Surto História: A segunda e última vez que a tocha olímpica percorreu os cinco continentes - Surto Olimpico

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Surto História: A segunda e última vez que a tocha olímpica percorreu os cinco continentes

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Depois do sucesso do revezamento da tocha olímpica dos Jogos de Atenas 2004, Comitê Olímpico Internacional (COI) e Comitê Organizador decidiram repetir a dose para Pequim-2008 e propuseram levar a chama olímpica pelos cinco continentes mais uma vez. Dessa vez, no entanto, o revezamento foi um fracasso.

Uma série de protestos políticos envolvendo, principalmente, a repressão chinesa sobre a região autônoma do Tibete marcou grande parte do percurso de 129 dias da tocha, que passou por 135 cidades de 20 países diferentes até chegar em Pequim, percorrendo um caminho total de 137 mil quilômetros -  a maior rodagem da história.

Manifestações pedindo a libertação do Tibete envolveram cartazes, faixas, placas, pessoas ateando fogo em seu próprio corpo, guerra de garrafas, invasões ao caminho da tocha, chama olímpica apagada por algumas vezes e um saldo negativo de centenas de pessoas apreendidas pelas forças de segurança.

"Sem direitos humanos, sem Olimpíada de Pequim" (AP)
Mas, para entender o motivo de toda essa confusão e por que a questão tibetana tenha sido fundamental que o revezamento olímpico fracassasse, é preciso entender um pouco do contexto histórico, geográfico e político dos envolvidos.

China

Tradicionalmente, a China é conhecida por ser um país fechado, comandada por um dos partidos mais repressivos do mundo, o PCC (Partido Comunista Chinês). O governo chinês controla a mídia e pune os defensores da liberdade de expressão e a democracia. Candidatar-se para receber os Jogos Olímpicos foi uma das raras oportunidades em que a China abriu suas portas para o exterior.

Para que o COI aceitasse o país asiático como sede do megaevento esportivo de 2008, o partido prometeu que seria mais aberto e "leve" em suas perseguições, o que não aconteceu. A China continuou com seu rígido regime ao longo da preparação dos Jogos, entre 2001 e 2008, algo que desagradou diversas instituições dos Direitos Humanos.

A questão do Tibete foi o estopim para que os protestos invadissem os mundos, com ONGs e libertários pró-Tibete utilizando do revezamento da tocha olímpica para demonstrar sua insatisfação com os métodos autoritários do poder chinês.


Tibete

O Tibete é uma região autônoma da China, de mais de 1,2 milhões de quilômetros quadrados, onde moram cerca de 3,2 milhões de pessoas. A região é conhecida como "telhado do mundo", dados os seus 4.900 metros de altitude média da Cadeia do Himalaia. É lá que fica o Monte Everest, o pico mais alto da Terra.

Durante boa parte de sua história, a administração tibetana esteve subordinada à Dinastia Qing. Em 1913, um ano após a queda do império chinês, o 13º Dalai Lama - um líder político e espiritual do Tibete, considerado a reencarnação da compaixão de Buda - expulsou os representantes chineses do território e declarou a região como independente.

Manifestantes do Tibete (Croquant/Wikimedia)
A alegria tibetana durou pouco tempo, porque em 1950, um ano após a vitória do PCC na Revolução Chinesa, as tropas militares de Mao Tsé-Tung reassumiram o controle do local. Em 1951, foi assinado o Acordo dos Dezessete Pontos entre o Tibete e a China, que basicamente reconhecia a autoridade chinesa sobre a região, mas os tibetanos alegam que foram forçados a assinar o documento.

A luta do Tibete por autonomia, liberdade e pelo fim da repressão chinesa iniciou-se desde então. Diversas revoltas ocorreram ao longo do período e que geraram muitas mortes, durando até os dias atuais. A China justifica que o Tibete sempre foi parte de seu território, enquanto o Tibete diz que a região era independente quando foi invadida pelo governo central.


Estopim

Chegamos, enfim, aos dias que antecedem a Olimpíada. Em março de 2008, monges budistas teriam sido presos depois de realizar uma passeata para marcar os 49 anos de um levante tibetano contra o domínio chinês (levante esse que marcou a fuga do 14º Dalai Lama, este ainda vivo, para a Índia), o que levou a uma série de protestos pelas ruas da região autônoma, que foram duramente reprimidos pelas forças chinesas, com diversas pessoas mortas. A China indicou que foram 18 vítimas fatais, enquanto o Tibete falou em 200.

A partir desse fato, protestos provocados pela repressão chinesa ganharam o mundo, organizados por ativistas e instituições de direitos humanos, e o revezamento da tocha olímpica foi a oportunidade perfeita para dar repercussão à causa tibetana.


Revezamento da tocha olímpica

A chama olímpica foi acesa em Olímpia, na Grécia, em 24 de março, cerca de uma semana após as mortes no Tibete. A cerimônia já foi marcada por protestos de ativistas pró-Tibete.

Durante o discurso do presidente do Comitê Organizador, Qi Lieu, três pessoas invadiram o local com bandeiras negras com algemas no lugar dos anéis olímpicos. Ao todo, cerca de 20 pessoas foram detidas na confusão.

Manifestante atrapalha o discurso de Qi Leu (EFE)
Com reforço na segurança, a tocha saiu de Olímpia no dia 25 e viajou até o dia 30 pela Grécia. Houve prisões em todos os seis dias. Pequim, já esperando por novos ataques, não confiou nas forças de segurança locais e enviou seus próprios guardiões para proteger a chama olímpica no percurso pelo mundo.

A tocha chegou em Pequim, pela primeira vez, no dia 31 de março de 2008, com uma celebração bem "misteriosa". Liu Xiang, campeão olímpico nos 110m com barreira à época, deu apenas uma volta na Praça da Paz Celestial, após a pira ter sido acesa pelo presidente, Hu Jintao, e a chama foi levada a um local secreto.


Europa

No dia 01º de abril de 2008, o revezamento pelo mundo começou de forma oficial, com Almaty, no Cazaquistão, dando boas vindas à cerimônia. Em seu segundo destino, a tocha já sofreu a primeira tentativa de ataque: em Istambul, na Turquia, um manifestante chegou bem perto da chama, mas seis seguranças o prenderam rapidamente.

Após o primeiro incidente em solo europeu, as forças de segurança foram ainda mais reforçadas. Depois de Istambul, foi a vez de São Petesburgo receber a tocha, mas com muita festa, uma vez que a Rússia é histórica aliada da China. Passado o "sossego" em território russo, a tocha sofreria os seus piores ataques nas três cidades seguintes.

Em Londres, no Reino Unido, em 06 de abril de 2008, um manifestante chegou a tirar a tocha da mão de um dos condutores, e foi preso. Outras 34 pessoas foram detidas. A chama teve que ser escondida em um ônibus para evitar novas confusões.

Apesar da tecnológica tocha ter sido projetada para permanecer acesa sob ventos de até 65 km/h e sob chuva de até 50 mm/h, manifestantes pró-Tibete apagaram seu fogo por três vezes na passagem por Paris, um dia depois. O revezamento teve que ser encerrado de forma incompleta. Até o prefeito da capital francesa deixou sua marca nos protestos, colocando uma faixa em frente à prefeitura durante o trajeto da tocha pela cidade com os dizeres: "Paris, a cidade dos Direitos Humanos".

A passagem da tocha pela Europa gerou muita turbulência (REUTERS)
Após a passagem turbulenta pela Europa, o Ministério de Relações Exteriores da China emitiu um comunicado, que dizia: "Nós expressamos nossa mais forte condenação à perturbação deliberada à passagem da tocha olímpica pelas forças separatistas de 'independência tibetana'".


América

Em São Francisco, EUA, protestos foram iniciados antes da tocha chegar em solo americano, o que obrigou os organizadores a mudarem completamente o trajeto original. Ativistas criaram tochas alternativas, a "Tocha dos Direitos Humanos" e a "Tocha da Liberdade Tibetana". O ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu, e o ator Richard Gere participaram de um comício em protesto.

Descendo o continente americano do norte para o sul, a tocha chegou até Buenos Aires em 11 de abril de 2008. Protestos aconteceram antes da chegada, mas o trajeto foi feito com tranquilidade. Emanuel, do vôlei de praia, foi o representante brasileiro na condução do tradicional símbolo olímpico na capital argentina e juntou-se à lista de 21.880 carregadores da tocha da edição.

Emanuel foi campeão olímpico ao lado de Ricardo, em 2004 (Odd Andersen/AFP)
Apesar de ser campeão olímpico à época, sua ida gerou polêmica. Houve votação online, na qual Jade Barbosa venceu, mas que não pôde participar por outros compromissos. O nadador Thiago Pereira, segundo colocado, deveria assumir o lugar da ginasta, mas Emanuel, que tinha parceria com a empresa que patrocinava o revezamento da tocha na América do Sul, foi o escolhido.


África/Ásia/Oceania

Da América, a tocha rumou à África, onde passou com tranquilidade por Dar es Salaam, na Tanzânia. Problemas também não foram registrados em Mascate, Omã. Em Islamabad, Paquistão, o revezamento foi cancelado, sendo substituído por um evento promovido em um estádio. O estrago maior foi feito na vizinha Nova Delhi. A Índia, que possui a maior colônia tibetana do mundo (130 mil pessoas, incluindo o Dalai Lama), registrou uma série de ataques à tocha, com mais de cem presos. O principal jogador de futebol do país, Baichung Bhutia, estava escalado, mas se recusou a participar da cerimônia.

Bangcoc, na Tailândia, intensificou o esquema de segurança e os protestos não atrapalharam o revezamento, diferente do que aconteceu em Kuala Lumpur, na Malásia, onde o evento praticamente testemunhou uma batalha entre ativistas pró-Tibete versus ativistas pró-China. Jacarta, na Indonésia, também manteve a tocha em um estádio e restringiu o público, com cerca de apenas cinco mil espectadores.

O último continente a ver a tocha olímpica foi a Oceania. Canberra, na Austrália, recebeu o revezamento em 24 de abril de 2008, mais um recheado de prisões. Dois dias depois, novas confusões em Nagano, no Japão. Centenas de manifestantes se colocaram ao redor do ponto de saída da tocha, com cartazes com escritos como "Tibete livre" e "Uma só China".

As ruas sul-coreanas foram palco de muitos conflitos durante o revezamento (wikimedia)
Em Seul, na Coreia do Sul, houve disputa entre estudantes chineses e manifestantes pró-Tibete. Chineses atiraram garrafas de plástico e pedras nos ativistas, que tentaram atear fogo no próprio corpo. Diferente da vizinha do sul, a Coreia do Norte, que tem a China como principal aliada, recebeu a tocha com um clima extremamente festivo em sua capital, Pyongyang.

A última parada internacional da tocha foi Ho Chi Minh, no Vietnã, em 29 de abril. Lá, dois homens foram detidos por exibir um cartaz com o emblema dos Jogos, mas com algemas em vez de anéis. Hong Kong e Macau ainda receberam o revezamento no início de maio, antes dele adentrar na China central, em 04 de maio. O revezamento foi até 08 de agosto, com a cerimônia de abertura dos Jogos.


China

Apesar de ameças de boicote do Comitê Olímpico do Tibete, a tocha passou sem maiores problemas pela região, sob um forte e reforçado esquema de segurança. Um dos momentos mais icônicos do revezamento foi a tocha sendo levada ao Monte Everest, a 8.848 metros de altitude.

Na chegada a Pequim, em 06 de agosto, a tocha passou pelas mãos de 841 pessoas, envolvendo anônimos e astros nacionais, incluindo Yao Ming, pivô do Houston Rockets, até chegar no Ninho dos Pássaros, onde mais de 90 mil pessoas assistiram à cerimônia de abertura.

Yao Ming, a estrela do basquete chinês (Agencies/CHN)
Diversos líderes europeus não foram à cerimônia de abertura como protesto à represália chinesa. O presidente do Parlamento Europeu à época, o alemão Hans-Gert Poettering, e o príncipe Charles lideraram o movimento.

Alguns atletas chegaram a cogitar fazer protestos durante as competições, mas colocaram um pé atrás, uma vez que o COI não tolera quaisquer manifestações políticas durante seu evento.

Esta foi a segunda e última vez que o revezamento da tocha olímpica percorreu os cinco continentes. Para o revezamento da Olimpíada seguinte, Londres-2012, o COI foi mais cauteloso e restringiu o percurso ao país-sede.

Foto: Beatrice Murch

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