitrária, insensível e desrespeitosa ante os acusadores. Outros patinadores chegaram a prestar extensos tributos em postagens de redes sociais e até mesmo em programas de exibição. Não se sabe, no entanto, se algum deles realmente saberia dos eventos de assédio e estupro de vulneráveis relacionados ao caso.

Ashley Wagner, em seu depoimento classificou o problema como um grande mal crônico da Patinação Artística: "Não é sobre um nome, é sobre o ambiente que permitiu esse ato acontecer. Quero que as pessoas entendam a dinâmica do meu esporte onde desequilíbrios de poder desconfortáveis aumentam vigorosamente ainda hoje em dia". E pediu medidas que tornem o esporte seguro para pessoas mais frágeis, como garotas menores de idade: "Quero que crianças possam continuar podendo ser crianças neste esporte. As pessoas precisam começar a falar em criar limites".

O depoimento de Wagner não é o primeiro a tornar público os atos de assédio sexual de John Coughlin: antes dela a ex-parceira de competição de Coughlin, Bridget Namiotka, declarou em maio último ter sofrido abusos sexuais sistemáticos durante 2 anos enquanto mantiveram a dupla, e declarou saber de pelo menos mais 10 outras vítimas. Com o suicídio de Coughlin, a SafeSport encerrou investigações, mas a divulgação de novos depoimentos aumenta as chances do caso ser retomado e que alguma medida de reparação seja feita em nome das vítimas e partes prejudicadas.

Foto: AP

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