Evgenia Medvedeva revela ser vítima de agressões na Internet, e se afasta das redes sociais

Após não se classificar para as finais do Grand Prix de Patinação Artística, a russa bicampeã mundial e medalha de prata nas Olimpíadas de PyeongCheng, Evgenia Medvedeva revelou em entrevista que tem sido alvo constante de agressões em redes sociais e na imprensa do seu país. 

Medvedeva, que era presença constante e popular nas redes especialmente após o ano de 2016 onde junto com uma campanha vitoriosa com medalhas de ouro no Grand Prix, no Campeonato Europeu e no Mundial estreitou laços de convivência com o público—especialmente fãs de anime e mangás, ajudando a popularizar o esporte entre jovens—comentou para a agência RIA que tem recebido um número de mensagens de ódio que extrapolaram o limite do tolerável desde que encerrou a parceria com a técnica do clube Sambo-70, Eteri Tutberidze, e se mudou para o Canadá, ato que foi classificado por parte da imprensa e do público como traição: "Eu estava pronta para receber desaprovação, discussões, expectativas. Eu estava pronta para as pessoas lá dos seus cantos falando sobre eu ser boa ou ruim. Estava pronta para as pessoas se dividindo em dois campos. Mas, honestamente, eu não estava pronta para tudo isso, para tanta negatividade, especialmente tanto ódio".

A bicampeã admitiu estar se afastando de redes sociais desde que a onda de ódio começou, deixando o trabalho de comunicação para agentes: "Um dia eu entendi que eu não podia viver desse jeito. Sei, é claro, que é o que muita gente quer: fazer minha vida impossível. Mas não vão conseguir porque existe o botão "Apagar Instagram'." Os ataques, segundo Medvedeva, estavam se multiplicando por pessoas de diversos tipos de perfis, e os exemplos chegam a ser surpreendentes: "Não entendo, por exemplo a seguinte situação: um homem adulto, com mais de 40 anos, com esposa e dois filhos. Ele trabalha, digamos que é um gerente. Esse homem me diz que sou uma traidora e que me odeia. Coisas como essa tem se acumulado. É por isso que não estou mais nas redes sociais." Após o Internationaux de France, as redes sociais oficiais de Medvdeva chegaram a sair do ar por aproximadamente dois dias, mas foram restabelecidas, sem responder à mensagens.

Medvedeva admitiu estar se sentindo pressionada e que o mau estado psicológico afetou diretamente seus resultados nesta temporada, especialmente no programa livre do Internationaux de France: "Eu admito meus erros, não sou pessoa de negá-los. Admito minha fraqueza, está dentro de minha cabeça. Eu queria muito fazer um programa limpo. Eu estava me pressionando, me perdi de meu cérebro, parei de pensar. Sim, eu desisti no programa."

Setores da mídia russa criticaram as declarações de Medvedeva, classificando a reação de exagerada e inclusive negando que ela tenha sofrido qualquer agressão. No entanto, uma busca rápida em sites especializados em esportes do país mostrou pelo menos dez artigos extensos publicados contendo insultos diretos tanto à patinadora quanto a seu atual técnico, o canadense Brian Orser. Entre as ofensas era possível encontrar discurso xenofóbico, sugerindo que Medvedeva—cujo pai é armênio—estaria tentando abandonar a patinação da Rússia para defender outro país, além de diversas ofensas homofóbicas contra Orser, que é assumidamente gay e vive com o parceiro, o executivo Rajesh Tiwari há 10 anos.

A atleta no entanto foi defendida por esportistas e técnicos, que mostraram indignação com o tratamento dispensado à ela. Evgeny Plushenko, medalhista de ouro das Olimpíadas de Turim-2006 publicou em seu Instagram uma mensagem de apoio, onde declarou "Esportistas não são robôs, são seres humanos. Você foi vencedora 20 vezes seguidas e ontem (Internationaux de France) nada terrível aconteceu", completando: "Existem pessoas que apoiam você hoje, mas quando um esportista tropeça ou comete erros, destroem você. Já passei por isso muitas vezes. Me levantei e me preparei para novas batalhas, com nova força e motivação. Você não é covarde, é uma garota forte. Acreditamos em você e vamos estar sempre do seu lado." Outro campeão olímpico, Alexei Urmanov, medalha de ouro em Lillehammer-1994 descreveu os ataques como "cruéis" e feitos por quem não é capaz de entender o que acontece com atletas em fases de mudanças, tanto físicas quanto no ambiente: "Tudo está mudando muito rápido com ela e ainda é muito cedo para falar. Daqui a uns seis meses ou um ano podemos voltar ao assunto, mas é necessário tentar entender por que isso acontece: por que garotas jovens tem tido tanta dificuldade de sobreviver na patinação russa". 

A técnica e coreógrafa Tatiana Tarasova classificou o tratamento dispensado à Medvedeva como linchamento midiático: "Estou lendo eu mesma e estou de cabelos em pé. O que essa gente sabe sobre o que é mudar de país e de técnico? Isso é bullying com ela e é muito real. E tudo o que ela fez por nós, isso, claro, está esquecido. Somos uma nação que não lembra de nada. Apedrejam ela sem parar para dizer o que ela deveria fazer da vida, uma garota que trouxe tanta glória a este país." O presidente da Federação Russa de Patinação, Alexander Gorschov também defendeu Medvedeva, lembrando que as críticas são é injustas, ainda mais considerando a mudança no ambiente de treinos: "Queria apenas que os fãs e não-fãs parassem com o falatório. Cada atleta tem diferentes períodos de adaptação, então Evgenia precisa ser apoiada, e não que façam conclusões prematuras e 'arranquem seus cabelos'."

Medvedeva agora deve concentrar seus esforços em treinar para o Campeonato Nacional da Rússia, que acontece no final de dezembro.


Foto: Getty

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