De olho em Tóquio, nadadora Etiene Medeiros faz balanço do ano difícil do esporte





A nadadora Etiene Medeiros está em casa, na Lagoa do Araçá, onde nasceu e foi criada até conquistar o mundo. É ao lado de seus pais e de seu irmão que ela passará a virada de ano, em Recife (PE), treinando diariamente no Complexo Aquático Santos Dumont. Etiene chegou a Pernambuco após uma temporada totalmente diferente do que ela imaginava há um ano, quando estava na Espanha treinando de olho nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, evento adiado para julho de 2021.


"Nunca imaginei, eu que virei o ano no Centro de Treinamento na Espanha, que seria um ano tão inseguro, com tantas mudanças. Tantas coisas que a gente planeja por quatro anos e acabam não ocorrendo. Mas, acredito que as coisas acontecem por algum motivo. Eu me reencontrei nesta pandemia, lutando contra várias questões mentais e recuperando valores que eu tinha deixado de lado, como me inteirar melhor nos assuntos do mundo, da política. Tive tempo para focar nisso. Alterei minhas relações de trabalho fora da natação, me aproximei de pessoas que sabem o que estão fazendo, pessoas boas e novos projetos. Isso foi muito legal", ressaltou Etiene.


"O balanço que eu faço é que foi um ano muito difícil, instável. E a vida mostrou que sempre temos que estar preparados para as coisas que vem pela frente. Às vezes boas, às vezes ruins. Todo mundo ficou parado, ainda estamos com medo em relação ao dia de amanhã. Foi um ano de fazer uma reflexão do momento e de viver um dia de cada vez. Não dá para planejar e sonhar muito a fundo, porque as coisas mudam e nem sempre será como a gente quer", acrescentou a nadadora do Sesi-SP.


"Encarar o psicológico, foi o mais difícil" - Para a nadadora, a questão psicológica foi a mais difícil de ser encarada neste período. Se antes o foco estava em treinar e dar o seu melhor para tentar garantir uma vaga em Tóquio-2020, com a pandemia do coronavírus, decretada no dia 11 de março, no momento em que Etiene dava uma entrevista na sede de uma das grandes redes de televisões do Brasil, em São Paulo, tudo mudou no planejamento. Duas semanas depois, o adiamento da Olimpíada obrigou a atleta a refletir ainda mais.


"Esse tempo de pandemia e isolamento foi de lutar com a questão psicológica, mental. De enfrentar o fato de não ter como fazer o que estava no planejamento, de não poder encontrar com os amigos ou família. O cuidado com meus pais e meus sogros, e também comigo mesmo e minha saúde. Nessa vida só basta estar vivo para morrer, como meu pai Jamison diz. Então para mim, foi uma dificuldade mental. De ficar todos os dias positivos, de que as coisas iriam dar certo nos treinamentos, na minha saúde e da minha família. Gerir esta parte mental foi o mais difícil", destacou.


"Eu que sou uma pessoa muito sensível em relação a ver o outro ser humano bem e feliz, fiquei bastante preocupada com a quantidade de pessoas morrendo, amigos próximos tendo parentes em situação complicada ou até vindo a falecer, então eu fiquei realmente sensível com tudo isso. Não poderia me abater tanto, então realmente a questão mental foi a mais difícil", completou.


Liga Internacional de Natação


Após um período de reclusão, voltou o momento em que os nadadores brasileiros puderam retornar às piscinas. Em seguida, Etiene embarcou para Budapeste, na Hungria, onde participaria pela primeira vez da ISL (International Swimming League), representando a equipe italiana Acqua Centurion. Ela viajou para o país europeu em outubro, retornando ao Brasil em novembro.


"Participar da ISL representou a oportunidade de estar competindo em alto nível em um ano em que nós não sabíamos se iria ou não acontecer o evento. A própria Liga não sabia com toda certeza se poderia realizar o evento, pensando em todas as questões relativas à segurança. Representou a retomada da minha confiança interna, de estar de novo entre as melhores e poder fazer aquilo que eu amo. Privilégio diante de uma pandemia. Poucos atletas tiveram esse privilégio de estar lá e foi uma oportunidade muito boa, que me trouxe uma bagagem muito boa de motivação. Nas semanas em que fiquei isolada, a motivação ficou desequilibrada e não sabia o que iria acontecer. A ISL representou motivação e estímulo para os dias que virão pela frente," analisou.


"Para 2021, eu espero a vacina" - Antes de pensar nas competições que irão ou não ocorrer na próxima temporada, a nadadora tem um desejo especial. "Eu espero para 2021 a vacina. Se Deus quiser, uma vacina que possa dar segurança pra todos nós. Possa dar alegria e possamos ter nossas vidas de volta, acima de tudo. Planejo muita coisa para o ano que vem, mas a gente só vai saber o que vai acontecer se tiver esse controle diante deste vírus, que traz muita incerteza. Fico mais um ano no Sesi-SP. Isso me traz muita confiança, porque tenho um trabalho muito legal com o Vanzella. Vamos para o nono ano, mais um aniversário juntos", contou.


"O SESI-SP me traz bastante positividade na estrutura de trabalho, em um ano tão difícil em que a gente sabe que teremos mudanças no esporte olímpico e nacional. O SESI-SP traz segurança para continuar meu trabalho em 2021 representando bem a natação e o clube. Espero que a gente dê a volta por cima, com cuidado, pensando no próximo e num ambiente melhor. A Olimpíada está marcada para julho, mas o que tiver que ser feito melhor para sociedade e atletas será feito e eu vou seguir o que for definido. Vamos viver um dia de cada vez", avisou.


Os treinos em Recife


Etiene iniciou a semana treinando no Complexo Aquático Santos Dumont, em Recife, local inaugurado neste ano e que já recebeu atletas renomados do país, por possuir uma piscina que atende aos padrões internacionais. Lá, ela manterá sua forma física nas próximas semanas e fez questão de lembrar que foi muito bem recebida pelas entidades locais. "Muito feliz com a forma como fui recebida nesta semana aqui em Recife. De fato é de deixar o coração cheio de alegria", finalizou Etiene.

Melhores da década - A nadadora está participando da votação de um painel de especialistas de Melhores da Década 2011-2020, do Troféu Best Swimming 2020, até o dia 31 de dezembro. Ela concorre com Joana Maranhão, na categoria melhor nadadora. São as duas atletas que, desde 2004, em Atenas, garantem a presença de nadadoras pernambucanas do estado nos Jogos Olímpicos.


Foto: Pedro Medeiros/SEE

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