Coluna Surto Mundo Afora #47 - A consagração do futebol feminino


Por Bruno Guedes

É tetra! Com imensa autoridade e superioridade, as americanas não deram qualquer chance para as rivais e confirmaram o favoritismo com o título da Copa do Mundo de futebol feminino. Sob a liderança técnica das atacantes Alex Morgan e Rapinoe, os Estados Unidos venceram a Holanda por 2 a 0 com até certa facilidade. Como mostramos há 15 dias nesta coluna, o trabalho cultivado por quase três décadas no país não para de dar resultado. E o horizonte é animador para todas.

A Seleção Norte Americana atingiu a incrível marca de 26 gols marcados - média de 3,7 por partida - e apenas três sofridos. Curiosamente, na fase final, foram dois em cada um dos jogos até a decisão. A conquista foi a quarta em oito Copas do Mundo. Ou seja, metade das disputadas acabaram nos EUA. Como cereja do bolo, Rapinoe ainda foi a artilheira com 7 gols e eleita a melhor jogadora do torneio. O que falar de negativo sobre essa conquista?

A Holanda também fez boa campanha mas não conseguiu suportar a força das americanas. Foram 11 gols marcados e cinco sofridos. Time que conseguiu durante quase todos os jogos marcar sob pressão - o que rendeu até comparação até com o Futebol Total de 1974 de Cruyff e sua turma - não funcionou na decisão. E aí não é demérito holandês, mas méritos das campeãs. A estrela Martens foi anulada em campo.

Se na final tivemos uma seleção dominando a outra, com os Estados Unidos finalizando 17 vezes contra apenas 5 da Holanda, o torneio foi mais equilibrado. E por conta da enorme evolução da modalidade. Esta Copa mostrou que o forte investimento feito em profissionais e atletas já apareceu. Vimos seleções com demonstrações de qualidade acima da média até do futebol em geral, com destaque para as próprias americanas, as holandesas, as japonesas e as francesas.

Ainda que haja alguns países que não atingiram tal nível de excelência, houve uma considerável diferença entre esta edição de 2019 com a de 2015. A começar pela parte tática. Muitos times conseguiram aprimorar esta parte que um dia foi questionada e hoje alcança diversas filosofias em prática. Sem falar na adaptação conforme seu adversário e o que a partida pedia. Maior exemplo foi esta final.

As americanas sempre impuseram seu estilo com muita ofensividade e jogando um 3-3-4 quando tem a bola no ataque, sempre buscando a velocidade. Entretanto, esbarrando na fortíssima organização defensiva da Holanda, que fazia uma 4-4-2 sem a posse, precisou usar bastante os passes longos ou médios pelo meio ou forçar o jogo mais apoiado, com bastantes toques em grupo. Quando foi exigida na defesa, Jill Ellis colocou suas jogadoras num 5-4-1 para tentar neutralizar qualquer controle das holandesas, ponto forte da Laranja.

Não foram as únicas. A França, com a base do Lyon, também conseguia essas modificações conforme o rival. Contra o próprio Brasil foi assim. Atacada como nunca antes nesta Copa, adotou postura mais defensiva e que não conseguiu jogar quase com as 10 jogadoras no campo ofensivo, como fazia na primeira fase. O Japão, talvez o melhor conjunto deste torneio, demonstrou uma equipe jovem e com potencial enorme. Muito compacta, dominava a posse e não deixava as outras equipes confortáveis. Faltou experiência de algumas atletas.

Em números de audiência, foi a maior Copa do Mundo de todas, como previsto. A semifinal entre Inglaterra x EUA foi a maior da TV no Reino Unido em 2019, com 11,7 milhões de espectadores. Na França foram outros 11 milhões. Mas o gran finale foi com o Brasil contra as francesas: 30 milhões de torcedores, recorde do futebol feminino em todos os tempos e uma das cinco maiores audiências em jogos de seleções. 

Estes números são mais que o dobro da edição anterior. E a expectativa é de que continuem aumentando já para a próxima e joga luz sobre o sucesso do esporte em Tóquio 2020. Se os patrocinadores estavam desconfiados, agora ficaram animados. Mas a animação precisa virar ação. Principalmente das entidades organizadores e imprensa.

Foi um divisor de águas. O futebol feminino mudou. Quem criticou ou ainda veste a máscara do preconceito já virou chacota. Elas mostraram que podem sim apresentar um espetáculo de alto nível. E é só o começo...

PS: CBF, não esquecemos de vocês e não vamos deixar a poeira baixar. Vadão e Marco Aurélio Cunha ainda no comando das nossas meninas após o péssimo trabalho? Por quê? Vamos cobrar e continuar em cima!

foto: Getty Images

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