Coluna Surto Mundo Afora #36

Por Bruno Guedes

Quando o esporte cruza a fronteira do limite humano

O mundo do esporte foi pego de surpresa com o anúncio da aposentadoria do tenista britânico Andy Murray, aos 31 anos, ao final da temporada. Na semana anterior, Rodrigo Mora, atacante uruguaio do River Plate de mesma idade, também divulgou que estava se retirando. Há 15 dias foi a nadadora norte-americana Missy Franklin, 23 anos, quem informava o encerramento da carreira. Todos eles largam a vida esportiva por um mesmo motivo: as dores além do suportável.

Há muitos anos que o esporte de alto rendimento deixou de ser sinônimo de saúde e passou a ser exploração do limite humano. Foi aí que esses três atletas chegaram. Porém eles são apenas alguns dos exemplos entre os muitos que se retiram devido à exaustão física. Este fator está relacionado diretamente com o avanço da medicina esportiva e também da capacidade do homem.

Principalmente a partir dos anos 70, com o advento de novos estudos e investimentos nas áreas de treinamentos, muitas descobertas foram utilizadas para potencializar o desempenho atlético. E com essa exploração inadequada, as lesões também cresceram. E de forma mais danosa.

De acordo com Marília dos Santos Andrade, fisiologista e professora da disciplina de Neurofisiologia e Fisiologia do Exercício da EPM/Unifesp, em entrevista ao site da Universidade, tais desgastes e lesões ocorrem frequentemente nas modalidades onde os gestos são repetitivos. Casos do tênis e natação, Murray e Franklin, respectivamente.

Na tentativa de alcançar o topo, novos treinos e aprimoramentos tecnológicos vão sendo incorporados aos atletas. Novas marcas e novos pontos inexplorados também vão sendo alcançados. Essa necessidade exige um preço alto, quase sempre do próprio esportista. Grande parte destes protagonistas não estão aptos a suportar tamanha exigência e o corpo chega ao limite. Até mental.

Victor Hugo, que trabalha com preparação física em clubes de futebol da Série A e um ex-atleta, dá um relato sobre o caso: "Acho que hoje há uma preocupação maior quanto ao pós vida competitiva. Mas o número de esportistas com lesões que abreviam a carreira tem crescido também. Assim como cresceu número de competidores de alto nível que relatam casos de depressão, síndrome do pânico e outros acometimentos psicossociais. Isso tudo afeta".

Segundo ele, o acúmulo desses problemas vem de várias esferas, mas todas acabam gerando lesões: "São inúmeros atletas que tem debilidades físicas porque levaram seus corpos além do aceitável. Fora o desgaste, há a pressão por vitórias, títulos... então o atleta vai além do seu limite físico e mental. Talvez estejam vindo mais à tona as situações extremas que vivem atletas de elite. E eles são humanos! As pessoas esquecem disso muitas vezes", disse o preparador para o Surto Olímpico.

Tais preocupações sobre desequilíbrio mental/físico já habita até mesmo um local onde deveria estar apenas o aprendizado: nas escolas. Nas chamadas High School, equivalentes ao Ensino Médio no Brasil, e universidades americanas a exigência por conquistas acendeu o debate sobre até onde o amador pode ser exigido. Famosas por suas bolsas aos potenciais campeões, os esportes americanos acirram essa disputa para alcançar o inalcançável.

O caso da Missy Franklin virou exemplo entre treinadores e desportistas americanos. Com idade ainda de universitária, a grande questão está sobre o limite entre competir e desenvolver. Até onde o atleta em desenvolvimento físico, motor e mental pode ser exigido sem afetar seu futuro esportivo. Exemplo da também americana Katie Ledecky. que ainda competindo pela Universidade de Stanford, em Palo Alto, Califórnia, saiu das Olimpíadas do Rio com quatro medalhas de ouro, uma de prata e dois recordes mundiais. Sem falar do ouro nos 800m, em Londres 2012, com apenas 15 anos. Agora aos 21, se formou em 2018, graduada em... Psicologia. Até onde seu corpo vai suportar?

Treinos específicos e conceitos diversos: a nova arma do esporte

Justamente nesse ponto que fisiologistas e treinadores vêm trabalhando. Para que haja um aumento de desempenho porém sem um esgotamento que leve às aposentadorias precoces, como as dos atletas citados, novas técnicas estão em estudo. Não é raro ver competidores de uma determinada modalidade praticando outra. A hibridização esportiva para alcançar uma performance melhor ou diferente. Mas sem comprometer o corpo ou a saúde psicológica.

Atletas do salto com vara, por exemplo, treinam ginástica artística em determinados treinos. A saltadora sueca-brasileira Angelica Bengtsson, que esteve na Rio 2016, introduziu as barras assimétricas e solo para melhorar a qualidade do treino e física. Em suas redes sociais a atleta divulga sua rotina nos ginásios.

Ou como os de atletismo, que praticam natação para aumentar a capacidade pulmonar e o equilíbrio na hora da respiração. Bem como os patinadores do gelo, que além das piscinas, praticam Yoga na busca por uma concentração física e mental. Todos esses ingredientes estão diretamente ligados à necessidade de avançar frente aos demais, porém sem se prejudicar.

Há os que prefiram desenvolver seus próprios conceitos. Revolucionário nas quatro linhas, Pep Guardiola, renomado treinador de futebol espanhol, passou a aplicar treinos visando o combate às lesões específicas, mas ganhando em qualidade. No livro "Guardiola Confidencial", seu preparador físico, Lorenzo Buenaventura, expõe uma metodologia que aprimorou para isso. Ao invés de forçar o corpo com sessões de sprints ou quilômetros intermináveis e depois introduzir a parte futebolística, aliou as duas.

O jogador, com a bola desde o primeiro dia, passa a trabalhar a resistência física fazendo movimentos que ele irá utilizar nas partidas. Como correr com a bola em diversas sessões com 100 metros, ida e volta com outros atletas, desenvolvendo a capacidade técnica, motora e física.

O trabalho, que poderia levar dois turnos e agredir o corpo, dura no máximo 40 minutos em alta intensidade. De acordo com Lorenzo, tais métodos reduziram drasticamente as lesões, qualificou os treinos e ampliou a forma atlética dos jogadores. Uma tentativa de evitar o que foi o caso do Mora, que após uma cirurgia para reparar um problema no quadril, não se recuperou mais.

De acordo com Marília, na mesma reportagem, o conhecimento e estudo desses novos hábitos acabam ajudando os futuros atletas: "Esses resultados podem ajudar treinadores e profissionais da Medicina Esportiva a entenderem como se desenvolve a força dos músculos envolvidos nesse esporte e executarem trabalhos que compensem os desequilíbrios, como o fortalecimento muscular direcionado, ainda nas categorias de base", disse a fisiologista.

Ninguém sabe o quanto de sofrimento, dor e angústias se escondem por trás das medalhas ou conquistas. Mas todos que vivem cada uma delas sim. Desta vez foram Murray, Missy e Mora. Amanhã serão outros. Os heróis do esporte nem sempre têm um final feliz. Mas a ciência e os treinadores buscam para mudar esse quadro.

Na próxima vez em que você aplaudir um atleta, independente do resultado, lembre-se que ele lutou contra o próprio corpo para chegar até ali.

Fontes:
http://www.unifesp.br/
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/

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