Brasil, 100 Anos Olímpicos - Antuérpia 1920 - Surto Olimpico

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Brasil, 100 Anos Olímpicos - Antuérpia 1920

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Em 2020, o Brasil atinge a histórica marca de 100 anos participando de jogos olímpicos e o Surto olímpico relembrará semanalmente, até o início dos jogos de Tóquio, todas as vinte e uma participações do Brasil nos jogos olímpicos. Foi um grande trabalho de pesquisa e leitura, para trazer com o máximo de exatidão as informações contidas nesse especial. Espero que todos gostem!


Marcos Antônio




Embora a primeira participação brasileira em uma Olimpíada tenha sido com Adolphe Christiano Klingelhoeffer, filho do vice-cônsul brasileiro na França que se inscreveu para três provas de atletismo nos Jogos de Paris de 1900, a primeira participação olímpica oficial do Brasil foi em Antuérpia, cidade belga escolhida para sediar os primeiros Jogos após a I Guerra Mundial (1914-1918), em 1920. E, por pouco, essa estreia quase não aconteceu. Com (muito) esforço e (pouco) apoio da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e do governo federal - o Comitê Olímpico Brasileiro tinha sido fundado em 1914, mas ainda não tinha relevância no esporte brasileiro -, os atletas amadores viajaram para o continente europeu no navio cargueiro Curvello. 

Mas o navio não era lá essas coisas: Instalações ruins e cabines mal ventiladas. Era um navio considerado de terceira classe. Esse fato levou muitos atletas a dormirem nos restaurantes do navio, com a condição de que se deitassem apenas após a saída do último cliente e despertassem antes da chegada do primeiro passageiro para o café da manhã. E para piorar, na parada na Ilha da Madeira, em Portugal, o comandante reparou que os brasileiros só chegariam a Antuérpia no dia 5 de agosto, duas semanas depois do início das competições de tiro. Foi aí que a equipe do tiro esportivo do Brasil começou a sua aventura.

Epopeia dos atiradores

A equipe brasileira de tiro, formada por quatro civis e três militares, desembarcou em Portugal e iniciou a viagem para a cidade belga de trem. Quando chegaram à fronteira, os atletas tiveram suas armas confiscadas. Afinal, como explicar que eles estavam indo para as Olimpíadas cheio de revólveres? Aqui a história se diverge um pouco (o que veremos com detalhes abaixo): Uns dizem que com ajuda de diplomatas, cada atirador conseguiu manter uma arma consigo. Outros relatos afirmam que só uma arma foi liberada a seguir com todos os sete atiradores brasileiros.

O martírio não terminou tão cedo para o pessoal do tiro esportivo, que viu o apoio do governo federal prometido não chegar e, com isso, só restou pedir ajuda ao Cônsul do Brasil na Bélgica, que bancou alimentação deles. A sorte também ajudou os brasileiros, que viram as competições de tiro adiadas por uma semana e assim, conseguiram chegar a tempo.

Ainda assim, com poucas armas e munição para treinar, os atiradores brasileiros viviam um drama. A sorte foi que o chefe da equipe brasileira, Afrânio da Costa, fez amizade com o líder da equipe americana, o Coronel Sanders, que com apoio da fabricante de armas Colt, tinham muito material disponível e emprestaram duas novas pistolas, munição e alvos para os brasileiros.

Na competição, veio à tona o talento tupiniquim: Na prova por equipes, as duas pistolas colts foram revezadas e com um bom equipamento aliado à boa mira, eles conquistaram a medalha de bronze na pistola livre com Afrânio da Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Guilherme Paraense e Sebastião Wolf - primeiro atleta naturalizado brasileiro a disputar uma olimpíada, já que ele era alemão de nascimento. Essa foi primeira medalha olímpica da história brasileira. No mesmo dia, Afrânio conquistou a medalha de prata na pistola livre – a primeira medalha olímpica individual do Brasil.

Mas a glória máxima viria no dia seguinte. Na prova de revólver (hoje chamada de pistola tiro rápido), Guilherme Paraense, um barbudo primeiro-tenente do Exército, conhecido pela sua extrema frieza no manejo da pistola, acertou 274 pontos em 300, ficando dois pontos a frente do americano Raymond Bracken, um dos que se sensibilizaram com os brasileiros e emprestaram munições e armas. Pela primeira vez na história olímpica, tivemos a bandeira brasileira hasteada no local mais alto.

E além de ser a primeira medalha de ouro brasileira  na história olímpica, essa foi também a primeira láurea dourada de um país da América do Sul em Jogos Olímpicos. E por pouco tão tivemos mais uma medalha, pois o Brasil ficou em quarto na competição por equipes do tiro rápido com Dario Barbosa, Demerval Peixoto, Fernando Soledade, Mário Machado Maurity e Sebastião Wolf. Nunca mais o Brasil conseguiu um desempenho tão bom no tiro esportivo e só conseguiu outra medalha olímpica na modalidade 96 anos depois, com Felipe Wu.

A polêmica da pistola

Temos uma imprecisão histórica no caso do primeiro ouro olímpico brasileiro. Relatos de Afrânio da Costa feitos em seu diário dizem que Guilherme Paraense usou uma das pistolas emprestadas pelos americanos para conquistar sua medalha. Já a filha de Guilherme, Oysis Paraense, afirmou em entrevista que a arma usada pelo brasileiro era dele mesmo, uma das remanescentes que passaram pela fronteira com a Bélgica. Como muitos anos se passaram e as pessoas que estiveram em Antuérpia não estão mais vivas, nunca saberemos realmente com que arma Guilherme Paraense conquistou o ouro.

Estreias

Durante os Jogos, vimos a versatilidade dos atletas brasileiros,muito mais por necessidade do que por talento para múltiplas modalidades. Os nadadores Angelo Gammaro, Orlando Amêndola e João Jório, por exemplo, disputaram provas em três modalidades: Natação, Remo e Polo Aquático. Outros três nadadores expandiram suas habilidades para mais um esporte além da natação: Abrahão Saliture (remo) e Adhemar Ferreira Serpa (pólo aquático). Embora fosse verão na Europa - os Jogos aconteceram em julho -, o frio era intenso e a temperatura da água da piscina registrava três graus no dia da primeira competição.

Por conta da temperatura e da falta de recursos e descanso, já que o restante da delegação continuou a viajar no navio cargueiro, o melhor resultado foi do polo aquático masculino, que terminou em sexto lugar, na primeira participação brasileira olímpica em esportes coletivos.

No remo, com três nadadores – Gammaro, Amêndola e Jório – o Brasil foi quarto no quatro com. Guilherme Lorena e Ernesto Flores Filho, remadores de origem, completaram o barco.

Quadro de medalhas

O Brasil terminou em décimo quinto lugar entre as vinte e duas nações que medalharam em Antuérpia, com uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze.

Graças às medalhas conquistadas pelo tiro, a delegação brasileira pôde voltar em um navio muito mais confortável. Os medalhistas foram recebidos como heróis nacionais, ganhando uma homenagem das mãos do presidente do Brasil na época, Epitácio Pessoa.

Pena que na próxima olimpíada com participação do Brasil, a confusão entre dirigentes reinaria e atrapalharia muito os atletas...




foto: Acervo família de Afrânio da Costa

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