Surto Entrevista: Ney Wilson Silva

Por Marcos Antônio e Regys Silva

O judô brasileiro é sinônimo de medalha em olimpíadas. Desde Los Angeles 1984 a modalidade consegue pelo menos uma medalha nos Jogos. Por isso, a responsabilidade do judô fica maior após cada ciclo olímpico. Elogiado pelo o bom planejamento e trabalho sério, CBJ tem em Ney Wilson Silva o homem de confiança para o judô de alto rendimento. Gestor, Ney Wilson Silva é um dos responsáveis da manutenção dos bons resultado do judô brasileiro e nessa entrevista exclusiva para o Surto olímpico, ele fala do desempenho do Brasil na Rio 2016, dos desafios do no ciclo e das expectativa para o mundial de judô, primeira grande competição pós olimpíadas. Confira:
  
- Inicialmente, pra ajudar quem não sabe, o que faz um gestor de alto rendimento?

Minha função é coordenar e executar todo o planejamento da seleção brasileira olímpica de judô sempre de uma forma integrada com as outras áreas de gestão dentro da CBJ (gestão das categorias de base, gestão de eventos, financeiro, jurídica, comunicação,  marketing e presidência). Definir e comandar nossa comissão técnica formada por uma equipe multidisciplinar/interdisciplinar: técnicos, técnicos assistentes, preparadores físicos, médicos, fisiologistas, fisioterapeutas, massoterapeutas, nutricionistas, psicólogas, estrategistas, analistas de desempenho, biomecânicos, estatísticos.

- Muitos avaliam que o rendimento do judô brasileiro na Rio 2016, apesar das três medalhas, foi abaixo do esperado. Como você avalia a participação do judô brasileiro nas olimpíadas do Rio?

O resultado geral dos Jogos Olímpicos do Rio foi muito equilibrado. 26 países ganharam medalhas de forma pulverizada. O nosso resultado foi compatível com o das maiores potências do mundo, com exceção do Japão, que é sempre diferenciado, e a França, que também investe no Judô há muito mais tempo que o Brasil. Ou seja, nós ganhamos três medalhas, sendo uma de ouro, e ficamos na frente de grandes potências no judô mundial, como Coreia do Sul, Mongólia, Azerbaijão, Geórgia, Alemanha. Então, não podemos dizer que foi um resultado ruim. Se olharmos no macro, na competitividade de uma Olimpíada, a gente percebe que foi um resultado bom.

- Qual a expectativa para o mundial de judô desse ano? Existe alguma previsão de medalhas?

O Mundial de Budapeste é a principal competição do ano e, por isso, toda a preparação está sendo voltada para que os nossos judocas cheguem lá no auge. Nós não temos a definição de toda a equipe ainda, porque ainda falta a disputa do Grand Prix de Cancún. Só depois poderemos pensar em previsão de medalhas. Mas, o Brasil chegará preparado para fazer uma grande competição.

- Mais uma vez tivemos mudanças nas regras do judô, o que rendeu críticas da campeã olímpica Rafaela Silva. Qual sua opinião sobre mais essa mudança de regra no judô?

Toda mudança, no início, gera uma rejeição ou uma desconfiança. Eu entendo que a proposta da FIJ seja dar mais dinamismo ao esporte para buscar maior espaço nas transmissões televisivas. Mas, algumas coisas, como a redução do tempo de luta no masculino, mexe completamente com o planejamento de treino e de luta do atleta. Percebo que, tanto atletas, quanto árbitros ainda estão se adaptando. Algumas coisas são revistas de uma competição para outra, então precisamos esperar o Mundial, onde termina a fase de testes, para ver o que vai ficar para valer neste ciclo olímpico.

- Com a subida da Sarah Menezes para o peso meio-leve, o fez o Brasil ter duas judocas de alto nível nessa categoria(a Sarah e a Erika Miranda). Como está a adaptação da Sarah na nova categoria e o qual sua expectativa de evolução dessas duas judocas de alto nível que agora competem por uma vaga em mundiais e olimpíada?

É uma ano de testes para a Sarah e essa adaptação não é simples, é gradual, e ela tem demonstrado uma evolução desde a primeira competição que fez no 52kg. Tanto a Sarah, quanto a Érika são judocas de alto nível e, certamente, isso aumenta a competitividade interna, o que faz com que as duas cresçam. É ótimo para o judô brasileiro.

- Muito especialistas também consideram a geração atual de judocas brasileiras como a melhor da história. Você partilha da mesma opinião? E como manter esse nível de excelências para as novas judocas que forem integrar a seleção nesse ciclo?

Realmente nós construímos uma equipe muito forte. Isso é fruto de um trabalho a longo prazo. Rafaela, Sarah, Mayra, por exemplo, entraram na seleção adulta quando ainda eram das categorias de base. Nós investimos nelas desde muito cedo. Levamos a Sarah e a Mayra para Pequim sabendo que elas ainda não tinham maturidade para disputar os Jogos Olímpicos, mas isso foi fundamental para o desempenho das duas nos Jogos de Londres onde ambas conquistaram medalha. Também em Pequim, a Rafaela foi judoca de apoio e vivenciou o clima olímpico antes de chegar à Londres como uma das favoritas. Nós nos preocupamos sempre com a renovação e fazemos um trabalho integrado com as categorias de base, tanto que na primeira seletiva deste ciclo olímpico tivemos algumas judocas das classes júnior e juvenil entrando para a seleção principal, como a Larissa Pimenta (48kg), de 18 anos, e a Yanka Pascolino (63kg), de 19.

- Já o masculino esteve aquém do esperado nesses últimos anos em relação a resultados e você chegou a dizer em entrevista que o judô masculino precisava ser repensado. O que precisa ser feito para que o judô masculino do Brasil tenha resultados tão bons como o feminino?

Nos Jogos de Londres tivemos duas medalhas no masculino e duas no feminino. No Rio, o Rafael Silva garantiu seu segundo bronze, então, não dá para dizer que o masculino esteja tão distante assim do feminino. Renovamos bastante a equipe masculina para os Jogos do Rio. Mais da metade da equipe nunca tinha lutado uma Olimpíada (Charles Chibana, Alex Pombo, Victor Penalber e Rafael Buzacarini) e isso pesou para alguns. Mas, futuramente, trará uma maturidade competitiva a esses atletas, assim como fizemos com o feminino desde Pequim, como falei anteriormente.

- Pensando em Tóquio, O Japão mostrou muita força no Rio de Janeiro, com 12 medalhas. você espera que esta seja uma olimpíada muito mais difícil, já que os judocas japoneses além da já conhecida força, terão a vantagem de lutar em casa?

Ganhar uma medalha olímpica é difícil aonde quer que seja a sede dos Jogos. Mas, Tóquio será uma Olimpíada especial para o judô, porque é a terra natal da modalidade. Todo judoca deve sonhar ser campeão olímpico na terra de Jigoro Kano e os japoneses mais ainda por estarem em casa. Mas, precisarão saber lidar com a pressão, que será enorme, tanto externa, quanto internamente. 

- Após os Jogos rio 2016, muitas confederações tiveram diminuições de suas verbas para Tóquio.A CBJ tem esse problema de diminuição de verbas?Caso sim, está afetando de alguma forma o planejamento para Tóquio?

A CBJ conseguiu renovar os patrocínios de Bradesco, Cielo, Scania, Infraero e Mizuno para esse ciclo olímpico, além de termos o apoio do COB através da Lei Agnelo Piva e de aprovarmos projetos via Lei de Incentivo ao Esporte com o Ministério do Esporte. O país inteiro vive um momento de austeridade que, naturalmente, reflete no esporte. Mas, nosso planejamento para 2017 e 2018 começou em 2015 e estamos conseguindo cumprir tudo o que foi planejado para a preparação da seleção. Só neste primeiro semestre, por exemplo, a seleção brasileira de judô disputou 14 competições internacionais (Europa e América). Estamos com 19 atletas no Japão agora até o dia 22 para treinamento de campo internacional e ainda teremos mais dois treinamentos internacionais (Espanha e França) até o Mundial.

- Na sua opinião, quais judocas brasileiros (masculino e feminino) você considera os melhores que já viu lutar?

Todos os nossos medalhistas olímpicos: Chiaki Ishii, Luíz Onmura, Walter Carmona, Douglas Vieira, Aurélio Miguel, Rogério Sampaio, Henrique Guimarães, Tiago Camilo, Carlos Honorato, Leandro Guilheiro, Flávio Canto, Ketleyn Quadros, Sarah Menezes, Felipe Kitadai, Mayra Aguiar, Rafael Silva, Rafaela Silva.
Nossos campeões mundiais: João Derly, Luciano Corrêa e Tiago Camilo.

Dessa forma fica muito difícil apontar um melhor dentre todos mas eu destacaria Aurélio Miguel, Rogério Sampaio e Tiago Camilo, no masculino e a Sarah Menezes e Rafaela Silva no feminino

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Que confiem e torçam para os nossos judocas nessa dura caminhada rumo aos Jogos de Tóquio 2020.


foto: Divulgação

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