Tentando sobreviver nos Jogos Olímpicos, Pentatlo Moderno realiza evento teste de nova disciplina

Atleta compete no primeiro evento teste da nova disciplina do Pentatlo Moderno (Foto: UIPM)

Mesmo confirmado nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, o Pentatlo Moderno vive momentos de apreensão e a necessidade de reinvenção para sua permanência no programa olímpico. Denúncias de maus tratos em animais, vistos inclusive em Tóquio 2020, e a baixa atratividade da modalidade, de acordo com as empresas responsáveis pelos direitos de transmissão, fizeram com que o COI cobrasse renovação da Federação Internacional de Pentatlo Moderno (UIPM) para garantir sua permanência no maior evento multiesportivo do planeta.

É certo que o hipismo deve ser retirado das provas em um futuro muito breve, provavelmente após Paris 2024, por isso a entidade máxima da modalidade discute desde o final de 2021 qual seria a disciplina adequada para integrar o conjunto de provas e garantir a permanência olímpica do Pentatlo Moderno.

Após abrir consulta entre seus membros federados e atletas, a UIPM recebeu mais de 61 propostas de disciplinas e após diversas deliberações, anunciaram em maio deste ano o início dos testes de uma espécie de corrida com obstáculos, inspirada em uma gincana de TV japonesa denominada "Ninja Warrior". O primeiro evento teste aconteceu no final de junho, em Ancara, na Turquia, junto com a etapa final da Copa do Mundo de Pentatlo Moderno.

Na ocasião, o presidente da UIPM, Klaus Schormann, disse que “a configuração do percurso foi dinâmica e desafiadora, e testou a versatilidade e as habilidades únicas dos pentatletas. Os atletas gostaram muito da competição. Foi um grande primeiro passo para um futuro jovem, urbano e altamente acessível para o nosso esporte”.

Neste caminho, entre os dias 06 e 07 de agosto, Manila, na Tailândia, deve receber mais um evento teste da corrida de obstáculos como 5ª disciplina. Já está confirmada mais uma avaliação da disciplina nos dias 09 e 10 de setembro, em Lignano Sabbiadoro, na Itália, junto com a realização do Campeonato Mundial Sub-17 e Sub-19 de Pentatlo Moderno. Nestas ocasiões, atletas do mundo inteiro estão sendo convidados a testar suas habilidades no circuito e opinar sobre a viabilidade da nova disputa. A decisão final será anunciada pela UIPM em novembro, em seu próximo congresso, na Guatemala.

"Após o primeiro teste em Ancara, o feedback recebido foi extremamente positivo. Estamos confiantes de que o segundo teste em Manila e o terceiro teste serão igualmente bem-sucedidos. Haverá um foco especial nos atletas Sub 19 e Sub 17 na Itália. Isso é importante porque esses atletas estarão se aproximando do auge de suas carreiras nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028", afirmou Schormann.

O que dizem os atletas

William Muinhos, em ação no Mundial de Alexandria 2022, ainda não testou a corrida de obstáculos (Fonte: UIPM)

Segundo a UIPM, a aprovação da corrida de obstáculos entre atletas nos eventos testes realizados é altíssima, mais de 90% do participantes da primeira experiência aprovaram a inclusão da disciplina. 

Em entrevista ao Surto, William Muinhos, semifinalista do Mundial de Pentatlo Moderno de Alexandria 2022, afirma que a mudança não deveria ser feita, porém "se for necessário para a permanência nos Jogos, acho interessante".

O atleta ainda não teve a oportunidade de testar a corrida de obstáculos, mas acredita que "a nova disciplina, com bastante influência nos Estados Unidos, pode ser sim, bem aceita para os Jogos Olímpicos de 2028".

A corrida "Ninja Warrior"

O percurso proposto é uma pista de atletismo de até 100m com no máximo 10 obstáculos, dividida em quatro raias com comprimento maior ou igual a 1,5m. Nele, os atletas precisarão correr, caminhar, escalar, rastejar e deslizar pelas barreiras.

Se um atleta falhar em um ponto terá duas tentativas de transpor o obstáculo e caso não consiga poderá avançar diretamente para o próximo. No final do percurso, haverá um botão que ao ser acionado determina a conclusão da ação do participante, cravando seu tempo. Haverá desclassificação se um dos atletas bloquear ou atrapalhar intencionalmente as ações do outro.

Ideia de Pierre de Coubertin

Gösta Lilliehöök (SWE) ouro no pentatlo moderno em 1912  (Foto: Divulgação/UIPM)

O Pentatlo Moderno foi inserido no programa olímpico em Estocolmo 1912 como um novo esporte projetado pelo fundador do Comitê Olímpico Internacional, barão Pierre de Coubertin. Segundo ele, o intuito da modalidade seria "testar as qualidades morais de um homem tanto quanto seus recursos e habilidades físicas", em que o vencedor seria declarado como "o atleta ideal completo". 

Tentava reproduzir a metáfora de um soldado percorrendo as linhas inimigas durante uma guerra para levar uma mensagem aos seus comandantes, reunindo diversos percursos. Em sua concepção "o soldado teve seu cavalo abatido, tendo se defendido com sua pistola e espada, nadando através de um rio caudaloso e correndo até entregar a mensagem", algo parecido com o filme "1917", dirigido por Sam Mendes. Nisso, reuniu em uma prova o hipismo, a esgrima, o tiro, o atletismo e a natação.

As polêmicas "questões logísticas"

Os cavalos sempre foram uma grande questão logística para o Pentatlo Moderno, desde a primeira edição olímpica, em 1912. Na ocasião, houve certa rusga entre o próprio Coubertin e a organização do evento, que gostaria que os atletas trouxessem suas próprias montarias de seus países de origem. Porém, rechaçada pelo COI, a solução foi a disponibilização dos animais pela própria organização do evento que seriam distribuídos por sorteio entre os atletas, o que vale até os dias de hoje.

Sempre colocado em dúvida, o Pentatlo passou por mudanças e crises em sua história olímpica. Sugestões como a troca dos cavalos por motocicletas já circularam nos bastidores da modalidade nos anos 1970. Até algo mais condizente com o movimento olímpico como o ciclismo já foi considerado. 

Nos anos 1980, a modalidade tinha como adversário o então presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, que era mais simpático a ter no programa olímpico esportes com maior apelo popular como golfe ou tênis.

A UIPM mexeu no tempo da disputa, de quatro para um dia de duração em Atlanta 1996, incluiu a prova feminina, em Sydney 2000, e até deu um cargo decorativo a Samaranch em seu quadro de dirigentes. Assim, a modalidade atravessou décadas até chegar a uma de suas mais importantes mudanças, a inclusão da corrida de cross-country combinada com tiro, em Londres 2012.

Agora, com o ultimato do COI, o Pentatlo Moderno vive seu momento mais difícil como modalidade olímpica. A busca por uma nova disciplina não resume o que é necessário para a permanência do esporte no imaginário e sua relevância. Talvez, a solução esteja mais na mensagem de Coubertin de uma competição que consagre atletas excepcionais em forma e resistência física do que no modelo de disputa desenvolvido a mais de um século.


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Bem-vindos ao Surto Olímpico!
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