“Um boicote esportivo contra Mianmar iria expor a infâmia dos ditadores militares”, declara Win Hteh Oo, nadador que desistiu de Tóquio 2020 - Surto Olímpico

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“Um boicote esportivo contra Mianmar iria expor a infâmia dos ditadores militares”, declara Win Hteh Oo, nadador que desistiu de Tóquio 2020

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Participar dos Jogos Olímpicos é o sonho de praticamente todo atleta profissional. Eles treinam, abrem mão de vida social e deixam de viver até mesmo momentos em família, para alcançar essa conquista tão desejada. O nadador Win Hteh Oo, de 26 anos, compartilhava do mesmo objetivo. Até que seu país, Mianmar, que fica na região do sudeste asiático, sofreu um golpe de estado, o que levou o atleta a abdicar de uma possível participação em Tóquio 2020. A atitude se tornou um símbolo de protesto contra a ditadura em sua nação. 

Win falou mais sobre sua decisão, em entrevista para o Surto Olímpico. Nascido em Kuala Lumpur, na Malásia, o atleta é filho de mianmarenses e mora desde 2017, em Melbourne, na Austrália, numa transição feita exatamente pensando na preparação para a Olimpíada. Durante os Jogos do Sudeste Asiático de 2019, ele atendeu o padrão de tempo de seleção olímpica da Federação Internacional de Natação (FINA) para Tóquio 2020, na prova dos 50 metros estilo livre e esperava participar do megaevento poliesportivo. 

Até que no dia 10 de abril, o nadador publicou em sua conta no Facebook, que estava desistindo do sonho olímpico, por causa do golpe militar em seu país. 

“Foi muito fácil para mim tomar essa decisão. Imediatamente após o golpe, eu sabia que o Comitê Olímpico de Mianmar (MOC) seria controlado por apologistas militares. Eu sabia que nunca poderia representar minha nação em competições internacionais, enquanto os militares controlassem o comitê. Eu não conseguia imaginar a ideia de representar o país nas Olimpíadas enquanto eles matavam meu povo. Tomei minha decisão e disse aos meus pais, que me apoiaram por tanto tempo e eles concordaram totalmente. Meu treinador que me preparou para os Jogos Olímpicos me apoiou completamente”, disse Win.

O interesse de Win pela natação surgiu aos seis anos, quando tinha que aguardar a irmã, que já praticava a modalidade, em seus treinamentos. Juntou o útil ao agradável, venceu o tédio da espera e descobriu um dos maiores prazeres de sua vida. 

Eu sabia que seria um nadador, porque imediatamente me senti bem-vindo pelo ambiente aquático e me senti fortalecido quando nadei. Meus pais - principalmente meu pai - me incentivaram a praticar esportes. Ele me contou sobre os Jogos Olímpicos pela primeira vez quando eu era jovem, e decidi que queria representar meu país. 

Win não mensurou o que perderia com uma possível desistência dos Jogos Olímpicos, exatamente por ter ganhado pouquíssimo dinheiro ao longo de sua carreira. Ele divide seu dia a dia de treinamentos, com o trabalho em meio período, como salva-vidas, para se manter financeiramente. 

Foto: Reprodução/Facebook Win Hteh Oo 

“Eu já não ganho nenhum dinheiro com meu esporte. Recebi apenas algum dinheiro para viajar para as Filipinas para nadar nos Jogos do Sudeste Asiático de 2019. Eu mesmo financio minha carreira de nadador. Agora, depois de falar abertamente, sei que nunca mais serei bem-vindo à seleção nacional, enquanto a democracia não for reestabelecida. Perdi minha terra natal, mas sei que estou com o povo de Mianmar”, revelou. 

O golpe 

Mianmar sofreu um golpe de estado no dia 1º de fevereiro, após a vitória do partido da Liga Nacional pela Democracia, (NDL, em inglês), nas eleições de 2020. Os militares do país não reconheceram a legitimidade do pleito e ocuparam parlamento e senado, além de prenderem os principais líderes do governo, como Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, mas contestada pela atuação durante o genocídio de povos muçulmanos rohingyas em 2017. 

“Ficou claro que os militares nunca cederiam o poder ao povo de Mianmar. Era óbvio. Por que eles perderiam seu poder político, sendo portanto expostos a mandados de prisão internacionais por crimes contra a humanidade?”, questionou. “Os militares tentaram usar o genocídio como desculpa para assumir o poder em 2017 e 2018. Portanto, a única possibilidade de assumir o poder era um golpe após as eleições em Mianmar”, disse Win. 

Consternado com a situação em que a nação asiática se encontra, Win é contra a participação de seu país nos Jogos Olímpicos de Tóquio. “Minha retirada foi motivada por minha convicção de que o MOC é um fantoche de um militar genocida (o General Min Aung Hlaing)”, afirmou. “Não pode haver ‘solidariedade olímpica’ num país que vive uma ditadura genocida como Mianmar”. 

O nadador considerou competir pelo Time dos Atletas Refugiados, mas seu pedido foi negado pelo COI, mesmo após suas tentativas de alertar que o “MOC é inseparável do Ministério da Saúde do Esporte, que agora é dirigido por um ministro que apoia o ditador militar”, de acordo com palavras do próprio atleta. 

Desejo que o MOC seja excluído do Movimento Olímpico e de todos os eventos esportivos internacionais até a queda do regime militar. Sabemos, é inegável, que os regimes usam os Jogos Olímpicos para fins políticos, como propaganda. Os militares em Mianmar querem enviar uma delegação para acenar e sorrir para as câmeras que transmitirão ao mundo, a mensagem de que Mianmar está bem. Milhões de pessoas estarão assistindo e acreditarão nisso, quando, na verdade, pessoas inocentes estão sendo baleadas e mortas todos os dias. Ele vai encobrir o maior crime do do século XXI e o COI vai deixar que isso aconteça. Sei que, se um boicote esportivo a Mianmar fosse bem-sucedido, o COI e outras organizações esportivas negarão financiamento ao MOC, e as pessoas conhecerão a infâmia dos militares. 

Como combater atentados aos direitos humanos e como o esporte pode atuar? 

Win se mostra otimista quanto ao futuro de seu país. Para ele, Mianmar está vivendo o último período de ditadura em sua história. Apesar de observar isso ainda de forma cautelosa, ele projeta o povo mianmarense formando uma nova constituição, com respeito às diversas etnias presentes na nação e o fortalecimento da democracia. O atleta quer usar o esporte como ferramenta de conciliação entre as comunidades. 

“Acredito que o cerne do esporte é a alegria do movimento. Antes de aprendermos as regras e o jogo estruturado, primeiro aprendemos a amar os movimentos. Quando as crianças aprenderem a se mover e a amar o movimento, podemos mostrar a elas como o isso une toda a humanidade. O movimento permite-nos perceber que somos apenas corpos humanos que se movem no tempo e no espaço. Quando percebemos, que não somos nada além de seres humanos, podemos sentir empatia e amor uns pelos outros. Esta é a base de qualquer democracia. O esporte deve se lembrar disso”, justificou. 

Win alcançou um tempo de seleção olímpica nos Jogos do Sudeste Asiático de 2019. Foto: Reprodução/Facebook Win Hteh Oo 


Num mundo cada vez mais inserido nas redes sociais, Win não teme críticas quanto ao seu posicionamento político, mesmo sendo um atleta, profissional fadado a este tipo de acontecimento. Pelo contrário, na verdade o nadador se mostrou muito satisfeito em ter liberdade para falar o que pensa e sustentar tal responsabilidade. 

Se um atleta sente que é seu dever falar, isso sugere que as organizações esportivas não estão fazendo o suficiente. Eu sempre condenarei as pessoas que usam o esporte para ‘vilanizar’ os outros. O esporte sempre foi a base para mudanças políticas e sociais. A participação das mulheres era uma questão política, agora é considerada normal. Participação negra e minoritária também. A igualdade não é uma questão política; é uma questão de direitos humanos e os direitos humanos têm jurisdição sobre tudo, incluindo o esporte. Os direitos humanos básicos não são questões políticas. 

Mianmar não tem medalhas olímpicas, mesmo após participar de 17 edições de Olimpíada. O mais próximo que um atleta mianmarense esteve do pódio olímpico foi em Sydney-2000, quando Kai Thi Win ficou com a quarta colocação no levantamento de pesos, categoria até 48kg. Ela ficou a 2,5 kg da medalha de bronze, conquistada por Sri Indriyani, da Indonésia. 

Foto: Reprodução/Facebook Win Hteh Oo 

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