Nathalie Moellhausen lembra dos "sinais" antes do título mundial e conta seus planos para a esgrima do Brasil mesmo sem ser patrocinada




A primeira campeã mundial para o Brasil na esgrima tem muitos planos para o país. Em entrevista por telefone ao Surto Olímpico, antes de embarcar para Lima para a disputa dos Jogos Pan-americanos, ela contou que seu objetivo ao naturalizar-se brasileira era o de popularizar a esgrima no Brasil e sabia que para isso precisaria de um grande resultado, como o título mundial conquistado em Budapeste no mês passado. 

A atleta, inexplicavelmente depois do título mundial, ainda segue em busca de patrocínios. "Se eu fui campeã mundial conciliando treinos com meu trabalho como diretora de arte, imagina se eu pudesse me concentrar apenas na esgrima?", conta. Depois de longa temporada disputando os torneios do circuito internacional, ela estará no Brasil a partir do dia 22 de agosto para, junto de seu treinador, fazer uma série de exibições e atividades voltadas ao público em geral.

Durante a conversa ela também falou de seus projetos, das motivações que levaram ela a voltar duas vezes para a esgrima, contou detalhes dos seus planos para lapidar o esporte no país. Ela ainda comentou sobre o que sentiu à véspera de seu título mundial na Espada Individual, o desempenho abaixo do esperado da equipe, a busca por uma vaga olímpica para o time brasileiro.

Ela também falou sobre suas expectativas para os Jogos Pan-Americanos de Lima, quando estreia nesta quinta-feira (7), ao lado de Amanda Simeão e tentará ser a primeira mulher brasileira finalista ou campeã em Jogos Pan-Americanos. Ainda na esgrima, Bruno Pekelman e Enzo Bergamo representam o Brasil no Sabre masculino na quinta, enquanto hoje (6), Heitor Shimbo e Guilherme Toldo buscam, no Florete, encerrar o jejum de 52 anos sem ouro brasileiro na modalidade - o único foi conquistado por Arthur Telles, campeão da Espada masculina. Nesta terça-feira (5), Ana Beatriz Bulcão levou o bronze no Florete feminino.




Pensamento internacional para valorizar a Esgrima no Brasil

Atleta do Esporte Clube Pinheiros, Nathalie Moellhausen passa a maior parte do ano treinando como integrante do Team Escrime Levavasseur, no subúrbio parisiense de Saint-Maur-des-Fossés. Ela conta que foi a atleta-fundadora do time, ao ir para a capital francesa com 21 anos, em 2006, em busca de melhores resultados no esporte, além de ter conseguido um diploma de Filosofia na Universidade de Sorbonne. A relação com o técnico Daniel Levavasseur deu tão certo que motivou a criação da equipe. Ele é um dos melhores técnicos do mundo, responsável pelo ouro da equipe francesa de Espada masculina campeã em Seul-1988, além de ser o Mestre de vários outros atletas campeões olímpicos e mundiais. 

Durante a conversa, ela fez questão de ressaltar o projeto "Escrime sans frontières", uma academia internacional vinculada ao Team Levavasseur, que almeja reunir atletas de todo o mundo e torce para que outros brasileiros também participem da iniciativa. "É um projeto maravilhoso que almeja trazer pessoas especialmente de países que não tem muita tradição no esporte, como o Brasil. Eu gostaria de ressaltar que qualquer esgrimista pode vir e treinar conosco, está aberto a todos", comentou.

Moellhausen, como já foi bastante dito, nasceu na Itália e representou o país europeu até 2012. Entre os principais destaques desta etapa inicial de sua carreira está o bronze no Campeonato Mundial de 2010 e no Campeonato Europeu de 2011 e o título mundial por equipes em 2009. Após disputar os Jogos Olímpicos de 2012 como reserva das azzurre, ela decidiu parar de treinar por um tempo e se dedicou à direção artística da festa de gala em homenagem ao centenário da Federação Internacional de Esgrima (FIE), que aconteceu em dezembro de 2013, em Paris. Até hoje, ela ainda trabalha em alguns eventos da FIE, como a festa dos 105 anos que aconteceu no ano passado, no luxuoso Grand Palais, em Paris. 

Algumas das criações visuais de Nathalie para esses eventos foram mesmo implementadas nas fases finais de torneios, como as coreografias que acompanhavam a entrada das atletas nas fases finais do Mundial de 2019, em uma tentativa cada vez mais bem-sucedida da FIE em popularizar o esporte através de transmissões ao vivo de competições e efeitos que almeja espetacularizar o histórico e tradicional esporte, presente em todas edições dos Jogos Olímpicos.


O Surto Olímpico perguntou se a campanha em Budapeste teria representado um renascimento pessoal. A atleta respondeu que o título "Não foi para mim somente uma vitória na carreira esportiva, e sim uma vitória na vida. O Daniel (Levavasseur) me mostrou uma carta que eu escrevi quando eu tinha 22 anos, um ano depois que eu tinha chegado na França e ainda aprendendo a escrever em francês, em que eu dizia que eu faria tudo o que ele me dissesse, mas que para ganhar não é só ganhar na esgrima, e sim ganhar na vida. Então sim, é o resultado de um percurso muito intenso que eu fiz na minha pessoa. É realizar o sonho". 

Ainda sobre a falta de patrocínio, apesar dela ser um dos maiores nomes do esporte brasileiro - em 2019, até o momento, ela é a única campeã mundial em uma prova olímpica, ao lado do revezamento 4x100 de atletismo - ela lembra dos trabalhos que faz em paralelo aos treinos. "Além da esgrima, eu também sou Diretora de Arte. Criei minha marca, Cinco Toques, e quase parei de fazer esgrima ano passado ao ser chamada para fazer a direção de arte da festa de 105 anos da FIE". 

Ela confirmou ainda que foi ela quem buscou a Confederação Brasileira de Esgrima para representar o Brasil, após um período sabático do esporte, entre 2012 e 2013. "Não teve nada a ver com dinheiro. Minha avó sempre me incentivou a me mudar para o Brasil, falando que se eu ganhasse pelo Brasil seria muito mais importante. Eu adoro os brasileiros, essa energia brasileira me deu um novo motor para seguir a carreira na esgrima".


Perguntada o que ela sentiu durante os Jogos Olímpicos, que viu na Arena de Esgrima uma atmosfera comparável aos estádios de futebol incentivando os atletas brasileiros, ela revelou que "naquele momento específico eu decidi que tinha que seguir na esgrima. Eu percebi que se aquilo tudo aconteceu, mesmo eu ficando em 6º lugar, no dia que eu ganhar, vai ser um explosão". Ela ainda complementou que "os brasileiros são incríveis, eu me senti muito bem adotada por todos e quero muito dar uma alegria ao país". As quartas alcançadas por Moellhausen e por Toldo na Rio-2016 foram os melhores resultados olímpicos para o Brasil, que busca uma medalha inédita no ano que vem, em Tóquio.

Já pensando nas Olimpíadas de 2020, ela garantiu que o objetivo principal da carreira é ganhar a medalha de ouro e a certeza da classificação a deixa mais tranquila para traçar o melhor plano possível. "Estou em conversas com meu treinador, agora o planejamento será diferente, não tenho certeza exatamente como. As Copas do Mundo serão importantes para testar coisas novas, sem pressão para ganhar", apontou.

Em relação aos Jogos Pan-Americanos, a medalhista de bronze individual e por equipes em Toronto-2015 ressaltou o fato de ser uma "competição particular", com as principais jogadoras da América. "Tenho muita vontade de jogar, estou muito descarregada e principalmente quero muito me divertir", revelou. 


Quanto a sua colaboração com a esgrima brasileira, ela comentou: "Eu sempre achei que a ideia para o desenvolvimento no país partia de um pioneiro que cria a história e dá vontade para aprimorar. Quando eu me mudei para o Brasil, a minha intenção era fazer a esgrima se desenvolver. Eu precisava ganhar porque isso fortalecerá o esporte", aposta.

Entre os passos a serem seguidos, Nathalie cita o exemplo de outras federações, que não tinham o nível das potências europeias, como China, Coreia do Sul e Japão, mas depois de alguns anos passaram a disputar de igual para igual em todas as modalidades. "Eles investiram, filmaram, copiaram os treinos, mandaram treinadores, existem algumas regras. Para isso, precisamos estudar os projetos, fazer a formação de treinadores, que já são muito bons, mas esse trabalho é muito importante, é a peça-chave para mudar", explica a atleta.

Ela ainda lembrou da importância de iniciar o trabalho com os pequenos atletas. "Precisamos estimular as crianças, dar bolsas, criar incentivos e para isso integrar a família do atleta também é muito importante, além da participação do Comitê Olímpico Brasileiro e do Ministério do Esporte para que as crianças possam crescer no esporte", destacou Nathalie, citando o antigo status da atual Secretaria Especial do Esporte, vinculada ao Ministério da Cidadania. 

Ainda sobre a Esgrima no Brasil, ela confessou achar uma pena o Brasil não receber mais etapas da Copa do Mundo. Atualmente, o país não recebe competições internacionais. "Perdemos a oportunidade, depois de ter tido as Olimpíadas", comentou a atleta que demonstrou um vivo interesse em participar das políticas esportivas nacionais, para que em um futuro próximo, ela seja "apenas" a primeira de muitas e muitos campeãs/campeões mundiais e olímpicos do Brasil.


Rememorando o Mundial

O Surto também perguntou a Nathalie se ela havia percebido alguma coisa na véspera ou mesmo no início da competição que indicaria que aquele dia seria diferente dos outros, e ela nos respondeu:

"Vamos dizer que tive vários sinais, mas é sempre difícil ter certeza que são sinais positivos. Para começar eu cheguei em Budapeste três dias antes do dia da minha prova classificatória e fiquei doente. 39 de febre, gastrite, fiquei de cama, e três dias sem treinar. Mas o curioso é que eu tinha acabado de voltar do Pan [ndr: de Esgrima, em Toronto, onde ficou com o bronze] e já tinha treinado muito e eu tava pensando "talvez eu não devesse treinar". Ao invés de ver a doença de forma negativa, tive pensamento positivo, meu corpo pediu descanso e é preciso descansar. Meu treino no dia anterior não deu muito certo, não conseguia fazer os toques. Eu me lembrei do que o meu Mestre me falou: "quando um animal se sente ferido, vai ser muito mais perigoso, vai ter atenção". Eu tive um desafio pessoal também, porque sempre tinha que jogar as poules e conseguia me classificar. [ndr: nos principais torneios, as melhores ranqueadas estreiam diretamente na fase final, sem passar pelos grupos] E eu pensei que se eu conseguia ser forte, então na competição mais forte eu vou conseguir também."




Ainda em suas lembranças das horas anteriores à fase de poules no dia 15 de julho, ela destacou a importância de sua relação com seu pai, que faleceu ano passado.

"Eu comecei perdendo por 2-4 contra a venezuelana (Eliane Lugo), virei, e depois eu ganhei tudo na prioridade. Eu tava muito paciente, concentrada, tive sinais muito místicos. Tive um compromisso de ganhar com meu pai, sonhei muito com ele, várias vezes, que ele estava comigo, ali. Eu geralmente durmo bem, mas naquele dia da final eu acordei às 4h, super ansiosa e lembrei da história de um atleta que quando foi campeão mundial não conseguia dormir e pediu uma aula no corredor do hotel, mas não fiz isso (risos). Trabalhei muito a minha respiração pelo diafragma e reli o chat com meu pai. Em novembro de 2017 ele mandou um vídeo "The Best Motivation Video of Your Life" que nunca tinha aberto. É um vídeo que diz que se você quer muito alguma coisa, tem que ir até o final. Chorei muito quando abri o vídeo, foi muito difícil".

Na verdade, se a memória "apagou" de Moellhausen duas vitórias tranquilas que ela conseguiu – 5/0 contra Tamara Chwojnik (ARG) e 5/2 diante de Vladislava Andreyeva (KAZ) – é verdade que sua trajetória ao título foi marcada por uma grande força mental e psicológica em momentos decisivos, como nas vitórias no primeiro dia por 5/4 diante de Violetta Khrapina (RUS), 4/3 contra Paria Mahrokh (IRI), 4/3 face a Hsieh Kaylin Sin Yan (HKG) e os mencionados 5/4 contra Eliana Lugo (VEN). Esse lado ganhou ainda maior destaque não só nas vitórias eletrizantes por 15/14 diante da italiana Alberta Santuccio, nas oitavas, e 11/10 contra Lis Rottler-Fautsch (LUX), nas quartas-de-final, - com direito à arbitragem de vídeo ou o popular VAR que desfez um ponto decisivo para a rival; mas também nas vitórias surpreendentemente tranquilas diante das rivais de melhor ranking:  placares de 15/10 contra a chinesa Zhu Mingye, 10ª melhor do mundo na chave de 32 e Vivian Kong Man Wai (HKO) por 15/10, então 3ª melhor e atual líder do ranking, nas semifinais.


Como a espada é uma modalidade que permite pontos de ambos atletas diante de um toque duplo, se os competidores chegarem ao ponto decisivo em situação de empate, a prioridade mencionada por Nathalie é dada de forma aleatória a um dos atletas: havendo o toque duplo a atleta com prioridade é declarada vencedora. Foi com essa vantagem que ela foi para o toque de ouro (literalmente) no tempo extra da decisão, contra a chinesa Lin Sheng, no 12/12. Com um lindo flèche, ela corou-se Campeã Mundial. 

Relembre aqui o momento:
Moellhausen explicou a tatuagem que beijou ao chorar copiosamente ao fim do duelo naquele 18 de julho de 2019 histórico. "É uma tatuagem tailandesa que fiz em homenagem ao meu pai em forma do número 8, que tinha muita importância para ele, ao não ver o tempo como uma forma linear. Ele morreu no dia 8 de março de 18, na Tailândia e ele estava no Hotel 8, quarto 8. Então eu fiz essa tatuagem na mão esquerda, como se fosse um gatilho para que sempre me pudesse lembrar de ficar no tempo presente quando necessário. Sempre dou um beijo nela antes de entrar na pista", revelou. 


Ainda sobre o Mundial, ela admitiu que foi muito curta a recuperação entre o título individual e a prova eliminatória por equipes, dois dias depois, em que o Brasil perdeu para o Japão por 45/38, terminando em 19º lugar. "Em geral, é recomendado que o atleta que ganha no individual não participe da equipe por conta de toda descarga emocional, física e mental. Eu estava muito cansada, dormi apenas duas horas por noite e não tinha a mínima força. Não estou reclamando, mas acho que é importante ter outros elementos para me substituir, é uma equipe que tá crescendo muito", avaliou, ainda lembrando que a equipe brasileira terá as etapas da Copa do Mundo para buscar a vaga. Atualmente o Brasil está a apenas 10 pontos do Canadá, mas defende mais pontos que as rivais, na corrida para Tóquio.

Fotos: Mundial de Esgrima de 2019: Bizzi Team / Faz; Olimpíadas de 2016: Mateus Nagime

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