Surto Opina: O processo de candidatura olímpica precisa se reinventar

Neste semana, mais uma cidade decidiu por plebiscito que não quer se candidatar para sediar os  Jogos olímpicos. Calgary no Canadá, que sediou os Jogos de 1988, viu 56% dos que votaram afirmarem que são contra que a cidade lute para sediar os jogos de 2026. Só nesse processo de candidatura, Salt Lake City e Sapporo decidiram concentrar os seus esforços para a candidatura dos Jogos de 2030, Sion, Innsbruck e depois Graz desistiram da candidatura de 2026 após plebiscitos contrários. Mais do que nunca, o pacote olímpico com seus custos não trazem mais excitação às cidades e ele precisa ser repensado para que tenhamos um futuro nos jogos olímpicos, principalmente nos de inverno.


Mas os Jogos de Verão também passam por crise, menor do que as de inverno, mas passam. As candidaturas para os Jogos de 2024 foram bem complicadas com várias cidades desistindo, como Boston (que o comitê olímpico americano substituiu por Los Angeles), Roma- que já tinha desistido dos jogos de 2020 - Hamburgo e Budapeste. No fim ficaram apenas Paris e Los Angeles e o COI resolveu negociar para que a cidade francesa ficasse com os jogos de 2024 e Los Angeles, com o de 2028, porque a entidade  viu que sofreria o mesmo problema  nas candidaturas de 2028 e ganhou tempo repensar no processo de candidaturas dos Jogos de 2032.

Mas nos Jogos de inverno a situação é pior. As candidaturas para os jogos de 2022 e 2026 tem sofrido muitas desistências. Em 2022, Oslo, Lviv e Cracóvia desistiram de suas candidaturas, só deixando Pequim e Almaty como candidatas. O COI que gosta de revezar os continentes, se viu sem escolha e escolheu Pequim, repetindo o continente para os jogos de inverno - Pyeongchang na Coreia do sul foi a sede em 2018. Em 2026, Sion, ,Innsbruck, Graz (O comitê olímpico da Áustria não conseguiu convencer as duas cidades) e Calgary estão fora da disputa, com apenas as candidaturas de Estolcomo - que corre risco de sair ainda - e Cortina D'Ampezzo/Milão estão no páreo.

Duas candidaturas acabaram trazendo um impacto negativo para o programa olímpico: Sochi e Rio de Janeiro. Sochi gastou a absurda quantia de 55 bilhões de dólares para os jogos de inverno de 2014, um valor totalmente irrealista para a grande maioria dos países. E os jogos de inverno, acabam tendo gastos maiores, por conta das arenas específicas para alguns esportes, e o principal, graças ao aquecimento global, o estoque de neve para o caso da temperatura na época das olimpíadas fica alta e a neve derreter (o que aconteceu em Turim, Vancouver e Sochi, principalmente). O legado olímpico, tão em voga desde Barcelona 92, não é visto nos jogos de inverno, onde muitas arenas acabam virando elefantes brancos (Sochi é um exemplo claro disso)

Nos jogos do Rio, até o momento foram gastos oficialmente 13 bilhões de dólares para a realização dos jogos, embora tenha a suspeita de superfaturamento de muita das obras. Um valor também muito alto para realização de jogos, onde cada vez mais a população se mostra contra esses gastos, incentivados por setores políticos - que variam do conservador ao socialista dependendo do país - que já considera os jogos um evento supérfluo e com gastos muito altos.


O COI tentou diminuir os gastos com a agenda 2020 criada em 2016, mas ela não se mostrou muito eficaz e com isso a entidade ainda fica sem encontrar um caminho claro para continuar o interesse das cidades em ter uma olimpíada. Os jogos da juventude são um grande laboratório de testes, não só para novos esportes, mas para novos tipos de organização e pode indicar um caminho para o COI.

Buenos Aires aproveitou muitas instalações existentes e algumas provas foram nas praças, tudo para envolver a população nos jogos e economizar os máximo de custos possíveis. E deu certo, pois os jogos foram considerados um sucesso, tanto que a Argentina estuda lançar uma candidatura para os jogos de verão em 2032 em Buenos Aires ou de inverno, dividindo os jogos entre a capital argentina e Ushuaia.

Outras questões que são levantadas para que os jogos não percam sua relevância é diminuir um pouco a exigência de novas arenas, aproveitando as existentes e aceitando que as cidades dividam mais os eventos com outras cidades, para dividir os custos, algo discutido principalmente nos Jogos de inverno, onde se a candidatura conjunta de Cortina D'Ampezzo e Milão for a escolhida para 2026 e for um sucesso, muito provável que se torne uma tendência. O fato é que os Jogos olímpicos vão ter que continuar a se reinventar para que as cidades voltem a achar atraente ter a bandeira olímpica tremulando em seu território, senão o futuro a médio/longo prazo dos jogos é preocupante.

foto: AFP

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