Coluna Surto Mundo Afora #46 - A maior Copa de todas


Por Bruno Guedes

Uma das estrelas do esporte coletivo nos Jogos Olímpicos, o futebol feminino, enfim, ganhou seu destaque e importância com a maior Copa do Mundo da História. Cercada por uma forte divulgação e visibilidade comercial, as mulheres derrubaram parte do preconceito que o esporte ainda carrega e mostraram que o clichê de "fraco tecnicamente" ficou no passado. Mas o caminho delas só está começando.

Além de destaque na grade da programação da TV Globo, ainda que apenas para a Seleção Brasileira, o futebol alcançou também horário reservado no Sportv e grande aceitação nas mídias sociais. Diariamente alguma hashtag é alavancada pelos internautas com relação ao evento no Twitter.

No restante do planeta, principalmente Europa, a expectativa é que seja a mais assistida de todas. Na França, país que recebe a competição, o recorde já foi superado: 9,83 milhões de espectadores viram através da TV1 a abertura e outros 826 mil no Canal+, na TV paga. Para efeito de comparação, os números anteriores eram de 4,12 milhões. 

Do outro lado do Canal da Mancha, a partida entre Inglaterra e Escócia alcançou 6,1 milhões de pessoas na BBC, com 37,8% das TVs ligadas no jogo. Deste modo, foi o mais visto da história do futebol feminino na mídia inglesa, superando o Inglaterra x Holanda pela semifinal da Euro em 2017. Já nos Estados Unidos, a Fox acumulou um crescimento de 7% na audiência em relação ao último mundial, que já apresentou outros 11% a mais que o antecessor.

Impulsionada pelo discurso necessário sobre igualdade, a categoria pode ter um divisor de águas após o evento. Um enorme projeto vem sendo desenvolvido para atrair novos praticantes. Se na Europa o futebol feminino é fortíssimo, com a Champions League sendo tão venerada quanto a dos rapazes, em terras sul-americanas ainda engatinha. Mas a CBF parece - ainda que insista no péssimo técnico Vadão por puro machismo, já que nem entre os homens o atual treinador da Seleção é unanimidade - querer mostrar algum serviço para que o cenário mude. 

Fato impulsionado pela mudança no regulamento no Brasileirão 2019... masculino. Tentando se adequar ao artigo 23 da FIFA, que visa concentrar esforços em igualidade de gênero na modalidade, todos os 20 participantes da Série A do Brasileiro precisarão manter um time de futebol feminino - adulto e de base. Quem não se enquadrar, ficará de fora das competições internacionais e nacionais.

Foi através dessa prática que as equipes europeias alcançaram sucesso e formaram atletas de alto nível, rivalizando assim com os EUA, a grande potência do futebol feminino: 54% das 554 jogadoras da competição (298 ao todo) jogam em ligas do continente. Os maiores exemplos ficam por conta da França e da Espanha. Dominantes na UEFA, os dois países forneceram juntas 102 convocadas para os demais países. Barcelona e Lyon cederam 15 e 14 meninas para seleções, respectivamente. 

No time francês, 91% do elenco joga no país. Já entre as espanholas o número é de 87%. O poderio americano pode ser percebido a partir destes dados: 100% das 23 convocadas jogam na NWSL, a liga de futebol local. E impressiona ainda mais quando vemos a quantidade total de jogadoras de seus clubes nacionais na Copa do Mundo, 73 ao todo. E isso é fruto de investimento nas jovens.

Enquanto pelos homens os EUA alcançaram no máximo uma final de Copa das Confederações - derrotados pelo Brasil em 2009 -, com as mulheres foram tricampeões do mundo. Esse sucesso é explicado justamente por onde a FIFA (e a CBF) busca fomentar: a base. O futebol é um dos esportes mais praticado pelas jovens no High School (Ensino Médio dos americanos) e o College (Universidade). Estimativa da Federação Americana de 2017 aponta que há cerca de 2 milhões de praticantes entre as meninas. Apenas no High School são 390 mil garotas. Com números tão elevados, o garimpo de talentos também aumenta.

O resultado de tanto investimento recente é visto em campo. Com jogos de nível elevado, a competição de 2019 já supera a de 2015 em termos técnicos e táticos. Algumas seleções conseguem demonstrar o aprimoramento de treinadores e auxiliares. Maior exemplo foi a partida entre Alemanha e Espanha, duas das forças europeias. França e EUA também se destacaram com padrão acima da média.

As alemães, aliás, repetem o sucesso do masculino na busca por mais praticantes. Segundo números da Federação local, um milhão de mulheres jogam futebol. Destas, 200 mil são federadas. Para efeito de comparação, no Brasil este número não chega a 25 mil. Fato consumado pela diferença cada vez maior entre as potências e seleções sem tanto investimento. Os 13 a 0 das americanas sobre as tailandesas foi um exemplo, com uma discrepância técnica absurda entre as equipes.

Desigualdade salarial - o grande desafio

Mas se há algo que une todos os 24 países participantes da Copa do Mundo é a desigualdade salarial entre homens e mulheres do futebol. Entre os atletas mais bem pagos do planeta, nenhuma mulher aparece entre os 10 primeiros. E justamente três jogadores dominam o Top 3: Messi, Cristiano Rolando e Neymar, respectivamente. Na lista dos 100, apenas uma desportista: a tenista americana Serena Willians em 63ª.

Foi por conta dessa disparidade que a maior estrela da Seleção dos Estados Unidos, a atacante Alex Morgan, liderou um movimento que processa a federação do seu país por igualdade salarial. Em seu manifesto, a jogadora lembra que são tricampeãs, diferente dos homens que nem para a Copa do Mundo de 2018 se classificaram, porém continuam recebendo premiações e salários que equivalem a 38% do que os rapazes levam.

A jogadora mais bem paga do mundo é a atacante da Noruega Ada Hegerberg, que recebe 325 vezes menos que Lionel Messi. Enquanto ela ganha 400.000 euros por ano (1,73 milhão de reais), o argentino fatura 130 milhões de euros (563 milhões de reais). Se parece muito, piora quando comparamos com atletas brasileiros. Seis vezes eleita a melhor do mundo, a atacante Marta tem salário de 340.000 euros por ano (1,47 milhão de reais). Já Neymar, nunca eleito o melhor jogador do planeta, embolsa 91,5 milhões de euros (396 milhões de reais). 

Os maiores argumentos quanto aos valores diz respeito a quantidade de dinheiro que cada categoria movimenta. De fato há coerência, porém isso já vem sendo modificado também. Patrocinadora da Premier League, a Barclays fechou contrato de 10 milhões de libras por 3 anos com a chamada "Women's Super League", o principal torneio do futebol feminino inglês. No Brasil, o São Paulo Futebol Clube conseguiu seu primeiro patrocinador exclusivamente para a categoria. A floricultura Giuliana Flores estampará sua logomarca na barra traseira da camisa da equipe Tricolor até o final do ano. Os valores não foram divulgados.

Mas como equalizar essas contas? Com ações igualitárias. O interesse popular só será desenvolvido se houver igualdade na promoção. Se há enormes campanhas de publicidades com os jogadores, por que não com as jogadoras e a representatividade com elas que já são mais da metade do planeta? Na partida contra a Austrália, ao marcar seu 15ª gol em Copas do Mundo, a rainha Marta mostrou uma chuteira sem patrocínio e com um símbolo pedindo igualdade. Era uma referência a uma proposta que recusou devido aos valores oferecidos que ela e seu empresário, Fabiano Farah, consideraram desproporcionais se comparadas às demais atletas de expressão.

O futebol é o esporte que mais atinge público e audiência no mundo. O mercado é consolidado e elas estão entre as mais participativas. Recentemente uma importante marca esportiva divulgou um vídeo promocional da Copa do Mundo e viralizou ao ponto de superar números dos homens no Youtube. Com boa vontade, o montante financeiro aumentará até mesmo para os clubes envolvidos. Todos sairão ganhando, literalmente.

De acordo com a Forbes, a expectativa é que tais valores apresentados comecem a dobrar nos próximos 10 anos, caso o ritmo de crescimento do futebol feminino continue crescendo. No Brasil, por enquanto, ainda é o começo. A entrada dos clubes masculinos vem despertando a atenção de novas marcas. A TV Band já transmite o Brasileiro da categoria, o que ajuda nessa divulgação e aumento de receitas. 

O caminho ainda é longo e carregado por preconceitos. Desde o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, cidade que recebeu as Olimpíadas há 3 anos e viu o grande apoio que as meninas receberam nos jogos, até a espectadores que dividem arquibancadas com esposas, namoradas, mães, filhas etc. Entendam, elas não querem tirar o que é dos homens. Elas querem apenas igualdade. E em campo, já provaram que podem.

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